O que sabem eles sobre o 25 de Abril?

Têm entre 9 e 15 anos e, apesar de a Revolução já ter sido há 40 anos, todos têm algo a dizer sobre ela. Manuela Moura Guedes moderou o debate.

Não foi uma aula de História, mas podia ter sido. Ou melhor... Há 40 anos seria quase impossível realizar-se. Mas a Notícias TV desafiou Manuela Moura Guedes e um grupo de seis crianças a falar sobre o 25 de Abril. E a resposta foi rápida. "Sim." O local do encontro não podia ser outro, os estúdios de Quem Quer Ser Milionário, na Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos.

O relógio marcava 16.35 de terça-feira quando a apresentadora deixou o seu camarim e se juntou a Francisca, 11 anos, Mariana, 11, Tiago, 11, Diogo, 9, João, 15, e Gonçalo, 14. "Olá, meninos! Estão bons? Digam-me então os vossos nomes. Já sei que não os vou conseguir decorar, mas vamos tentar", soltou a jornalista. Todos se apresentaram e seguiram para o estúdio. E logo Francisca se queixou: "A minha mãe inscreveu o marido dela no seu programa e ainda não o chamaram", disse, ainda meio envergonhada. "Deve estar na lista de espera. Há muitos inscritos", riu-se a comunicadora.

Mal pisaram o palco de Quem Quer Ser Milionário, os primeiros sinais de espanto começaram a ouvir-se. "Isto é mais pequeno. Na televisão parece maior", disse Mariana, fã do concurso da RTP1. "Estão a ver isto aqui debaixo de nós? Agora não estão cá, mas quando o programa começa, há aqui crocodilos", provocou Manuela Moura Guedes, referindo-se ao chão transparente do cenário.

Já familiarizados com o estúdio, os seis jovens sentaram-se nas cadeiras dos concorrentes e improvisaram o jogo inicial, para saberem quem seria o primeiro a tentar a sua sorte. "Mas isto aqui não tem os tablets, como é que vai saber quem ganhou?", questionou Tiago. "Improvisamos, faz de conta que estão aí. Eu vou fazer "um, dó, li, tá" para ver quem ganha... Foi Diogo, que é o primeiro concorrente desta noite", anunciou Manuela.

Cinco minutos volvidos, e após várias fotografias, dava-se início à conversa que juntou estas duas gerações. "Onde nos sentamos? Pode ser no chão? Usamos as almofadas das bancadas", sugeriu a apresentadora. "Vamos mesmo conversar, não sou só eu a falar, vocês têm de interagir. Mariana, tu não estás bem. Nem me vês, vamos pôr a almofada mais para o lado, para estarmos todos bem", acrescentou, já a pensar que a inevitável agitação e boa disposição destes jovens desse lugar a alguma timidez.

No seu jeito bem-disposto, deu início à conversa. "Ora então, o que é para vocês o 25 de Abril?". E foi Francisca a primeira a dar o seu ponto de vista. "O tio Pedro e o meu pai explicaram-me. Também é chamado Revolução dos Cravos, porque no Largo do Carmo estava uma senhora a vender cravos e depois pôs um cravo na espingarda de um dos militares." "É o fim da ditadura e o começo da democracia", complementa Diogo. "Para quem viveu naquela altura, sim, significa muito. Agora para nós já foi há muito tempo", ripostou João. E como seria a vida antes do 25 de Abril? "Devia ser má... Não tinham liberdade", reagiu prontamente Francisca. "Hoje podemos ouvir e ver o que queremos. Naquela altura, não", completou João. Apesar da tenra idade, os seis jovens não têm dúvidas de que "não é bom" viver sem liberdade. "Nem imagino como era", disse Mariana.

"Tiago, estou a ver-te muito calado. Diz-me lá, tem significado para ti, o 25 de Abril?", provocou Moura Guedes. "Eu não vivi o 25 de Abril", respondeu Tiago, envergonhado. "Não sabes o que é uma ditadura?" "Eu sei, eu sei. É não podermos dizer qual é a nossa opinião", referiu, por sua vez, Diogo. E Salazar, quem é ele? "Um homem", disse João. "Mas há homens e homens", advertiu a apresentadora. "Tudo o que ele fazia estava sempre bem. Não precisava de mais ninguém para gerir o País. Foi subindo de cargo dentro do Governo e começou como ministro das Finanças", complementou Gonçalo. A conversa continuou descontraída, até Manuela Moura Guedes voltar a insistir que as perguntas não podiam ser só suas. "Oh, tu vais acertar em tudo", lamentou Diogo. "Mas perguntem coisas sobre as quais tenham dúvidas", acrescentou o rosto de Quem Quer Ser Milionário.

E João não se coibiu de perguntar o que tinha mudado na vida de Manuela com o 25 de Abril. "Muita coisa. Se calhar se não tivesse havido o 25 de Abril, não estava cá, ou então estaria presa, porque costumo dizer aquilo que penso e não sou capaz de viver sem liberdade", atirou. Já Francisca quis saber que memórias a apresentadora guarda daquele dia. "Tinha 17 anos, estava no primeiro ano da faculdade. Ia ter exame nesse dia e a primeira coisa que pensei foi que já não ia ter exame. Andava toda a gente em alvoroço", recordou a comunicadora.

Depois de debaterem como tinha acontecido a Revolução, chegou um momento musical. "Conhecem as duas músicas que marcaram o 25 de Abril?", perguntou Manuela, que em seguida começou a entoar o refrão de E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho. Ninguém a acompanhou. A vergonha falou mais alto. "E sabem quem é que fez a Revolução?". "Foi o povo", respondeu João. "Os militares... O Salgueiro Maia, o Otelo Saraiva...", acrescentou Gonçalo. A conversa prosseguiu e o grupo falou sobre a vida das crianças durante a ditadura. "Eles não dialogavam com os pais como nós fazemos hoje. Não havia uma relação tão aberta", frisou Gonçalo.

Já na reta final da conversa, Manuela Moura Guedes desafiou os jovens a revelarem o que significa liberdade para cada um deles. "É poder escolher a roupa que quero", respondeu prontamente João. "É poder brincar", soltou Diogo. Tiago, por sua vez, defendeu que é "poder ir para o campo". Já a liberdade para Mariana é "poder fazer desportos". "Poder estar com quem eu quero", admitiu Gonçalo. E Francisca, a mais indecisa, lá acabou por confessar: "É poder falar à vontade, sem medos."

A terminar, e depois de brincar com Manuela Moura Guedes com o tema por ela interpretado Foram Cardos, Foram Prosas, Mariana deixou uma última pergunta: "Sabe como se chamava a senhora que distribuiu os cravos naquele dia?" A resposta foi negativa. "Celeste", revelou Mariana, orgulhosa. "Estás a ver as coisas que tu sabes? Eu não sabia como é que se chamava essa senhora", confidenciou Moura Guedes, com um sorriso nos lábios, contente por ter trocado impressões com seis crianças que vivem uma realidade bem diferente daquela que marcava Portugal há 40 anos. "Só tive pena de que não tivessem feito mais perguntas", lamentou.

Antes da despedida, tempo para tirar mais fotografias. "Vamo-nos deitar. É esta a nossa liberdade", rematou.

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