Quando a morte nos entra casa dentro

A morte do ator Pedro Cunha veio recordar a de outras figuras da TV que partiram precocemente. Psiquiatra explica que estes casos desencadeiam um "processo de angústia" pelo "confronto com a realidade".

Vigílias. Orações. Homenagens. Tristeza. Memória. Mensagens de condolências nas redes sociais. Estes são alguns dos efeitos provocados pela morte precoce de figuras da televisão. O ator Pedro Cunha, de 33 anos, encontrado morto, por asfixia, em casa na manhã desta segunda-feira, é o caso mais recente. Junta-se a nomes como Angélico Vieira, Francisco Adam, Bruno Simões e Jaime Vishal.

E se a morte em si já é uma realidade perturbadora, quando associada a figuras públicas o grau de choque e tristeza é ainda mais elevado. "Existe um mecanismo espontâneo de idealização em relação às figuras públicas. Elas têm uma história de vida em que são apresentadas como pessoas sem dificuldades, só com êxitos, sex appeal, seja ele cantor, ator, romancista, político, etc.", começa por explicar Álvaro de Carvalho, psiquiatra e coordenador nacional para a Saúde Mental.

O mural de Facebook do ator Pedro Cunho, que participou em projetos televisivos como Riscos, Olhos de Água, Rosa Fogo e Doida por Ti, foi inundado de mensagens de amigos e admiradores, incrédulos com a notícia da sua morte. "Porquê, Pedro? Tão novo, tanto pra viver... Alguém que me diga que isto é mentira, pois eu ainda não caí na real", podia ler-se numa das mensagens. "Há dois dias havia 2500 pessoas na página e agora há quase 16 mil. A morte traz popularidade, pena que essas pessoas só lhe deram valor quando ele já não é deste mundo", escreveu outra admiradora. "Mas quais foram as razões que o levaram a isto? Era um rapaz jovem e famoso, "tinha tudo". Sinceramente não entendo, pois existem pessoas em pior estado", destacou outro fã, incrédulo. O psiquiatra Álvaro de Carvalho frisa que este fenómeno se verifica "quer nas franjas mais jovens quer nas menos jovens", sobretudo nas pessoas "que têm necessidade de encontrar nas figuras públicas a compensação para as suas angústias existenciais". "Quando há o desaparecimento, quer por morte acidental quer por morte provocada de um desses ídolos, existe um confronto com a realidade. Os seres humanos não são deuses. São finitos, podem morrer e, ao contrário do que desejamos, não estamos dispensados de ter desaires na vida", acrescenta o especialista.

Esse confronto com a realidade, explica Álvaro de Carvalho, e que é gerado através da morte precoce de uma figura pública, "cria um processo de angústia e eventualmente de depressão em algumas pessoas", sobretudo naquelas que apresentam "fragilidades na sua autoestima e na sua capacidade de gerir as frustrações", o que faz que encontrem nestas "figuras públicas idolatradas uma compensação para as suas angústias".

Qual é o preço a pagar pela fama?

Assim como aconteceu com Pedro Cunha, em que se mencionou nos media que a falta de trabalho conduziu a uma alegada depressão do ator, existem outros casos semelhantes. Importa, então, questionar: Que impacto tem a pressão mediática e os holofotes da fama na estabilidade emocional de um jovem?

Sem falar neste caso específico, e ressalvando que está a falar em termos hipotéticos, o psiquiatra Álvaro de Carvalho admite que existe um lado mais negro da fama. "Quando se faz a revisão da vida das pessoas, a chamada autópsia psicológica, verifica-se que algumas pessoas viviam num registo irreal de facilidades e que se alimentavam dos êxitos profissionais e do impacto que esta tinha junto da opinião pública. Não como atitude profissional, mas quase de sobrevivência emocional", esclarece. "Quando alguma coisa põe em causa essa idealização, a pessoa pode perder a noção do real ter como objetivo o status e a repercussão da opinião pública. Quando alguma coisa destas falha, ou quando há uma frustração que não consegue ser gerida ou resolvida, entra-se num profundo desespero", completa.

O coordenador nacional para a Saúde Mental remata dizendo que a morte de uma figura pública pode influenciar mais diretamente os seus admiradores do que aquilo que se poderia pensar. "A morte de uma figura pública pode ter um efeito negativo ou de precipitação em pessoas que estão deprimidas e que veem nessas figuras uma função de segurança."

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