Aqui vão eles para a Costa, aqui vão eles cheios de pica...

Já foi o Algarve dos pobres às portas de Lisboa. Hoje continua a ser a escolha balnear para muitos lisboetas, emigrantes e turistas. Subindo a Rua dos Pescadores avista-se o mar e as praias urbanas com muitas famílias, jovens amantes do desporto e surfistas

O sol da Caparica não abriu completamente na manhã de sexta-feira. De Lisboa partiram muitos para a Costa, "cheios de pica" como na letra dos Peste & Sida mas embrulhados num manto de neblina que cobriu a vista que se tem da capital a partir da Ponte 25 de Abril e também toda a extensão de praias urbanas da Costa de Caparica.

A 16 quilómetros de Lisboa, a Costa foi sempre uma espécie de Algarve dos pobres, paraíso acessível com 19 praias ao dispor para as famílias de classe média e média-baixa e uma cidade onde vingou o caos urbanístico. Nas ruas da Costa de Caparica ainda se veem muitas famílias de Lisboa, jovens das escolas de surf, alguns turistas espanhóis e franceses e casais idosos que sempre ali passaram férias.

A porta de entrada escolhida na manhã de sexta-feira foi o mercado municipal, onde se sente a azáfama dos veraneantes que vão buscar os produtos frescos para o almoço - antes ou depois da praia - e os cheiros das frutas e do pescado do mar. Ali dentro a língua que se ouve falar mais ainda é o português. "Este ano veem-se muitos emigrantes por aí, não era habitual", conta a enérgica Gracinda, vendedora de fruta, legumes e caracóis, residente na Costa. "Não comprem aquilo que é bonito, comprem tudo quanto é feio porque é o que tem sabor", aconselha ela aos clientes. "O ano passado estive aqui a vender mas este ano pensei mesmo em não vir. Mas depois os meus clientes do caracol iam sentir a falta", graceja. "Graças a Deus tem sido bonzinho este verão, temos tido muitos emigrantes, muito simpáticos, o ano passado não tivemos." Para além dos "muitos espanhóis e brasileiros", diz.

Gracinda vive há 25 anos na Costa de Caparica, em frente à praia urbana da Saúde. "Tenho ali uns terrenos e cultivo hortaliça. Depois vendo aqui e nos mercados abastecedores de Lisboa e Setúbal."

A mítica Rua dos Pescadores

Depois do mercado sobe-se a mítica Rua dos Pescadores para chegar à linha de praias urbanas da Costa. Esta sempre foi uma rua babilónica, histriónica até, pela mistura de comércio, de cores e de vida a fazer lembrar Albufeira, no Algarve, mas sem os turistas ingleses. Tem salões de estética, geladarias, lojas chinesas, uma das residenciais mais antigas da Costa, a Mar e Sol, fundada em 1927; tem ainda restaurantes com esplanada, vendedores de rua com as traquitanas de praia e o famoso salão de jogos Autopista-Meta, fundado na década de 1960, com mesas de matraquilhos, snooker, máquinas de videojogos, e que tinha, antigamente, pistas de carros telecomandados. A partir das 11.00 o salão já estava cheio de vida com pais a mostrarem aos filhos pequenos as delícias deste parque de diversões rétro.

Continuamos a palmilhar a Rua dos Pescadores que desemboca na praia Tarquínio-Paraíso. Estava longe de ficar apinhada. O mesmo acontecia com as vizinhas praias Dragão Vermelho, da Saúde e Nova Praia, numa tranquilidade rara que só se pode ficar a dever ao nevoeiro matinal.
No paredão passam crianças e adolescentes a andarem de segway, adeptos do jogging matinal, uma patinadora enérgica, surfistas.

Cai uma chuva miudinha, uma cacimba, mas nas ondas do mar há gente afoita que a água está morna - ouvimos dizer. Uma família com crianças atravessa o paredão em passo apressado debaixo de um guarda-sol garrido, às flores. A vida sorri. Passamos pelo restaurante Barbas, propriedade do benfiquista ferrenho com esta alcunha - é outra "instituição" da Costa.

Os bares de praia estão renovados desde a requalificação do programa Polis mas à volta predomina o estertor urbanístico. A requalificação levou também a alterações de vidas e de rotas. O minicomboio da Caparica já não parte, desde 2006, do centro urbano mas da Nova Praia, onde termina o paredão. Atravessa uma linha de 19 praias, da Nova Praia à Fonte da Telha, e o bilhete custa agora 8 euros (ida e volta) para um percurso de 25 minutos. "Isto ao fim de semana ainda vai cheio", diz o jovem cobrador a tentar explicar porque é que à hora de partida, 12.30, ainda não havia clientes. Quando o "chefe" que conduz a máquina e o seu cobrador estavam a dar esta viagem por perdida apareceram três turistas em cima da hora.

De Nice para o comboio da Costa

Joel e Gautier, dois jovens viajantes franceses, sentaram-se nos castiços bancos de madeira do mini-comboio de praia e prepararam-se para a aventura. "É a segunda vez que viemos no comboio para as praias mais afastadas da Costa esta semana", conta Joel. Os dois amigos estão de férias em Lisboa há uns dias. Residem em Nice, cidade balnear no Sul de França que em julho viveu um atentado terrorista. Mudam de expressão com essa lembrança e nada mais dizem sobre o assunto. Era como se aquilo acontecesse no paredão da Costa de Caparica, não faz sentido.

Joel e Gautier estão alojados em Lisboa num apartamento que alugaram pelo sistema Airbnb . "Muito boa a casa, por 50 euros por dia. Estamos contentes". De Lisboa gostam muito. Mas da Costa, o que acham? "Eu até gosto mas Gautier nem por isso. A cidade não é muito bonita e as praias mais perto não são muito boas, por isso vamos para as outras mais afastadas", diz Joel. O comboio tem de partir e os dois franceses também.

O caminho faz-se de volta, caminhando. Junto ao pontão rochoso da praia do Tarquínio/Paraíso vamos ver o que se pesca por ali. Um casal também quer saber e aproxima-se. Um dos pescadores mais velhos tem o nome com ele, João Borda d"Água, 69 anos, reformado que já pertenceu, em tempos idos e gloriosos, à equipa de pesca da Carris. João, alentejano do Torrão, e lisboeta desde os 9 anos, gosta de ir para as praias da Costa lançar a cana e esperar que o peixe pique. "Hoje cheguei aqui pelas 08.00 e já pesquei um sargo."

As férias do pescador são em São Pedro do Sul, terra da mulher. Mas é na velha Costa que sente o cheiro do mar.

Em Bruxelas não há peixe fresco como aqui

No rebuliço do mercado do peixe da Costa de Caparica, na Praça da Liberdade, Álvaro Lopes, alentejano de origem e emigrante em Bruxelas, na Bélgica, a mulher espanhola Lucrécia (da Galiza) e a sua irmã Helena foram escolher, como todas as manhãs de férias, o pescado e os legumes para o almoço. "Comprei casa na Costa de Caparica há anos para tirar sempre umas semanas de férias e descansar." Estão há três semanas de férias na Costa e adaptam-se bem aos costumes que durante o ano esquecem. "Tentamos funcionar como o português que mora aqui. Vive-se o dia-a-dia. Fazemos as compras para almoçar em casa, por vezes vamos a uns restaurantezinhos baratos que há por aí e à tarde vamos à praia do Dragão Vermelho." Antigamente iam para a praia da Fonte da Telha. "Precioso", comenta a cunhada Helena, que conheceu essa praia na quinta-feira. Mas a casa de férias na Costa mudou as rotinas. "Na Costa está tudo baratíssimo. E em Bruxelas não há peixe fresco como aqui e os preços fazem uma grande diferença. Ui!", descreve Álvaro. "Ganhamos mais mas paga-se muito", acrescenta Lucrécia. Dentro de um ou dois anos o casal pensa vir de vez para a Costa. Na Bélgica vão ficar os dois filhos nascidos lá.

De Lisboa para a Costa. Todos os verões

A rolar de patins pelo paredão da Costa de Caparica, Raquel Gonçalves, de 20 anos, era das mais enérgicas desportistas da manhã encoberta. Estudante do 2.º ano do curso de Artes vive com a família no bairro lisboeta dos Olivais mas as férias são sempre na outra margem do Tejo. "Temos uma casa alugada aqui na Costa e todos os anos vimos passar umas semanas em agosto. Estou com os meus pais e os meus dois irmãos." Raquel acordou cedo para ir patinar mas normalmente fica a dormir até tarde e depois vem para a praia do Paraíso. "Às vezes também faço surf." À noite dá umas voltas com a família pelas ruas das lojas e aproveita para comprar lembranças. "Como o orçamento da família é complicado, normalmente jantamos fora uma vez por semana, no mínimo. Vamos à Isoleta que é bom e baratinho." Também costuma convidar alguns amigos de Lisboa a irem ter consigo à Costa e tornar os dias mais animados. Raquel também já fez amizades de verão nas férias. E não trocava a Costa pelo Algarve "porque o Algarve não tem ondas".

Até o cão Snoopy tem banco e toalha de praia

A família Fernandes chamou a atenção pelas listras coloridas dos chapéus e pelo cão Snoopy, uma miniatura com 1,700 quilos que tem direito a banco e toalha de praia. Arnaldo, de 50 anos, dono de uma empresa de limpezas em Zurique, na Suíça, e a mulher, Libânia, estavam na Nova Praia com os cunhados Maria da Graça e Francisco. "Estamos aqui a passar três dias na casa da minha mãe, na Costa, e depois vamos para Póvoa de Lanhoso, a nossa terra, onde andámos a construir durante sete anos a nossa vivenda de férias", conta Arnaldo. Enquanto estão na Costa de Caparica aproveitam para fazer praia e almoçar peixe fresco grelhado nos restaurantes "porque na Suíça não há, é tudo congelado", queixa-se Libânia. "Snoopy senta", ordena, deitando um olhar divertido ao cão. À noite jantam em casa e depois vão até Lisboa "aos pastéis de Belém e à Baixa passear". "As praias lá no Norte são muito mais frias. Gosto sempre de vir a estas da Costa", diz Libânia, que considera esta zona "mais tranquila e menos turística que o Algarve". Programas de férias não faltam. "No domingo vou ao Estádio da Luz ver o Benfica jogar", diz Arnaldo para gáudio de toda a família. Ou quase. O primo e cunhado de Francisco é o único dos Fernandes a torcer pelo Porto.

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