O fun-ga-gá da bicharada dos tempos da liberdade

Abelhas, cães, aves de maior ou menor porte, ursos, ratos, sapos, vacas, burros e até macacos... eis os animais que ganharam vida própria e conquistaram o direito de entrar na vida de outros e de educar gerações há 40 anos. Aceita fazer uma viagem pela televisão onde os animais... continuam a falar?

Dobrados ou criados de raiz em Portugal, a televisão para os mais pequenos educou gerações com recurso aos bichos e continua a apostar em animais para fazer passar as virtudes, as imperfeições e a moral humanas. Um jogo de animação que deixou poucas espécies do zoológico de fora.

Ainda antes da revolução, o cão Franjinha chegou no Carrossel Mágico e ainda hoje faz suspirar os mais velhos. Com o virar dos tempos, começaram também a surgir mais animais ao pequeno ecrã e faziam as delícias não só de miúdos mas também de graúdos.

Para estes, a RTP estreava, em 1977, o programa de variedades A Visita da Cornélia, com Fialho Gouveia e o Raul Solnado a falar com a vaca Cornélia, com a qual dividia o palco. Nos anos 90, a estação pública tentou recriar o êxito mantendo os mesmos apresentadores, mas contando, à data, com A Filha da Cornélia. A experiência porém não correu tão bem. Para os mais novos, os bichos começavam a multiplicar-se. E neste arranque pelo reino animal há uma abelha que ganha asas e acaba por marcar várias gerações: a Abelha Maia. Estreada em 1978, a estrela de voz doce conheceu ao longo de anos três vozes diferentes: Carmen Santos, Isabel Ribas e Carla de Sá.

Esta última passou de espectadora a dobradora. "Era fantástico ver a Abelha Maia. Só tínhamos dois canais, era chegar da escola e ligar a televisão para ver a animação da RTP. Mas quando comecei eu a dobrar já não tinha propriamente a referência do que via na altura", conta.

Mas é ou não mais difícil fazer as vozes dos animais do que dos humanos? Esta atriz conta que não divide animação nesses dois universos. "Nos desenhos animados, os animais têm sempre características humanas, mas para fazer dobragem é preciso técnica vocal", diz Carla de Sá.

Rui de Sá, ator, dobrador de vozes como Scooby Doo ou Babalu, e também diretor de dobragens, lembra que o essencial "é dar humanidade ao animal porque para as crianças aquelas personagens são vistas com sentimentos, o que os animais não tem".

Os anos 80 trouxeram um dos ratos mais emblemáticos do universo da televisão: o Topo Gigio, que se sentava com o pianista Rui Guedes. Mas foram também palco para incontáveis animais brilharem no pequeno ecrã. Made in Portugal, produzida na RTP Porto, e com genérico de Sérgio Godinho, aves e bichos da maçã conviviam na sua árvore favorita - a dos Patafúrdios.

Foi por essa altura que chegou a Portugal a história de Alexandre Dumas contada para crianças - o Dartacão e os Três Moscãoteiros. O protagonista aspirante ao título contou com a voz do encenador João Lourenço, mas as restantes personagens centrais da trama infantil ganharam voz com os atores João Perry (Mordos), Manuel Cavaco (Dogus) e com António Montez (Arãomis).

Com a passagem dos anos, os animais continuaram a segurar o seu espaço no pequeno ecrã, alargando até por vezes a sua esfera de influência. Na transição da década de 80 para a 90, a Rua Sésamo (1989 - 1997) - em que o Poupas se tornou uma das estrelas mais emblemáticas - marcou gerações. Com a chegada das estações privadas a Portugal, no arranque dos anos 90, os animais acumularam outro tipo de funções ocupando novos espaços no palco. Os miúdos suspiravam pela Vaca e pelo Boi-Ré-Ré, personagens de um formato infantil conduzido na SIC por Ana Marques e Ana Malhoa, e, tempos depois, os mais crescidos divertiam-se a ver o Macaco Adriano, lado a lado com João Baião, em Big Show SIC.

Em 2004, a TVI colocava um burro verdadeiro em estúdio, a interagir com Júlia Pinheiro, em A Quinta das Celebridades. Vítor Emanuel, o ator por trás da personagem, recorda que "o grande desafio era pôr na boca do Pavarotti algo que fizesse sentido para o programa e que correspondesse às movimentações do animal", conta o ator. Hoje, olhando para trás, sublinha que "foi um sucesso, deu direito a rábulas extra, a artigos e crónicas de jornais e revistas".

Eis o retrato de um mundo imaginário onde, durante décadas, couberam gatos e patos da Disney, o sapo Cocas de Os Marretas. Tartarugas Ninja, ursos, serpentes ou até patinhos para adormecer. Este é também um mesmo mundo que está longe de terminar.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG