Sara Norte: "Se me vir sem trabalho, não tenho qualquer problema em bater a portas e falar do meu percurso"

Prestes a voltar à televisão na novela juvenil Água do Mar, RTP1, Sara Norte faz um balanço do regresso como atriz. Um ano após sair da prisão, revela querer voltar a estudar Direito e, quem sabe, ser advogada ou juíza.

Depois de participar em Mulheres de Abril, vai regressar à antena da RTP1 na novela juvenil Água do Mar. Como surgiu o convite?

Foi a RTP que me convidou, estou muito contente. Este é um trabalho inovador, é a primeira vez que está a ser feita uma novela para os jovens na RTP e vou voltar a trabalhar com a Mariana Monteiro. É uma ótima miúda e grande profissional.

Esta história vai abordar a realidade e os problemas dos jovens. O que pode revelar sobre a sua personagem?

Eu ainda não tenho muitas informações, não vou começar a gravar já. Não sei ainda as linhas gerais da personagem, mas eu confio (risos)! Já me disseram que a equipa que está a escrever a novela é ótima.

Se lhe pedirem para fazer um papel de uma jovem consumidora de drogas aceita?

Sim, claro que sim. Neste projeto ou noutro qualquer não teria problemas de o fazer. Um ator quer é bons papéis e trabalho, e eu estou numa altura da minha vida em que quero desafios. Já passou algum tempo... a história das drogas está completamente resolvida por mim. Acima de tudo, eu sou atriz.

As gravações vão decorrer na Foz do Arelho, Caldas da Rainha, e muitas cenas vão passar-se na praia. Está preparada para mostrar o seu corpo na televisão?

Não sei se vou entrar nessas cenas de praia. Acho que não vou ter de mostrar o corpo, mas se tivesse... eu sou atriz, não é? Isso faz parte. Para mim mostrar o corpo já não é um tabu. Eu estava habituada a ter que me despir à frente de pessoas.

É verdade que já o fez quando trabalhava em bares, mas através da televisão tem mais gente a vê-la. Isso não a incomoda?

Não, não me incomoda nada. Eu sou atriz. Não tenho qualquer tabu com o corpo.

Em novelas juvenis, tais como Morangos com Açúcar ou I Love It, ambas da TVI, os atores expõem o corpo. Compreende ou critica esta realidade?

Se se faz uma série sobre o verão, é natural que as pessoas estejam de biquíni.

Sim, claro. Mas não identifica um excesso de exposição do corpo nestas produções?

De uma forma geral, acho que não. E uma pessoa quando vai fazer uma novela de verão já sabe ao que vai.

Água do Mar é produzida pela Coral Europa e tem José Eduardo Moniz por detrás do projeto, pois é a empresa do antigo diretor-geral da TVI, JEM - Media Consultancy, que faz consultoria. Acredita que esta novela poderá conquistar o êxito e os resultados de audiência de Morangos com Açúcar, TVI?

Ter [José Eduardo] Moniz é uma mais-valia, ele sabe quais são os ingredientes de sucesso melhor do que ninguém. Ele foi pioneiro com os Morangos com Açúcar e, por isso, vamos estar todos a torcer para que seja um sucesso e que dure por mais anos.

Só tem recebido convites da parte da RTP?

Na altura em que saí da prisão, fui contactada por vários canais para participar em programas de entretenimento, mas a RTP deu-me a oportunidade de começar a minha carreira como atriz. Neste momento, estou a trabalhar com a RTP e estou bem.

Até à data não recebeu convites da SIC e da TVI?

Neste momento, e para ficção, não. Recebi, na altura, para participar no programa da SIC Splash! Celebridades, mas achei que deveria retomar a minha carreira de atriz. A RTP tem-me dado essa oportunidade.

Por que razão acha que não foi contactada ainda por outros canais?

Não sei. Talvez isso aconteça porque, quando começam produções de outros canais, estou a fazer outras coisas. Estive a gravar a série Mulheres de Abril e, agora, surgiu esta oportunidade. Um ator é um freelancer, mas estou muito contente por trabalhar com a RTP. Tenho tido a sorte de participar em projetos que me têm dado a oportunidade de mostrar uma Sara diferente, que quer aprender e com vontade de crescer como atriz. Por exemplo, na série Mulheres de Abril, tive a oportunidade de fazer uma transmontana. Tenho a agradecer à RTP por me ter dado a mão.

Sente que a TVI e a SIC não a desejam como atriz?

Não, não tem nada que ver. Se calhar já têm atores escolhidos e, quando fazem os castings, eu já estou dedicada a outros projetos.

Fez parte de uma série, Médico de Família, que é ainda reconhecida como uma das marcas da ficção da SIC. Não esperava que a estação lhe desse a mão, como fez a RTP?

Nós não temos de esperar nada, temos é de batalhar pelo que queremos. Se me vir sem trabalho terei de bater às portas. Eu, graças a Deus, tenho trabalho e ainda não foi necessário fazê-lo, mas se for preciso não tenho qualquer problema em bater a portas e falar do meu percurso. O futuro logo se verá. Nesta profissão já não dá para fazer grandes planos. Isto está muito, muito complicado.

A RTP ajudou-a a recuperar a sua autoestima como atriz?

A minha autoestima? Eu estou bem. É claro que me deu mais segurança. De trabalho em trabalho, sinto-me cada vez mais segura. Quanto mais trabalhar, mais segura me vou sentir. Um ator está sempre a aprender e é sempre bom ouvirmos críticas.

No dia 4 de junho faz um ano que saiu do centro penitenciário de Botafuego, em Algeciras, Espanha. Ao longo deste ano, durante o qual voltou a trabalhar, sofreu algum tipo de preconceito?

Não, fui muito bem recebida por toda a gente e, em especial, por atores mais velhos que me conheciam desde pequenina. Aliás, houve uma especial atenção para comigo porque eu ainda tinha o sotaque de Espanha. Houve um grande trabalho da direção de atores em me integrar.

Foi fácil ou difícil para si que as "portas" da televisão se voltassem a abrir?

O mais difícil foi voltar a decorar textos e, acima de tudo, ter todos os olhos em cima de mim... Aliás, se calhar, hoje ainda é assim, mas isso dá-me mais força para continuar a lutar pelos meus objetivos. Não foi complicado voltar à televisão, foi, sim, ter todos os olhos postos em mim. Já não estava habituada a isso. Mas, de resto, um ator é um ator quer esteja cinco ou dez anos desempregado, e eu comecei a trabalhar era ainda muito pequenina.

Que conselhos mais marcantes ouviu do seu pai, o ator Vítor Norte?

O meu pai está muito orgulhoso de mim porque consegui mudar a minha vida. Ele estava sempre a dizer-me que as pessoas não me vão dar outra oportunidade, e essa frase fica sempre na minha cabeça. Tenho-me esforçado ao máximo para que a minha família se orgulhe de mim como o meu pai, o meu avô e os meus irmãos mais novos. Agora consigo ter a minha casinha, a minha vida.

Comprou casa?

Não, estou a arrendar uma. Mas é o meu cantinho, tenho a minha vida, vou ao ginásio. Não estou a viver junto ao meu pai, ele está na Alta de Lisboa e eu no centro da cidade. Ele está contente e orgulhoso, mas o meu pai não é de falar muito; eu e ele somos muito parecidos. Mas fica contente quando lhe digo que estou a trabalhar.

Voltar a trabalhar como atriz foi a sua salvação?

Não, a minha salvação foi ter sido presa. Eu saí da prisão já sem ser consumidora de drogas. Tive a oportunidade de trabalhar em televisão, mas se tivesse de ir trabalhar noutra coisa, tê-lo-ia feito.

Mas ver-se-ia a trabalhar em bares e discoteca onde trabalhou?

Não, isso não, porque foi uma escolha minha afastar-me da noite. Na prisão tirei um curso de cabeleireira e, neste momento, posso abrir o meu salão... Se tiver de trabalhar num escritório, trabalharei.

Pretende retomar os estudos?

Eu tenho dois cursos superiores por concluir, um de Direito e um de Comunicação Social. Tenho mais um mês e pouco para decidir o que vou fazer (risos). Em setembro quero voltar para terminar. Estou mais inclinada para voltar a estudar Direito.

Porquê?

Na altura, entrei em Direito porque eu queria trabalhar na Polícia Judiciária. Eu gosto de leis, mas não sei se estudaria para advogada ou se seria mesmo para juíza...

Gostava de exercer? É só um sonho antigo ou quer realizá-lo?

Gostava de terminar Direito mesmo por uma questão pessoal, e quando terminasse o curso teria de ver o que faria...

Seria capaz de dizer adeus à representação para ser juíza ou advogada?

Não era capaz de dizer adeus à representação, pois é mesmo aquilo que amo fazer e em que me sinto feliz... Mas é sempre bom ter uma segurança na minha vida.

Dá palestras em escolas e fala da sua experiência. É uma maneira de ultrapassar o que viveu?

Não é uma forma de esquecer, até porque estou sempre a falar do que aconteceu. É uma forma de passar a palavra e dar o exemplo de que é possível uma pessoa reerguer-se.

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