Mais estratégia, menos refrões: a edição mais política de sempre?

O conflito na Crimeia, as leis antigas de Putin e aliados geográficos que parecem já não o ser foram as causas que se ouviram mais alto do que a música na Eurovisão, vencida por Conchita Wurst. Uma edição vista como das mais políticas de sempre. Mas afinal esta canção já é antiga...

1956. Onze anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, era criado o Festival da Eurovisão, com o objetivo de unificar um continente, o Velho, ainda destruído e fragmentado pelos resquícios da guerra. 2014. Cinquenta e oito anos depois, o emblemático concurso, que terminou sábado com a vitória do travesti austríaco Conchita Wurst, na Dinamarca, mostrou, contudo, uma Europa dividida e longe de alcançar um consenso político, naquela que tem sido considerada pelos media e especialistas como uma das edições mais tensas e politizadas da história do certame.

Que este é um festival em que a música toca tão alto como a política não há dúvidas. Mas pela primeira vez começa a assistir-se a um novo panorama estratégico, muito devido aos conflitos recentes entre a Rússia e a Ucrânia. Além disso, países vizinhos com a tradição de se "ajudarem" e atribuírem pontos entre si parecem estar a deixar de lado essa solidariedade geográfica. Num espetáculo anual que nasceu para entreter o público, dando-lhes música, o que tem mudado na Eurovisão? Quais foram as mensagens políticas escondidas num concurso cada vez mais complexo?

Comecemos pela barba que dividiu a Europa. O travesti Conchita Wurst, alter ego do austríaco Thomas Neuwirth, o concorrente mais polémico deste ano, arrecadou a taça do festival, mas também as duras críticas de países mais conservadores como a Rússia, a Arménia e a Bielorrússia, que expressaram publicamente o desagrado e contestação face à representante da Áustria. Um choque de ideais que levou o tablóide The Sun a referir-se à Eurovisão deste ano como "A guerra mundial barbuda".

"A vitória deu uma ideia geral aos defensores da integração europeia do que devem esperar de uma adesão à Europa: uma mulher de barba", publicou no Twitter Dmitry Rogozin, vice-primeiro-ministro russo. Também o presidente do Partido Liberal Democrático, Vladimir Jirinovski, frisou que "a indignação é ilimitada. Isto é o fim de uma Europa que ficou completamente louca. Eles têm mais mulheres e homens lá em baixo, mas preferem apresentar uma mulher de barba. Há 50 anos, o Exército soviético ocupou a Áustria e desocupá-la foi um erro, devia ter lá ficado", acrescentou o político.

De tal forma que esta semana deputados russos propuseram algo inédito: a criação de uma nova versão do festival, descontentes com a vitória do travesti. O deputado comunista Valeri Rachkine apelou para as autoridades russas abandonarem a Eurovisão e organizarem uma competição paralela, que se chamaria"Vozes da Euro-Ásia". "O resultado do último concurso foi a gota de água que fez transbordar o copo. Temos de sair da competição, não podemos mais suportar esta loucura", atirou no Parlamento.

Confrontada em conferência sobre se gostaria de deixar um recado a Vladimir Putin (o Presidente russo que tem sido criticado por ter aprovado, há um ano, duas leis controversas. Uma que pune qualquer ato de "propaganda" homossexual perante menores e outra contra as "ofensas aos sentimentos religiosos dos crentes"), Conchita Wurst apenas respondeu: "Nós somos imparáveis."

O representante austríaco, que se pautou este ano por uma postura pró-igualdade, respeito e tolerância, levou até o Presidente do país vencedor a dirigir-lhe largos elogios. "Esta não foi uma vitória só para a Áustria, mas acima de tudo foi uma vitória para a diversidade e tolerância na Europa."

Aliás, o tema da homossexualidade deu que falar na edição que decorreu em Copenhaga e que foi vista por 125 milhões de pessoas no mundo inteiro.

Pilou Asbaek, um dos três apresentadores da Eurovisão este ano, revelou esta semana, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, que foi proibido pelos organizadores do concurso de usar no seu guarda-roupa ao longo dos três diretos (duas semifinais e uma final) qualquer cor que esteja presente no arco-íris (que serve também como símbolo da comunidade LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgéneros). "Eu perguntei-lhes se poderia usar arco-íris. Não. Não somos autorizados a dar uma opinião política. É sobre a música, não sobre política, disseram-me. Mas música e política são indissociáveis, não há como separá-las. Pelo menos é assim na minha cabeça", criticou o apresentador dinamarquês.

Neste duelo pró/antiliberdade sexual, a Áustria claramente levou a melhor. A canção de Wurst, Rise Like a Phoenix, não só venceu como o fez a larga distância dos restantes, totalizando 290 pontos. Feitas as contas, recebeu a pontuação máxima, 12 pontos, de 13 dos 37 países em competição (um deles Portugal), conquistando a melhor classificação no certame desde 1966. Aliás, nos últimos 48 anos, a Áustria nunca chegou ao pódio dos preferidos da Eurovisão. Este ano venceu. Coincidência?

Com uma Conchita Wurst que mostrou ser popular na Europa (ou da sua maioria), do outro lado do espetro ficaram as irmãs gémeas Tolmachevy, que representaram a Rússia num ano em que a tensão política continua no ar, no seguimento dos confrontos com a Ucrânia, que dominaram a atualidade durante semanas. Em causa estava a anexação à Rússia da Crimeia, região autónoma da Ucrânia, mas pró-russa.

Conclusão? Os dois vizinhos que sempre foram muito generosos na hora de dar pontuações na Eurovisão este ano não o foram. A Ucrânia apenas deu quatro pontos à Rússia. Já esta foi mais generosa, dando sete pontos ao país vizinho. Mais: a onda de contestação em torno de Putin e da ex-União Soviética foi de tal modo visível que as irmãs foram constantemente vaiadas em palco, onde interpretaram a canção Shine, tanto no final das duas atuações (na semifinal e na grande final) como também sempre que algum país atribuía votos à Rússia.

Por outro lado, já a Ucrânia não foi alvo de apupos no espetáculo em direto, representada pela jovem Mariya Yaremchuk e pelo tema Tick-Tock, o qual dedicou aos 46 milhões de ucranianos pelos quais "estava a lutar".

No final do certame, a Ucrânia conquistou o sexto lugar e totalizou 113 pontos, mais 24 do que a Rússia. Números que falam por si. É que o país de Putin tem por norma uma melhor classificação do que a Ucrânia na Eurovisão. Nos últimos dez anos, a Rússia conseguiu fixar-se nos cinco mais votados da grande final em cinco edições. Desta vez ficou-se pelo sétimo posto, ganhando a "simpatia" de apenas 13 países, uma clara baixa na sua popularidade, quando comparados com os 27 países que há um ano votaram na canção russa.

Quem também esteve de costas voltadas foram os vizinhos Arménia e Azerbaijão, que têm mantido uma relação instável desde o conflito Nagorno-Karabakh (um enclave no Azerbaijão que esteve sob controlo das forças étnicas arménias desde a guerra, durante seis anos), que matou 30 mil pessoas, de 1988 a 1994, ano em que se assinou um acordo de paz. Ainda assim, a Eurovisão mostra que o clima de tensão entre os dois países se mantém até aos dias de hoje, apesar da ligação geográfica.

Este ano, o primeiro em que a Eurovisão decidiu revelar todas as votações dos jurados de cada país (que valem metade dos votos de um país, a outra representada pelo televoto), confirmou-se que a relação entre a Arménia e o Azerbaijão é praticamente inexistente, já que o primeiro, quarto classificado no certame, foi a última classificada dos cinco jurados azeris, sendo também a menos votada do público, com o representante Aram MP3 e o tema Not Alone.

Já o Azerbaijão com Dilara Kazimova e a canção Start A Fire, que alcançou a pior posição de sempre em Copenhaga, recebeu o mesmo "amor" da Arménia, sendo o menos votado por todos os jurados e também pelo público daquele país. Na primeira semifinal deste ano, onde os dois países atuaram, a mesma situação já tinha acontecido.

O historial atribulado entre os dois teve o seu pico em 2009, quando a Eurovisão multou o Azerbaijão em quase três mil euros depois de o país ter desfocado o número de telefone da canção da Arménia durante o espetáculo. Mais: ameaçou retirar os azeris da competição durante três anos se o caso se repetisse.

Aliás, a Arménia tem sido um dos maiores agregadores de polémica na Eurovisão e este ano parece ter dado uma espécie de tiro no pé. Aram MP3, que dias antes da competição arrancar era o grande favorito a vencer o concurso nos sites de apostas e um pouco pela blogosfera, gerou uma enorme onda de críticas depois de tecer comentários homofóbicos em torno de Conchita Wurst.

Questionado sobre a orientação sexual da "mulher barbuda", o concorrente respondeu: "Não é normal nem adequado. Oxalá que em Copenhaga alguém a ajude a decidir se é um homem ou uma mulher. Quando passo por Kom Aygi (parque na capital arménia, Yerevan, habitualmente frequentado por gays e transexuais), acelero no meu carro. Não vivo aquele estilo de vida e, independentemente da forma como o mundo evolua, [a homossexualidade] é um assunto inaceitável para mim", frisou Aram. Conchita Wurst reagiu da seguinte forma: "Se tens problemas para me entender, ficarei encantada por me sentar contigo e explicar-te tudo com detalhe. E sobre os teus comentários homofóbicos, essa é uma conversa que devíamos ter."

Resultado: aquele que era o grande favorito à vitória acabou por ter de se contentar com um quarto lugar, com menos 216 pontos do que os conseguidos pela sua "rival" Conchita.

Portugal e Espanha já não são "hermanos"?

Outra "aliança" que se verificou esbatida este ano foi entre Portugal e Espanha. O historial entre os países ibéricos, que frequentemente davam as pontuações máximas um ao outro, mudou em 2014.

A concorrente portuguesa Suzy, com o tema Quero Ser Tua, eliminada na primeira semifinal, recebeu oito pontos de Espanha, tendo sido só a terceira preferida de nuestros hermanos. Já a votação de Portugal foi mais óbvia desta "alienação ibérica", uma vez que a jovem Ruth Lorenzo e o tema Dancing in The Rain não arrancaram um único ponto de Portugal, logo, não conseguindo um lugar nos dez países mais votados pelos portugueses. No mínimo curioso, uma vez que nas últimas três participações lusitanas Portugal deu em todas elas os 12 pontos ao país vizinho.

Palco político, e apesar de esta ser uma tendência que se foi tornando mais visível nestes 58 anos, a verdade é que a Eurovisão nunca ficou imune à atualidade e às mensagens políticas, algumas silenciosas. Em 2003, por exemplo, o Reino Unido recebeu a sua pior classificação de sempre no concurso, precisamente no ano em que apoiou os EUA na guerra contra o Iraque. Cry Baby, do grupo Jemini, deixou um Reino Unido a "chorar" com o 26º lugar.

Em 2005, o Líbano desistiu da Eurovisão depois de o canal que transmite o espetáculo se ter recusado a exibir a participação israelita daquele ano, com qual nunca tiveram relações pacíficas.

Quatro anos depois, a Geórgia foi afastada da competição após a sua canção, We Don"t Wanna Put In (com clara referência a Putin) ter sido considerada "demasiado política". Um ano antes, a Geórgia e a Rússia tinha estado em guerra.

A lista de exemplos é infindável. O que é natural na Eurovisão está-lhe nos genes, dizem os especialistas. "O festival é o único fórum em que os países se podem julgar sem repercussões. Este ano, os votos na Conchita permitiram aos fãs gay do concurso vingar-se do que está a acontecer na Rússia", frisou Paul Jordan, cientista político que fez um doutoramento na Eurovisão. "É claro que a canção austríaca era boa, mas houve muitas outras razões a pesar", defendeu ainda o investigador.

William Lee Adams, especialista na Eurovisão e editor de um popular site sobre o certame, contou à CNN que o concurso é tanto sobre identidade nacional como de música. "Meses de frustração em torno da anexação ilegal da Crimeia pela Rússia e as leis antigay de Putin deixaram os europeus zangados", disse. "O apupos às gémeas foram uma declaração de solidariedade com as minorias sexuais da Ucrânia e Rússia", concluiu o especialista.

Dezasseis anos depois da transexual israelita Dana Internacional ter colocado a Europa em discórdia, ao vencer a competição, o travesti Conchita Wurst volta a acender a polémica no Velho Continente e a mostrar que nem só de refrães, baladas e bailarinos se faz a maior festa anual europeia.

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