Rui Unas: "Uma pessoa que tenha de contar os tostões ao fim do mês não é uma pessoa livre"

O que resta do "ganda maluco" dos tempos do Curto Circuito? No ano em que comemora 40 anos, Rui Unas faz uma retrospetiva da sua carreira, relatada na autobiografia Nascido e Criado na Margem Sul. Em dose dupla na SIC, na novela Sol de Inverno e em Vale Tudo, o ator e apresentador admite que está a passar por um dos momentos mais positivos do seu percurso.

Fez 40 anos no ano em que se comemorou o mesmo aniversário do 25 Abril. Sente-se, aos 40, um homem livre?

(risos) Se me sinto um homem livre? Bom, eu sou um homem casado, não sou um homem livre nessa perspetiva. Mas sinto-me um homem livre na medida em que vivo num país democrático em que me posso expressar sem receios, sem medo de censuras e das consequências. Tenho, felizmente, um conforto financeiro que me permite não ter a minha vida muito condicionada. Tenho uma profissão que me preenche e me dá essa possibilidade de estar confortável e não de estar a contar os tostões. Eu sei que uma pessoa que tenha de estar a contar os tostões ao final do mês não é uma pessoa livre. Nesse aspeto, sei que sou um privilegiado.

Porque é que os 40 lhe pareceram uma boa altura para fazer uma autobiografia, ainda que...

Ficcionada. Os 40 anos são um cliché enorme, mas são um marco na vida de qualquer pessoa. Fazia todo o sentido.

Explique-me o que é ser da Margem Sul?

Eu já devia ter uma resposta preparada para essa pergunta. Ser da Margem Sul, além da questão técnica, de viver na margem sul do Tejo, para muita gente é sinónimo de suburbano. O que não é necessariamente uma ofensa. Costumo dizer que as pessoas da zona saloia também não ficam ofendidas se lhes chamarem saloias. Não fico nada ofendido se me chamarem suburbano. É uma realidade que não é exclusiva da Margem Sul. Há com certeza realidades muitos semelhantes, em Loures, na Damaia... mas, no que diz respeito às pessoas que vivem deste lado, é ter de atravessar a ponte para ir para Lisboa e, às vezes, ter de levar com horas intermináveis de trânsito. Mas também, respondendo de uma forma um bocadinho mais séria, é viver com algumas dificuldades em termos de acessos, de equipamentos sociais, de hospitais... Há uma realidade que todas as pessoas que vivem na Margem Sul conhecem.

E essa realidade não mudou muito.

Eu acho que até se agravou porque a densidade populacional aumentou. Enfim, não sou nenhum sociólogo, mas sou testemunha disso. E, apesar de algumas melhorias, fruto do próprio esforço das câmaras municipais, continua a ser uma margem um bocadinho deixada para segundo plano, não levada em consideração como foi, de resto, naquela afirmação de Mário Lino [recorde-se que, em 2007, o então ministro das Obras Públicas apelidava a Margem Sul de "deserto", a propósito da possibilidade da construção de um novo aeroporto naquela zona]. As pessoas da Margem Sul não gostaram nada, apesar de aquilo ter sido dito num determinado contexto. Há coisas que não podem ser ditas publicamente, sobretudo por alguém com responsabilidades políticas.

O que era a Margem Sul na década de 80 e o que é agora?

A minha infância, que está retratada no livro, não tem tanto que ver com ter crescido na Margem Sul, mas mais uma questão geracional. Eu cresci na rua, brincava na rua, sob o olhar atento da minha mãe. Cresci numa praceta, ali era o local onde fazíamos as nossas brincadeiras. Sou de uma geração muito competitiva, em que estávamos sempre a ver quem saltava mais alto, quem corria mais, muitos joelhos e cotovelos esfolados. É uma realidade que já não acontece. As crianças, hoje, crescem ou em casa ou superprotegidas com capacetes, joelheiras e tudo o mais.

"Houve uma travessia no deserto na televisão mas não necessariamente na minha vida profissional "

A Luciana Abreu, com quem faz par romântico em Sol de Inverno, disse recentemente sobre si: "Temos algo especial. Somos muito unidos." A Luciana é uma pessoa sobre a qual as pessoas têm uma ideia pré-formatada. O Rui também tinha, antes de trabalhar com ela em Floribella?

Honestamente, não privei muito com ela na Floribella. Mas, sim, há sempre um preconceito. Quando não conhecemos as pessoas, baseamo-nos sempre naquilo que elas projetam ou, então, nos media. Se bem que a Luciana daquela altura é muito diferente da de agora. Tive a oportunidade de estar com ela, depois, noutros projetos e agora de uma forma muito mais intensa na novela. Mas, sim, tinha. Eu também já falei com ela e acho que ela, apesar de tudo, é responsável por esse preconceito. Acho que ela já assumiu esse mea culpa, de ter permitido que as coisas levassem esse caminho. Ela acaba por não controlar o que se diz sobre ela porque abriu precedentes que não devia ter aberto.

Porque é que funcionam tão bem como par romântico em Sol de Inverno?

Não consigo explicar, este tipo de químicas não se explicam. Modéstia à parte, acho que cada um de nós está a cumprir muito bem o seu papel. Acho que a Fátima assenta muito bem à Luciana e o meu Carlos a mim. As duas personagens casam de facto muito bem e tivemos um entendimento muito bom no plateau. E fora do plateau, apesar de discordarmos em tudo... Costumo dizer que não tenho nada que ver com a Luciana...

Como assim?

Nas conversas que temos. Não discuto com ela, mas temos maneiras de estar na vida completamente diferentes. Isso não significa que não nos entendamos. Temos pouquíssimas coisas em comum mas damo-nos muito bem.

Depois de Sol de Inverno e de Vale Tudo, o que é que se segue?

Não posso dizer. Primeiro, porque não sei. E mesmo se soubesse, não diria se não estivesse tudo preto no branco e contratualizado. Aprendi a não me pronunciar sem ter coisas assentes em papel.

Mas é um projeto para um canal generalista?

Não sei. Não posso adiantar nada em relação a isso.

Porque é que Sol de Inverno ganha às novelas da TVI e Vale Tudo não ganhou a A Tua Cara não Me É Estranha - Kids?

Não sou a pessoa certa para falar sobre isso porque, para já, não vejo a novela da TVI. Não sei o que é que eles têm a menos. Sei que nós temos um produto muito bom e, se é por mérito nosso ou demérito deles... quero acreditar que é por mérito nosso.

Os portugueses veem isso.

Sim. Parece-me que foi uma aposta ganha em toda a linha pela SIC e pela SP Televisão. Em relação ao Vale Tudo.... não sei explicar. A nossa proposta tem aquelas características, são pessoas adultas a comportarem-se como crianças, a brincarem, a divertirem-se sem nenhum fator de competição. Do outro lado, e isto é mesmo verdade, não vi. Como não gravo o programa, também não tenho interesse particular em ver. Se as pessoas preferem ver crianças a tentarem ser adultos, pronto.

Não deixa de ser irónico, porque o Vale Tudo tem muitos fãs que são crianças.

Sim. Vejo isso no programa, no meu dia-a-dia. As crianças aproximam-se muito. O meu filho mais velho, que tem 7 anos, é fã do programa, os colegas dele também. Acho que isso acontece por verem adultos comportarem-se como crianças, de forma descomplexada e divertida. Não há ali má onda nenhuma. Acho que isso passa muito e as crianças acabam por ser muito permeáveis a essa boa disposição.

Acontece-lhe ser abordado por pais que eram seus fãs dos tempos do Curto Circuito, com os filhos que o veem no Vale Tudo?

Sim, curiosamente acontece isso. Pais que já me acompanham há muitos anos, desde o Curto Circuito e agora começam a ver a novela. Já me aconteceu ter três gerações: a avó que vê a novela, o pai que gosta das coisas mais alternativas e a criança que me gosta de ver no Vale Tudo. Estou numa fase muito transversal (risos). Mas, pronto, isso é circunstancial.

Sei que me disse que não viu A Tua Cara não Me É Estranha - Kids, mas incomoda-o ver crianças pequenas acordadas até tarde a fazer uma gala em direto?

Não, não me incomoda. Os pais são responsáveis por aquilo que os filhos fazem. Quem sou eu para estar a julgar? Não será de mim que ouvirão alguma crítica.

Considera que Vale Tudo é um dos poucos programas exibidos em prime time na televisão portuguesa que tem margem para improviso?

Houve outros programas, na RTP1, como o Feitos ao Bife, que tinham essa componente. O nosso, de facto, não tem guião. Mas eu diria que é o programa em que tudo, de facto, pode acontecer, em que há margem para a espontaneidade e para o imprevisto. Se bem que, n"O Último a Sair, apesar de ter sido gravado, tínhamos uma margem brutal para improviso. E acho que as partes mais engraçadas foram aquelas em que improvisámos.

O Último a Sair foi uma coisa única na televisão portuguesa?

Foi um programa muito singular, porque era uma sátira. Conseguiu enganar muita gente durante muito tempo. Deu possibilidade aos atores de darem o seu cunho pessoal, de serem eles sem serem eles... O mais curioso é que foi na televisão pública, que, à partida, seria a última a arriscar. Mas era também aquela que mais legitimidade tinha para apostar num programa com aquelas características.

Foi um programa simbólico na sua carreira? Marcou o seu regresso a um canal generalista.

Hmm... já não me recordo o que é que estava a fazer antes...

Estava a fazer programas no Canal Q, tinha feito uma série para a RTP... referia-me ao regresso a um canal generalista, depois da saída da SIC.

Sim, eu vinha de um período em que tinha estado mais ausente da televisão generalista.

Considera que houve ali uma...

... travessia no deserto? Sim.

Porquê?

Pois, porque não fui chamado, porque não houve oportunidades para fazer coisas na generalista.

A saída de Francisco Penim da Direção de Programas da SIC e o fim do projeto Estrelas SIC tiveram que ver com essa travessia no deserto?

Sim. Entretanto o Penim saiu e entrou a nova direção, com o Nuno Santos. Cheguei a ter uma reunião com o Nuno Santos e prometeu-me um programa, acho que não fui o único a quem ele fez isso... e eu mantive-me ali em stand by. Como não sou muito de pressionar, mantive-me ali... recusei, inclusivamente, trabalhos por causa disso. Ele, entretanto, deixou de responder às minhas mensagens, aos meus e-mails e eu, pá, fiquei ali um bocadinho desamparado. E foi nessa altura que comecei a trabalhar no Canal Q, a fazer rádio, publicidade. Encarei isso como uma oportunidade para fazer outras coisas. Houve uma travessia no deserto na televisão mas não necessariamente na minha vida profissional. Aprendi a utilizar as dificuldades para me reinventar, para experimentar outras coisas. É o que tenho feito ao longo destes 18 anos. Por um lado, é bom não ter oportunidades num sítio porque permite reinventar-nos.

Amiúde, fala-se que falta um talk show no prime time da generalista. A Última Ceia poderia ter sido esse talk show que falta?

Poderia.

E poderia ter continuado?

Poderia.

E porque é que não continuou?

Terá de perguntar ao Pedro Boucherie [Mendes, diretor dos canais temáticos da SIC] porque é que terminou o programa.

O que é o Sal [série de humor, com guião de João Quadros, com João Manzarra, César Mourão e Salvador Martinha]?

O Sal é uma ideia original do João Manzarra. Ele, juntamente com o Salvador Martinha e o César Mourão, estruturaram o projeto. Convidaram o [João] Quadros e o Frederico Pombares para escreverem. Convidaram-me para participar, também. Basicamente, é uma série de oito episódios e a sinopse é: quatro malucos vão para a ilha do Sal tentar fazer um filme e tudo lhes corre mal. A série é o relato dessas aventuras e desventuras na ilha do Sal. Não sei quando é que vai estrear...

A SIC também não.

A SIC também não sabe. Ainda não acabámos, faltam as filmagens em Lisboa. É uma proposta nova, sobretudo na SIC, que não tem tradição nesse tipo de humor, como direi, mais alternativo mas sem querer ser umbiguista. Acho que vai ser suficientemente transversal, até porque os quatro que lá estão são figuras mainstream.

Dizem as más-línguas que Sal é muito parecido com Odisseia, a série de humor da RTP1, do Bruno Nogueira.

Se calhar vão achar parecido à Odisseia, vão achar parecido ao filme A Ressaca, porque somos quatro... isso não nos preocupa. Não é por aí. A Odisseia foi um projeto do Bruno, com as suas características, o nosso tem as nossas. Se quiserem fazer comparações, façam-nas, não estamos preocupados com isso.

"Recuso-me a dizer 'no meu tempo é que era bom, o Curto Circuito está morto'"

O Rui casou-se, teve filhos, a Rita Mendes também. O Fernando Alvim é o último "ganda maluco" do formato inicial do Curto Circuito?

Sim (risos)! Sim, continua a ser... ainda no outro dia estive a trabalhar com ele. Obviamente que ele está mais maduro, é um Alvim diferente daquele que conheci, mas tem a sua forma de estar na vida. É mais noctívago do que eu, é mais descomprometido do que eu, mas não há aqui certo ou errado...

Continuam a manter uma boa relação?

Sim. No outro dia estive a trabalhar com ele. Fui convidado da Prova Oral [programa de Fernando Alvim na Antena 3] e ele tratou-me super bem. Nós sempre tivemos uma relação meio, não diria de amor-ódio, que é muito forte. No Curto Circuito tínhamos uma relação de choque, de cão e gato, e as pessoas gostavam disso. Era isso que dava sal. E mesmo ao nível pessoal acontecia muito isso. Nós gostávamos um do outro, mas havia ali uma picardia. Hoje, não há picardia absolutamente nenhuma. Somos bons colegas, que tiveram um passado em comum e somos dois quarentões que se dão muito bem.

O Rui é um dos sócios da Sigma 3 [produtora do Curto Circuito]. O programa continua a fazer sentido?

Acho que sim, cada vez mais. O Curto Circuito aproveitou formas de comunicação com o público que nós não tínhamos na altura. Nós utilizávamos o telefone, o fax e o mIRC. Hoje há o Facebook, o Instagram, o Twitter, o Skype. Hoje em dia o programa é para outro público. Ainda ouço bastantes vezes "ah! o CC no meu tempo é que era bom". Não. Fez sentido naquela altura, o público daquela altura é diferente, tem a minha idade. Hoje, são crianças de 12, 13, 14 anos, que já cresceram com a internet, que veem o programa. O programa tem uma dinâmica diferente da que tinha na altura. Obviamente que a realidade agora é outra, há mais oferta na televisão por cabo. Na altura, nós fomos os pioneiros a fazer programação específica para o cabo. Mas acho que continua a fazer sentido, continua a ser um laboratório para criar novos apresentadores. O Manzarra saiu de lá há relativamente pouco tempo.

Quando diz que é um público diferente do que via o Curto Circuito no CNL e no início da SIC Radical, está a dizer-me que não são os mais jovens que veem o programa?

Não. Quem me diz hoje "no meu tempo é que era bom" tem 30 anos. Não é público-alvo do programa. O público-alvo é, agora, uma faixa mais jovem do que era no meu tempo, a partir dos 13, 14 anos, pré-adolescentes, que interagem muito com o programa. Eu recuso-me a dizer "no meu tempo é que era bom, o Curto Circuito está morto". Faz sentido por isto que acabei de dizer, pelas plataformas de comunicação que existem hoje...

Mas os miúdos veem cada vez menos televisão linear. E, à hora em que o Curto Circuito é exibido, a maior parte deles está na net, no YouTube.

É por isso que o Curto Circuito aposta cada vez mais em momentos. Eu próprio vejo cada vez menos televisão. E, nesse sentido, o Curto Circuito tenta criar momentos que sejam virais, falados ou vistos fora do seu espaço de emissão. Mas isso é algo que quem está a tomar conta do Curto Circuito tem de se preocupar. Eu sou sócio da produtora, mando os meus bitaites mas não estou muito a par da realidade.

A saída da SIC, da qual falámos há pouco, coincide também com o momento em que começa a apostar a sério nas redes sociais. Foi nessa altura que percebeu o verdadeiro potencial que aquilo podia ter?

Eu virei-me mais para as coisas da net por um conjunto de fatores: primeiro, para me sentir ativo e não perder este músculo da comunicação. Segundo, porque o meu público mais fiel é internauta. É uma forma de me aproximar mais desse meu público. Terceiro, porque estou ali a experimentar coisas. E acredito que, apesar de o nosso país ser pequeno e não nos permitir pensar em megaprojetos na net, vejo ali laboratórios de formatos que, se calhar, daqui a uns anos, poderão fazer sentido e, eventualmente, ser rentáveis. Acredito que o futuro passa muito pela internet porque é lá, cada vez mais, que as pessoas veem audiovisual. Quero lá estar quando isso acontecer!

E está lá há bastante tempo.

Entretanto tive de parar porque comecei a fazer a novela e a série e tudo mais, mas quero voltar com o podcast. É uma coisa que me dá imenso prazer, apesar de não me dar dinheiro absolutamente nenhum. Apesar de ter sido empurrado para a representação por necessidade, por um lado, porque eu estava a fazer poucas coisas como apresentador, mas também porque há uma vocação minha que eu tinha de fazer, de alguma forma. Tinha de experimentar ser ator. Eu tenho noção de que nunca serei um ator excecional. Serei sempre um ator razoável, mediano. Se calhar, na área da comédia...

Mas têm apostado consistentemente em si.

Sim, e fico muito contente por isso, tenho dado o meu melhor e espero estar a evoluir. Mas onde acho que sou mais singular é como apresentador e conversador. Na televisão, não tem havido muito espaço para fazer isso, e o podcast é o formato que me permite falar com as pessoas de uma forma que a televisão não o permite. Porque não há o fator tempo, não há condicionantes em termos de linguagem e as pessoas sentem-se realmente à vontade. Como me dá muito gozo, mal tenha tempo livre, volto a fazer podcasts!

"Mesmo nas coisas mais disparatadas que faço, o rigor está lá"

Ainda tem guardada a carteira profissional de jornalista [Rui Unas começou a trabalhar como jornalista na rádio Seixal]?

Não sei onde é que está. Está guardada numa caixa qualquer.

Todos os profissionais da área da comunicação que começaram na rádio falam desse meio como a sua grande paixão. Também é a sua?

Eu gostava muito de voltar a trabalhar na rádio. Lá está, outro cliché. Pode ser que um dia eu possa voltar, não sei em que moldes. Mas é um ambiente que me é confortável porque foi lá que eu comecei e que descobri a minha vocação. Não ponho de parte a hipótese de voltar. Quem sabe...

A passagem pela Rádio Seixal, sobretudo quando fez o programa da noite, foi uma forma de aprendizagem sobre a natureza humana?

Sim, sim. Eu era muito jovem na altura, tinha 18 anos. Soava mais velho, as pessoas pensavam que eu tinha uns 30. Quando me conheciam diziam sempre: "É muito mais novo." Foi uma experiência sociológica muito importante porque pude falar com pessoas mais velhas e ter conversas mais adultas do que se calhar teria se soubessem a minha idade (sorri).

Como era a RTP há 20 anos [Rui Unas fez parte da equipa do magazine cultural Acontece, coordenado e apresentado por Carlos Pinto Coelho]?

Lembro-me que se fumava imenso e eu tinha muita dificuldade em estar ali, porque eu era todo desportista naquela altura. A redação do Acontece era num cantinho, num open space onde estavam as outras redações. Eu trabalhava num microclima, sob a batuta do Coelho. Nós fazíamos ali informação cultural com rigor, sem desprimor pelo que se fazia noutras redações. O Carlos Pinto Coelho imprimia ali um rigor muito dele e eu aprendi muito com ele.

O que é que ele viu em si?

Não sei dizer. Sempre fui muito certinho. Ele viu ali, se calhar, alguma criatividade, mas também muita disciplina. Penso que ele viu isso quando foi meu professor e depois contratou-me.

Fazer o Acontece foi uma escola não só de rotinas de televisão mas também do tal rigor de que falou?

Sim, sim. E isso ficou-me. Esse brio, esse rigor, que emprego em todas as coisas que faço. Mesmo nas mais descontroladas e disparatadas, o rigor está lá. Inclusivamente no Vale Tudo! Por exemplo, o Mourão, que tem 15 ou 16 anos de improviso em cima, disse-me que gostava de trabalhar comigo, que eu tinha esse rigor, apesar de eu não ter tido nenhum tipo de escola de improviso. O improviso é improviso, sim senhor, mas tem de haver rigor. E esse rigor eu tenho-o e vem dessa experiência, por muito paradoxal que seja, do jornalismo sério e cultural.

Aplica esse rigor em tudo o que faz?

Sim. O livro, por exemplo, não foi feito às três pancadas. A ideia surgiu há dois anos e eu demorei um ano e meio a fazê-lo, por várias condicionantes. Uma delas, falta de tempo, porque entretanto surgiram outras coisas, e eu ia arranjando o meu método, consoante as minhas disponibilidades. Outras vezes, falta de inspiração. Eu tinha já esta data dos 40 anos e ficou pronto nesta altura.

A persona pública Rui Unas, aquele Unas que vemos nos vídeos do YouTube e na televisão, está a seu gosto?

Está. Nunca pensei nisso, nunca projetei: "Quando chegar aos 40 anos vou estar assim e assim." Já fiz essas projeções e correram sempre mal. E uma coisa que aprendi é a aceitar os convites que não surgem, os projetos que não são bem os que eu queria. Não significa que me resigne e que não tente e que não seja proativo. Mas atualmente estou numa fase muito boa. Sei que é circunstancial, se calhar daqui a um ano não estarei assim, mas, neste momento, não me posso queixar. Claro que não.

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