A história de uma fuga que acabou na Nazaré

Depois da guerra na Síria, Talal e Muchima encontram refúgio na Nazaré

Portugal já acolheu quase 400 refugiados recolocados desde dezembro, pessoas como Talal e Muchima, um casal sírio que, depois de muitas tentativas, conseguiu fugir com os sete filhos para encontrar refúgio na Nazaré.

A história desta família de nove pessoas é semelhante aos cada vez mais frequentes relatos de quem vive num país em guerra e pretende a todo o custo fugir aos confrontos e encontrar um local onde possa viver em paz.

Com a ajuda de Khalifa Ben Salem, um português de origem tunisina que reside na Nazaré, foi possível conversar com esta família e ficar a saber que viviam numa aldeia síria onde Talal, 42 anos, trabalhava na agricultura e Muchima, 30 anos, era doméstica.

Mesmo depois da guerra na Síria ter começado, a família, na altura com cinco filhos, não pensou imediatamente em abandonar o país, mas à medida que o conflito se aproximava da aldeia onde viviam, essa necessidade foi ganhando cada vez mais força.

Talal Darwih lembra-se que os dias foram ficando cada vez piores até ao momento em que, de um dia para o outro, ele e mais cinco famílias tomaram a decisão.

"A ideia não era sair do país, mas da maneira como as coisas estavam, com as mortes, os cadáveres, os mísseis a cair todos os dias, tivemos de abandonar a Síria", conta Talal à Lusa.

Da aldeia até à fronteira com a Turquia demoraram cerca de quatro dias. Aí, foram mandados para trás várias vezes e só à quarta tentativa é que conseguiram atravessar a fronteira.

Muchima Darwih é quem conta que só conseguiram passar graças ao chefe da alfândega, que teve pena deles por causa das crianças e os deixou seguir caminho.

Na Turquia foram acolhidos por um familiar, com quem permaneceram dois anos, ao mesmo tempo que iam trabalhando para arranjar o dinheiro suficiente para conseguirem entrar na Europa. É ainda na Turquia que nascem as duas filhas mais novas, Fatima, de quatro meses, e Rimas, com um ano e meio.

O passo seguinte foi o mesmo que para muitos outros refugiados: tentar entrar na Europa através da Grécia.

Mas, mais uma vez, só à quarta tentativa é que conseguiram fazer a travessia de barco, pela qual pagaram 4 mil dólares para os sete terem lugar numa embarcação com mais 600 pessoas.

A viagem demorou pouco mais de uma hora, o suficiente para verem "muitas pessoas morrerem", e acabaram resgatados por um barco grego quando estavam perdidos em alto mar.

E é da Grécia que chegam a Portugal, em março, país que não conheciam, mas que rapidamente se tornou a sua nova casa.

"Quando chegámos ao aeroporto [de Lisboa] a nossa preocupação era como é que seriamos recebidos e para onde íamos. Mas quando chegámos à Nazaré, não há explicação para a forma como fomos recebidos. Sentimo-nos em casa, sentimo-nos em paz e a vida das crianças já está segura", recorda Talal.

A família de nove pessoas foi acolhida pela Confraria da Nossa Senhora da Nazaré, residindo numas instalações da instituição, enquanto não acabam as obras na habitação que lhes está destinada e que deverão estar concluídas nas próximas semanas.

Para o presidente da confraria, Nuno Batalha, este tem sido um processo de descoberta mútuo em que, dia a dia, aprendem a acolher e a integrar, procurando a melhor forma de o fazer o mais rapidamente possível.

"Na cultura destas famílias não está comer a carne como nós a comemos, procuram a carne halal. Nós não sabíamos, estamos a aprender. É um pequeno exemplo de como tudo tem de ser bem pensado e medido. Esta família no fundo também nos está a ajudar a aprender", exemplificou o responsável.

Segundo o presidente da confraria, as principais dificuldades iniciais tiveram sobretudo a ver com problemas burocráticos, desde a aquisição de um número de contribuinte ou a inscrição nas Unidades de Saúde Familiar.

A intervenção divide-se em três partes, desde ao nível dos cuidados básicos, a integração na rede escolar e no mercado de trabalho e, a terceira, a autonomia plena.

Para isso é também importante que a confraria receba a compensação financeira a que tem direito e que foi estipulada pela União Europeia para os refugiados recolocados, mas que, até agora, ainda não chegou.

Verbas que seriam igualmente necessárias para trabalhar a autonomia da família, já que a gestão do orçamento familiar tem sido feita pela instituição.

Entretanto as seis crianças mais velhas - Rimas (18 meses), Shahad (3 anos), Raghd (6 anos), Ali (8 anos), Khaled (10 anos) e Sadam (13 anos) - já estão na escola.

"A primeira coisa que encontrei [na Nazaré] foram amigos que gostaram de mim e o que eu mais quero é aprender a falar português", disse Sadam, acrescentando depois algumas palavras que já aprendeu, como bom dia, boa noite ou os números.

Para Talal e Muchima, Portugal é o país onde as pessoas que os acolheram fizeram com que se sentissem em casa, esquecessem as dificuldades e onde esperam encontrar um trabalho e viver uma "vida normal".

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?