"Ainda não temos a bala mágica que faça regredir"

O coordenador da Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Clínico Champalimaud fala sobre os avanços que a ciência tem tentado fazer na área das demências. Acredita que é possível chegar a uma cura da Alzheimer, mas lembra que ainda estamos longe.

Quais os principais desafios que a doença de Alzheimer coloca aos cientistas?

De um ponto de vista genérico, o aumento da presença desta doença na sociedade tem a ver com longevidade, o principal fator de risco é o aumento da idade. É um resultado negativo de uma coisa positiva. O grande desafio é como responder às pessoas que já estão doentes, responder às suas necessidades específicas, aos grandes gastos de recursos, o peso social, uma grande fragilidade desta população.

A ideia de que se pode prevenir a Alzheimer é ainda muito distante da realidade?

O que podemos fazer, olhando para o futuro, para tentar prevenir que os números sejam equivalentes ou maiores que os de hoje, é a manutenção de aspetos gerais da saúde, como a alimentação saudável, o colesterol ou a hipertensão. Mas há outras questões mais específicas que estão relacionadas com a manutenção de atividade intelectual, da estimulação intelectual mesmo nos mais idosos, intervenções biológicas mais eficazes, há muitas ideias em cima da mesa, tanto ao nível de medicação como de vacinas, mas nada que seja uma promessa imediata. Houve muita esperança no passado em relação à possibilidade de impedir algumas proteínas, que se pensava estarem ligadas ao desenvolvimento da doença, de se alojarem no sistema nervosos central, mas os ensaios não foram promissores.

A falha nesses resultados também tem a ver com o facto de ainda sabermos pouco sobre a doença?

Às vezes tem também a ver com o que se faz, a segurança das intervenções, a dificuldade em testar determinadas intervenções. Depois também temos dificuldade em saber quem vai sofrer da doença, não temos marcadores precoces da sua ocorrência. Há uma série de desafios que dificultam a procura de metodologias e soluções novas, para a prevenção, mas também para o tratamento. Os avanços na ciência básica são fundamentais para conseguirmos ter visões novas dos processos mecanísticos da doença. Uma das questões é: será que há alguma coisa para marcar cedo quem vai sofrer da doença. Perceber também os mecanismos celulares e moleculares da doença pode ajudar a encontrar substâncias mais eficazes no tratamento. Até agora o que temos são medicamentos que parecem atrasar um pouco a evolução da doença, mas não são curativos nem fazem regredir o que já avançou e não são satisfatórios.

Ainda está longe de se descobrir uma cura?

Há muitos caminhos distintos, em relação aos quais há muito trabalho a ser feito. Mas pode haver uma coisa que é uma promessa estupenda e depois pode não ser. É preciso ser muito cuidadoso na forma como se comunicam estes resultados. Há abordagem de estimulação cerebral não invasiva, por exemplo, onde já se está muito próximo de testar tratamentos novos. Mas, a bala mágica, a intervenção muitíssimo eficaz que faça regredir isso nós ainda não temos. Estamos muitos limitados ainda no tratamento.

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