A caminho das zero emissões, Nova Zelândia vai financiar famílias para terem carros "verdes"

É o maior plano de combate às alterações climáticas anunciado por um país. Tal como acontece em Portugal e noutros Estados europeus, o governo neozelandês vai incentivar a compra de carros e veículos elétricos, mas com um alcance social maior e um financiamento global de 4,5 mil milhões de dólares.

O objetivo é tirar 181 000 carros das estradas até 2035 e chegar às emissões zero até 2050. É um dos maiores planos concebidos e anunciados por um Estado para combater as alterações climáticas e tem a assinatura do governo da Nova Zelândia, encabeçado pela popular primeira-ministra Jacinda Arden.

Com o objetivo de reduzir drasticamente as emissões de gases poluentes no país nos próximos 15 anos - de modo a cumprir as metas de limitar o aumento da temperatura média global, que está 1,5 graus celsius acima dos níveis pré- industriais -, a Nova Zelândia alocou mais de 4,5 mil milhões de dólares ao plano e pretende tirar das estradas 181 mil carros movidos a combustíveis fósseis até 2035, anunciou o ministro dos Transportes neozelandês, Michael Wood.

Trata-se do Fundo de Resposta à Emergência Climática, gerado a partir das taxas cobradas a empresas poluentes. Ou seja, não há dinheiro dos contribuintes envolvido, como esclareceu o ministro das Finanças do país, Grant Robertson.
O ministro da Mudança Climática da Nova Zelândia, James Shaw, definiu o plano como o "caminho certo em direção a um futuro de zero emissões", admitindo que "foram necessários 30 anos para chegar à linha de partida".

Tal como já está a acontecer este ano em Portugal, com o apoio dado
pelo Fundo Ambiental do Governo à compra de carros e veículos elétricos (VE), a Nova Zelândia também pretende subsidiar a troca de viaturas tradicionais pelos VE, mas com um alcance social muito maior. Uma grande parte da ajuda estatal, no valor de 500 milhões de dólares, irá essencialmente para famílias das classes baixas e médias, por forma a que possam trocar os seus carros movidos a combustíveis fósseis por híbridos ou VE, na lógica do programa "reciclar e substituir".

Na primeira fase, o pacote vai apoiar a troca de 2500 veículos, mas essa meta vai aumentar gradualmente até se atingir a ambição de tirar 181 000 carros
das estradas. Não vai ser fácil, considerando que o país governado por Jacinda
Arden tem uma das frotas automóveis mais velhas do mundo: a média de idade dos carros é de 14 anos e de 20 quando vão para abate. 150 000 automóveis vão para abate todos os anos, sendo que o total da frota é de 4,4 milhões de carros na Nova Zelândia.

Este programa, em combinação com mais transportes públicos "verdes", melhores ciclovias e passeios pedonais, e mais e melhores comboios com horários frequentes, irá levar a Nova Zelândia a ter 30% da frota de veículos ligeiros (carros, carrinhas e autocarros) no nível das "zero emissões" e a reduzir o total de
quilómetros percorridos por esses mesmos veículos em 20% até 2035. Só para cumprir esta parte do plano - ajuda às famílias e frotas "verdes" - foram alocados 1,2 mil milhões de dólares.

"Este é um dia marcante na nossa transição para um futuro de baixas emissões", afirmou a primeira-ministra Jacinda Arden quando o plano foi anunciado.

Uma parte do Fundo de Resposta à Emergência Climática, no valor de 1,3 mil milhões de dólares, foi destinada à ajuda climática internacional, com metade da verba comprometida com a Zona do Pacífico. Mas o primeiro foco do plano é nos meios de transporte, responsáveis por 17% do total das emissões e que aumentaram 76% desde 1990.

Portugal e EU na rota das "zero emissões"

O ano 2022 é também marcante no percurso da União Europeia para realizar o objetivo global das "emissões zero" em 2030 e, em simultâneo, de tentar travar a continuidade da guerra na Ucrânia e conseguir, mais rápido do que previa, a sua independência energética face à Rússia. Em Portugal, o governo liderado por António Costa decidiu alargar os cordões à bolsa para incentivar os portugueses a uma mudança "verde" e mais imediata. Os incentivos públicos de apoio à transição para a mobilidade elétrica foram substancialmente reforçados este ano. Para além do aumento em valor dos subsídios à compra de carros e bicicletas elétricas, estendem-se também, e pela primeira vez, à instalação de
carregadores nos condomínios privados. Um claro convite para fazer a transição energética, que se impõe, e a caminhar para uma mobilidade mais sustentável.

Por causa do reforço do Fundo Ambiental, que este ano conta com dez milhões de euros para apoiar estas medidas ecológicas, a aquisição de um veículo elétrico passou a beneficiar de um apoio direto de 4 mil euros, em vez dos 3 mil euros que vigorava até ao ano passado. No caso dos ligeiros de mercadorias 100%
elétricos, a comparticipação chega mesmo aos seis mil euros. Não se sabe ainda se este alto nível de incentivos é para continuar mas, para já, 2022 é o ano certo para quem pensa começar a fazer a sua transição energética.

Por toda a União Europeia, sucedem-se os bons exemplos rumo ao objetivo "net zero". Aqui ao lado, em Espanha, o governo criou o programa MOVES (Movilida Eficiente y Sostenible) que este ano vai na sua quarta edição e se traduz num incentivo direito ao cidadão num máximo de 7000 euros na compra de um veículo elétrico que inclua o abate de um carro envelhecido. O programa contou em 2021 com um investimento total de cerca de 400 milhões de euros. Em França, a Câmara de Paris já anunciou que vai banir a circulação de veículos movidos a combustíveis fósseis a partir de 2030. O governo francês criou um programa de apoios à transição energética na mobilidade que pode chegar aos 12 mil euros por cidadão para quem pretenda adquirir um modelo elétrico alimentado por bateria ou fuel cell, com uma componente de incentivo direto e outra referente ao abate de um carro antigo.

Na Alemanha, o incentivo para a eletrificação do parque automóvel traduz-se em apoios que chegam até aos 9000 euros para o consumidor final, havendo também incentivos para a aquisição de híbridos plug-in num valor máximo de 6750 euros. Mais a norte, a Noruega é considerada o país mais amigo do VE na Europa.

Um condutor de elétricos tem uma série de vantagens neste país nórdico, como benefícios fiscais, isenção do pagamento de portagens, entrada grátis em ferry boats em vários portos de cidades norueguesas e estacionamento gratuito.

Fora da União Europeia, o Reino Unido foi o primeiro país do mundo a introduzir uma lei que obriga as novas casas e edifícios construídos de raiz em Inglaterra a terem postos de carregamento para veículos elétricos. A legislação também inclui supermercados e escritórios novos que estejam a avançar com remodelações estruturais. O Reino Unido também decidiu proibir a venda de carros a gasolina ou gasóleo a partir de 2030.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG