A violinista que veio da Polónia para encontrar um lugar no fado

Natalia Juskiewicz, violinista polaca formada pela academia de música de Poznan. Desde o ano 2000 em Portugal, hoje leva a música portuguesa além-fronteiras com o projeto Um Violino no Fado

Afinal a saudade não é um exclusivo português. Também se sente em polaco e escreve-se tesknota. "O sentimento que está à volta da palavra é igual e, tal como em português, também é muito difícil de definir", explica Natalia Juskiewicz. "Temos saudades do passado e do futuro. De algo que vivemos ou que talvez nunca venha a acontecer. Por isso o fado tem muitos admiradores na Polónia. As pessoas são capazes de reconhecer essa coisa que é mais forte e que vai além do estilo musical. O nosso fado, aquilo que expressa a alma do povo, é a música do Chopin, que também tem muita saudade lá dentro. Existem muitas proximidades entre a mentalidade dos portugueses e dos polacos", resume a violinista, que se mudou para Lisboa há 16 anos.

Natalia nasceu em Koszalin, no Norte da Polónia, a paredes-meias com o mar Báltico. Prefere não dizer o ano, porque "os artistas não têm idade". Lembra-se de crescer com histórias da II Guerra. Os dois avôs morreram às mãos dos nazis. "A Polónia tem um sofrimento muito marcado, que passa de geração em geração." Talvez tenham sido a dor e a ausência, fruto das muitas batalhas e das longas lutas pela independência, que fizeram nascer a palavra tesknota. "Há um certo pessimismo que liga os dois povos", explica Natalia.

A ligação ao violino começou na infância. Tinha seis anos quando na primária fizeram uma audição para avaliar a musicalidade e o sentido rítmico de cada criança. Pouco tempo depois os pais receberam uma carta com um convite para levar a filha a participar em audições para a escola de música. "Costumo dizer que a minha aventura na música começou por acaso, embora acredite que tudo tem um propósito", conta. Foram as mãos que a empurraram para o instrumento que a acompanha desde então. "Na altura era mais gordinha e tinha os dedos assim tipo salsichas. Acharam que podia funcionar com o violino. E assim começou. Foi o destino", resume Natalia.

Aos poucos, com treino diário, os sons que arrancava das cordas foram-se transformando em melodias e o som do instrumento acompanhando a melancolia do povo. "Há muito lamento no violino." E a forma como encaixa no corpo de quem o toca aproxima-o ainda mais dos sentimentos. "Seguramo-lo com as mãos, mas está a tocar-nos a cabeça e, ao mesmo tempo, muito perto do coração", explica Natalia. Talvez seja por isso que se sente em casa entre os fadistas. A primeira vez que ouviu fado foi na Polónia, num concerto de Carlos do Carmo transmitido pela televisão. Estava longe de imaginar que um dia viriam a partilhar o mesmo palco.

Depois de concluir 17 anos de formação musical e de formar-se pela Academia de Poznan, "uma das escolas mais conceituadas do mundo", Natalia tocou em várias orquestras polacas, ao mesmo tempo que ia trabalhando como solista. No final dos anos 90 veio de férias a Portugal, com os pais e um casal amigo. Apaixonou-se pelo país. "Senti-me muito bem devido à simpatia, hospitalidade e carinho das pessoas", sintetiza.

Nesse momento passou-lhe pela cabeça a ideia de tentar a sorte em Portugal, mas primeiro queria estabelecer contactos profissionais. Regressada à Polónia e em conversa com outros músicos, soube da possibilidade de fazer audições para a Orquestra do Norte. "Vim em janeiro de 2000 e passei sete meses em Penafiel. Fizemos muitos concertos e ensaiávamos todos os dias no Mosteiro de Paço de Sousa", conta. Só lhe custou o frio, apesar de vir do Leste, onde as temperaturas costumavam baixar até aos 20 graus negativos no pico do inverno. Mas por cá o clima é mais húmido e as casas não estão tão bem preparadas para os dias mais gélidos.

Gostou do Norte e de Penafiel, mas tinha na ideia mudar-se para a zona de Lisboa. Fez audições para a Orquestra Sinfónica Portuguesa e para a Metropolitana. Instalou-se na capital e começou a colaborar com as duas, o que ainda hoje acontece. Mas nunca quis uma ligação profissional permanente. "Queria ter espaço para fazer outras coisas e para a minha carreira como solista", esclarece. O projeto Um Violino no Fado nasceu apenas em 2010. Uns amigos disseram--lhe que tinha alma fadista e ela decidiu experimentar pôr o violino no lugar da voz e deixar-se acompanhar pela guitarra portuguesa. Começou por gravar dois temas, Canção do Mar e Com Que Voz. A ousadia foi bem recebida, mesmo pelos mais puristas, e o disco nasceu em 2011.

"Costumo dizer que sou portulaca. Não me sinto uma polaca em Portugal. Não quero que pareça pateta, mas quando oiço o hino português comovo-me. Por isso esta ligação que tenho ao país é mesmo muito profunda", resume Natalia. No início foi-lhe difícil lidar com a falta de pontualidade crónica dos portugueses, mas agora diz-se acostumada. "Habituei-me a essa descontração. Já não penso que seja algo negativo, até pode ser bom para a saúde. Na Polónia somos mais rígidos e mais metódicos. Talvez demasiado tensos", explica.

Em comum, entre os dois povos, aponta o calor humano. "No início os polacos são mais reservados do que os portugueses, mas também temos o coração na mão", diz Natalia. E depois há a tesknota. Também há quem lhe chame saudade.

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