Pedro Carvalho: "As pessoas têm a mente mais aberta do que se pensa"

A dar vida a um copiloto em O Beijo do Escorpião, a sua personagem dá que falar por ser homossexual. Em entrevista, Pedro Carvalho conta como já ajudou pessoas a assumir a sua opção sexual, de amor, da sua curta carreira, de como imitava pessoas em criança, do jeito que tem para desenhar e do curso de Arquitetura.

Esteve afastado dois anos da representação em televisão. O Paulo do Beijo do Escorpião era o desafio certo para voltar ao ecrã?

Essa retirada foi pensada por mim e pelo canal porque fiz sete novelas seguidas com papéis de muito destaque. É importante para um ator, também por uma questão de gestão de carreira, ter um momento de pausa, fazer formação para que depois as pessoas também sintam saudades de ver o ator em cena. Eu tinha acabado de fazer o Remédio Santo, que foi muito longo e que me trouxe dois prémios de televisão por parte do público, o que me marcou muito. Foi importante afastar-me porque o Ângelo foi uma personagem com muita composição.

Mas voltar agora foi uma opção sua?

Foi-me apresentada esta proposta por parte da TVI, obviamente que a Plural também se reuniu comigo para me dar este desafio. Esperava que me dessem um grande desafio, porque também tenho feito por merecer os desafios que me têm dado, invisto muito na minha formação, levo isto muito a sério.

Isso quer dizer que quando está parado em televisão, está a fazer formação?

Sim, mas não só. Neste momento, por exemplo, estou a trabalhar bastante em televisão e em teatro (À Margem, três curtas de Tennessee Williams, no Teatro da Comuna, em Lisboa), mas também estou a fazer formação. É importante um ator estar sempre em constante reciclagem. Quanto mais mundo pudermos trazer a nós mesmos enquanto atores, mais podemos dar aos personagens. Isso faz de mim um ator mais completo.

Quando fala em formação, refere-se a quê?

Workshops de representação, de movimento, de voz... Tudo o que tenha que ver com a parte interpretativa. Quando me propuseram esta personagem, disseram-me que era um passo diferente que queriam dar em televisão. Retratar a homossexualidade, que já foi abordada tantas vezes, mas de uma forma muito natural. Ou seja, um tipo que não tivesse tiques, trejeitos, um homem normal e que tinha uma preferência sexual diferente da normal. É uma característica dele. Fiquei feliz com a confiança que depositaram em mim para dar este passo.

Não sendo a primeira vez que é abordado este tema, o que é que este Paulo tem de diferente?

Não me foco nessa característica dele, o que digo é que o Paulo é um copiloto de jatos particulares, tem uma irmã com quem se dá lindamente, e é homossexual. Esta é só uma característica no meio de muitas. O que o torna tão intenso, e querido tanto pelos homens como pelas mulheres, é que o público vê uma complexidade interior muito grande. Ele mostra às pessoas que é feliz desta forma, tentei dar muita verdade e muita intensidade. Só sei fazer o meu trabalho assim, acreditando em todas as cenas. Nós estamos a fazer o faz-de-conta, mas as pessoas lá em casa têm de acreditar e viver aquela história. Penso que isso faz diferença, assim como a falta de tiques, é um homem normal.

Na novela o Paulo esconde a sua opção sexual. Isso é o espelho da nossa sociedade?

Ele não pode relevar a homossexualidade dele porque o patrão é homofóbico. Estive a pesquisar e com a ajuda da direção de atores - Cucha Carvalheiro, Carla de Sá, Sofia de Portugal - e dos autores - João Matos e António Barreira - fizemos um trabalho muito profundo e percebemos que a verdade é que há muitos trabalhos em que a homossexualidade é vista como uma debilidade mental, nomeadamente em áreas como a força aérea e a marinha. Áreas que deviam defender a igualdade. O medo do Paulo é esse, de perder o que tanto lutou para conseguir. Ele abdicou da sua vida pessoal por causa do trabalho.

Ele vai conseguir sair do armário?

[risos] Ao longo da história, o Paulo vai-se deparar com algumas situações e não vai tomar as decisões mais corretas. Esta novela é muito real, e o Paulo também, porque fala de amor. E tudo o que nós procuramos na vida é o amor. Seja homem, mulher, heterossexual, homossexual ou bissexual, todos procuramos amor na vida. Ele vai perceber que nem sempre tomou a decisão mais acertada e o que ele achava que eram as suas prioridades, vão deixar de ser. A vida altera, as prioridades também. Ele vai crescendo como homem e personagem. A morte do ex-namorado provocou uma grande mudança nele. Ele suicida-se precisamente porque o Paulo lhe garante que não vai viver uma vida a dois com ele porque isso vai pôr em causa a profissão dele. Existem bastantes histórias assim, de amores obsessivos que acabam por resultar nisto.

Disse que o que o Paulo procura na novela é o amor, que a própria novela é muito real por falar muito de amor e que ao fim e ao cabo o que todos nós procuramos na vida é o amor. E o Pedro, já encontrou o amor na e da sua vida?

[risos] Eu neste momento estou muito dedicado à minha família, ao trabalho, à minha sobrinha de três anos e aos amigos. O amor não se procura, o amor acontece. Acredito que ele exista, a minha mãe diz que todas as panelas têm uma tampa, por isso... [risos]. Acho que existem pessoas que se possam entender e viver uma vida juntas. Logo se vê o que a vida me reserva, não estou preocupado com isso.

Conhece alguma história com um amor obsessivo?

Sim, já vi documentários. Pessoalmente não me recordo de nenhuma, mas existem histórias reais. Os filmes são ficcionados, mas baseados na realidade. E mesmo nos jornais aparecem notícias em que a outra pessoa é o mundo delas e acabam por se anular, perder o amor próprio e até o amor à vida. O interessante é que na novela o Paulo sofre esta mudança, e ele vai ter de se tornar homem, ele é assim e por isso terá de assumir as suas responsabilidades, os defeitos, sem medo daquilo que possa enfrentar.

Acredita que através da sua personagem possa ajudar algumas pessoas a assumirem a sua opção sexual?

Já estou a ajudar. Em oito projetos que já fiz em televisão, esta personagem é a que tem o maior feedback. Recebo muitas cartas, mails, no site do Beijo do Escorpião, na minha página oficial do Facebook. Tenho uma página onde vou pondo parte do meu dia, peço opinião às pessoas constantemente e é muito interessante porque já recebi imensas mensagens e muitas delas me emocionaram. Um ator pretende passar uma mensagem, não é apenas fazer por fazer, pretende emocionar e marcar as pessoas, e eu percebi o que estava a fazer quando na rua vêm ter comigo e me dizem que eu lhes fiz pensar na vida delas ou na dos filhos.

Isso quer dizer que conseguiu chegar às pessoas?

Acho que sim, recebo muitas mensagens de mães que não conseguiam compreender os filhos e o mundo deles, de mulheres, de homens, muitos deles dizem que encontram força para enfrentar o trabalho deles, assumir as questões deles. Isso é interessante ver. Algumas mães dizem-me que achavam que ser homossexual era ser mulher, mas que afinal não é assim. Como quando fiz uma personagem toxicodependente em que algumas pessoas se identificaram. Todos nós estávamos com algum receio do que é que o público iria achar, mas é das personagens mais acarinhadas da novela e isso é interessante, é sinal de que os portugueses não são assim tão tacanhos. Afinal, as pessoas têm a mente mais aberta do que se pensa.

Acha que a nossa sociedade já não está tão conservadora?

Acho que as pessoas não são tão conservadoras como pensamos. O que sinto é que tudo depende da forma como se passa a mensagem. Eu trabalho para o público e tenho muito esse cuidado, relativamente à forma como passo a mensagem, tenho muito respeito pela dona Palmira, pelo sr. José. É como os autores me disseram: "Pedro, não queremos chocar ninguém, mas também não queremos dourar a pílula." Ou seja, falar das coisas como elas são. Estamos no limbo, queremos ir mais além, como os brasileiros, mas se calhar temos de dar dois passos atrás.

É a primeira vez que se veem cenas de cama entre dois homens. Como foi gravar essas cenas?

Em todos os desafios que me dão dou a máxima verdade. E arrisco. Sou uma pessoa de tomar decisões e ir em frente atirando-me de cabeça. Primeiro que tudo tive de acentuar muito a questão do desporto, para atingir um nível físico que seja também agradável aos olhos das pessoas [risos].

É vaidoso?

Não sou exageradamente vaidoso, mas trabalho com o meu corpo, a minha imagem é um dos meus instrumentos de trabalho e sabia que isso também iria ser parte integrante da minha personagem. O Paulo é desportista. Claro que as cenas de cama nunca são confortáveis, seja com homens ou mulheres. E quem disser o contrário está a mentir, por mais desinibido que seja, mesmo trabalhando com aquela equipa há anos. Nunca tinha trabalhado nem com o Vítor Silva Costa nem com o Duarte Gomes, mas foi uma coisa a que me adaptei muito bem. Eu adapto-me muito bem às circunstâncias. Hoje, já chego ao plateau e o Hugo de Sousa [diretor artístico] diz: "Dispam-se, ponham o tapa sexo e entrem dentro da cama para a cena y." Já fazemos aquilo muito automaticamente, porque a seguir vou fazer outra cena em que estou com a minha irmã, ou a discutir com alguém. Na novela não há tempo para vergonhas e pudores, é fazer e pronto. Eu sei que tenho uma responsabilidade muito grande nesta novela, porque a minha personagem é muito importante na história, tenho de estar muito focado.

Os seus pais veem a novela?

O meu pai e a minha mãe veem quando podem, porque têm várias empresas e estão muitas vezes fora em trabalho. A minha avó, de 86 anos, vê e é a minha maior fã. É engraçado ver o feedback dela nesta personagem, ela não dá grande importância a estas cenas mais específicas, mas diz-me que o Paulo podia dar mais atenção ao rapaz, já que ele gosta tanto dele. "Ó Pedro, fala lá com os autores" [risos]. Eu explico-lhe que não posso fazer isso porque a história é assim. No início pensei em como seria a reação dela e dos meus pais.

Mas tinha medo da reação deles?

Não tive medo da reação dos meus pais. Tive curiosidade. A minha avó é o reflexo de todas as donas Palmiras do país e por isso é interessante ouvi-la. Ela não se foca nisso, mas cenas de cama, mas sim na história, como se fosse um homem e uma mulher. E que bom que é conseguir passar uma mensagem sem chocar as pessoas.

Já sabe pilotar aviões ou não?

Tivemos um pequeno lamiré [risos]. Sei ligar o avião, alguns comandos técnicos, só os principais. Eu falo muito de termos técnicos e por isso faz sentido saber do que estou a falar, quando não me é pedido isso eu vou à procura. Mas se me pedirem para eu ir a algum lado de avião eu não sei [risos]. Se calhar com o espírito aventureiro que tenho até arrancava e ia.

É aventureiro?

Às vezes até de mais. Gosto de testar os meus limites, acho que só se vive uma vez. Sou muito da política do carpe diem. Não sou irresponsável, mas aventureiro.

E não tem medo de andar de avião?

Não. Tenho medo de andar em meios dentro de água. Isso tenho receio. Agora, voar, não. Comecei a andar de avião desde muito cedo com os meus pais, e por isso adaptei-me muito bem a isso. E, agora, depois desta personagem, tenho ainda mais vontade de fazer queda livre e já estou a combinar com um grupo de amigos.

Regresso de Moniz e a concorrência

Não sentiu saudades de estar em televisão quando esteve parado naquele período?

Claro que sim. É a minha profissão, é o que gosto de fazer, e só me fez apaixonar ainda mais por esta arte. Por isso fui investir na minha formação. Não foi fácil tomar esta decisão, porque o mais fácil para mim seria continuar a fazer personagens atrás de personagens. Mas se calhar o público não daria o valor que está a dar ou eu não iria trazer para o Paulo o que estou a trazer. Há uma fase em que se tem de parar. Investir na formação e enriquecer como ator. Hoje em dia é moda ser ator, mas nem toda a gente é ator. Isto é uma profissão muito séria, ser ator é uma profissão tão séria quanto ser médico ou arquiteto.

Isso é um discurso muito usado por atores mais velhos, como uma forma de crítica aos mais novos...

Pois [risos]. Eu lutei muito para chegar até aqui. Nada me caiu do céu. Tenho perfeita noção de que nada me foi dado de bandeja, por isso cada personagem, cada momento que tenho nesta profissão, cada reconhecimento do público, cada peça de teatro tem um sabor muito diferente.

Tem contrato de exclusividade?

Tenho.

O Pedro vem de uma geração de atores habituados a ter ordenado certo ao fim do mês. O facto de poder vir a perder isso preocupa-o?

Não estou preocupado com isso. Quero acreditar que o trabalho que fiz até hoje me faça valer. As pessoas com quem trabalho sabem que podem confiar em mim a mil por cento para fazer qualquer personagem. Sabem do que sou capaz e do meu profissionalismo. Só tenho de estar seguro do percurso que fiz até aqui. É esperar pelo dia de amanhã.

A concorrência também está cada vez mais feroz....

Sim e ainda bem. A concorrência é ótima. Temos mais olhos em cima de nós e o mercado de trabalho está mais alargado, há mais hipóteses de trabalho para nós atores, técnicos... É sempre bom.

Claro que a concorrência é boa e faz crescer. Mas não é uma ameaça?

Isso obriga-nos a ser melhores e a fazer melhor e a acreditar num trabalho melhor. Temos de dar mais de nós.

Começou com o José Eduardo Moniz no comando da TVI. E agora volta a apanhá-lo como consultor da ficção da estação. É uma mais-valia?

Não posso mentir que estou superfeliz. O José Eduardo Moniz apostou muito em mim e ele sabe daquilo que eu sou capaz. Ele viu-me crescer. Acho que ele é uma mais-valia para nós TVI e para nós Plural porque para além de ser um homem extremamente inteligente é muito intuitivo e acerta.

Já se sente o dedo dele?

Já. Já foram feitas alterações, vou estando atento às audiências. Se eu não soubesse que ele estava de volta e estivesse muito atento, acho que conseguia perceber que havia alguma coisa de diferente. O José Eduardo transformou uma televisão de igreja numa televisão líder de audiências e acredito que ele vá fazer o mesmo agora. Ele disse uma coisa numa entrevista que eu fixei: "Quando se cria um ADN e ele funciona, quando se muda, as coisas deixam de funcionar." É baseado nisto que eu acredito que as coisas vão mudar. Ele sabe distinguir um ator de um não ator, sinto isso pelas apostas que ele faz. Eu agradeço-lhe sempre a ele e à Gabriela Sobral por terem apostado em mim.

E o Luís Esparteiro ter saído foi uma perda?

Não acompanhei muito esse percurso porque foi quando estava afastado. Só fiz uma participação no Mundo ao Contrário, por isso não posso falar. Conheço o Luís Esparteiro como ator, profissional e como amigo. E gosto muito dele, tanto como ator como realizador. Na vertente de diretor, não sei.

Falou na Gabriela Sobral. Cada vez mais se tem assistido a uma troca de atores entre a SIC e a TVI. Já foi convidado para a SIC?

[risos] Isso é algo que não se pode revelar. Os meus pais sempre me ensinaram que podia ter muito talento, mas sem trabalho nada vem. Estou seguro dos passos que tenho dado, tenho trabalhado bastante...

Nasceu na Guarda. Como veio para Lisboa?

Vim para Lisboa aos 17 anos estudar Arquitetura, na altura os meus pais não eram muito a favor que eu fizesse representação. Mesmo tendo eles capacidades económicas, fiz questão de me aplicar nesse curso, porque era uma área que gostava e gosto muito e que me complementa, para ganhar uma bolsa de três anos em que recebia uma mensalidade de mais 600 euros, para pagar o curso de atores. Também não pagava propinas na universidade porque tinha a melhor média do meu ano, de 17 valores. Podia ter pedido dinheiro aos meus pais e eles se calhar até pagavam. Mas eu quis provar a mim mesmo, já aqui respeitava muito esta profissão, que era mesmo isto que eu queria. Eu tinha de sentir o que era trabalhar tanto numa outra coisa para conseguir esse dinheiro para pagar o meu curso de atores. E eu sabia que todas as aulas a que eu ia era com o suor do meu esforço. Todos esses anos, na ACT, eu sabia que estava lá porque eu queria, podia ter aplicado o dinheiro numa viagem, ou noutra coisa qualquer.

Mas fez mais formação, certo?

Fiz workshops em Madrid, em Nova Iorque, em vários sítios, e o contacto com outros colegas tem-me feito ver que isto é uma profissão muito séria. A fama é uma consequência muito pouco importante. O importante é a seriedade desta profissão e fazê-lo com uma paixão imensa.

Os seus pais apoiaram-no ao perceberem que era isto mesmo que queria?

Desde muito cedo que eles reconheceram e incentivaram-me nesta vertente artística, tanto a mim como aos meus irmãos. O meu pai, por exemplo, gravava-me desenhos animados e eu depois de os ver escolhia um dos bonecos e imitava todos os seus comportamentos durante algum tempo.

Já percebi que representar sempre esteve muito presente. Como conseguiu chegar à televisão?

Quando estava na ACT, comecei a fazer publicidade e ia a muitos castings. Os nossos professores diziam mesmo para nós irmos a castings, eu ia e acabava por ficar. Fiz uma longa-metragem também. Fui-me apaixonando cada vez mais por esta arte. Não ia a castings para novela porque achava que ainda não estava preparado. Até que me chamaram para um casting, ligando para a escola a pedir para eu ir. Fui, mas não fiquei [risos]. Ligaram-me mais tarde novamente, fui e acabei por ficar.

Está a referir-se aos Morangos com Açúcar?

Sim. Disseram-me que ia fazer um workshop de três meses com o Jorge Cardoso e com a Maria Henrique, em que ia ter aulas de dança, voz... Então estava na ACT a estudar representação, a estudar arquitetura e a fazer este workshop. Foi uma loucura [risos]. Primeiro foram selecionadas 400 pessoas, depois 40 e acabaram por ficar 12.

Recorda-se da sua reação quando percebeu que tinha ficado?

Estávamos cá fora, nos estúdios da antiga NBP e o Jorge Cardoso chama-me. Fui o primeiro, por isso pensei que não era para ficar. Então perguntaram-me: "Estás preparado?" Disseram-me que eu ia ser o protagonista/antagonista da série 4 dos Morangos com Açúcar, escrita pelo António Barreira, e, pronto, nunca mais parei.

Mas a par da televisão, também começou a fazer teatro cedo...

Sim. A Maria Emília Correia ligou para a escola a pedir para eu ir fazer uma audição para a peça de teatro Um Conto Americano - The Water Engine, de David Mamet, que ia estar em cena no Teatro D. Maria II. E fiz, acabou por ser engraçado porque para terminar o curso na ACT tinha de fazer uma peça de teatro, mas como estava a fazer esta, não conseguia também fazer aquela de final de curso. Isso fez que a Patrícia Vasconcelos, o Dimitri Bogomolov, a Elsa Valentim, o António Pedro Vasconcelos e o Nicolau Breyner fossem fazer a avaliação ao Teatro D. Maria II.

Deram-lhe boa nota?

[risos] Sim. Acabei o curso com 18 valores.

Arrumou o curso de Arquitetura?

Arrumei a licenciatura, falta-me ainda apresentar a tese para o mestrado ficar concluído. Mas, entretanto, este ano quis tirar um curso de Avaliação Imobiliária que terminei há pouco tempo.

Mas porque quis tirar esse curso?

É muito importante para mim, preciso deste complemento artístico de exposições, pinturas, arquitetura, escultura para eu crescer enquanto ser humano e tornar-me mais completo. Isso traz-me mais mundo. Agora tenho de pensar na tese e depois hei de pensar, a par dos workshops que faço, noutras coisas para fazer porque não sei estar quieto.

O facto de não largar o curso de Arquitetura é uma segurança caso a vida de ator lhe correr mal?

[risos] Quero acreditar que não me vai correr mal, tenho dado passos lentos, mas muito sólidos. Acredito numa carreira assim. Devagar se vai ao longe. Quando invisto na arquitetura não é pela segurança financeira, até porque nenhuma profissão neste momento dá segurança. Os meus amigos arquitetos estão todos a emigrar. É mais pelo lado cultural e intelectual, preciso de estar sempre a aprender, para não me tornar num daqueles jovenzinhos giros que até fazem umas coisitas em televisão.

"As pessoas vivem numa hipocrisia de valores"

Em três das novelas líderes de audiências, Beijo do Escorpião, Sol de Inverno e Amor à Vida é abordada a homossexualidade...

O Mateu Solano, do Amor à Vida, na vossa revista chegou a dar-me alguns conselhos, o que achei extraordinário [risos]. Acompanho a novela, acho a trama extraordinária, o enredo e a personagem que ele faz é outra forma de abordar o tema. Tem mais trejeitos, no Brasil, e as pessoas gostam dele, muito pela parte cómica que ele dá. A personagem de Sol de Inverno (interpretada por Ângelo Rodrigues) não acompanho.

Já evoluímos um bocadinho neste campo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo já foi legalizado, mas a lei da coadoção foi chumbada.

Chumbada por cinco votos [risos]. Acho extremamente ridículo. Defendo muito a política de que as pessoas têm de ser felizes à maneira delas. Uma criança estar em casa de um casal seja homossexual ou não, terá muito mais amor e um acompanhamento muito maior. Não percebo, para mim não é coerente. É uma questão muito delicada, mas não estava à espera que fosse chumbada. O mais importante nesta vida é o amor, a pessoa cria a sua personalidade à sua forma, não é por ter dois pais ou duas mães que a criança vai ser homossexual. Senão, não existiam homossexuais [risos].

Faz sentido que ainda se faça tanto alarido pela existência de personagens gays nas novelas?

A homossexualidade sempre existiu. Hoje em dia com os meios de comunicação que temos, com o acesso tão facilitado às redes sociais, à internet, acho que não faz sentido tanto alarido. No outro dia a minha personagem a contracenar com a Joana Seixas dizia: "Porque é que eu tenho de dizer aquilo que eu sou? Porque é que não dizes que és heterossexual?" Ninguém tem nada que ver com isso. As pessoas vivem numa hipocrisia de valores, não vivemos só numa crise económica.

"Faltava às aulas para ir assistir às dos alunos de artes"

Como era em criança?

Era muito reguila, passava o tempo a desenhar, a imitar as pessoas que via na rua. Era capaz de estar num jantar com os meus pais, levar umas roupas esquisitas, como um colete maior do que eu, porque tinha visto uma personagem num filme e comportava-me como ele, fingia que bebia um café como ele, comia como ele... e a minha mãe só dizia "lá está o Pedro no mundo dele". Lembro-me de que a primeira vez que a minha mãe nos levou ao Museu do Louvre, em Paris, eu ficava largos minutos a olhar para um quadro a perceber como é que aquele traço tinha sido feito... O mundo artístico sempre me interessou. O desenho é uma extensão da minha mão. Ninguém me ensinou a desenhar.

Desenha em casa?

Desenho.

Já pensou em expor trabalhos?

Vamos ver. Os meus pais estão sempre a dizer para eu fazer alguma coisa. Mas é um mundo muito meu... Gosto muito de desenhar pessoas. Eu era capaz de ir para a rua, sentar-me e à medida que as pessoas iam passando eu ia desenhando. Mas tudo para mim. Às vezes, ando com um diário gráfico debaixo do braço, tento reproduzir algumas coisas, mas é uma composição só para mim. Tenho alguns quadros em casa, pintados por mim, já dei a alguns amigos. A casa dos meus pais está cheia de coisas minhas, é o presente de que eles mais gostam.

O que queria ser quando era pequeno?

Eu dizia que queria ser pirata, desenhador de desenhos animados, queria ser artista [risos]. Sempre fui muito ligado aos meus pais, sempre fui muito da família, aquela coisa de estar com eles, de os mimar. Eles são o pilar da minha vida.

É bom aluno desde pequeno?

Sempre fui, mas havia matérias que não me interessavam nada. Sempre adorei matemática, física, desenho, mas as áreas de história e aquelas disciplinas que era preciso marrar, nunca gostei muito. Mas como sempre fui perfecionista, aproveitava a facilidade em decorar e decorava a matéria toda duas horas antes do teste, transcrevia o que tinha na cabeça e conseguia.

Cabulava?

Não. Não conseguia fazer cábulas, e a primeira vez que tentei usar uma na faculdade ia sendo apanhado. Só consegui ver duas linhas, era História de Arte.

Faltava às aulas?

No 12º ano faltava, para ir assistir às aulas do alunos de artes. Eu andava em Científica/Natural, os meus pais nunca estiveram muito de acordo que eu fosse para Artes e então eu saía das aulas de Biologia para me infiltrar nas aulas com os outros colegas. E levava os materiais todos também. Os meus pais começaram a ver as faltas, mas como tinha uma média razoável, acabavam por não me ralhar muito.

Que média tinha?

Acabei o secundário com média de 18.2.

Como era em adolescente, saía ou ficava em casa a estudar?

Saía à noite e ia para a discoteca. Os meus pais passaram a ser mais liberais quando começaram a confiar em mim. Mas tive de lhes provar que merecia, fosse no que fosse, nas notas, numa tarefa que eles me davam. Nunca me impuseram nada, se eu conseguisse tinha benefícios, se não, olha... não tinha.

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