"O humorista ideal seria o que não tem amigos"

Gargalhadas, conselhos e histórias de vida foram os ingredientes de uma conversa descontraída entre Herman José, Nilton e Rui Sinel de Cordes. Desafiados pela nossa revista, os humoristas testaram os limites do humor, num debate em que Herman acabou em cuecas, na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes.

Herman José, Nilton e Rui Sinel de Cordes trouxeram agitação à pacata cidade de Abrantes com as suas piadas acutilantes. A convite da Notícias TV, os três humoristas participaram na conferência "Os limites do humor", realizada na segunda-feira na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar.

Ainda não eram 17.00, hora marcada para o início do debate, e já um aglomerado de alunos e funcionários da ESTA esperavam ansiosamente pela chegada dos convidados. Rui Sinel de Cordes foi o primeiro a ser recebido por Nuno Azinheira, moderador da conferência e diretor executivo da Notícias TV. Logo a seguir, Herman e Nilton juntaram-se à onda de cumprimentos e atenderam os pedidos de autógrafos dos estudantes de jornalismo.

Receção feita, cenário pronto, sala cheia. Quais são, então, os limites do humor? Herman arrancou o debate. "Tenho imensas piadas que não digo porque sei que não devo", começou por dizer o humorista. Do mesmo mal sofre Nilton, que admite autocensurar-se na hora de fazer uma piada. "Às vezes quero pôr coisas no Facebook e não ponho para não me chatear", explica o apresentador do 5 para a Meia-Noite. Já Rui Sinel de Cordes, apesar de reconhecer que está "condicionado pelas decisões editoriais" dos programas de televisão em que participa, defende que "não há limites para o humor". "Porque é que me chateiam por eu fazer piadas sobre cancro ou sobre violações? Tenho de esperar que a minha mãe ou a minha namorada sejam violadas? Isso é estúpido. Ninguém deve assumir uma postura de polícias de bom ou mau gosto."

Mas a comédia também tem um lado negro e ninguém está livre de ser alvo de gozo. Nem os próprios humoristas. Herman José partilhou um desses episódios. "Eu próprio lido mal quando fazem piadas sobre mim. Lembro--me de uma, curiosamente feita pelo irmão do Rui, o Vasco, em que ele sugeria que não devia levar jovens para ao pé de mim. A vontade que eu tive foi de dar-lhe um murro bem assente", revelou, arrancando uma gargalhada à plateia. Apesar de não reagir da melhor forma quando é o centro da piada, o "verdadeiro artista" admite não resistir a "esticar a corda de vez em quando". "Já perdi amigos. O último foi o José Cid, porque fiz um trocadilho com uma música dele. Por isso é que o humorista ideal seria o que não sai de casa e não tem amigos." Rui Sinel de Cordes completa o raciocínio do colega: "Como dizem os brasileiros: 'Perca o amigo mas não perca a piada'", sublinha.

Com o debate a aproximar-se do fim, Herman interrompe a conversa e protagoniza um momento insólito: baixa as calças e fica só em cuecas. Isto para facilitar a resolução de um problema com o microfone. Entre risos incontroláveis da assistência, o comediante explicou que foi "um ato de libertação e algo completamente infantil que faz rir qualquer pessoa".

Terminada a conferência, foi a vez de os alunos e professores intervirem, fazendo perguntas aos convidados. Luís Ferreira, diretor da ESTA, quis saber como um humorista trabalha num dia em que lhe apetece chorar. "Da mesma forma que um sapateiro faz uma sola se estiver feliz ou triste. Se fizer de maneira diferente, é porque é mau profissional", atira Rui Sinel de Cordes. Nilton defende que é "um ser humano como outro qualquer" e que também tem dias maus, embora isso não deva transparecer. "Se a pessoa estiver feliz, estará com a pica toda. Mas claro que se estiver mal tem de dar o seu melhor na mesma." Herman foi o último a responder e fê-lo com bastante assertividade. "Eu tenho o cérebro completamente dividido em dois: a parte profissional e a parte emocional. Ainda no outro dia estava cheio de gripe e fiquei deitado atrás do palco, sem me conseguir mexer, até à última. Quando chegou a altura entrei, fiz uma hora e meia de espetáculo, sempre agarrado a alguma coisa, e dei o meu melhor", contou, sublinhando: "Defende--se um momento profissional como uma mãe defende um filho. Nessa outra metade do cérebro não tocam, porque eu não deixo."

São 18.45. "Vamos à última pergunta da plateia", diz Nuno Azinheira. Uma jovem estudante da ESTA aceitou o desafio e pediu conselhos ao painel para si e para os seus colegas, que se preparam para entrar no mercado de trabalho. Rui Sinel de Cordes adianta-se. "Façam só o que vos faz feliz. Para mim o stand-up é tudo. Eu fiz cerca de dois meses de televisão no último ano e foram os mais infelizes. Vivem-se tempos de grande infelicidade em televisão", defende. Para Nilton, o elemento-chave é "trabalho". "Vais-te esforçando, vais trabalhando e consegues sempre alguma coisa. Eu trabalho 20 horas por dia. Tenho muitos colegas melhores do que eu mas são preguiçosos." Herman fecha o debate com uma única palavra. "Excelência."

Os aplausos ecoaram na sala. De bloco na mão, as dezenas de alunos levantaram-se para garantir que levariam para casa um autógrafo e uma fotografia com os humoristas. Sempre com um sorriso no rosto.

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