Série francesa investe 12 milhões em Portugal

A serra da Arrábida foi o cenário escolhido para recriar a Grécia Antiga, época em que decorre a série 'Odisseia'. Atores e técnicos portugueses brilham na coprodução francesa, italiana e portuguesa.

A quinta do Calhariz, em Brejos de Azeitão, transformou-se na Grécia do século VIII antes de Cristo. A propriedade foi o local escolhido para as gravações de exteriores da série histórica Odisseia, uma produção que envolve três países: Itália, França e Portugal. A adaptação do poema épico de Homero, que conta as aventuras de Ulisses, o herói mitológico que enfrenta desafios e obstáculos até regressar a Ítaca para os braços de Penélope, é protagonizada por Caterina Murino. A atriz italiana, uma estrela no seu país, é conhecida internacionalmente por ser uma das bond girls do filme da saga James Bond, Casino Royale.

A escolha de Portugal para as gravações da série traduz-se num investimento nunca antes feito na ficção produzida no nosso país. De acordo com José António Loureiro, o investimento ronda os "12 milhões de euros". "Não há verbas em Portugal para fazer uma coisa com esta envergadura." O diretor de fotografia da série, que já trabalhou em dezenas de produções (Contrato, Artede Roubar e Call Girl, em Portugal e, recentemente, foi diretor de fotografia na série francesa Rani, rodada na Índia), é um dos cem portugueses que integram a equipa técnica de Odisseia, em que os estrangeiros, "cerca de uma dúzia, franceses" estão em minoria. "Esta série é uma prova concreta de que temos capacidade para fazer coisas desta envergadura em Portugal. É um cartão de visita. 75% da série foi feita cá."

A cerca de uma semana da reta final das gravações (que terminam a 13 de junho), José António Loureiro não podia fazer um balanço mais positivo do projeto. "Já fiz muitos trabalhos. No final, tudo corre bem, mas há sempre conflitos. E nesta série, ao fim de seis meses de trabalho, o ambiente foi, sem dúvida, excecional. Isso aconteceu porque a equipa portuguesa, que já se conhece há muito tempo, fez que o ambiente fosse bom", explica o diretor de fotografia, que não poupa elogios a Stéphane Giusti, realizador de Odisseia. "Ele foi sempre supermodesto e prático. Um realizador é como o capitão de um barco. Ele soube, com a sua simpatia e gentileza, tornar o trabalho muito agradável."

Tecidos para indumentárias históricas foram comprados no Porto

Minutos antes de começar a gravar, Luís Gaspar é cuidadosamente inspecionado por Catherine Rigault, responsável pelo guarda-roupa. O ator português, que dá vida a Dolios, um dos pretendentes que vão disputar a mão de Penélope, prepara-se para a contracena com Bruno Todeschini, Ugo Venel e Caterina Murino. O calor, o vento e a poeira transportam-nos, de facto, para Ítaca, onde Penélope esperou por Ulisses.

Catherine Rigault trabalhou durante três meses com a sua equipa para produzir mais de 600 visuais, mas a investigação começou muitos meses antes. "Fiz muita pesquisa. Tivemos de fazer muitas alterações porque no século VIII a.C. as pessoas não usavam praticamente nada, apenas um bocado de tecido. A maioria andava praticamente nua". Vinte e nove séculos depois de Odisseia ter sido escrita, há que ter especial atenção aos pormenores. Tatuagens e brincos são absolutamente proibidos.

"Temos de prestar especial atenção a esses pormenores. Todos os homens do elenco têm tatuagens, por isso temos de as tapar, seja com maquilhagem seja com pulseiras", explica Rigault. Em Odisseia, a marca made in Portugal está em todo o lado... até nos tecidos. "Comprámos tudo no Porto, onde existe uma indústria têxtil bastante desenvolvida", revela Catherine Rigault. Já as armaduras usadas na série, que são verdadeiras, vieram de Itália. "Os atores têm a sensação, ao usá-las, que estão realmente a viver naquela época. Tivemos de importar estes acessórios porque em França, como nunca tínhamos feito um trabalho do género, não havia nada", esclarece a responsável.

Luís Gaspar é um dos atores portugueses de Odisseia. Sofia Grilo, Nuno Lopes, David Carreira, Luís Lucas, Miguel Wilborg e Diogo Dória também participam. "Os grandes papéis da série são feitos por atores franceses e italianos. Não sei se a visibilidade será assim tão grande, mas era bom que sim!", diz entusiasmado. O ator reconhece grandes diferenças na forma de fazer ficção em Portugal e numa produção desta dimensão (recentemente, o ator participou em Rosa Fogo, SIC, Anjo Meu, TVI, e Liberdade 21, RTP1). "Cá, fazemos três, quatro cenas por dia. Esta é uma série de 13 episódios e está a ser feita em seis meses. Só para ter uma ideia, agora estou a fazer a série da TVI Bairro Estrela Polar, que tem 20 episódios e está a ser feita em três meses. Tem que ver com os custos." No entanto, o ator admite que a ficção portuguesa não fica atrás da internacional. "Nós cá fazemos bem, não temos é os mesmos meios para fazer com mais cuidado e mais tempo."

Odisseia estreia-se "em fevereiro ou março, em França", como adiantou à NTV José António Loureiro. "Imaginamos que a RTP, como a comprou, queira estrear logo que a série esteja pronta", explica o diretor de fotografia. Até à hora de fecho desta edição, a RTP não confirmou a aquisição de Odisseia.

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