15 mil páginas fundamentam a santidade da irmã Lúcia

Canonização. No dia em que se completam 12 anos da morte da vidente de Fátima, o Carmelo de Santa Teresa encerra o processo e envia para Roma seis caixas com documentos selados

O Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde a irmã Lúcia de Jesus viveu durante 57 anos, acolhe amanhã, a partir das 17.00, a cerimónia de encerramento da fase diocesana do processo de canonização da vidente de Fátima. No dia em que se completam 12 anos sobre a morte de Lúcia, em 2005, a sexta caixa de documentos - que inclui a ata da própria cerimónia - será selada, para ser depois transportada, com as restantes, para a Congregação da Causa dos Santos (CCS), no Vaticano.
No total, as seis caixas incluem 15 483 páginas. Nelas se transcrevem cerca de 11 mil cartas (em mais de oito mil páginas) e mais de duas mil páginas do diário espiritual de Lúcia (intitulado O Meu Caminho), além dos 61 depoimentos de testemunhas (todas, menos duas, contactaram com Lúcia), reunidos em cerca de quatro mil páginas. Tudo isto em triplicado com a mesma documentação: o primeiro conjunto, designado arquétipo, fica na Cúria Diocesana de Coimbra; o segundo, o transunto, destina-se aos arquivos da Congregação para a Causa dos Santos; o terceiro, a cópia pública, é para o postulador da causa analisar toda a documentação para redigir as 500 a mil páginas da positio. E tudo validado, três vezes, por uma notária, para confirmar a autenticidade de cada cópia.
Será este texto (que pode demorar, pelo menos, dois a três anos a ser redigido) que, resumindo a documentação entregue, dirá se a Igreja deve declarar as virtudes de santidade de Lúcia Rosa dos Santos - a irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, na vida de carmelita, que professou em 1948, três décadas depois dos acontecimentos de Fátima.
Após essa etapa, o fim do processo estará ainda bem longe. A positio terá de ser analisada por uma comissão de teólogos da CCS, para ver se "nada obsta" a que possam ser declaradas as "virtudes heroicas" de Lúcia, o primeiro passo necessário para a beatificação. Só depois serão analisadas as eventuais graças obtidas por pessoas - nomeadamente, curas inexplicáveis à luz dos atuais conhecimentos da medicina. Com uma dessas curas, a Igreja procede à beatificação. Com uma segunda cura, o Papa pode concretizar a canonização.
Uma vez que cada um destes trâmites tem prazos e procedimentos normalmente lentos, terão de passar ainda vários anos até que Lúcia possa ser venerada como beata ou santa. Mas a sua fama de santidade entre muitos fiéis já é grande, assegura a irmã Ângela Coelho, vice-postuladora da causa. Há mesmo três casos de curas chegados à postulação da causa que merecem já uma especial atenção dos responsáveis do processo: uma criança argentina que tinha uma infeção grave; um politraumatizado italiano; e um doente português que tinha uma patologia cerebral.
Para a irmã Ângela, que também é médica (trabalha numa unidade de cuidados continuados na Batalha e esteve já na urgência do Hospital de Leiria), este último caso é interessante, do ponto de vista médico. Mas ainda é muito cedo para avaliar se ele pode vir a ser decisivo para a beatificação.
"Há três coisas que preocupam as pessoas", diz Ângela Coelho. "A saúde, as relações com os outros e as questões económicas e laborais." E há já muitos relatos de graças, que têm aumentado, chegados à postulação e vindos de todo o mundo.
Foi o Carmelo de Santa Teresa que, como entidade promotora da causa, pediu ao Papa (na altura Bento XVI) que se iniciasse o processo de beatificação. Tinham apenas decorrido três anos sobre a morte de Lúcia. Mas o Papa Ratzinger (que escrevera um comentário teológico sobre o segredo de Fátima, no qual falava das alegadas aparições de Nossa Senhora como "revelações privadas") dispensou os dois anos que faltavam e o processo pôde ser iniciado.


Os sofrimentos de Lúcia
Isto significa que só muito dificilmente Lúcia não virá a ser proclamada santa. Ao permitir a abertura do processo, o Papa já tinha indícios da fama de santidade de Lúcia junto do povo crente, diz a postuladora. "As pessoas sabem que ela sofreu muito e foi fiel até morrer, com quase 98 anos", afirma. "Humilde, mesmo estando convencida de que vivia na verdade, com um grande sentido de obediência à Igreja e de delicadeza" são razões que Ângela Coelho destaca como importantes para as pessoas que veem em Lúcia um modelo de santidade.
Os sofrimentos de Lúcia, explica ainda a postuladora, passaram pelas acusações de que foi alvo ao longo da sua vida: de ter sido manipulada por membros do clero para entrar na vida religiosa, de não ser clara quanto ao segredo ou aos atos de consagração feitos pelos papas... Mas nada disso era verdade, defende Ângela Coelho, para quem Lúcia percebeu que iria ser incompreendida até final da sua vida. "Não sou santa nem intrujona", costumava dizer a vidente, segundo a postuladora.
Isso inclui outros escritos, como a carta que a irmã Lúcia escreveu ao cardeal Cerejeira, então patriarca de Lisboa, na qual assegurava que o ditador Salazar era a pessoa escolhida por Deus para "continuar a governar" o país (no livro A Senhora de Maio, publicado há dias, um texto do investigador José Barreto apresenta esta carta). "Estes escritos devem ser contextualizados na época", defende a irmã Ângela. "Uma coisa era o que Lúcia escrevia na década de 1940, outra o que escrevia na década de 1980; nota-se a evolução do seu pensamento ao longo da sua vida." E nota-se que ela era uma "observadora dos acontecimentos do país e do mundo, com os pés assentes na terra mas que se foi concentrando, ao longo do tempo, na vida espiritual."

Jornalista do religionline.blogspot.pt

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