3.º período inicia-se de máscara, para desespero de professores e alunos

O meio escolar tinha a expectativa de entrar na última fase do ano letivo com menos limitações. Não ajudaram os números e o facto de a Páscoa ser um período de confraternização.

O 3.º período começa esta semana, depois de umas férias da Páscoa mais reduzidas do que o habitual, devido ao facto de no início do ano o regresso às aulas ter sido adiado uma semana devido aos valores da pandemia na altura. E mantém-se a obrigatoriedade do uso de máscara, para descontentamento de pais, professores e diretores escolares, que as devem usar sempre, seja nas creches ou no secundário. Os médicos são mais cautelosos, tendo em conta até os ajuntamentos desta época festiva. A Direção-Geral da Saúde (DGS) decidirá até ao final da semana se mantém a regra.

As normas de prevenção da pandemia foram renovadas a 15 de março, mantendo-se a obrigatoriedade de máscara nos espaços interiores, com exceção de bares e discotecas. E o último Conselho de Ministros prorrogou a "situação de alerta" até sexta-feira, o que significa que os alunos regressam à escola de máscara.


"Quando começámos o 2.º período, disse esperar que no 3.º período já não se usassem as máscaras, tínhamos essa expectativa", começa por dizer Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais . Ficou desiludido quando viu que isso não acontecia. "São um fator perturbador das escolas, não só na aprendizagem - dependendo da faixa etária -, mas também a nível mental e social. Estamos a usar máscara há muito tempo, não devia ser de uso obrigatório."


Uma das justificações que encontra para o facto de a norma se manter é que "se diabolizou o espaço escolar", o que sente ser injusto: "As crianças foram vacinadas e as escolas deram prova de grande maturidade e segurança na forma como reagiram à pandemia." Outro problema é a falta de informação. "É confusa, criou-se um grande alarmismo na sociedade."

577 novos casos por 100 mil habitantes

A informação é também um dos pontos críticos indicados por Paula Carqueja, presidente da Associação Nacional dos Professores. Defende que a máscara deixe de ser obrigatória, mas precisa de mais explicações. "Em termos de socialização das nossas crianças e da colocação da voz dos professores, devíamos deixar de usar a máscara e arejar as instalações. Mas, tendo em conta o número de casos, consideramos que a diretora-geral da Saúde deveria vir a público dar uma mensagem esclarecedora do porquê de as escolas se manterem com máscara. Daria mais confiança aos professores e aos pais e, provavelmente, haveria menos desconforto da nossa parte, porque tínhamos maior conhecimento da realidade."

Aprendizagem mais difícil

Lamenta que nos dois últimos anos "a socialização e sorrisos deixassem de existir nas escolas", com implicações negativas na aprendizagem, sobretudo nos primeiros anos de vida e nas línguas estrangeiras. No caso dos alunos, o uso da máscara só é obrigatório a partir dos 10 anos, mas os professores, funcionários e restantes adultos devem usar desde a creche

"Os educadores de infância dizem que se tem perdido muita qualidade em termos de comunicação e de utilização correta das palavras, sobretudo das consoantes", revela Paula Carqueja. Para minimizar estas situações, a associação tem feito formação de como colocar a voz através da máscara, "para se protegerem e aprenderem a pronunciar os vocábulos".

A Associação Nacional de Diretores Escolares defende que já não se deveria utilizar a máscara, mas essa decisão tem de ser tomada por quem decide. "Há muito tempo que o defendemos, a máscara é extremamente limitativa no processo de aprendizagem e de comunicação, nomeadamente nas crianças mais pequenas. Mas também é verdade que continuamos a acreditar nas autoridades de saúde e se não alteraram essa decisão limitamo-nos a cumprir", diz o presidente, Manuel António Pereira.


Gustavo Tato Borges, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, concorda com a DGS. "Temos uma elevadíssima transmissibilidade do vírus na comunidade portuguesa, mais de seis vezes acima do limiar considerado elevado e 28,8 óbitos por milhão de habitantes. Significa que esta elevada transmissibilidade tem consequências pesadas em termos de mortalidade, obviamente não tão elevada quanto a anterior vaga, mas ainda pesada. A vacina protege de doença grave e de morte, não tem tanto impacto ao nível da transmissibilidade e precisamos de medidas complementares."

28,8 mortes em 14 dias, por milhão de habitantes,


Percebe o argumento de quem contrapõe que a máscara não é usada nos bares e discotecas, mas sublinha que essa é a decisão errada. "Não faz sentido que seja permitido não usar máscara, mas não devemos colocar a bitola por baixo. Devemos defender que também se use a máscara nesses espaços, para não falar da circunstância que não é obrigatório ir às discotecas, mas é obrigatório ir às escolas. As crianças não têm outra opção."


Patrícia Pacheco, diretora do Serviço de Infecciologia do Hospital Fernando Fonseca, na Amadora, percebe que a DGS tenha adiado a decisão do fim do uso das máscaras pelo facto de a Páscoa ser uma altura de confraternização. "Ao longo do 3.º período, é linear que as escolas sejam libertadas do uso de máscara. O número de casos não tem nada a ver com o que já tivemos, nem a gravidade. Mais tarde ou mais cedo vamos seguir outros países e deixar de usar máscara, à exceção de situações concretas, como as unidades de saúde."

ceuneves@dn.pt

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