"O pivô é uma espécie de clínico geral das notícias"

Nascido na Lousã e criado nas rádios, primeiro locais e depois na Antena 1, o pivô que, há sete anos, é o rosto do Primeiro Jornal da SIC dá a sua primeira entrevista. Reservado mas com opiniões convictas, Bento Rodrigues revela que escapou a uma carreira como advogado... por culpa de Gil Vicente.

Quando termina o Primeiro Jornal, o que é que se segue?

[risos] Segue-se o almoço, às duas e meia. E depois segue-se o planeamento do dia seguinte. Como estamos muito pressionados pelo tempo nessa manhã, o planeamento tem uma importância fundamental. E uma boa parte do jornal, talvez metade, vive do planeamento do dia anterior. O resto é atualidade e aquilo que vai acontecendo, às vezes até durante o próprio jornal.

E quando a notícia acontece quando está no ar?

Esse é o momento em que o pivô está entregue a si próprio. Esse é o momento em que a bagagem do pivô faz toda a diferença. Nessa zona das notícias de última hora não há nada que nos valha. A informação é escassíssima e é preciso complementar isso com toda a nossa bagagem. Essa é a diferença entre os que são capazes e os que não são capazes. Aliás, esse é sempre o ponto de partida quando entramos em estúdio. Há um jornal preparado mas temos de estar sempre prontos para que aquele jornal não seja rigorosamente nada daquilo que planeámos.

Que tipo de preparação implica o trabalho de pivô para estar a postos nos momentos em que é preciso improvisar?

Improvisar sobre nada é possível mas não é honesto. Portanto, convém que se improvise sobre matéria concreta. Isso implica uma coisa muito simples que é estudo, leitura, consulta de informação nas várias plataformas. Estar preparado é isso. É, sobretudo, estar informado e ter um domínio transversal sobre a atualidade. Esse é um dos aspetos que me fascina no trabalho de pivô. Obrigar-me, no bom sentido, a ter um domínio bom sobre os vários assuntos da redação. O pivô precisa de dominar uma diversidade de matérias. O pivô é uma espécie de clínico geral das notícias.

De que forma é que os blocos noticiosos como o Primeiro Jornal se adaptaram desde que surgiram os canais de notícias?

No final do dia, as notícias são sempre as notícias. Aquilo que mudou com o aparecimento dos canais 24 horas foi o fluxo informativo. O rio de notícias alargou-se e, principalmente, pressionou os protagonistas da atualidade a movimentarem-se de uma maneira completamente diferente neste caudal de notícias. O impacto para os canais generalistas foi este, acho eu. Eu acho que os canais de notícias têm um impacto ainda maior do que esse, que é serem responsáveis por haver pessoas mais informadas, logo mais livres. E se considerarmos que pessoas mais livres constituem uma democracia mais madura, então devemos considerar que os canais 24 horas, como a SIC Notícias, na altura em que apareceu, são fatores que cimentam a democracia.

Não vemos isso refletido na participação eleitoral.

Na abordagem jornalística vemos isso de uma maneira muito simples, que é o fim do respeitinho.

Está na SIC desde 1994, dois anos após o arranque da estação. Teve essa sensação de rutura?

Absolutamente! O fim da era do respeitinho, sim.

"A televisão digital terrestre é um processo surreal"

Cerca de um quinto da população portuguesa não é subscritora de televisão por cabo, iptv ou satélite, tem acesso apenas à televisão digital terrestre (TDT). Essas pessoas têm, com os canais generalistas, informação suficiente para serem livres?

O problema é que, com a TDT, há uma fatia significativa de pessoas que deixaram de ter televisão, pura e simplesmente. Esse é o problema. É um processo surreal. Nós tínhamos quatro canais, que chegavam a toda a gente, inventou-se uma coisa chamada TDT, que é uma autoestrada, onde continuam a navegar exatamente os mesmos quatro canais! E, curiosamente, neste processo, continua a ganhar toda a gente menos os consumidores de televisão. Ganha um grande grupo empresarial, ganham os operadores que ganharam assinaturas por causa do medo das pessoas ficarem sem televisão e ficaram... ganharam os fabricantes e comerciantes de descodificadores... só perderam alguns milhares de consumidores, que vivem nas chamadas zonas sombra e que ficaram sem televisão! Já não tinham medicamentos, acesso à saúde também já não tinham muito. Restava-lhes a televisão e agora nem isso! É um processo absurdo. Por isso, acho desnecessário sequer ter essa discussão sobre as vantagens e as desvantagens da TDT, de lá estar o canal A ou B, quando há pessoas que estão privadas desse serviço por causa desta coisa extraordinária e absurda!

Porque é que, dois anos depois de ter terminado o processo de migração para o digital, essas pessoas existem e nada foi feito para que essas pessoas possam ter acesso?

Porque não contam!

Como assim?

Porque é que hão de querer saber dos velhos que vivem atrás do sol posto? Qual é a relevância? Porque não contam! E porque é fácil serem objeto de decisões absurdas, de poderes abjetos. Só por isso. Porque não contam. Não são relevantes.

Nos últimos três anos, o Primeiro Jornal tem sido o segundo bloco noticioso mais visto, atrás da TVI e à frente da RTP...

Isso está a mudar. Faz-se passo a passo. Isso está a mudar desde que a manhã da SIC foi mexida e ganha um sustento diferente para o arrancar do Primeiro Jornal. Isto porque, em televisão, dificilmente um programa funciona como uma ilha. Depende sempre muito do que tem antes e do que vem depois. E se olharmos para o Primeiro Jornal, a verdade é que, durante muitíssimo tempo, aquilo que temos antes da uma da tarde é muitíssimo menos do que o que está na concorrência. E, ainda assim, e isso é importante sublinhar aqui, apesar dessa desvantagem terrível, chegamos ao final do Jornal a par e, às vezes, à frente da concorrência. Isso é um comportamento extraordinário! E depois é preciso não esquecer outra coisa. O Primeiro Jornal lidera nos públicos que, em televisão, são mais relevantes. E isso não é coisa pouca.

Há pivôs que têm cada vez mais atividades paralelas, como lançar livros, serem professores, cronistas. Alguma dessas vertentes extrajornalísticas alguma vez o fascinou?

Dar aulas, sim. Escrever livros, não. Já dei aulas e gostei muito, espero que os alunos tenham gostado também. O que me está a perguntar é se estou a pensar lançar um livro, porque é suposto as pessoas que aparecem na televisão lançarem livros?

Não sei se é suposto ou não. Sei que muita gente o faz.

Lá está.

O Rodrigo Guedes de Carvalho, por exemplo, escreve uma crónica de opinião na revista TV Mais.

Mas o Rodrigo e o José Rodrigues dos Santos são casos diferentes.

Porquê?

Porque são escritores. Afirmaram-se como tal. No meu caso é completamente diferente. Se me pergunta se eu penso escrever um livro? Não e sim. Não porque acho que não tenho esse talento. Honestamente. Sim porque apesar de eu achar isto, há pessoas que acham o contrário e já surgiram algumas propostas, apesar de terem sido recusadas.

Então é porque escreve alguma coisa e já alguém leu.

Não, de todo. Lá está! É só porque é suposto que quem aparece na televisão quer lançar um livro! Aquilo que eu digo é não. Haja respeito pelos escritores. Já temos nos escaparates lixo suficiente de quem apareceu na televisão há meia hora ou foi ao fim da rua fazer uma reportagem e lançou um livro. Ou cometeu um livro.

"O meu irmão é muito melhor do que eu"

Quem é que decidiu primeiro ser jornalista? O Bento ou o seu irmão, Nuno [Rodrigues, 33 anos, jornalista da Antena 1]?

[gargalhada] Pela diferença de idades, fui eu! O meu irmão é o extraordinário editor da manhã da Antena 1, o mais novo editor de sempre da manhã da rádio pública, o titular das melhores audiências dos 20 anos da rádio pública, dono de uma voz extraordinária, de uma capacidade de improviso notável e de uma inteligência e rapidez absolutamente incríveis. Além de tudo isso, é meu irmão.

Nota-se que sente muito orgulho nele.

Só sinto orgulho, apesar de ele não precisar desse orgulho, porque é completamente autónomo, muito melhor do que eu.

Voltemos à Lousã, onde nasceu. Como é que surge o jornalismo na sua vida?

Surge por culpa do Gil Vicente. Quando eu andava na escola primária houve ali uma altura em que queria ser médico. Depois isso passou-me no arranque da escola preparatória porque era péssimo a Matemática, era uma tragédia! Daí para a frente formatei a minha cabeça para ser advogado e estava absolutamente convencido de que era por aí que as coisas iam seguir até ao 12º ano. Depois houve uma professora de História que achou que eu ia ser um extraordinário deputado. Felizmente não fui.

Porquê felizmente?

Porque é um terreno de parcialidade e cada vez mais distante da verdade, em que não me reconheço.

Estava a dizer que pensava que ia ser advogado...

Felizmente, houve ali uma altura em que se organiza uma peça de teatro de Gil Vicente, O Auto da Barca do Inferno, em que entrei. Fiz de fidalgo, com uns collants ridículos e uma fatiota de que não vamos falar... essa peça teve algum sucesso, levou-nos a algumas atuações ali nas redondezas e à rádio local, à Rádio Clube da Lousã. E, pronto, nasceu aí. "Olha um estúdio de rádio, olha isto é giro, se calhar amanhã venho cá fazer uma perninha por carolice." Fazia tudo, animação, técnica, notícias, programas, limpar o chão, fazer publicidade. Tudo.

E depois da Lousã?

Depois de dois anos nessa rádio local convidaram-me para a Antena 1, em Coimbra, onde estive dois anos, de 1988 a 1990. Em 1990 entrei na faculdade em Lisboa. E lá vim para a Universidade Nova e, ao mesmo tempo, consegui transferência para a Antena 1, em Lisboa, e fazer ao mesmo tempo o curso de Antropologia. Comunicação Social nessa altura não me seduziu.

Quem foram os seus professores na rádio, tanto em Coimbra como em Lisboa?

Muita gente! Então para quem chega tão novo e numa altura em que há tanta gente consagrada... seria injusto nomear. Talvez seja mais justo nomeá-los todos numa figura maior da rádio dessa altura, que é o Francisco Sena Santos. Mas aprendi muito com muita gente.

Como foi o primeiro direto enquanto pivô?

Foi com os nervos normais de uma estreia em televisão. O peso que a SIC tinha na altura, que era incrível... eu era relativamente novo, tinha 26 anos... foram momentos de grande pressão mas, ao mesmo tempo, de serenidade porque o trabalho de preparação que se fez foi muito bom, feito pelos melhores e rodeado por uma zona de conforto que garantiu que a coisa corresse bem.

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