Alunos convidados a pôr-se no papel de prostituta ou explorador sexual

Uma pergunta com duas opções num teste da disciplina de Português, do 9.º ano, envolvendo o tema da prostituição, está a deixar a Escola Gabriel Pereira em alvoroço. O diretor diz que a instituição está a ser alvo de uma campanha difamatória

Nem a Alcoviteira - personagem do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente - conseguiu tamanha proeza: num piscar de olhos, a Escola Secundária Gabriel Pereira tornou-se famosa, graças a uma publicação na rede social Twitter que denunciava uma pergunta de um teste da disciplina de Português envolvendo o tema da prostituição.

Numa publicação datada do último dia de janeiro, a advogada Ana Fonseca divulgou uma fotografia do teste, datado de 23 desse mês. A pergunta polémica tinha duas opções, ambas sobre o tema da prostituição. "Coloca-te na pele de uma jovem mulher que caiu numa rede de prostituição. Escreve, com cuidado, um texto (150-180 palavras) em que reveles as circunstâncias que conduziram ao crime e o drama vivido pela vítima, através do seus pensamentos", lê-se no enunciado da prova, seguindo-se outra opção: "Coloca-te na pele de um explorador sexual. Escreve, com cuidado, um texto (150-180 palavras) em que reveles as circunstâncias que conduziram ao crime e os argumentos para aceitação/rejeição do mesmo pelo criminoso, através dos seus pensamentos."

No Twitter, foram vários os utilizadores que propagaram a fotografia do teste, que chegou a ser apontado por outros como "fake". Não era.

O diretor do Agrupamento de Escolas Gabriel Pereira, Fernando Farinha Martins, confirmou ao DN a autenticidade da ficha. Soube do caso na noite de terça-feira, quando as televisões começaram a contactar a escola. "Tratei de fazer logo as minhas averiguações e de convocar para as 8h30 da manhã seguinte as professoras daquele ano de ensino, bem como a coordenadora de departamento", disse o professor, que há três mandatos dirige aquele agrupamento de escolas.

"Tecnicamente as questões poderiam ter sido colocadas de outra forma", admite, embora considere que, por detrás desta polémica, há mais alguma coisa: "Há aqui uma intenção clara de prejudicar o agrupamento", afirma aquele responsável, justificando que "o assunto não pode ser retirado do contexto". E esse qual é, afinal?

"Pela leitura do enunciado do exercício em causa, e para quem esteja fora do contexto das Aprendizagens Essenciais do 9º ano, poderá parecer exigente ou desadequado mas, de acordo com a análise literária da peça de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, representa um exercício pedagógico para aplicação do que foi ensinado em aula, tendo como objetivo a construção de um juízo crítico", explica o diretor do agrupamento, num comunicado divulgado esta quarta-feira.

"É prática comum na disciplina de Português levar os alunos a reconhecer os valores culturais, éticos, estéticos, políticos e religiosos manifestados nos textos, suscitando um paralelo com a atualidade e com as problemáticas sociais", acrescenta Fernando Martins.

O teste, da disciplina de Português, aconteceu "no âmbito de um trabalho colaborativo com a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento", explica o diretor. Na obra de Gil Vicente, "há uma relação de prostituição encoberta - através da personagem Brisída Vaz, a Alcoviteira - e, no fundo, um paralelismo com coisas que se passam hoje, na sociedade", afirma o professor, explicando que "embora os alunos, hoje, sejam mais infantis, têm muito mais informação. E esses temas são discutidos nas aulas de Português e nas aulas de Cidadania".

"A professora entendeu que eles deveriam colocar-se num destes papéis. Se fosse eu, provavelmente teria feito as questões de outra forma", reforça o diretor, que ainda assim repudia "a divulgação destes conteúdos nas redes sociais, completamente descontextualizados".

"O que se passa aqui é outra coisa. É alguém que não está sequer relacionado com a Escola, que tem filhos num colégio privado (os Salesianos), e que apenas se diz amiga de um pai daqui. Ora, até agora, nenhum pai nos abordou com qualquer questão relacionada com o teste", adianta o diretor do agrupamento Gabriel Pereira.

Início do ano com o governo

A Escola Secundária que agora saltou para as bocas do mundo através do Twitter foi a mesma que o governo escolheu para assinalar a abertura do presente ano letivo. Dias depois da presença do primeiro-ministro, António Costa, e do ministro da Educação, João Costa, naquele agrupamento do Alentejo, a escola foi abalada por outra polémica: "Alguém ligado ao Chega tentou criar aqui problemas, por causa de uma situação entre um aluno brasileiro que tinha chegado há pouco e uma professora de português", revela o diretor da Secundária Gabriel Pereira.

Entre as 10 escolas do Agrupamento e os seus 2500 alunos, contabilizam-se cerca de 280 alunos estrangeiros, correspondendo a 75 nacionalidades.

"Acreditamos numa escola na qual se fomente a responsabilidade da comunidade educativa, a promoção de medidas que visem o empenho e o sucesso escolar, a integração sociocultural, o desenvolvimento de uma cultura de cidadania mobilizadora e respeitadora da liberdade individual e do cumprimento dos direitos e deveres que lhes estão associados", refere o comunicado de Fernando Martins. Ao DN, este engenheiro que há 30 anos trabalha no ensino revela ainda que o agrupamento "tem um técnico quase a tempo inteiro a trabalhar a integração de todos eles".

"Quando aqui cheguei estávamos a perder alunos. E agora temos a escola cheia. Mas isso suscita inveja", conclui o diretor. Em Évora há quatro agrupamentos, com três Escolas Secundárias, a que se junta ainda o colégio dos Salesianos. No último ranking, a Gabriel Pereira foi a que obteve melhor classificação em toda a zona sul.

dnot@dn.pt

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