"As mulheres estão no fim da linha da discriminação"

Almoço com Rita Ferro Rodrigues

"Estou para ver, se Costa fizer governo, como vai ser a representação de mulheres." Acabámos de nos sentar e de pedir uma garrafa de sake quente (podia ser frio, a aguardente de arroz japonesa bebe-se das duas formas, mas prefiro quente, até porque estou meio constipada e para ela tanto faz).

Suspiramos em uníssono, eu e a criadora da plataforma feminista Maria Capaz, site de conteúdos lançado em dezembro de 2014 e que ao fim de quase um ano acumula já 2,5 milhões de utilizadores e 7,3 milhões de visualizações, vimos há poucos dias o vídeo de apresentação do novo governo canadiano, no qual o primeiro-ministro, o muitíssimo bem apessoado Justin Trudeau, 43 anos, questionado sobre o motivo de ter 50% de mulheres no executivo, responde, encolhendo os ombros: "Porque estamos em 2015."

O ano é o mesmo, cá e lá. Mas no que respeita aos direitos das mulheres parece, vezes de mais, que estacionámos nos anos 60 do século XX. Enquanto chegam a garrafinha de sake e os copinhos (pouco maiores do que um dedal), Rita termina a ideia: "Este governo [refere-se ao capitaneado por Passos entre 2011 e 2015] tinha muitos defeitos, claro. Mas tinha também muitas mulheres." Bom, muitas não, mas mais do que o costume. E sobretudo em lugares-chave, alguns em estreia absoluta, como a Administração Interna e a Defesa - não esquecendo ter sido Passos a propor a primeira procuradora-geral da República e a primeira presidente da Assembleia da República.

Agora substituída por um homem, Eduardo Ferro Rodrigues, o pai de Rita. Orgulho filial vis-a-vis consciência feminista, um dilema complicado. Mas assume que quando há um ano o pai foi eleito líder da bancada socialista, ela, como eu, teria preferido Ana Catarina Mendes. Um ano depois, é outro homem, Carlos César, a ocupar o lugar. Emborcamos os dedais de sake como quem dá de beber à dor e começamos a debicar, pauzinhos em riste, no aji tataki, carapau cru com cebolinho e gengibre. "Costumo vir aqui com a Isabel", comenta Rita. Fala da deputada do PS e amiga de infância, Isabel Moreira, cujo local de trabalho, como o do pai de Rita, fica a 200 metros (estamos no Kampai, na Calçada da Estrela). O trabalho dela podia ter também passado por ali: aos 12 anos, no Liceu Pedro Nunes, já era "toda ativista", fazendo parte da lista da associação de estudantes capitaneada por Ivan Nunes e Luís Osório (atual diretor executivo do Sol). "Ganhámos porque tínhamos os autocolantes mais giros, foi só por isso", comenta, a rir-se. Mas uma visita de Amália Rodrigues à escola e as perguntas que Rita teve acoragem de lha fazer no anfiteatro cheio abriram-lhe outro caminho. "A Amália escreveu uma carta para a escola a dizer que eu devia ser atriz ou jornalista." Foi as duas coisas (trabalhou em teatro e participou em vários programas de jornalismo na RTP, incluindo o famoso Portugalmente, e na SIC) mas, a partir de 2003, passou para o entretenimento, ou aquilo a que se chama "infotainment": programas da manhã, programas da tarde, programas de festas.

Então este aparente enigma: a apresentadora esfuziante de Portugal em Festa, ao lado de João Baião e substituta de Júlia Pinheiro nas Queridas Manhãs da SIC -, dois programas para o chamado "grande público" nos quais não é raro estrelarem números musicais com raparigas mais ou menos despidas a menear-se no "acompanhamento" de cantores homens ao som de melodias em que se acotovelam todos os estereótipos de género, a emissão entrecortada por longos blocos publicitários em que só o décor nos garante que não estamos nos anos 50 do século passado ( famílias à mesa com a "mãe" a servir, carros quase sempre conduzidos por homens e obsessão feminina por detergentes e limpeza) -, é também uma das duas criadoras, com a também apresentadora Iva Domingues, de uma plataforma cuja ambição é divulgar o feminismo, agora transformada em associação com o nome Capazes, Feminista. Nenhuma contradição, explica Rita. "O feminismo era sempre discutido dentro de um grupo fechado e toda a vida achei que era preciso chegar às outras mulheres, às que não sabem o que a palavra quer dizer mas sabem identificar as discriminações." Exemplifica: "Para termos uma entrevista com a Leonor Beleza e ela chegar ao maior número, temos de ter também entrevistas com pessoas como a Diana Chaves. Se falarmos só num determinado nível, o da academia, só chegamos às que já sabem." E para chegar ao maior número é preciso também, acha ela, fazer algumas concessões, como rubricas de moda, decoração, publicar artigos mais, como dizer?, "leves" e até, admite, "correspondendo a estereótipos".

Estratégia e pragmatismo em busca da máxima eficácia. E partir pedra, muita. Logo no lançamento da plataforma, houve dissensões, discussões acesas, gente que perdeu a paciência. Um dos temas que criou mais aresta foi o do debate sobre a criminalização do assédio de rua (vulgo piropo), uma proposta de lei do BE que acabou por não ir a votos no Parlamento. "A minha posição em relação a isso evoluiu desde o início da Maria Capaz. Achei que era uma questão fraturante, que havia ali muitas mulheres diferentes e muitos feminismos diferentes, que não se podia impor. E eu própria precisava de me informar, de refletir sobre o assunto."

Mãe de uma rapariga de 13 anos, Rita está muito ciente do que se passa nas ruas portuguesas com as jovens (e não tão jovens) mulheres. Agora, como quando ela própria era adolescente. "A primeira vez que vi um homem nu foi a atravessar o Jardim da Estrela para ir para a escola. Com a pressa de fugir, deixei os livros para trás." O exibicionismo já é crime, como aliás o "apalpão" ( "crime de importunação sexual", no Código Penal desde 2007 ). Mas é certo que a maioria das pessoas não tem disso noção, e que entre os mais jovens não existe qualquer pedagogia, na escola, para combater a "tradição". De tal modo que aquilo por que Rita passou enquanto crescia - "Fazia ginástica desportiva e não tinha grandes formas, e ouvia, na escola, coisas desagradáveis sobre o meu corpo, tipo "és um homem, não tens maminhas, não tens cu para as calças", que me faziam sentir desadequada, humilhada, agredida. Depois, em dois anos, cresci e os mesmos passaram a dizer o contrário. E perguntava-me: "Mas por que é que têm de fazer comentários ao meu corpo? Quem lhes deu esse direito? Porque não posso andar sossegada na rua?"" - não difere muito da experiência da filha e amigas. Como é possível que nada mude e que as pessoas desconsideram sistematicamente a importância destas agressões, reduzindo-as a "sedução", "piada", "elogio"? Como é que não percebem que se trata de um condicionamento brutal das mulheres, desde crianças, na sua relação com o espaço público, o seu corpo e os homens, "educando-as" para a sujeição ao poder e violência masculinos e para a ideia de que a rua é dos homens e de que sua valia reside no seu aspeto físico? E, mais difícil ainda de entender, por que é que tantas mulheres se recusam a falar disto a sério e negam até que suceda?

Estamos já a degustar o irresistível maguro tataki, o atum braseado e fatiado que mergulhamos no molho de miso com mirin, a última etapa antes do sushi-sashimi (combinado de rolos de peixe cru com arroz e fatias de peixe cru). Rita faz eco: "Por que é que tudo se admite em relação às mulheres, por que é que coisas que se forem em relação a uma etnia, uma religião, ou até, já, a orientação sexual, indignam toda a gente e se forem com mulheres são relevadas?" Dá o exemplo da promoção da RTP para as comemorações dos 105 anos da República, em que o busto da dita era mimoseado como dichotes sexuais. "As pessoas indignaram-se, bem ou mal, com o episódio José Rodrigues dos Santos/Alexandre Quintanilha. Em massa. Nós [Maria Capaz] protestámos em relação à promo e a direção da RTP nem se dignou responder. Estamos ainda no estádio em que as discriminações contra as mulheres não são percebidas como discriminação. Estamos no fim da linha. Tudo é sempre mais importante do que as mulheres." Como se fosse normal, afinal, tratar as mulheres - tratar-nos - como seres de segunda.

Um século depois da luta pelo direito de voto, retratado no filme As Sufragistas , ter dado o pontapé de saída do movimento feminista, é assim que estamos, ainda. "Ações, não palavras", repete Rita, em eco do mote de Pankhurst, a líder das sufragistas britânicas, que sob o seu comando acabaram por recorrer à violência, partindo montras e até colocando bombas. A ironia faz-nos sorrir: as mulheres são, precisamente, condicionadas para a considerar a violência monopólio masculino. A simples agressividade verbal numa mulher já é considerada "desvio". A recente intervenção do economista Pedro Arroja no Porto Canal sobre "as meninas esganiçadas do BE" é apenas mais uma versão do apodo de "histérica", "descompensada" e "mal amada" (geralmente a palavra é outra) que se reserva a qualquer mulher que levante a voz. E ser feminista é, por definição, levantar a voz. Dizer chega. Dizer: não aceitamos.

Rita respira fundo. "A minha filha lê os textos todos da plataforma e disse-me: "Mãe, agora já não consigo ver as coisas da mesma maneira." É o maior elogio que posso imaginar." Os olhos brilham: "E sabes o que me disse no outro dia? "Quando eu for grande e tiver a minha vida, eu e as minhas amigas vamos tomar conta da Maria Capaz. Como se fosse uma herança." E é mesmo. De nós todas.

Restaurante Kampai

› Aji tataki

› Maguro tataki

› Sushi-sashimi pequeno

› Sake grande

› Água

Total: 71,50 euros

Exclusivos