"Aprendemos a lição com o fracasso da cimeira de Copenhaga"

A cimeira de Paris, defende o embaixador francês em Portugal, Jean-Francois Blarel, é o início de um processo

Vai haver um acordo nesta cimeira do clima, em Paris?

Estamos confiantes de que sim. Houve um trabalho diplomático e de sensibilização das empresas e da sociedade civil em todos os países, por parte da atual presidência do Peru e por parte da França, que assume a presidência no início da cimeira [hoje]. Aprendemos a lição com o fracasso da conferência de Copenhaga, em 2009.

Havia enormes expectativas para Copenhaga. Qual foi a lição?

Apostámos demasiado num acordo vinculativo. Por isso, agora trabalhámos em colaboração com as Nações Unidas e pedimos a todos os países que estabelecessem metas para si próprios, o que é uma novidade para esta COP. As Nações Unidas receberam até agora mais de 170 contribuições nacionais [metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa, que cada país se compromete a fazer, os chamados INDC]. Somos 196 países, portanto não é mau.

E essas contribuições correspondem a mais de 97% das emissões globais de gases de efeito de estufa.

Exato. Com isso temos o retrato das emissões de cada país e das reduções propostas. Feitas as contas, isso coloca-nos no caminho de um aumento da temperatura de 2,7 graus Célsius [até ao final do século, em relação à era pré-industrial]. Não são os dois graus da meta assumida, mas também já não são os quatro ou cinco graus das previsões mais pessimistas. É preciso compreender que Paris não é o fim do processo, mas o início de um processo.

O que é preciso para que Paris seja considerado um sucesso?

É preciso que o acordo seja universal, ou seja, que englobe os 196 países, e que seja vinculativo. Depois, tem de incluir uma avaliação, a cada cinco anos, para rever as metas, se for necessário. Esta segunda condição já foi, aliás, acordada no início de novembro, e está garantida. A terceira condição é a do financiamento. É preciso rever todo o enquadramento da ajuda ao desenvolvimento para a orientar para os problemas da energia e do clima.

Mas a meta dos dois graus não vai ficar garantida em Paris.

Não. Por isso é importante que esta cimeira abra um processo para rever as metas de redução de emissões. E esse mecanismo já foi aceite pelos países.

Ao contrário do que sempre sucedeu, as intervenções dos chefes de Estado e do governo vai acontecer no início da conferência. Porquê a mudança?

O que se pretende é que as negociações sejam determinadas desde o primeiro dia pelas orientações políticas dos chefes de Estado e de governo.

As expectativas estão mais bem geridas para esta COP?

Acho que sim. As contribuições nacionais são, desde logo, um alicerce muito importante para as negociações. E estamos numa situação muito diferente de há seis anos. A consciência do perigo que as alterações climáticas representam é muito mais evidente, países como a China, Estados Unidos, Canadá, que são grandes emissores, mudaram as suas posições e também é visível agora a aposta crescente das empresas na descarbonização.

Depois dos atentados de há duas semanas, em Paris, há medidas de segurança reforçadas. Isso poderá ter impacto na cimeira?

A cimeira foi mantida. Decidimos não a cancelar, apesar dos atentados, porque esta questão não é adiável e toda a preparação estava feita para se poderem tomar as decisões necessárias. E também não houve cancelamentos por parte dos participantes, o que mostra confiança nas forças de segurança francesas e é também um apoio à França.

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