Sexo na terceira idade sai da gaveta da ficção

O cliché "o amor não tem idade" não passa disso mesmo. Na prática, revelam os especialistas, ainda existe um grande preconceito relativamente à vida sexual dos idosos. Os autores das novelas Sol de Inverno e Amor à Vida decidiram explorar estes temas para quebrar o tabu e mostrar ao público que o amor pode acontecer em qualquer altura. Mas há quem deixe críticas à forma como o assunto tem sido abordado...

Numa altura em que a sociedade vive cada vez mais presa e obcecada com o culto da imagem, é cada vez mais frequente a ficção apostar em cenas de sexo escaldantes. Imagens que são cada vez mais banais para o público que segue as novelas, quando as mesmas são protagonizadas por personagens jovens. Mas tudo muda de figura quando essas histórias são vividas por quem já tem cravado na pele as marcas da idade.

Esse é precisamente o dilema de Rosa (Lia Gama) na novela Sol de Inverno, que decide acabar um casamento de várias décadas para viver uma tórrida história de amor com Adelino (João Perry). Já na novela Amor à Vida, Bernarda (Nathalia Timberg) e Lutero (Ary Fontoura) sentem na pele o preconceito da família após assumirem que mantêm relações sexuais aos 70 anos. Porque é, afinal, assim tão estranho quando a paixão envolve a terceira idade?

"Esses tabus têm que ver com a associação que se faz entre o sexo e a juventude. É suposto na terceira idade as pessoas já não estarem perfeitas fisicamente. Por outro lado, a visão da sexualidade é muito associada a certas etapas da vida, sobretudo à juventude e ao enamoramento, e que tende a desvalorizar com a idade e com a fase final da vida", explica o sociólogo José Barreiros.

Marta Crawford concorda que o sexo nesta faixa etária ainda é um tabu na nossa sociedade. "É uma ideia estranha, sobretudo para as pessoas mais novas. No entanto, todos nós desejamos poder chegar à terceira idade com boa saúde. A sexualidade não tem prazo de validade", adianta a sexóloga.

Quem sentiu na pele este preconceito foi João Perry. À Notícias TV, o ator de 73 anos que protagoniza cenas de amor com a atriz Lia Gama na novela de horário nobre da SIC confessa que foi advertido por causa dessas cenas. "Cheguei a ser abordado por pessoas, algumas mais novas do que eu, que me disseram: "Então, andou a fazer essas poucas-vergonhas na novela? Devia ter juízo." Como se fosse uma coisa extraordinária uma pessoa com 60 anos ter uma vida afetiva. Isto é quase infantil. Mas faz parte das mentalidades tacanhas", atira. O ator vai mais longe e diz que o grande problema reside no facto de as pessoas "quererem fugir daquilo que as assusta". "A ideia de que os pais ou os avós têm uma vida sexual ativa ou uma vida afetiva é ameaçadora para as pessoas mais novas".

Seguidora da trama assinada por Pedro Lopes, Irene Cruz, 70 anos, congratula-se com o facto de a ficção retratar este tema e lamenta que o sexo na terceira idade não seja bem aceite. "Na terceira idade, as pessoas devem exercer a sua sexualidade. Eu já não sou nenhuma jovem e a minha sexualidade existe, e comprovo-a manifestando-me com alguém que me dá amor", admite.

Sem papas na língua, como é seu apanágio, Simone de Oliveira, 76 anos, que protagonizou uma história de amor com o ator Ruy de Carvalho na novela Louco Amor (TVI), deixa críticas à hipocrisia da sociedade. "Não percebo porque é que as pessoas são tão feias de alma. Ninguém se choca se um homem de 80 anos se casar com uma mulher de 30, 40. Acham perfeitamente normal. Mas se for ao contrário, cai o Carmo e a Trindade. Que horror, a velha está doida", constata.

Autor de "Amor à Vida" inspirou-se na história da sua mãe

Uma das marcas do autor brasileiro Walcyr Carrasco é escrever histórias de amor na terceira idade. Mas a protagonizada por Bernarda e Lutero em Amor à Vida é especial. "Passados alguns anos após a morte do meu pai, a minha mãe, já com 65 anos, encontrou um novo amor. Era um senhor da idade dela, eles eram vizinhos. Ficaram juntos até ao final da vida dela", começa por revelar o guionista em exclusivo à Notícias TV. "Quando ela foi hospitalizada, ele acompanhou-a, foi o seu amparo todos os dias. Foram dez anos de uma linda convivência entre os dois e a minha mãe regressou à juventude através deste amor. Inspirei-me nesta história e quis contar ao público que o amor é possível em qualquer idade", completa.

Por cá, Pedro Lopes decidiu incluir esta temática em Sol de Inverno para mostrar que "as personagens mais velhas não são apenas uma contracena" e que "podem ter uma história própria" que não se restrinja ao papel de avós ou pais conselheiros. "Por mais idade que tenham, as pessoas continuam a querer ser ativas, a fazer coisas, a sentir-se bem e a querer sentir-se amadas. As pessoas quando chegam a determinada idade não veem a vida como se ela tivesse acabado", justifica. "No fundo, a mensagem que pretendo passar é a de que, independentemente da idade, as pessoas têm uma necessidade de se sentirem amadas e têm esse direito", enaltece.

Entre 2012 e 2013, em Louco Amor, Tozé Martinho já introduzira um núcleo que tinha como trama central o amor entre dois sexagenários, apesar de não terem existido referências a relações sexuais entre eles, algo que o argumentista já vinha a tentar há algum tempo. "Durante um período fomos um pouco aconselhados a não abordar esses temas, isto é, diziam-nos que não tinha interesse. Houve pessoas ligadas às estações que torciam um bocadinho o nariz quando se abordava esse tema. Mas de facto é um assunto que deve ser abordado, porque é um tema da vida real", destaca o guionista.

Quem também não tem dúvidas da importância desta realidade é Patrícia Müller, ainda que nunca a tenha incluído num argumento seu. "Acho que é um tema que só agora está a ser abordado nas novelas, porque só agora se começou a falar mais sobre ele. De repente começaram a surgir várias notícias e estatísticas sobre isso, porque as pessoas vão-se sentindo mais à vontade para falar sobre sexo. E a ficção vai acompanhando esta realidade", afirma a autora de Rosa Fogo, que a SIC exibiu recentemente.

Apesar de reconhecer importância na abordagem desta realidade, Alexandre de Sousa, que em Sol de Inverno interpreta Horácio, o marido traído de Rosa, realça algumas falhas na forma como foi conduzido. "Parece-me que a abordagem foi feita por pessoas que não têm experiência no assunto e é talvez um bocadinho grosseira e violenta. Pelo menos a julgar pelas reações que tive à minha volta, de pessoas com uma certa idade", desabafa o ator de 69 anos, admitindo: "Claro que o amor em qualquer altura da vida é perfeitamente possível, mas aquela abordagem parece ser de alguém que, não tendo experiência, quis lançar a ideia no ar, o que é positivo, mas que depois traz agarrado a si uma imagem que poderá não ser a mais adequada."

Atores não expõem o corpo porque "não há necessidade de chocar"

E se numa relação amorosa entre jovens ou adultos a nudez costuma ser um dos ingredientes, nestes dois casos isso não acontece. Terão os autores um cuidado redobrado ao escreverem este tipo de cenas para atores mais velhos?

Pedro Lopes não dúvida de que "os limites são os do bom gosto e do bom senso". "Há sempre um respeito muito grande pelos atores e o cuidado de fazer as coisas de acordo com a idade que as pessoas têm. Quando falamos de um amor aos 70 anos, não é o mesmo do que aos 20. Seria despropositado tratarmos todos da mesma maneira. Neste caso não há necessidade de chocar, nem nunca procuramos isso", frisa o argumentista.

Já Patrícia Müller acredita que o importante é não ferir suscetibilidades. "Não sei se um ator mais velho se sente à vontade de estar com o peito de fora. Pode ser desconfortável, nem é por ser bonito ou feio. É como com as crianças, também não as pomos nuas."

Em Amor à Vida, também não existe uma exposição dos corpos dos atores Nathalia Timberg e Ary Fontoura, apesar de estes assumirem abertamente aos familiares que mantêm relações sexuais. Walcyr Carrasco admite que procurou tratar este tema "com delicadeza". "Na juventude todos nós nos apaixonamos pela beleza, muitas vezes pelo aspeto puramente físico. Na terceira idade, a atração surge através da identificação com ideias, com o modo de ser, com a admiração mútua, e a beleza física realmente não é o mais importante", considera.

Novelas são cada vez mais uma forma de quebrar tabus na sociedade

Os números não mentem. Diariamente, as novelas estão entre os programas mais vistos pelos portugueses, o que faz que sejam transmissoras de mensagens para o público. José Barreiros destaca que quando "os conteúdos de uma novela são colocados de uma forma apelativa e compreensível para quem as vê, pode orientar o interesse, despertar curiosidade e até ensinar as pessoas e ajudá-las a perceber coisas que doutra forma não perceberiam".

Quem partilha a mesma opinião é Marta Crawford, que não tem dúvidas de que a ficção deve explorar os assuntos de forma "positiva, descontraída e bem disposta" para "desmistificar este tema".

Tudo o que sejam fenómenos sociais com relevância ou que possam ser didáticos devem ser explorados pelas novelas. Patrícia Müller diz que esta pode ser uma forma de promover o diálogo entre quem segue os produtos de ficção. "As pessoas daquela idade que veem a novela começam a perceber que há outras que estão a falar sobre o assunto, e isso pode ajudá-las a terem menos vergonha."

E foi isso que Walcyr Carrasco testemunhou em terras de Vera Cruz, graças ao impacto que as suas personagens tiveram. "Foi lindo porque muitas pessoas mais velhas perceberam que há sempre uma nova oportunidade para amar", congratula-se.

Independentemente da forma como o tema é recebido pelo público, o importante é que seja discutido. Essa é a opinião de João Perry. "Mesmo que se riam e que achem uma pouca-vergonha, a abordagem desta temática na novela pode ajudar as pessoas a encararem o tema de outra forma. Isto ajuda a abrir a discussão e faz as pessoas pensar. É uma maneira didática de levar as pessoas a repensar as suas posições", salienta.

Alexandre de Sousa, por sua vez, acredita que ao abordar temas como este, as telenovelas tornam-se ainda mais um "produto de primeira linha". "Apesar de muitas vezes a novela ser vista como um produto que a intelectualidade e os homens do cinema apelidam de segunda linha, tal não deve acontecer. O facto de abordar temas como este, a telenovela ajuda a que seja vista cada vez menos como um produto de segunda", frisa.

"As pessoas não se lembram dos atores mais velhos", diz Simone de Oliveira

Recentemente, a imprensa avançou com a notícia de que os autores da TV Globo enfrentavam problemas ao escalarem os elencos mais velhos das suas novelas. Tal deve-se ao facto de muitas atrizes brasileiras acima da faixa dos 60-70 anos recusarem-se a dar vida a avós, alegando terem ainda uma imagem demasiado jovem para esse papel.

Simone de Oliveira diz que esta não é uma realidade vivida apenas no Brasil. "Em Portugal também há algumas que se recusam", atira, entre risos, explicando em seguida: "Eu sou da terceira idade, mas tenho contra mim, e a meu favor, uma cabeça que não tem essa idade, e às vezes não é fácil de gerir. As próprias pessoas também chegam a uma certa idade e dizem "ai credo, eu não vou fazer isto"". Apesar de tudo, a também cantora não tem dúvidas de que "ainda há poucos papéis" para atores mais velhos. "As pessoas não se lembram dos atores e das atrizes da minha idade ou até ligeiramente mais novos. Há um problema de imagem neste país. O que é que vende? É a imagem, as pernas, o busto, uma cara que não tem rugas...", lamenta.

Opinião semelhante tem Alexandre de Sousa. "É uma questão comercial. A novela tem de responder a qualquer coisa de que o público está à espera e o público está à espera de gajas boas e gajos bons, pernas boas e mamas ao léu, rapazes mais ou menos despidos, com musculatura... cenas de sexo entre eles. Mas cenas de sexo entre dois velhos não têm piada nenhuma. As novelas são para um público muito especial e servem para algo que o Herman dizia com bastante piada: "O público tem que descansar o olho"", destaca o ator.

Ainda assim, Portugal é um país, segundo estatísticas recentes, que está cada vez mais envelhecido. E é por isso que Tozé Martinho, que além de argumentista é também ator, não entende porque é que "ainda há poucos papéis para os atores veteranos". "Tenho sentido que há uma contenção na utilização de pessoas mais velhas, quando Portugal é um país onde existem muitas pessoas já com uma certa idade e cujas histórias são importantes", adverte.

Mais otimista, Irene Cruz diz confiar no futuro. "Felizmente já se está a fugir ao padrão de dar papéis pouco relevantes às pessoas mais velhas. De facto, é preciso dar vida às personagens mais velhas e adaptá-las aos novos tempos"

Até ao fecho de edição, a Notícias TV tentou ainda entrar em contacto com Lia Gama, mas tal não foi possível.

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