"A seca é um dos problemas políticos mais complexos das próximas décadas"

Depois de um verão quente e seco, os próximos meses podem não ser fáceis. Em Espanha, os agricultores já pediram, inclusive, que o governo trave a cedência de água a Portugal prevista nos acordos de Albufeira. Ao DN, o presidente da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas diz não compreender a falta de discussão do tema a nível ibérico.

Em seca severa (55,2%) ou extrema (44,8%): Esta era a situação a nível nacional, no início do mês de agosto, depois daquele que foi o julho mais quente desde que há registo. Os dados do mais recente Relatório de Monitorização Agrometeorológica e Hidrológica, feito pelo Grupo de Trabalho de assessoria técnica à Comissão de Acompanhamento dos Efeitos da Seca mostram de forma objetiva a difícil situação que o país atravessa devido à escassez de água.

Depois do verão mais quente desde 1932, os próximos meses podem não ser fáceis. Quem o diz é o presidente da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, Rui Godinho. "Gostava de ter uma expectativa mais positiva em relação a este assunto, mas a verdade é que se pensa que a situação será grave", alerta o responsável, apesar de não ter dados "a médio/longo prazo".

O que leva, então, a esta forma de pensamento? "O relatório é feito mensalmente desde 2017, um ano gravíssimo em termos de seca porque foi muito além do verão. E cada vez mais vemos que a seca é uma questão sistémica", diz Rui Godinho, acrescentando: "A seca é um dos problemas políticos mais complexos das próximas décadas", não só a nível nacional.

Na passada segunda-feira, cerca de três mil agricultores espanhóis das províncias de León, Zamora e Salamanca manifestaram-se para exigirem o fim do Acordo de Albufeira. Assinado em 1998 (e em vigor desde 2000), este compromisso prevê a gestão conjunta e o uso de água das cinco bacias hidrográficas comuns, entre as quais a do Douro, por força do qual terão de chegar a Portugal 870 hectómetros cúbicos de água (650 dos quais de duas barragens espanholas, o que equivale a mais de metade da água armazenada).

"Há muitos dados técnicos sobre o assunto, não falta informação técnica. O que falta? Decisões políticas fortes, de continuidade."

Esta situação, para Rui Godinho, "é um exemplo concreto" de que faltam "soluções políticas concretas" para resolver o problema da seca na Península Ibérica - até porque pertence à bacia do Mediterrâneo, uma das regiões que será mais afetada pela seca no futuro.

"Não se entende como é que o tema da água, e da seca em concreto, não se discute ao nível das cimeiras ibéricas que se realizam", considera o presidente da APDA, para quem ainda há "muito a fazer" nesta área, sobretudo ao nível das políticas públicas, para resolver o problema. "Há muitos dados técnicos sobre o assunto, não falta informação técnica. O que falta então? Decisão políticas fortes, de continuidade."

Diálogo ibérico "é mais do que bem-vindo"

Neste sentido, o governo anunciou na quarta-feira, pela voz do ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) está em contacto permanente com os congéneres espanhóis para procurar encontrar soluções. As declarações do ministro foram feitas numa audição parlamentar na Comissão de Ambiente e Energia, em resposta a uma pergunta do líder parlamentar do Bloco de Esquerda sobre a gestão da água e escassez em Portugal.

Para o presidente da APDA, "todas as iniciativas de diálogo entre ambas as partes são mais do que bem-vindas. Este é ou devia ser o caminho". E deixa o alerta: "Apesar disso, e de serem dados passos mais técnicos para certas situações - como o foco em soluções para compensar a falta de volume nos caudais -, é importante que haja um diálogo institucional nas esferas mais altas também, não apenas ao nível das associações."

Do ponto de vista de Rui Godinho, "o custo de não tomar medidas concretas é muito maior do que qualquer investimento que se faça para prevenir e combater a seca. Já para não falar dos custos económicos e humanos associados à seca", diz o presidente da APDA, para quem "a falta de água vai ser, seguramente, a próxima pandemia em termos de baixas humanas".

Esta perspetiva foi, de resto, confirmada pelo relatório Drought 21 (Seca 21), organizado pela Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres, apresentado na última COP21. "É cada vez mais um problema sistémico, como prova o relatório", considera o responsável.

Conferência pretende chegar a soluções concretas

Tendo em conta a "premência e criticidade do tema", a APDA decidiu organizar uma conferência "para tentar chegar a soluções e medidas concretas para apresentar ao governo", diz o presidente.

A Conferência A Urgência da Água: do Ambiente à Economia decorre esta quinta-feira no Pavilhão do Conhecimento e João Galamba, secretário de Estado do Ambiente e da Energia, estará presente.

"A falta de água vai ser, seguramente, a próxima pandemia em termos de baixas humanas."

Sobre esta iniciativa, Rui Godinho diz que a intenção é "mesmo a de organizar mais no futuro". "Queremos ser parte da solução e dar soluções para aquele que é um problema cada vez mais sistémico. Há que mobilizar o país para discutir este tema que muitas vezes é esquecido nos debates no espaço público", afirma Rui Godinho.

Ao longo do dia, serão discutidos temas como "o stress hídrico, a arquitetura institucional da gestão de água" ou os "problemas pendentes nos serviços de águas", anuncia APDA em comunicado. Com a intenção a ser a realização de conferências semelhantes no futuro, Rui Godinho dá já pistas para uma eventual próxima edição: "Há que discutir também a evolução tecnológica e a aplicação destas ferramentas ao serviço da gestão de águas."

rui.godinho@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG