"É preciso dar autonomia à gestão da saúde e ter coragem política"

Pensar o futuro une o ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes e o presidente da Fundação Bial, Luís Portela, no novo livro Saúde em Portugal. À conversa com o DN, também disponível em podcast, propõem uma nova forma de gerir hospitais, uma política próxima dos cidadãos e mais meritocracia no setor

Rosália Amorim
© Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O livro Saúde em Portugal - Pensar o Futuro é o ponto de partida para uma conversa. Que caminhos de sustentabilidade e inovação para este setor? Respondem o coordenador da obra, Adalberto Campos Fernandes - que junta mais de uma dezena de autores no mesmo livro - e Luís Portela, que assina o prefácio. O primeiro é ex-ministro da Saúde, o segundo é presidente da Bial. A visão do público e do privado em confronto construtivo.

​Adalberto Campos Fernandes, por detrás desta iniciativa que coordenou está uma profunda preocupação com os caminhos que a saúde tem seguido?
ADC - O livro é sobretudo um ponto de encontro de pessoas que olham para o sistema de saúde e para a sua envolvente com percursos e experiências diferentes. Mas todas elas têm o distanciamento e a tranquilidade que lhes permite pensar fora de um contexto em que os conflitos de decisão ou de interesse possam existir. Temos um país que está numa profunda transformação, a trajetória demográfica está a modificar o país e os sistemas de proteção da saúde e de proteção social têm de ser pensados e reinventados todos os dias, sob pena de os nossos filhos não terem o mesmo nível de proteção e acesso que tivemos. Tenho muito orgulho em ter tido a oportunidade de coordenar esta obra e de o Luís Portela ter acedido a fazer o prefácio e a apresentação. Acredito que estes contributos servem também para estimular uma discussão alargada na sociedade, e os países precisam disso. É preciso que a cidadania seja interessada, preocupada, mas sobretudo participante na codecisão relativamente aos destinos coletivos, e foi esse o objetivo do livro.

Qual a preocupação com a saúde que mais o inquieta?
ADC
- A sustentabilidade é a palavra que mais vezes aparece associada às preocupações com o SNS. A sustentabilidade não se limita apenas à economia ou às finanças, há uma sustentabilidade social e até ética. Um sistema de saúde que não é equitativo, que não trata todos por igual, que não acomoda a inovação terapêutica de qualidade, que deixa pessoas para trás não é apenas insustentável do ponto de vista financeiro, também o é do ponto de vista ético. É por isto que as políticas públicas, sendo a ferramenta de que dispomos para servir o interesse comum, não devem excluir a obrigação que temos de trazer para dentro deste combate de todos aqueles que na inovação, na produção científica, no ensino, na prestação direta de cuidados estão na linha da frente. Portanto, a palavra que escolheria seria essa, mas chamando à atenção que a sustentabilidade não me parece ser um conceito estritamente económico ou financeiro.

Luís Portela prefaciou e apresentou o livro em Lisboa e no Porto. Pegando em três ideias, diz que se faz boa saúde em Portugal mas que podemos fazer melhor, que há um enorme potencial de desenvolvimento e que a saúde precisa de uma reforma. A qual dar prioridade para reformar a saúde?
LP -
O livro foi escrito com muito bom senso e com confluência das ideias, ideias pragmáticas e objetivas. Quando apresento o livro, não apresento as minhas ideias, mas as dos autores. Mas devo dizer que as minhas ideias são, em muitos dos aspetos, semelhantes às dos autores. Se for implementada uma reforma com mais ou menos estes contornos apresentados no livro, ficarei muito satisfeito. Servirá os interesses dos portugueses e também dos profissionais de saúde.

E o que destaca nessa reforma?
LP -
Parece-me interessante a ideia de autonomizar a saúde através de um instituto que se pode chamar Instituto do SNS ou outra coisa qualquer. Ou seja, o Ministério da Saúde afastar-se-ia da gestão da saúde no dia a dia. Assim poderia dedicar-se às políticas de saúde, à promoção da vida saudável, à educação para a saúde, que são coisas que devem merecer a atenção de quem governa o Ministério da Saúde, como um dos autores dizia, como o Ministério da Saúde e não o "Ministério da Doença". Ao longo dos últimos anos temos visto que as preocupações de quem governa a saúde estão mais focadas na gestão da doença e, talvez de uma forma ainda mais perversa na gestão financeira da doença. Parece-me que é consensual entre os autores que se devia procurar libertar a gestão da saúde desse estigma através de um orçamento plurianual, a três anos, com uma definição de objetivos de saúde, com uma definição de objetivos financeiros, mas responsabilizando um instituto que tenha gestão autónoma para fazer a gestão da saúde

Seria impopular ou difícil afastar o Ministério da Saúde do dia a dia?
LP -
Não sei se seria impopular. Parece-me que os autores procuram eficácia na gestão, é um procurar assumir a responsabilidade da gestão de uma forma diferente daquela que tem sido feita até agora. Parece-me que a saúde que se faz em Portugal se faz bem, mas também percebemos que há algumas dificuldades de gestão e que há alguns erros que são sistematicamente cometidos ao longo dos anos, numa política que não me parece a melhor. O que me parece é que deve haver uma aposta grande na qualidade, com a capacidade de quem gere de poder contratar os melhores, de poder disponibilizar e gerir os recursos da melhor maneira, procurando tirar dos recursos o melhor proveito para a saúde. E uma das coisas que me agrada é que para os autores o doente está sempre no centro do sistema, sempre preocupados em criar condições para que a gestão seja feita de forma que o utente seja mais bem servido.

Como iria um governante com a pasta da saúde, como foi o senhor, digerir o facto de ficar sem a gestão do dia a dia?
ADC - Esta ideia, que li com atenção e compreendo a intenção dos proponentes, tem um caráter instrumental, temos outros ministérios, como o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, que tem o Instituto da Segurança Social. Concordando com aquilo que o Luís Portela disse e com o que os autores disseram no livro sobre a adição de novas estruturas ou de mecanismos de comando e controlo, seria muito útil estabilizar um consenso entre departamentos do governo, nomeadamente a saúde e as finanças, e o próprio Parlamento. Para que, segundo aquilo que foi referido pelo Luís Portela em relação ao financiamento plurianual, se desenhasse uma estratégia de autonomia e responsabilização dos agentes. Temos há muito tempo no país experiência, por exemplo, de administração hospitalar mais bem-sucedidas do que outras. Acontece é a diferença da liderança, do compromisso, e era justo - iniciámos isso em 2017 ou 2018, com o ministro das finanças Mário Centeno - que se criassem planos de atividade e orçamento que desembocasse num princípio de autonomia responsabilizada. Portanto, os gestores tinham um compromisso, tinham uma dotação orçamental, tinham uma previsão de utilização de recursos, e deveriam ser premiados sempre que melhorassem os resultados, não apenas económicos, mas resultados em saúde que se transmitissem à comunidade. Se não fossem capazes de cumprir, teria de ser perguntado porquê, e, não havendo justificação, teriam de ser substituídos. A lei já o permite, o estatuto já permite que haja responsabilização e até incentivos para os melhores gestores. Por razões que tiveram a ver com a intervenção externa e por uma necessidade muito grande de contenção dos efeitos de insegurança na despesa - recorde-se que tínhamos os juros de dívida pública muito elevados, havia um quadro orçamental muito difícil -, essa autonomia foi sendo diferida. Não vale a pena iludir, pois em todos os países da Europa os Ministérios das Finanças têm receio de que a autonomia possa significar um aumento de despesa, porque a saúde depende muito de fatores externos à própria atividade. Depende da utilização dos recursos, depende dos custos associados à inovação terapêutica, e tem sido sempre assim - as finanças têm sempre esse receio de que essa autonomia possa significar menos controlo. Creio que a pouco e pouco haverá margem para que isto, sob a forma de instituto ou não, se traduza numa maior autonomia, numa maior responsabilidade, e que traga para dentro do país e do sistema resultados que sejam em saúde e para as pessoas. Falamos muito em literacia da saúde, mas estamos ainda na primeira infância desta literacia. Aliás, viu-se com a pandemia que tivemos um grande impulso de paternalizar, mas aqui ainda há muito a fazer, porque os cidadãos de 2022 não são os cidadãos de 1970. Portanto, eles próprios têm capacidade, vontade e direito de codecidir e de terem uma palavra a dizer sobre o destino da sua própria saúde ou tratamento da sua doença.

Autonomia é sinónimo de empreender e fazer melhor?
LP -
Sim, como o Adalberto dizia, vemos alguns hospitais de gestão complexa que são claramente mais bem geridos do que outros que são regionais. Parece-me que o gestor deve ser avaliado de acordo com a sua performance individual e com a performance da instituição. E os diferentes profissionais de saúde, a diversos níveis, devem ser avaliados pelo seu desempenho individual e pelo desempenho da instituição onde trabalham. Parece-me que os autores, ao defenderem isso, estão num caminho certo. Defendem ainda que cada uma das instituições tenha acesso a mais recursos, mais pessoas, mais equipamento, de acordo com os resultados que tenham e de acordo com a escolha que os utentes fizerem dessa instituição. Nas instituições que forem menos procuradas que haja coragem política para dizer que as equipas têm de melhorar a sua performance, e, se não puderem melhorar, paciência, não têm direito a mais recursos e poderão até, eventualmente, ter direito a menos recursos ou ao encerramento dessa instituição. Naturalmente, melhorando outras instituições à volta que possam prestar os cuidados e serviços necessários aos utentes dessa região.

O que tem havido é falta de vontade política? É um tema ideológico?
LP -
Prefiro não entrar nessas áreas, que foi o que gostei no livro, porque os autores puseram a ideologia de parte e cada um falou pela sua experiência. Mas é preciso alguma coragem política, porque de facto, como o Adalberto referiu, o Ministério das Finanças vive sempre muito preocupado. Na minha opinião, deve fazer alguns testes para ver até que ponto funciona este tipo de gestão mais responsável, com maior autonomia, e, se tudo correr bem, alargar a toda a saúde. Estou convencido de que o que está aqui é um convite aos bons gestores para trabalharem ainda melhor e um convite aos menos bons gestores para procurarem trabalhar ao nível dos bons. E não só ao nível dos gestores, pois isto poderá - género mancha de azeite - e deverá espalhar-se a todos os profissionais de saúde. Ou seja, haver um processo de meritocracia interiorizado em todo o sistema de saúde. Procurar fazer melhor, procurar servir melhor os interesses e a saúde da população.

Na reforma da saúde o que mais precisa ser feito?
LP -
Acho que é necessário um desenvolvimento estratégico para a saúde. Temos uma saúde que faz bem na prestação de cuidados, mas também faz bem na área da investigação, e temos excelentes investigadores que publicam nos melhores sítios. Temos bons institutos de investigação, mas não temos conseguido uma boa aplicação prática disso, temos de levar à prática com sucesso novos produtos, novos serviços, mas não temos sido capazes de o fazer. Temos investido pouco na área da saúde, estamos a investir pouco a nível industrial, o Estado português não tem focado atenções em atrair as multinacionais para Portugal para investimento. Mas também tem investido relativamente pouco a nível da renovação dos equipamentos e a nível das estruturas hospitalares. Temos uma prestação muito boa e que compara bem com aquilo que se faz na Europa, mas as coisas boas rapidamente caem e é necessário continuar a investir. Parece-me necessário a definição de uma estratégia de desenvolvimento para a saúde que olhe ao investimento, no sentido de, quer a nível da prestação, quer a nível da produção, quer a nível da investigação, haver uma melhor prestação. A saúde deve ser alinhada como algo que é um custo para o país, mas, além do custo, pode ser também um motivo de satisfação e de benefício para os portugueses não só a nível da prestação de cuidados, mas também a nível económico. A saúde em Portugal tem todo um potencial para poder ser um objeto positivo a nível da economia portuguesa.

© Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Na sua apresentação evidenciava também o papel da internacionalização da saúde.
LP -
Ao fazer-se uma estratégia de desenvolvimento para a saúde, naturalmente que há capacidade de fazer internacionalização, quer a nível da prestação, quer a nível da indústria, quer a nível da própria academia.

E o que é que tem faltado?
LP - Falta sobretudo, a meu ver, uma estratégia de desenvolvimento, porque há pequenas coisas para quem está na Administração Pública que são fatais para obter a atração de investimento estrangeiro. Por exemplo, prazos de aprovação de novos medicamentos e ensaios clínicos. Se tivermos prazos de aprovação para ensaios clínicos de quatro, seis ou oito meses em Portugal e três ou quatro semanas em França e na Bélgica, as empresas internacionais vão continuar a fazer os seus ensaios clínicos nesses países e não os farão em Portugal. Outro exemplo: os preços dos medicamentos em Portugal são dos mais baixos da Europa, mas a nível de ensaios clínicos também somos dos países que têm menos ensaios clínicos em toda a Europa nos últimos 20 anos. Com o preço dos medicamentos é a mesma coisa: sendo um dos mais baixos, é um desincentivo ao investimento. Uma empresa internacional que seja convidada pelo governo para vir investir em Portugal olha com alguma desconfiança, devido aos preços apertadíssimos. A Bial, por exemplo, tem 80% da sua faturação fora de Portugal, vivemos com muita dificuldade a rentabilização do negócio no país onde estamos. Temos margens claramente melhores na generalidade dos outros países onde atuamos.

Como se compatibiliza rentabilidade e atração de investimento com uma política pública para população de baixos recursos?
ADC - Gostava de dar uma nota de algum otimismo, porque nos últimos anos avançámos. Falta apenas aquele clique, e a minha esperança é de que a pandemia tenha assustado a generalidade dos governos e dos países, e bem, porque demos conta de que a saúde, afinal, tinha precedência sobre a economia. E isso modificou na própria União Europeia a perceção de que a saúde era algo que até nem tinha dignidade para estar na conjugação de interesse comum dos tratados, que devia ser gerida a nível de cada Estado-membro, e, além de se terem criado estruturas como a Agência de Resposta Rápida, foi criada recentemente a Emergência de Saúde Pública em sede da Comissão Europeia. Mas começou a haver uma maior atenção à investigação, quer privada, quer pública, ao investimento, também à autossuficiência da Europa, porque nos demos conta de que não somos apenas dependentes de terceiros do gás - como vemos agora, infelizmente, a propósito da guerra na Ucrânia -, mas também do ponto de vista de alguns produtos e serviços. Isso transformou muito a mentalidade dos países, incluindo em Portugal, em que basta comparar o meu tempo no governo com o atual - são quase quatro mil milhões de euros de diferença. E isto provavelmente ainda não será suficiente, pois é óbvio que este dinheiro tem de ser gerido com efetividade, mas é um sinal de que toda a Europa e todos os países perceberam que o investimento em saúde acrescenta valor, mesmo tendo sempre o aspeto da despesa. Por outro lado, Portugal este ano provavelmente fechará com crescimento do produto interno bruto, que o aproxima de um recorde histórico absoluto desde a sua fundação e desde que há registos para o PIB. Significa que hoje as projeções da Comissão Europeia apontam para 5,8%, mas algumas vozes mais otimistas dizem que talvez possa ser 7% ou até 8%. Portugal está a crescer com mérito da sua economia, dos seus agentes económicos e da sua condição geográfica. O que gostaria muito é que a saúde entrasse neste caminho, neste balanço, porque Portugal beneficia da circunstância de ser um dos países mais seguros do mundo, de ter uma reputação de qualidade de vida. O que não ganharíamos, e a isto chamo a intangibilidade do valor da saúde, se Portugal passasse a ser percecionado como um dos países que tem um dos melhores sistemas de saúde no seu conjunto entre a componente pública estruturante e a componente privada? Também um país que é muito atrativo para a investigação de primeira categoria, aquela que traz verdadeiramente valor e que depois pode gerar exportação e competitividade no mercado. E também retomarmos o esforço iniciado há alguns anos de fazer de Portugal uma primeira opção para centros de investigação, nomeadamente relacionados com novos medicamentos e novos produtos farmacêuticos. Mas falta aquele clique porque o sistema de saúde em Portugal é muito fragmentado, porque tem a dimensão pública, a dimensão social e a dimensão privada, que cresce vertiginosamente. Temos dos melhores médicos, enfermeiros e outros técnicos, que formamos muito bem, o nosso ensino é muito bom, assim como a nossa prática formativa e experiencial. Portanto, falta o clique de pensar o Health Cluster, que foi pôr o conjunto das exportações da área da saúde a ultrapassar o vinho do Porto, e hoje estamos a falar de um valor muito significativo, 1,8 mil milhões, e isto é trazer para a discussão estratégica da economia e do desenvolvimento estratégico do país não apenas o mar, mas uma nova ambição: fazer de Portugal um país que é seguro, mas que é uma referência em termos europeus. Portanto, com um pouco mais de organização, mais recursos e com um sinal estratégico quer do governo quer do Parlamento, no sentido de dizer que a saúde vai ser um caminho e um trilho para o desenvolvimento, podemos atrair ciência. A ciência é hoje o ingrediente mais poderoso para a transformação dos países. Apesar de tudo, estou bastante otimista e à espera desse clique para ver se um dia a saúde entrará também no barco do desenvolvimento.

Como reter talento em Portugal?
LP -
A maneira de o atrair é dar-lhe condições, e parece-me que esta reforma que transpira deste livro indica a maneira de o cativar. É preciso premiar os melhores, criar condições para irmos buscar os melhores, poder premiá-los e poder, depois, cumprir as promoções de acordo com o seu mérito. Se isso for feito, naturalmente teremos as condições de melhor ambiente de trabalho, de melhores condições financeiras, para que os bons profissionais possam ser atraídos. E depois o projeto em si, ou seja, se temos um projeto não muito galvanizador, as pessoas tendem a afastar-se; se temos um projeto de grande sucesso, isso atrai investidores, e cada vez serve melhor a população portuguesa. Nenhum de nós está a dizer que o atual sistema serve mal a população, não é isso, compara-se bem com aquilo que se faz na Europa, mas pode fazer melhor. E, fazendo melhor, podem criar-se condições para atrair as pessoas, para que estas se sintam envolvidas para colaborarem num projeto mais bem-sucedido. E essa nova dinâmica poderia ser criada após uma certa aposta. Por exemplo, quando há pouco falei numa estratégia de desenvolvimento, parece-me que caberia ao Ministério da Economia liderar uma redefinição de estratégia - envolvendo-se, obviamente, com a saúde, mas também indo buscar o apoio da ciência, da educação e dos próprios negócios internacionais.

Isso atrairia bons profissionais para Portugal?
ADC -
Aliás, não é por acaso a velha expressão da OMS "saúde em todas as políticas", que diz que temos a obrigação e o dever de fazer a saúde estar presente no ambiente, na economia, na educação, na indústria, nos transportes, porque a saúde é verdadeiramente o motor de transformação de uma sociedade. Quase sempre acrescenta valor: as pessoas que deixam de estar impedidas de trabalhar por estarem doentes, a questão da saúde mental, do acesso em tempo útil aos cuidados de saúde adequados, tudo isto tem um valor brutal para a economia e também para a qualidade de vida e para a dignidade da condição humana num país que está a ficar cada vez mais envelhecido e mais dependente dos serviços de saúde.

Que política pública pode incentivar mais a reter?
ADC - Há que separar dois tipos de problemas: hoje vivemos na União Europeia um défice muito acentuado de médicos e enfermeiros, mas em todos os países há défice de médicos. E temos ainda a dificuldade adicional de não termos todos ao mesmo nível de rendimento. O problema da falta de médicos na União Europeia é porque as necessidades de saúde não param de aumentar, e iremos ter um problema cada vez maior com o envelhecimento. Vamos precisar de muito mais médicos, de muito mais enfermeiros, farmacêuticos, etc. Há um aspeto importante que é a Europa não ser toda igual, tem mecanismos de competição pelos recursos que são diferentes. Assisti a discussões europeias sobre as relações entre a Polónia e a Alemanha, entre França e Bélgica, os países mais ricos que tendem a absorver os recursos dos países mais pobres. Há aqui um problema de aferição da expectativa de rendimento, das condições de carreira e das condições de exercício da profissão. Por outro lado, em Portugal, além do aspeto externo - e atenção que alguns médicos ou enfermeiros saem por razões económicas mas outros saem porque querem ter uma experiência internacional -, todos sabemos que o setor privado tem outro tipo de liberdade de contratação, às vezes tem mais equipamento, mais tecnologia, portanto o setor público tem de fazer rapidamente duas coisas: não podendo pagar nunca tanto como paga o setor privado, tem de garantir um projeto profissional de vida que esteja muito além do cumprimento do horário.

Isso não acontece?
ADC -
Os médicos, os enfermeiros e outros técnicos têm de ter a possibilidade de ensinar, de investigar, de se diferenciarem, e temos de ter as plataformas tecnológicas, que têm de ser competitivas. Quando olhamos para um hospital público envelhecido, com equipamentos que estão obsoletos, e ao lado está o equipamento de um privado, todo ele muito atualizado, há este risco de motivação para o jovem profissional. Não é uma tarefa fácil, exige sobretudo valorizar o projeto de vida assumindo que, por um lado, o setor público não poderá pagar os valores que o mercado pode pagar, mas tem a obrigação de definir caminhos e trajetórias profissionais. Não parece, e tenho dito isto várias vezes, e mantenho, que neste contexto seja o impedimento administrativo ou a fixação à força das pessoas dos serviços que resolvam o problema. É introduzir modelos em que há uma remuneração com base em incentivos pela qualidade, pelo desempenho, e fazer isso nos hospitais também com centros de responsabilidade integrada, em que os melhores são mais bem compensados. Estão a chegar à saúde profissões novas, nomeadamente cada vez mais precisamos de engenheiros, físicos, bioquímicos, biólogos, mas também na engenharia, na eletrónica, nas tecnologias. Portugal, enquanto se aproxima ou tem vontade de fazer parte dos países que estão na linha da frente da inovação, tem de resolver um problema, que está por resolver ainda, que é o diferencial, sobretudo para as profissões mais diferenciadas do salário médio europeu comparativamente ao salário médio português.

A política de rendimentos tem ou não sido atrativa para reter talento na área da farmacêutica?
LP -
Quando há um objetivo maior, procuramos servir esse objetivo maior e, portanto, temos de arranjar condições para que ele aconteça. E deixe-me dar um exemplo da Bial: quando começámos os nossos projetos de investigação e desenvolvimento, tínhamos dificuldade em atrair bons profissionais, e, ao longo dos anos e nas últimas três décadas, fui vendo com muita satisfação que não só os portugueses do Porto, da região Norte, da região Centro, de Lisboa iam para o Porto e vão para o Porto com satisfação viver para trabalharem connosco, como também começamos a atrair profissionais de qualquer país europeu, pois temos ingleses, franceses, alemães, russos.

Quantas nacionalidades tem na Bial?
LP - Vinte nacionalidades, no departamento de investigação temos 170 pessoais, das quais perto de uma centena são doutorados de 20 países diferentes, praticamente todos europeus; penso que só temos dois brasileiros. O que queria dizer é que havendo um projeto, havendo algo que dinamize em torno de objetivos maiores, as pessoas sentem-se conquistadas por isso e naturalmente as instituições, neste caso a Bial, também têm de abrir os cordões à bolsa e ir buscar bons profissionais. Os bons profissionais que vêm trabalhar para a Bial vêm de multinacionais farmacêuticas europeias e de universidades europeias, a maioria já com doutoramento. Mas os jovens contratamos em Portugal, aliás, temos muito bons jovens em Portugal nas mais diversas áreas, e temos tido capacidade para atrair estas pessoas pagando um bocadinho acima. Os jornais falam muitas vezes de o salário mínimo nacional ser relativamente baixo, mas a mim o que me preocupa é o salário médio português, que está, de facto, muito abaixo daquilo que é na Europa. Portanto, desejo que haja uma dinâmica global na saúde que traga a satisfação aos profissionais que assumem as suas responsabilidades neste setor, para poderem correr por causa própria e com satisfação. Volto à coragem, pois é preciso uma certa coragem política para fazer acontecer.

É conhecido o robot Watson da IBM aplicado à saúde. A inteligência artificial vai ficar-se pelo diagnóstico ou atender em consulta? O que antevê?
LP -
Não sou um expert nessa área, aprecio muito a evolução que tem havido e sigo com atenção. Preocupa-me que o doente esteja sempre no centro do sistema e que o profissional de saúde tenha sempre a dose de humanismo para tratar a pessoa como pessoa, e acho que não há robô que consiga fazer isso. E esse humanismo aumentou durante a pandemia ou os médicos foram de tal forma abalroados pela covid-19 que o humanismo terá desaparecido? Tenho uma grande admiração pelos profissionais de saúde em Portugal, nomeadamente pelos médicos e enfermeiros. Acho que foram absolutamente excecionais durante a pandemia. Custa-me muito ver os médicos sentados a olhar para o computador em vez de estarem sentados a olhar para as pessoas. Gostaria que as pessoas fossem realmente o centro de atenção dos profissionais de saúde, nomeadamente dos médicos. Relativamente à tecnologia, acho que há muita coisa pela frente, deverá haver uma nova vaga e uma evolução fantástica. Mas estou um bocadinho com os autores, que também falam deste tema de uma forma muito pragmática, e a verdade é que temos uma digitalização para ser feita na saúde em Portugal, temos um caminho que é imperioso que se faça e que se faça já. É necessário que cada português tenha o seu registo nacional de informações clínicas e que esteja disponível para qualquer profissional de saúde, a todo o momento, e para o próprio utente.

© Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Com ligação entre o público e o privado?
LP -
Não estava a pensar nisso, mas quando houver um fácil acesso aos dados de toda a comunidade mais facilmente se pode estudar o que a comunidade tem, quais as linhas de tendência em termos das mais diversas patologias, e isso pode ser utilizado em benefício da pessoa e do utente.

Concorda?
ADC - Acompanho aquilo que o Luís disse de a transformação digital ser de uma grande utilidade para vencer a burocracia, os processos inúteis, os papéis, enfim, aquilo que faz da vida de um utilizador do sistema um inferno. Concordo que o registo de saúde eletrónico nacional, que é propriedade de cada um de nós, permita que circulemos no sistema com mais segurança, além de evitar a redundância de exames. Sou um bocadinho mais conservador na ideia de que agora passámos do mundo da humanidade para uma produção ou relação estritamente virtual. Primeiro, há um enorme risco, porque a medicina é uma profissão personalizada, a disponibilização dos cuidados em cima da máquina tem de ser evitado, até porque não conhecemos o doente sem estarmos com ele. Há que evitar a despersonalização da medicina em nome de uma pseudotransformação tecnológica, e, por outro lado, não acredito que os robôs consigam fazer a robotização das emoções.

Que conselho gostariam de dar à senhora ministra da Saúde em relação ao futuro do setor?
LP -
Se a Dra. Marta Temido estivesse aqui, era capaz de lhe sugerir que lesse pelo menos o prefácio e que depois, a partir daí, lesse o que entendesse.

ADC - A recomendação que faria é que agregue, congregue e alargue. Ou seja, a saúde é um tema demasiado complexo e demasiado ligado a cada um de nós para que seja uma matéria de divisão ou de fação. Devemos procurar discutir com todos para que as medidas tomadas sejam sustentáveis a longo prazo e, depois, a contestação, as greves, as críticas que os setores profissionais fazem, são um ónus que está agarrado à condição de ministro, mas não devem fazer-nos desistir de estabelecer um pacto com os profissionais. Podemos ter 50 ou 60 ministros fantásticos, mas se não tivermos aquilo que é o conjunto dos atores que fazem as profissões e que estão junto dos doentes, mobilizados e motivados para prosseguir esse caminho, nunca teremos sucesso.

Veja aqui a entrevista completa, em vídeo:

rosalia.amorim@dn.pt