"É um bom país, o problema é que não há casas e são caras"

Em Odemira, o número de infetados aumentou muito, o que coincide com a época alta das explorações agrícolas. O concelho é um dos quatro na linha vermelha e esta segunda-feira é obrigado a recuar no desconfinamento. Protestam que são muitos mais e que a doença não afeta a população de risco, os seus velhos, e que muitos estão vacinados. [texto publicado originalmente a 18 de abril]

Céu Neves
80 % da produção da Summer Berry são framboesas, o resto são mirtilos e amoras© (Leonardo Negrão / Global Imagens

As ruas de S. Teotónio começam a encher-se a partir das 16:30, gente que carrinhas largam junto ao largo da igreja, mais conhecido pelo Quintalão. Imigrantes em plena idade ativa, na maioria homens, de chinelos, com sacos de plástico na mão, alguns usam turbante. Cruzam-se com os poucos locais, velhos, em direção a casas minúsculas e a dividir quartos pagos a peso de ouro. O mesmo movimento na madrugada seguinte em sentido oposto. Correm para o transporte que os levará às explorações agrícolas que encontram nos terrenos de Odemira terra fértil para produzir em quantidade e qualidade.
O concelho vai recuar nas medidas de desconfinamento esta segunda-feira com base na proporção de infetados por número de habitantes. Continua a ser envelhecido, com uma taxa de crescimento natural negativa, mas têm chegado milhares de imigrantes, estimando-se que representem mais 61 % além da população estimada (24 727).

S. Teotónio é a freguesia do concelho com mais residentes imigrantes© (Leonardo Negrão / Global Imagens


Descendo pelo largo Luís da Camões, porta sim porta sim não se fala em português, apenas para cumprimentar quem se cruza. "Aparecem de todo o lado. Não me meto com eles e eles não se metem comigo, "bom dia, boa tarde, está tudo bem"", resume Georgina Francisca, de 81 anos, nascida no concelho.
Os vizinhos trabalham em explorações agrícolas a perder de vista, muitos deles contratados por empresas de trabalho temporário e prestadoras de serviços. São da Índia, Nepal e Bangladesh, substituindo os tailandeses, os romenos e os búlgaros, estes últimos da primeira vaga. Fluxos muito ditados pelas redes que colocam os imigrantes onde há falta de mão-de-obra e, por isso, fazem-se pagarem bem.

Georgina Francisca já se habitou a dividir a sua rua com muitos vizinhos estrangeiros© (Leonardo Negrão / Global Imagens


"Aqui havia muitos emigrantes, mas há dez anos não param de chegar estrangeiros. Há muito trabalho, os portugueses não querem trabalhar na agricultura, tiveram que meter os estrangeiros, que ganham menos. A minha filha viveu sete anos em Londres e diz: "Também vivi fora, eles têm direito a estar cá"", sentencia a dona Georgina, enquanto puxa o saco do lixo num carinho.
Passa pela casa onde vive Ravinder Kauer, 39 anos, com o marido e mais duas famílias: Harsh Singh, 17 anos, a mãe e a irmã; Amritpal Kauer, 30, e o filho, Arardeep, 10 anos. Três famílias de indianos, uma por quarto pelo qual pagam 300 euros. Partilham a cozinha, cozinham segundo uma escala, tal como organizam a hora do banho. Aquecem a água em panelas, o "esquentador avariou".

Amritpal Kauer, 30, e o filho, Arardeep,, habitam na mesma habitação que Ravinder Kauer, com o marido e mais uma família indiana, três quartos por 300 euros cada, e uma cozinha.© (Leonardo Negrão / Global Imagens


Ravinder trabalha na G.O.Berrys, produção de frutos vermelhos, entre as 07:30 e 16:30, cinco dias por semana, ganha cerca de 700 euros por mês. Chegou a S. Teotónio em 2018, o seu desejo é ter sempre trabalho. "É um bom país, a empresa é boa, é fácil conseguir os documentos, as casas é que são um problema, são muito caras, não há muitos lugares", queixa-se. Já visitou Albufeira e Fátima. Os filhos, de 15 e 17 anos, vivem na Índia, aproveitando para estudar com o dinheiro que os pais enviam para a família.
Mais à frente vivem Cliber Liabs e Prakash Tsapa, do Nepal, de 31 anos: três pessoas por quarto a pagar 130 euros por cabeça. Os preços do quarto depende do número de beliches, entre 100 e 150 euros por pessoa. Prakash chegou em 2019, depois das coisas não terem resultado na Alemanha. "Aqui foi fácil conseguir os papéis e tenho trabalho contínuo, não dependo das campanhas". Ganha cerca de 850 euros mensais.

Contar a impossibilidade

Os censos 2021 estão no terreno e Ana Luís Vasques é a recenseadora que tenta dar expressão estatística à cartografia de S. Teotónio, uma jovem de 23 anos que trabalha no turismo local. Tem as casas digitalizadas, as verdes são as que são de habitação secundária ou estão vazias e são a maioria. As ocupadas estão a vermelho, onde "vivem sobretudo estrangeiros".

Ana Luís Vasques é a recenseadora dos Censos 2021 e explica à nepalesa Narine o que deve fazer. Narine escreve no telemóvel o seu nome para que Ana Luís perceba.© (Leonardo Negrão / Global Imagens


Fala com eles em inglês, agora com Roby, um dos indianos que mora num primeiro andar. Ana Luís explica que estão a decorrer "as estatísticas de Portugal". Pergunta-lhe se ali mora há mais de um ano ou se pretende permanecer durante esse período de tempo., os que têm de ser recenseados. Deixa-lhe uma carta com um código para aceder à página do Instituto Nacional de Estatística e se recensear a partir de 19 de abril, o chamado momento censitário. É um formulário por alojamento.

24 717 é a população estimada


O homem diz que sim e recolhe para o interior da casa. Mais à frente um sorriso, desta vez, de Narine, uma nepalesa. A conversa repete-se. Mais um sim, mais uma carta entregue. Dizem todos que sim, a incerteza é saber se vão recensear-se. Os resultados finais dos Censos 2021 logo o dirão.

O Serviço de Emigrantes e Fronteiras indica 9617 estrangeiros com residência legal, dados provisórios de 2020, o triplo de 2011 (3160). Sublinhe-se que indicam apenas quem regularizou a situação, um processo que leva mais de dois anos e que, agora, está parado devido à pandemia. As renovações dos documentos têm sido feitas de forma automática desde julho, com prazos que têm sido prolongados, atualmente até 31 de dezembro.

A estufa de tomates, nomes das estruturas fixas para o cultivo© (Leonardo Negrão / Global Imagens

Os restantes, com um contrato de trabalho e inscrição na Segurança Social (artigo nº 88, nº 2, (lei nº 23/2007), fazem uma "manifestação de interesse" no portal do SEF, ou seja, um pedido para obter residência, regularizando a sua situação desta forma. Segundo José Alberto Guerreiro, o presidente da Câmara Municipal de Odemira (ver entrevista), os imigrantes podem ascender aos 15 mil na época alta, que coincide com a apanha da produção. Intensifica-se na primavera e vai até ao verão. Mas as autoridades de saúde estimam que o número varie entre as 8 mil e 20 mil.

9617 imigrantes diz o SEF

Com a pandemia, o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) e a TAIPA só atendem por telefone, o que dificulta a perceção da realidade, segundo as suas dirigentes.

Entre 1 de julho de 2018 e 31 de dezembro de 2020 fizeram 6509 atendimentos. Os principais assuntos foram a regularização da situação, a renovação de residência temporária e o reagrupamento familiar. O ano passado atenderam 1690 imigrantes, 75 % dos quais homens, entre os 26 e 35 anos, nepaleses (37%), indianos (20 %) e brasileiros (13 %). E, pela primeira vez, sentiram um peso das questões relacionadas com o trabalho, ou a perda deste (7%) e o atendimento social e o acesso aos apoios da segurança social (6%), o que atribuem à covid.

O município, através da Cruz Vermelha, está a testar a população, basta inscrever-se por via eletrónica, que a enfermeira Joana Rodrigues faz o teste, com resultados ao fim de uma hora© (Leonardo Negrão / Global Imagens


"Este ano, a origem dos imigrantes mantém-se e circulam no próprio país. Já acontecia, por exemplo, os que trabalhavam na oliveira e vinham nesta altura para a apanha dos frutos vermelhos, a época alta. A diferença é que há muita gente que trabalhava maioritariamente no turismo e na restauração do Algarve", explica Tânia Guerreiro, coordenadora e técnica do CLAIM Odemira.

Atividade agrícola


"Há um grande número de empresas que se dedicam à produção de frutos vermelhos, mas essa é uma história recente, na sua maioria instalaram-se nos últimos dez anos. É uma zona muito diversa a nível agrícola, tanto no que diz respeito às culturas como formas de produção", explica Margarida Carvalho, diretora executiva da Associação de Horticultura, Fruticultores e Floricultores.
Aquele que é denominado pelo Perímetro de Rega do Mira, tem cerca de 12 mil hectares, dos quais, 7 mil dedicados à agricultura: 27% culturas forrageiras, (como o feijão) 22% hortícolas diversas, 16% pequenos frutos, 12% culturas arvenses (como cereais) e 11% flores e plantas.

Mais 15 a 20 mil pessoas


"Há muito pouco tempo que o concelho de Odemira vê a sua pirâmide de decréscimo demográfico inverter-se com a chegada dos imigrantes. Os locais tiveram que sair para procurar oportunidades de trabalho e de educação e, com o desenvolvimento da agricultura, a necessidade de mão-de-obra aumentou e recorreu-se ao estrangeiro. Em 2017, houve muitas empresas que não colheram a fruta porque não tinham mão-de-obra. Uma mudança da lei da imigração inverteu esta situação. Em 2018, 2019, 2020 e este, apesar da pandemia, há muita gente a inscreverem-se para o pico da campanha", diz Margarida Carvalho.

Estufas, estruturas fixas como as utilizadas na produção de tomates© Leonardo Negrão/Global Imagebs


Segundo os dados da CMO, 55 a 60 % da atividade económica do concelho é dedicada à agricultura, 20 a 25 % ao turismo, o restante ao comércio e serviços.

Empresas nascidas fora


Muitas empresas têm a génese no estrangeiro, como é o caso da Summer Berry, que é inglesa. Implantaram-se em 2016 no concelho, na Herdade dos Almeidans, em Almograve, com a compra de uma exploração de bovinos. São 130 hectares e 80 hectares dedicados à produção de frutos, em 80% de framboesa, além de mirtilos e de amoras. Estão a iniciar um projeto de biodiversidade, aos quais destinaram 20 hectares.
Tem capacidade para 300 funcionários mas 200 laboram todo o ano, contratações que preferem fazer diretamente, só em casos excecionais recorrem às agências de recrutamento.

Daniel Portelo, diretor de operações da Summer Berry, num dos túneis das framboesas, nome das estruturas amovíveis© (Leonardo Negrão / Global Imagens

"Temos um pico da campanha agora e outra em setembro, os dois períodos em que há colheita da framboesa, há todo o interesse em manter os funcionários nos 12 meses. Temos parcerias com empresas a quem alocamos os trabalhadores em julho e agosto, nomeadamente para as vinha e a alface. Não nos interessa estar a treinar outros trabalhadores e, as outras empresas, sabem que têm trabalhadores bem preparados e integrados", explica Daniel Portelo, diretor de operações, um engenheiro agrónomo a que veio do norte do país.
Entre os 300 trabalhadores, 70 % são estrangeiros, maioritariamente da Índia e do Nepal. Os portugueses estão sobretudo na parte administrativa. Toda a comunicação interna, como os avisos relativos à covid-19, são em inglês, nepalês e duas línguas faladas na Índia e Bangladesh.


Os ingleses escolheram a região, "considerada a Califórnia da Europa", sublinha o agrónomo. "Tem a influência marítima que faz com que os verões sejam amenos, mas os invernos acabam também por ser amenos, as condições ideais para a produção". Produzem três mil toneladas por ano, tudo comercializada, a menos boa para a indústria. E 80 % vai para a Inglaterra.
Nestas explorações, aprendemos a chamar aos insetos "auxiliares", por ajudarem a combater as pragas. Daí a importância em deixar crescer a vegetação espontânea local, como os salgueiros. Aprendemos, também, que é errado chamar estufas aos túneis, a diferença é que os primeiros são fixos (vegetais, como os tomates); os segundos são amovíveis (frutos vermelhos).

Túneis das framboesas, estruturas amovíveis© Leonardo Negrão/Global Imagebs


O salário por 40 horas semanais, entre as 07:30 e 16:30, é estabelecido pela AHSA e cumprido pelos associados, 30 grandes empresas. Pagam cerca de 675 euros mensais, a que se somam prémios de produção. Os trabalhadores chegam ao fim do mês 800 euros mensais, em média. As refeições são servidas na cantina: três pratos diários: português, vegetariano e asiático. O dia em que visitámos a exploração era costeleta à milanesa, frango masala e sabji de legumes. Respeitam-se os usos e costumes, tanto dos portugueses como a dos forasteiros, especialmente os dias festivos como o Dashain (Nepal).

A dificuldade de alojamento

O alojamento é sempre a eterna dificuldade, a tal ponto que em 2019, o Conselho de Ministros aprovou uma norma excecional (179/2019) por um período de 10 anos. Equipara "os alojamentos de trabalhadores temporários a construção complementar da atividade agrícola".

O campo de futebol junto aos alojamentos foi escolhido pelos funcionários (Summer Berry) através do orçamento participativo© (Leonardo Negrão / Global Imagens


A Summer Berry tem alojamentos desde 2017, em contentores, e para o qual há lista de espera, cada trabalhador paga 60 euros mensais. O último benefício foi um campo de futebol, através de um orçamento participativo em que todos votaram.
É a época alta e há trabalhadores a chegar. Karan Rasaily e Manois Thapa, têm as malas por desfazer. São ambos do Nepal e com 25 anos, estão há dois anos e meio em Portugal. Conheceram-se em Tavira, onde trabalhavam na agricultura, através de uma agência, pagos a 3,65 euros à hora. "Esta é uma boa empresa, estamos a tentar há um ano trabalhar aqui". Esperam ganhar 900 euro por mês.
A empresa já teve casos da covid-19, que conseguiram controlar. Atualmente, fazem testes de 15 em dias, por grupos. E quem chega tem de fazer quarentena.

100 % portuguesa

Telmo Rodrigues é o proprietário da Hortipor, orgulha-se de não ter um caso da doença nas três explorações de Odemira. "Apostámos na prevenção, nas estufas trabalham em linhas separadas. O facto de termos habitação própria e de haver pouca rotatividade também ajuda".
É uma empresa de origem familiar que começou com o pai de Telmo, há 70 anos, e que, em 2001, ele a registou com a marca Hortipor. Têm, também, duas unidades de produção em Torres Vedras, onde onde tudo começou, no Montijo e em Málaga (Espanha). Muito tomate a sair das várias unidades, mas também pimentos, curgetes, alfaces e outros legumes e hortícolas.
Chegaram a Odemira em 2007, quando sentiram a necessidade de expandir a produção. No primeiro ano ainda recorreram às agências para recrutar, agora fazem-no diretamente. Empregam ali 180 pessoas, 20 % são portugueses (sobretudo administrativos) e 80 % de estrangeiros, sendo que 90 % tailandeses. Têm alguns de Leste (romenos e moldavos) e do Nepal. "Há uma rotatividade de 20 %, tem a ver com a experiência adquirida, o nosso trabalho é muito especializado e a prática aumenta a produtividade. As pessoas mantém-se porque damos boas condições e não é um trabalho sazonal", justifica Telmo.

A Hortipor é uma empresa familiar portuguesa que se tem expandido em Portugal e em Espanha, sobretudo na produção de tomate© (Leonardo Negrão / Global Imagens

Cumprem o contrato coletivo da AHSA, pensam introduzir em breve um sistema de bónus de profissão. Revelam que os imigrantes preferem juntar aos salários os duodécimos dos subsídios de férias e de Natal.
São línguas obrigatórias o russo, o tailandês e o nepalês. Trabalham das 08:00 às 17:00, em equipas que de cinco dias semanais, de segunda a domingo. Produzem nas três quintas de Odemira 10 mil toneladas de tomate, de todas as especialidades que se possam imaginar, o ex-líbris é o tomate coração.

Estão cada vez mais concentrados na agricultura biológica, que é absorvida por Portugal, o que resta vai para a Holanda, Áustria e Alemanha. "O tomate daqui é de melhor qualidade, tem a ver com as noites frias e os dias quentes, o que é muito bom para o sabor", diz Telmo Rodrigues.

Além das unidades de Odemira, têm duas em Torres Vedras, onde tudo começou, uma no Montijo e outra em Málaga (Espanha).

Nos módulos habitacionais da Hortipor vivem apenas tailandeses, que constituem 80 % da mão de obra das unidades da empresa em Odemira© (Leonardo Negrão / Global Imagens

Há alojamento para 96 pessoas, módulos habitacionais a maioria com dois quartos, cozinha e casa de banho. Inicialmente, os quartos estavam num lado, a cozinha e a sala em outros. Perceberam, depois, que ao fim do tempo havia cozinhas improvisadas junto aos dormitórios. Uma bandeira da Tailândia diz quem lá mora e ali passa as horas de descanso, muitas bicicletas e alguns carros para se deslocarem. Gente que vive há muito tempo em Portugal e quase exclusivamente na quinta, jogam, cultivam legumes. "Há que respeitar os seus hábitos", defende Telmo Rodrigues, elogiando quem tem ajudado a empresa a progredir.

"Temos que analisar a realidade. Estamos no maior concelho do país, com muita terra e com boa qualidade para a produção e as pessoas daqui evitam trabalhar na agricultura, pensam que é um trabalho de sol a sol, penoso. Aliás, quando andava na escola, diziam-me «estuda para não ires para o campo». Com tanta necessidade de mão-de-obra, há necessidade de recrutar estrangeiros", salienta o empresário.

Telmo Rodrigues, dono da Hortipor, e Vânia Pinheiro, gestora de recursos humanos, uma jovem formada em comunicação social e a quem o desenvolvimento económico de Odemira permitiu que regressasse às origens. Estava emigrada em Londres© (Leonardo Negrão / Global Imagens


Um processo que beneficia os locais, como é o caso de Vânia Pinheiro, gestora de recursos humanos. "Sou daqui e tirei comunicação social em Lisboa. Não encontrei trabalho e fui para Inglaterra. Foi este desenvolvimento económico que me permitiu regressar".

Sopha Suphothai é uma das funcionárias mais antigas da Hortipor, trabalha e vive na quinta com o marido há nove anos© (Leonardo Negrão / Global Imagens


Sopha Suphothai é uma das funcionárias mais antigas. É tailandesa, 52 anos, está em Portugal há 12, três dos quais no Montijo. Trabalha e vive há nove com o marido na herdade dos Portos Brancos, a que vistamos, fala muito pouco português, o que também significa o fechamento da comunidade ao exterior. Conhece Lisboa, Sintra e Faro, já foi a Espanha. "Gosto do trabalho e do clima", diz.

Serviços públicos

Com tanta gente a entrar no concelho, muitos setores não esticaram e não foi apenas a habitação. A rede viária continua a mesma e há uma grande pressão sobre os serviços públicos.

Carla Joaquim é uma das funcionárias de atendimento na Segurança Social de Odemira, que, com a pandemia, obriga a marcação, mas há sempre quem apareça sem marcar, até porque os organismos criados para os apoiar, como o CLAIM e a TAIPA não recebem presencialmente.

Carla Joaquim, da Segurança Social, explica a Gurwinder Singh o que fazer para obter uma senha e aceder ao portal eletrónico. A população para o atendimento aumentou exponencialmente, enquanto as funcionárias são duas.© (Leonardo Negrão / Global Imagens

É o caso de Gurwinder Singh, 26 anos, há quatro anos no concelho, depois de trabalhar no Dubai, Tailândia e Espanha, que chega sem marcação. Está na mesma empresa prestadora de serviços há dois anos e meio, agora na campanha do tomate. Esteve doente com covid-19 em novembro, mas não entregou o atestado. Vem, agora, resolver o problema. Carla aceita, mas já não o segundo pedido, que é a sua inscrição no portal para obter uma senha de acesso aos serviços. Apesar das justificações: "O patrão não dá mais dias, tive de vir de táxi, etc, etc.".

Carla Joaquim é funcionária da Segurança Social de Odemira. A pandemia obriga à marcação, mas há sempre quem apareça sem o fazer, até porque o CLAIM e a TAIPA não atendem presencialmente.

Explica-lhe o que fazer e que até tem uma explicação passo a passo. "Não posso ceder, amanhã estavam aqui mais uns 15 ou 20. Aceitei o atestado médico, o mais urgente. Estão sempre a chegar pessoas ao concelho e somos as mesmas duas a atender, antes da pandemia, estavam aqui 200 pessoas por dia", justifica.

O Centro de Saúde de Odemira é outro serviço público a sentir a pressão da imigração© (Leonardo Negrão / Global Imagens


A pressão é a mesma no Centro de Saúde. Sara Letras é a delegada de saúde da Administração Regional do Alentejo, responsável por Odemira. "Temos visto algumas mudanças no território devido à intensificação da agricultura, o número de imigrantes oscila entre os oito mil (época baixa) e 20 mil (pico da época alta) e os recursos são pouquíssimos, precisávamos de mais, nomeadamente enfermeiros, e tem acontecido o contrário. Por exemplo, a extinção da extensão de saúde de S. Teotónio", lamenta a médica de saúde pública. Além dos imigrantes, têm uma população envelhecida, que requer mais cuidados médicos.

Vê com preocupação os números da pandemia, que diz variarem de acordo com a sazonalidade das campanhas agrícolas e, atualmente, estão num pico de incidência. Os últimos dados, de sexta-feira, indicam 206 casos ativos, o que significa 16,9 % do total (1217). E 14 óbitos, 1,1 % dos infetados. Os doentes são 75 % imigrantes.

Sara Letras defende que a melhor forma de combater os surtos está na testagem. "Os planos de testagem são muito importantes, não só nas empresas, como à chegada a Portugal, por exemplo, dos que regressam de férias. E é importante que as empresas façam testes de de 15 em 15 dias, cumpram as regras de higiene e de distanciamento e que tenham locais de isolamento para os que ficam infetados".

Margarida Carvalho acaba por fazer um balanço positivo no combate à pandemia: "A atuação das empresas e dos seus colaboradores foi excecional, atuaram muito rápido na prevenção. Em fevereiro já havia empresas a preparar planos de contingência para controlar as entradas e a organizar as equipas, não tivemos registos de surtos em empresas. Neste momento, está a verificar-se, mas a verdade é que já lá vai mais de um ano".

Em Portugal, o teste à covid-19 só é obrigatório para quem chega por avião. Nas fronteiras terrestres apenas é exigida a obrigatoriedade de cumprir isolamento profilático de 14 dias para quem venha do Reino Unido, Brasil, África do Sul ou de países com taxa de incidência igual ou superior a 500 casos por 100 mil habitantes (como é o caso de França ou Itália).

População aceita na generalidade

A população de Odemira, na generalidade, olha com bons olhos a vinda de força de trabalho. Maria Rosa, 75 anos, reformada de contabilista, acompanha com alegria a evolução da família indiana vizinha, agora já com uma criança de dois anos e outra de três meses. É Yogesh Bhatia, de 38 anos, que emigrou da Índia para França, depois para Portugal, há oito anos. Chegou a Odemira há seis, a mulher, Manjit, de 28, juntou-se-lhe. Há dois que trabalha na mesma empresa, a Maravilha Farm e é em Odemira que quer ficar, mesmo no centro da vila.

Maria Rosa e Yogesh Bhatia, a quem os dois filhos já nasceram em Odemira, são os vizinhos improváveis até há poucos anos© (Leonardo Negrão / Global Imagens

"São gente boa, boa vizinhança, claro que há sempre quem não goste, a mim não me incomodam, só querem é trabalhar. Eles são educados e eu sou educada com eles, ajudo no que for possível", diz a Maria Rosa.

António Costa, 61 anos, dono do Talho Simpatia, em São Teotónio, emociona-se sempre que fala no caráter desta última vaga de imigrantes, da Ásia. Ao ponto de só conseguir dizer: "São pessoas extremamente educadas".

Os imigrantes constituem 60 % doa clientela, fazendo fila depois do trabalho e ao sábado. Quem lá trabalha faz jus ao nome, mas António também se adaptou à nova realidade. Importa carne de cabra halal (abate tem de ser segundo as regras do Islão), frango sem pele, também vaca e tudo bem cortadinho.

Lourival Dias, Binoidi Guarim, Fernanda Domingues e Manois Daekota, os funcionários do Talho Simpatia, e o dono António Costa, que tem na população imigrante 60 % da clientela, muita à custa da cabra halal (cujo abate segue o Islão) que importa de Espanha© (Leonardo Negrão / Global Imagens

São, ainda seus inquilinos, uma casa com dois quartos, sala e cozinha, para quatro pessoas e onde pagam 150 euros por cabeça. E, também, seus empregados no talho. É o Binoidi Guarim, 30 anos, do Nepal, que para ali vai depois de deixar a Summy Berry, e o Manois Daekota, também nepalês, que acaba de se iniciar nos cortes da carne. Junta-se-lhe o Lourival Dias, 48 anos, e a Fernanda Domingues, 49.

Ana Martins, responsável pelo supermercado Amanhecer, já não precisa de encomendar os produtos específicos para estas comunidades. São empreendedores e eles próprios abriram as suas lojas, também restaurantes. "São clientes como os outros, a diferença é que pagam sempre por cartão, por mais baixo que seja o valor. Há pessoas que entendem que os imigrantes são bons para o desenvolvimento; outros que nem tanto ao mar, nem tanto à terra, é demasiada gente para a vila", afirma, sem querer dizer em que lado se situa.

Fernando Simão foi ao Centro de Saúde de Odemira com Sikder Rimon por desconfiar que o seu funcionário estaria infetado, mas disseram-lhes que não seria esse o caso.© (Leonardo Negrão / Global Imagens

Fernando Simão acha que não deve ser nem tanto ao mar nem tanto à terra, apesar da sua empresa de limpeza de floresta (Silvialentejo) viver à base da mão-de-obra estrangeira. "Não há controle, é demais, devia ser tudo mais organizado, por exemplo, através do consulado", justifica.

É ele e dez empregados. "Trabalham todos bem, mas tenho preferência pelos tailandeses. Quando comecei não havia tailandeses e contratei do Bangladesh. Tenho tido sorte, são bons e puxam uns pelos outros, são impecáveis, brincam uns com os outros, fazem bom ambiente".

Só tem pena de não terem carta de condução para conduzir uma viatura, arranjaria mais uma equipa. "Tinha trabalho para 20".

E os imigrantes desejam ter um carro, o que fazem logo que para isso tenham documentos. Em Odemira, também os carros são caros. Um Skoda Felicia, de 1998, com 292 mil Km e a tinta toda queimada, está à venda por 1100 euros.

Fernando foi ao Centro de Saúde de Odemira com um funcionário que chegou há 15 dias da Alemanha. Sikder Rimon, de 32 anos, trabalhava na restauração. Tosse e queixa-se de dores no corpo, o que os levou a pensar que podia "ser covid". Conta o patrão: "Disseram que não precisa de fazer o teste. Trabalhava num restaurante, se calhar, é por não estar habituado a um trabalho mais pesado".

ceuneves@dn.pt