Legionela obriga famílias de doentes a fazer 200 quilómetros

Pessoas internadas na unidade da Régua, onde foi detetada a bactéria, foram transferidas para Chaves. Enfermeiros criticam facto de não terem sido informados com antecedência

"Agora tenho de percorrer mais de 200 quilómetros para visitar a minha mulher recém-operada? Não tenho carro. Quem paga as viagens?" Manuel Jesus, casado com uma doente transferida do Hospital da Régua para Chaves devido à presença da bactéria legionela, manifestava ontem o seu descontentamento pela distância que terá de percorrer para ver a mulher. Mas não era o único. Além dos familiares, o Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte (STFPSN) também questionava o porquê de os doentes não terem sido transportados para Lamego ou Vila Real.

O Hospital D. Luís I, em Peso da Régua, integrado no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, foi encerrado devido a um surto de legionela, detetado no passado dia 1 na água - o ambiente natural da bactéria que se transmite por via aérea ou através de gotas de água contaminadas - do hospital. Por precaução, a administração decidiu transferir os 12 doentes da unidade para Chaves e aí devem permanecer até as águas serem desinfetadas.

Os dez enfermeiros que prestam serviço na unidade dizem não ter sido informados da situação pelos responsáveis do hospital e criticam essa opção, como sublinhou ao DN Manuel Gomes, do Sindicato dos Enfermeiros: "Os enfermeiros deviam ter sido os primeiros a ser alertados para preservar os 12 doentes. O mais novo tem 75 anos, pelo que qualquer contágio poderia causar danos irreparáveis."

Ao que o DN soube, apesar de detetada no dia 1, apenas no dia seguinte a Câmara Municipal de Peso da Régua foi informada do que se estava a passar. "Eram três da tarde quando o presidente do concelho de administração me comunicou o que estava a acontecer. Ficámos de sobreaviso e de imediato pusemos os nossos meios ao dispor", explicou José Manuel Gonçalves, vice-presidente da autarquia. Os boatos que circulavam na cidade deixaram a população em alerta. Durante a madrugada, os bombeiros receberam, inclusive, vários telefonemas de familiares das pessoas internadas. Ontem, Carlos Gonçalves, de Lamego, também se queixava da mudança dos doentes para Chaves, estimando gastar "centenas de euros" em combustível e portagens para visitar o pai.

Após a transferência dos doentes, o Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte (STFPSN) questionou a escolha de Chaves, uma vez que existem unidades hospitalares mais próximas, como Vila Real e Lamego. Em comunicado, o STFPSN salientou que os trabalhadores vão ter de "fazer cerca de 200 quilómetros para Chaves", viagem de ida e volta, "sem justificação aparente".

O sindicato lembrou que os anteriores governos tentaram "várias vezes encerrar esta unidade ou entregá-la à Misericórdia" e no documento pode ler-se que o sindicato receia que estejam "novamente a abrir-se os apetites privados em torno do Hospital D. Luiz I". Para o STFPSN, esta deve ser uma oportunidade para apostar em obras de requalificação.

Segundo a subdiretora-geral da Saúde, Graça Freitas, as análises de rotina feitas na Régua identificaram a presença de legionela "em dois locais que estavam encerrados" e, portanto, onde a água não circulava, uma condição favorável ao desenvolvimento da bactéria. Nos pisos onde estavam os profissionais e os doentes, frisou, não foi encontrada. E também não foi detetada na rede pública da Régua.

No ano passado, foi identificada legionela no Hospital de Bragança, também sem registos de casos de doença. Embora a Direção-Geral da Saúde não reúna dados sobre a contaminação nos hospitais, Graça Freitas adianta que "é frequente fazer-se pesquisa, mas não é frequente a bactéria ser identificada".

Fora de ambiente hospitalar, o ano passado ficou marcado por um surto em Vila Franca de Xira, em que morreram 12 pessoas e sido infetadas 375. J. C.

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