Algarve 2016. Quase todos os caminhos vão dar a Vilamoura

Não há receita que garanta casa cheia, mas bons DJ e festas anunciadas no Facebook ajudam. Só o Seven investe 700 mil euros no verão

Já lá vai o tempo em que todos os caminhos iam dar ao mesmo lugar quando o Sol se punha no verão algarvio. Sem receita certa para garantir filas à porta, a casa que melhor souber vender-se no Facebook, que mais fãs captar para os seus grupos, aliciados com DJ da moda e festas temáticas, é a que ganha o verão. E nesta batalha para conquistar clientes vale quase tudo para marcar a diferença - até zonas privadas onde se paga no mínimo 300 euros para entrar.

Durante dois meses, a festa volta a fazer-se no Algarve, com a chegada de milhares de pessoas para as férias de verão. E Vilamoura continua no centro das atenções - neste ano, com uma casa a queimar os últimos cartuchos. O Água Moments não resistirá à transformação em curso na Marina de Vilamoura, liderada pela empresa Lone Star. "A marca continua, só não sabemos como vai ser em relação ao espaço", explica o dono do grupo No Solo, Franco Lorenzi. Razão pela qual admite estar "especialmente focado na operação deste verão" - o slogan promete: "Vive este verão como se fosse o último."

Se há uma despedida, também tinha de haver uma estreia: um segundo espaço Seven - desde o arranque associado ao ex-cunhado de Ronaldo, José Pereira. José Rafael revela que investiu 700 mil euros para fazer o melhor verão. Sobre as ligações a CR7 e a "estrutura da empresa", o homem que nos últimos quatro anos levou milhares de pessoas ao Hotel Tivoli Marina não quer falar. Mas conta que a nova aposta no V Lounge é fruto de uma estratégia de negócio. Depois de anos em que a esmagadora maioria dos clientes se dividia entre o T-Clube, na Quinta do Lago, e a Casa do Castelo, em Albufeira, "o Seven quer ocupar esse espaço. Vilamoura tem de ter uma oferta diferenciada e de qualidade e temos de perceber o que é que queremos", explica José Rafael.

A tarefa não é fácil. Até porque, uma década depois de a Casa do Castelo fechar, o negócio mudou muito. Desde logo na forma como se atrai clientes, que passa hoje fundamentalmente pelas redes sociais. É sobretudo no Facebook que estão anunciados os eventos, os DJ cabeças de cartaz, os nomes que animam as noites - e essa competição começa semanas antes de qualquer festa.

Nesta batalha, os empresários que também têm casas em Lisboa partem com vantagem. A razão é simples: a maior parte dos clientes que no resto do ano fazem as suas noites no Place (Cais do Sodré) ou se divertem no Main (antiga Kapital, na 24 de Julho) e no Böoks (antigo Bananas, em Alcântara), no verão muda-se para o Seven ou para o Bliss, que pertencem aos mesmos grupos que aquelas discotecas lisboetas. Para assegurar a fidelidade dos clientes, os empresários fazem até questão de levar uma parte das equipas que trabalham em Lisboa para o Algarve, durante estas semanas. Ainda assim, há espaço para contratar localmente: de acordo com as informações recolhidas pelo DN junto dos responsáveis de 11 espaços (ver caixa à direita), são cerca de 700 pessoas que ali têm emprego garantido.

O verão que se faz em 30 festas

Os espaços de diversão noturna do Algarve dividem-se em dois modelos. As casas que estão abertas praticamente todo o ano e os espaços temporários: concessões camarárias que funcionam durante um período de três semanas a um mês - e que, desde que a ideia pegou, deixam empresários como José Manuel Trigo e Liberto Mealha de cabelos em pé. "Estes espaços vieram penalizar os que estão abertos todo o ano", diz Liberto, veterano da noite algarvia e que é também presidente da Associação Algarvia de Discotecas. Entre as dezenas de marcas que surgiram desde 2006, "alguns chegaram à conclusão que isto não é o eldorado. Os custos de operação são altos e ter de pagar DJ, festas e não estando nos sítios prime... chegam ao fim e não sobra nada", explica.

O empresário que trabalha há mais de 30 anos nesta área revela quanto custa ter uma casa como o Liberto"s a funcionar. "São 18 mil euros de vencimentos, nove mil de Segurança Social, três mil de eletricidade, 500 euros de água, 2100 mensais para um segurança. E ainda há a Sociedade Portuguesa de Autores, que anda à volta de 800 a 900 euros por mês, e a Pass Music, que são mais uns 300. Tem de se faturar mil euros por dia para pagar todos os custos - e nem sequer estou a contabilizar a mercadoria, que implica uns 250 euros por dia. Em agosto consegue-se ter lucro, mas no resto do ano não", garante o empresário que, a par de José Manuel Trigo, tem sido a voz mais ativa contra as concessões de verão.

O dono do T-Clube partilha desta visão. Por causa dos constrangimentos do mercado, neste verão José Manuel Trigo não abre a discoteca Trigonometria. "Adaptámo-nos, mantendo as nossas regras. Não temos privados, não temos a porta do VIP e a porta do cão. Com todo o respeito, até é quase uma ofensa. Se as pessoas procurassem um pouco de qualidade, achavam estranho entrar pela porta do cão", atira o empresário.

O ataque tem destinatário: espaços como o Bliss e o Seven Vilamoura, que incluem áreas VIP onde ficam as figuras públicas (muitas delas a convite dos relações-públicas das casas) e onde clientes com mais dinheiro pagam valores que podem ir dos 300 aos cinco mil euros para desfrutarem de uma maior privacidade.

"Uma celebridade tem sempre um peso para o público. Nós não pagamos a figuras públicas, as pessoas vão porque querem", garante Diamantino Martins, responsável pela equipa de relações públicas do Bliss. Por noite, o espaço chega a receber "entre cinco e sete mil pessoas". Um número de respeito, conquistado ao longo de cinco anos e que, neste verão, permite à empresa apostar numa segunda casa: a discoteca Capítulo V, na praia da Oura, Albufeira, rebatizada de Salt Beach Club.

Há vida além de Vilamoura?

Paulo Lopo acredita que sim. O empresário estreia-se neste ano no negócio da noite com o Portimão Summer Experience, na Praia da Rocha, espaço que recebeu em anos anteriores o Sasha Summer Sessions e o Meo Spot. "Adoro desafios, isto é uma coisa completamente fora do que faço no dia-a--dia", começa por explicar. Lopo, um dos sócios da Sociprime Field Merchandising, explica que só avançou com o projeto porque este "foi aprovado por unanimidade" pela autarquia.

Além de DJ e figuras públicas (garantidas pelos relações-públicas Paulo Piteira e Mariama Barbosa), Paulo Lopo pretende que o Summer Experience seja um espaço que também atraia os portimonenses. "A cidade tem um bocado a ideia de que os promotores chegam cá, lançam um projeto para forasteiros e vão-se embora no final. As pessoas sentem-se usadas. Quero envolver a cidade no projeto", explica.

Apesar das águas mais quentes e dos areais mais extensos - qualidades que atraem cada vez mais turistas -, o Sotavento tem um défice crónico de espaços onde esses visitantes se podem divertir depois de o Sol se pôr. "Sozinhos não puxamos a carroça. Se houvesse mais espaços de certeza que atraía mas clientela." As palavras são de Rogério Germano, gerente do Clube Praia Verde, situado no concelho de Castro Marim. A discoteca, que só abre 12 noites ao longo do verão, não aposta tanto nos grandes DJ da moda, mas nas festas temáticas. Um conceito mais descontraído, para agradar a um público de "classe média, não só economicamente mas também na faixa etária".

O espaço fica a menos de dois quilómetros de outra casa que, de ano para ano, vai conquistando uma clientela fiel: o Sem Espinhas Natura Beach Club, de Frederico Folque. Situado no areal da praia do Cabeço, é restaurante de sushi e comida biológica durante o dia e a partir das 17.00 transforma-se, com "um conceito de sunset/noite". "Cada final de tarde tem um conceito diferente, que vai desde o reggae ao r&b", explica Frederico. Tal como Rogério Germano, o empresário natural do Porto lamenta a falta de visão e empreendedorismo, que se traduz na quase ausência de oferta na zona. "Aqui respira-se uma mentalidade muito local", diz. Mas o empresário tem esperança na nova geração, sobretudo naqueles que "procuram formação". A existência da Escola de Hotelaria e Turismo em Vila Real de Santo António, explica, tem contribuído decisivamente para o crescimento de mão-de-obra especializada. E essa nova geração ainda pode trazer muito aos verões algarvios.

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