850 quilómetros de paixão pela corrida e de amor pela filha

Carlos Lopes participa em provas a empurrar o carrinho de bebé com a protegida lá dentro. Não descura pormenores para proteger Melissa e quer entrar no livro dos recordes

Chama-se Carlos Lopes e é apaixonado pela corrida, mas o motivo pelo qual se destaca entre o pelotão durante as provas de estrada e trail é bem diferente do do campeão olímpico da maratona em Los Angeles 1984. Este de que falamos, atleta amador de 43 anos e residente no Montijo, participa com regularidade em provas de estrada (e não só) a correr e a empurrar um carrinho de bebé com a filha lá dentro.

"Já lá vão 73 provas e cerca de 850 quilómetros nas rodas, entre treinos e provas. Enquanto quiser, a Melissa vai andar com o pai. Tenho todos os registos das nossas provas, e já enviei para o Guinness. A Melissa tem 3 anos e anda nisto há dois", começou por contar o pai babado ao DN.

A ideia, porém, é mais antiga do que a própria protegida, e a história por trás desta peculiaridade tem contornos dramáticos. "Em 2012, a convite de um amigo, fizemos a Maratona de Lisboa e ele levava o filho num carrinho. Ao fim de dez quilómetros, o pai não aguentava a pedalada e eu levei o bebé até à meta. Fizemos três horas e 16 minutos, o que é um tempo muito bom, e aí nasceu o bichinho", recordou. "No ano seguinte, aconteceu-me uma infelicidade. Estava à espera de uma menina, a Catarina, mas morreu na sala de partos. Passado um ano, nasceu a Melissa. Mas antes de ela nascer, já tinha isto idealizado. O carrinho foi comprado muito antes de ela nascer", acrescentou, com a voz embargada.

Carrinho próprio para o efeito

Carlos Lopes não leva a filha num simples carrinho de bebé nem o faz de uma forma despreocupada. "Recolhi muita informação. O aconselhável é as crianças correrem após ordem do pediatra, por causa dos impactos e das oscilações. E, gradualmente, fui correndo com ela. Começámos por distâncias de dois ou três quilómetros e hoje já fazemos meias-maratonas. O carrinho tem pneus de bicicleta, com câmara de ar e suspensão, e é baixo e largo. Já atingi velocidades de 3:30 minutos por quilómetro (17,1 km/h) e o carro não desestabiliza. Foi projetado para este tipo de aventuras. Custou mil euros e aguenta até 36 quilos. É fácil de desmontar e de pôr na bagageira de um carro. E depois tem extras como uma capa para proteger da chuva e um saco térmico, mas de qualquer forma não corro com ela quando chove", esclareceu o atleta veterano, que ao empurrar a filha já fez tempos como 20:02 nos cinco quilómetros, 39:12 nos dez ou 01.36:14 na meia-maratona.

Esta última marca foi alcançada na recente Meia-Maratona de Lisboa, com partida na Ponte Vasco da Gama. "Foi uma aventura. Arrancámos em último e passámos seis mil pessoas, pelas minhas contas. Tive de ir pedindo licença. Há pessoas que acham piada e começam a sorrir e que até aplaudem e dão força, mas há outras que não, porque já vão em esforço e sentem-se humilhadas. Se pudessem passar uma rasteira, passavam", relata, confessando que não hesita em parar se a filha pedir para lhe "dar fruta ou água ou para ir à casa de banho". "Tenho de lhe proporcionar conforto e bem-estar, porque senão ela vai achar isto chato e desconfortável. Ela passa as corridas agarrada ao telemóvel, a ver desenhos animados, e quando não há rede, canto para ela ir animada. Vou muito concentrado no que estou a fazer, porque se desvio o olhar é suficiente para provocar qualquer coisa de mau", afirma, satisfeito por ver a filha a desfrutar.

"Ela gosta e já tem aquele bichinho. Diz "papá, onde está a minha medalha?" ou "vamos ganhar!", e já tem ido ao pódio. Se gostar, tem o apoio do pai para praticar atletismo quando tiver 5 ou 6 anos", contou, bem-disposto.

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