Joaquim Furtado e Catarina Furtado: "Ó pai, onde é que eu estava no 25 de Abril?"

Vinte cinco anos separam filha e pai. Tempo para um conhecimento profundo, para a maturidade de uma relação. Numa entrevista intimista, única e irrepetível, Catarina Furtado confronta o pai, Joaquim, sobre o 25 de Abril, a censura e a liberdade. E sobre o sentido da vida e dos afetos.

Catarina Furtado (C.F.) - Nasceste a 20 de abril. Cinco dias depois, estou à frente de quem?

Joaquim Furtado (J.F.) - Neste caso nem é bem à frente, é ao lado [sorriso]. Bem, isso é difícil... O meu ponto de vista sobre quem é que sou é inútil, no sentido em que nunca somos exatamente aquilo que julgamos. Somos aquilo que somos de acordo com o ponto de vista de quem olha para nós.

C.F. - Eu tenho uma ideia sobre si e quero saber se ela corresponde à que o pai tem de si?

J.F. - Tu tens uma ideia de mim, o Nuno terá outra. Se calhar, se somarmos todas e dividirmos pelo número de opiniões, ter-se-ia um filme próximo daquilo que cada um de nós é. A minha opinião sobre mim só tem interesse para mim.

C.F. - E para mim. Como é que se vê?

J.F. - Vejo-me como uma pessoa organizada, que procura a perfeição pessoal. Procuro ser rigoroso, o que aliás tem que ver com o desempenho da profissão. No plano religioso, sou aquilo a que Graham Greene chamou um cristão agnóstico [sorriso]. No plano político, acho que estou à esquerda, embora o estar mais à esquerda ou mais à direita seja cada vez menos evidente e significativo. Mas ser de esquerda é certamente gostar do 25 de Abril.

C.F. - O que é que o pai achou, à partida, desta proposta de ser entrevistado pela sua própria filha? Sendo jornalista, preferia ser entrevistado por jornalistas?

J.F. - Quer dizer, eu gosto mais de entrevistar do que de ser entrevistado. Não gosto muito de ser entrevistado porque, infelizmente, ou por culpa minha ou do entrevistador, aquilo que sai não é exatamente aquilo que julgo ter dito. Se calhar, não disse o que queria e depois não me revejo em alguns pontos. Mas penso que é também a necessidade, como jornalista, de resolver as coisas de forma rápida e o espaço muitas vezes é pequeno para aquilo que as pessoas podem dizer ou desenvolver.

C.F. - Mas então porque é que aceitou dar esta entrevista?

J.F. - Numa altura em que se comemoram os 40 anos, há um universo de gente que podia ser entrevistada e é, mas há muitas outras pessoas que não são e há uma certa tendência para identificarem rapidamente alguns nomes que são...

Nuno Azinheira (N.A.) - Icónicos...

J.F. - Que acabaram por ser transformadas nisso e que deixam na penumbra pessoas que deveriam estar mais expostas por mérito.

C.F. - Mas porquê este desafio?

J.F. - Porque achei que tinha que ver com o 25 de Abril. E esta particularidade de ser entrevistado por ti significava uma coisa nova. As perguntas que podes fazer... dificilmente algumas delas seriam feitas por um jornalista e isso pode ser estimulante. Vamos ver se é. Está nas tuas mãos!

C.F. - [risos]. Bem, se não tivesse sido jornalista, teria sido o quê?

J.F. - Eu comecei a trabalhar na rádio. Quando era adolescente, o meu pai - o teu avô - ofereceu-me um transístor, o que na altura era como os telemóveis de hoje. Era uma coisa que podíamos transportar para toda a parte e ouvíamos rádio. Quando recebi esse transístor, comecei de alguma forma a trabalhar na rádio, no sentido em que me colocava na posição das pessoas que ouvia. Quando tive a primeira oportunidade para tentar essa via, tentei aproveitá-la e concorri à Rádio Universidade, uma estação da Mocidade Portuguesa, que permitia que os estudantes dessem os seus primeiros passos nesse mundo, coisa que aconteceu com muita gente que depois veio a ser profissional.

N.A. - Um homem de esquerda e Mocidade Portuguesa não são propriamente coisas que liguem...

J.F. - Não, embora a Mocidade Portuguesa estivesse já numa fase pouco atuante.

C.F. - Estava a perder energia.

J.F. - Estava, é um facto, mas foi na rádio que tive o primeiro contacto com a censura. Foi aí que, ao fazer um programa sobre o Natal, em que se usava um poema de António Gedeão, o diretor de programas, que era comissário da Mocidade Portuguesa, proibiu o programa. Foi aí que tomei contacto com a existência de uma entidade que desconhecia que existia.

C.F. - Isso fez que o jornalismo viesse também como uma vontade de contar aquilo que o regime não deixava ser contado?

J.F. - Inicialmente, deu forma, não a uma consciência política, mas a uma consciência social. Porque é que a sociedade portuguesa era injusta? Eu tinha a experiência da minha família, das dificuldades por que passava, e sabia que esse lado era injusto e desequilibrado. A guerra era uma coisa injusta. Todo esse lado era desequilibrado. Depois, tomo conhecimento da censura e essa consciência social foi-se transformando numa consciência mais abrangente.

C.F. - Então...

J.F. - [interrompendo]... calma, que eu ainda não te disse o que teria sido se não fosse jornalista [risos]. Eu podia ter continuado na rádio e continuei, mas numa via alternativa, que era o jornalismo. Mas podia ter sido animador, podia gostar de sido realizador, independentemente do talento que pudesse ter, cineasta... Podia ter sido publicitário, enfim...

C.F. - Vamos voltar à censura. Na altura em que eu nasci foi precisamente quando o programa Tempo Zip foi suspenso, supostamente durante três meses, e depois não regressou à Renascença.

J.F. - Tu nasceste a 25 de agosto de 1972...

C.F. - Ainda bem que ainda se lembra [risos].

J.F. - [risos] Uns dias depois ocorre o atentado de um comando palestiniano à aldeia olímpica israelita em Munique e a propósito desse acontecimento o Adelino Gomes, que trabalhava no programa Página Um - e eu no Tempo Zip -, fez um enquadramento jornalístico sobre aquele facto, procurando dar-lhe o contexto do conflito israelo-árabe. Nós, a equipa do Tempo Zip, achámos que era um trabalho interessante e decidimos repeti-lo. Essa repetição custou a suspensão dos dois programas, custou o facto de o Tempo Zip já não ter voltado. O Página Um voltou mais tarde, mas com a condição de o Adelino Gomes já não poder trabalhar lá. Estávamos em setembro de 1972.

C.F. - Dizem que eu sou filha do 25 de Abril, mas não. Eu sou filha da censura.

J.F. - Sim, nessa altura o programa acabou e já não voltou.

C.F. - A mãe contava-me que o pai quebrava muito essas regras impostas pela censura. Era um rebelde. Não tinha medo?

J.F. - Deixa-me cá explicar isso...

C.F. - É uma visão romântica da mãe dizer que o pai arriscava sempre quando achava alguma coisa injusta?

J.F. - [sorriso] No caso do Tempo Zip, nós fazíamos reportagens, entrevistas, algum trabalho de natureza jornalística, embora o contexto fosse um programa não informativo no sentido em que hoje os vemos. Quando se fala em arriscar, nós todos, os que trabalhávamos nesse programa, fazíamos as reportagens, as entrevistas, que eram depois ouvidas, fiscalizadas, por um serviço que se chamava precisamente serviço de fiscalização, que eram pessoas designadas pela administração em conexão com o Governo. Nos primeiros meses de 72 tínhamos feito uma centena de trabalhos. De acordo com um estudo que fizemos, 57% dos programas, das reportagens e das entrevistas, foram proibidos ou autorizados parcialmente. Estamos a falar de trabalhos variados, como um bairro de lata, de natureza cultural, ou uma cooperativa. Aliás, a certa altura fomos proibidos de falar de cooperativas. Nessa lista estavam proibidas entrevistas com Miller Guerra, que era um deputado da ala liberal, por exemplo. Isto para dizer que nós fazíamos os trabalhos e depois havia o serviço que os proibia. Nós discutíamos, reivindicávamos. Umas vezes conseguíamos, outras não.

C.F. - Então é uma visão romântica, a da mãe?

J.F. - Não, o que se passa é que no Rádio Clube Português, quando eu estava nos noticiários, a censura fazia-se de outra maneira. Nós recebíamos as notícias da Reuters e da France-Presse via telex e tínhamos de ficar à espera da decisão da censura sobre o que recebíamos. Quais eram proibidas, quais as autorizadas, para cortarmos da linha X à linha Y, e nós muitas vezes não respeitávamos a censura.

C.F. - Então...

J.F. - [interrompe]... Eu não sou diferente dos meus colegas que agiam de uma forma idêntica. Não quero que pareça que não tinha medo. As pessoas têm medo, eu tinha medo. Tive medo várias vezes.

N.A. - Portanto, não era um romântico.

J.F. - Acho que era um bocadinho. Procurava medir um pouco as coisas, mas era romântico no sentido em que acreditava em coisas e ideais.

C.F. - O pai tinha 25 anos. É natural que tivesse esse romantismo. Havia a convicção de que o regime estava por um fio?

J.F. - Sim, isso sim.

C.F. - Isso dava-lhe uma segurança extra?

J.F. - Acho que dava a toda a gente.

N.A. - Pisava-se o risco?

J.F. - Nós achávamos, e estamos a falar de 73, 74, que havia essa ideia, que começava a acontecer um conjunto de situações que davam do regime um retrato de alguma coisa que estava em desagregação, que começava a desconjuntar-se. Isso dava-nos alguma segurança. Percebia-se que havia instabilidade até no plano militar.

C.F. - Ó pai, e quando tinha essas, vamos chamar, rebeldias...

J.F. - Ó filha, não fui um rebelde [gargalhada]!

C.F. - [risos] Não é ter sido rebelde. Eu sei que houve muita gente a não ter atitudes corajosas, embora houvesse outros que lutaram, que arriscaram, que fizeram coisas.

J.F. - Incomparável! Fizeram coisas que nunca me passou pela cabeça fazer.

C.F. - Está bem, mas não estou a entrevistá-los. Diga-me uma coisa: qual era a posição da mãe? Apoiava muito o pai?

J.F. - A tua mãe... sim.

C.F. - Sempre? Não era uma pessoa que dissesse para ter cuidado?

J.F. - Não, não. Penso que a expectativa que aquela geração tinha em relação ao futuro do regime era um sentimento que atravessava outras pessoas que estavam noutras atividades, como a tua mãe.

C.F. - Sabe se teve ficha na PIDE?

J.F. - Não, não sei, nunca fui procurar.

C.F. - E não tem curiosidade?

J.F. - Tenho alguma curiosidade, sim, mas nunca foi uma curiosidade suficiente que me fizesse deslocar até lá para investigar.

C.F. - O pai nunca foi filiado em qualquer partido. Eu própria nunca soube em que partido ou partidos o pai terá votado ao longo destes anos. Nunca falámos sobre isso. Tentei há alguns anos perguntar-lhe, mas levei sempre uma nega [risos]...

J.F. - E vais levar outra vez [risos].

C.F. - Mas acha que esse distanciamento lhe trouxe mais vantagens?

J.F. - Para a minha profissão e para a minha atitude perante a vida trouxe-me mais vantagens. Enfim... [pausa] essa questão é mais complexa do que parecia à primeira vista. E remete-nos para aquela discussão se os jornalistas devem ou não afirmar-se como militantes de partidos, porque isso até acaba por ser mais honesto para o leitor, que já sabe com o que conta.

N.A. - Tem opinião sobre esse debate?

J.F. - Tenho. Acho que os leitores e os espectadores têm plena consciência do posicionamento dos jornalistas que leem ou que veem, independentemente de eles assumirem ou não as suas convicções políticas. As pessoas têm seguramente uma imagem política sobre mim.

C.F. - Ligarão seguramente a uma esquerda, mas não a um partido em concreto.

J.F. - Sim, admito que sim.

C.F. - Diga-me, pai, onde é que eu estava no 25 de Abril?

J.F. - [risos] Estavas em casa, com a tua mãe. Morávamos em Campo de Ourique. Eu estava no Rádio Clube Português naquela noite, mas um dos militares do grupo que ocupou a estação disse-me "vou contactar a sua mulher para lhe dizer que você não pode sair". Deviam ser umas sete da manhã e ele telefonou para a vizinha do lado, porque nós não tínhamos telefone, a vizinha foi chamar-vos. Esse militar, o major Campos de Moura, disse à tua mãe: "O seu marido está detido no RCP, mas não se preocupe que está tudo bem." Não lhe explicou mais nada sobre a natureza do que estava a acontecer.

C.F. - E o que é que a mãe fez?

J.F. - Retirou de uma gaiola que tínhamos na sala, para nossa diversão e dos nossos amigos, umas fotografias de figuras do regime.

C.F. - O Salazar?

J.F. - Ou o Américo Tomás. Era uma espécie de "prisão", um vexame ao nosso alcance. Não podíamos fazer mais [risos]. Portanto, ela tirou de lá aquilo. E foi buscar uns documentos que um colega meu me tinha dado, umas coisas de política e tal, pegou em ti e foi para casa da tua avó.

C.F. - Da avó materna?

J.F. - Sim, da mãe da tua mãe. Foi para casa da tua avó materna porque era uma família tradicional portuguesa e não era suposto ser suspeita de nada ou irem lá fazer alguma busca.

C.F. - Quando leu aos microfones do Rádio Clube Português o comunicado do Movimento das Forças Armadas, o que sentiu? Consegue imaginar-se naquele papel hoje?

J.F. - Não, não. Há coisas que são irrepetíveis. Não é possível transpor aquele momento para os dias de hoje. Impossível.

C.F. - Mas sentiu que estava a fazer história...

J.F. - Senti, isso sim. Não sabia que história era, mas alguma coisa ia mudar. Podia ser um fracasso aquele movimento, mas alguma coisa mudava no país. E podia ser um êxito e que mudaria radicalmente o estado de coisas, como viria a acontecer. Mas tinha noção de que ia acontecer qualquer coisa. Tinha essa perceção. Primeiro, porque havia um contexto que na altura já se começava a formar, o da fragilidade do regime. Depois, porque o levantamento das Caldas tinha falhado [tentativa frustrada de deposição do regime, ocorrido a 16 de março de 1974] e uma parte dos seus militares estava envolvida no 25 de Abril. Ora, não era crível que voltassem a falhar.

C.F. - Mas havia dúvidas?

J.F. - É claro que há sempre o lado quente-frio do irish coffee. Nós questionávamo-nos se a PIDE, se a polícia e se as autoridades iam permitir que os militares avançassem. Não haverá uma resposta do outro lado?, perguntávamos. Foram momentos de alguma incerteza, claro.

C.F. - Lembra-se a que horas foi ter comigo e com a mãe?

J.F. - [risos] Não consigo precisar, mas só no final do dia, depois da rendição de Marcello Caetano. Eu fiquei no Rádio Clube todo o dia e só à noite é que fui para casa.

C.F. - Lembra-se desse reencontro? Mudou-me a fralda [gargalhada]?

J.F. - Isso já não sei. Sinceramente não me lembro. Eu sei que te mudava fraldas, claro, mas não sei se nessa noite mudei. Já não me lembro.

N.A. - Lembra-se da primeira vez que falou do 25 de Abril com a sua filha?

J.F. - Não me lembro, mas evidentemente falámos muito disso naquela altura, porque a Catarina estava a crescer naquele momento em que as coisas estavam a acontecer. Portanto, sei que falávamos disso com muita frequência, enfim, de uma forma que ela pudesse entender, claro. Até porque fomos obrigados a dar-lhe muitas justificações, porque a nossa vida passou a ser um furacão.

C.F. - Passou, passou. Eu não me lembro muito dos meus pais nessa altura [gargalhada] Quando me apercebi que tinha pai já era maior e vacinada [risos]. Mas tenho uma memória ligada ao 25 de Abril que era o urso dos Jogos Olímpicos [Misha, que foi mascote das Olimpíadas de 1980 em Moscovo, quando Catarina tinha 7 anos], que o pai e a mãe me deram e que eu sempre associei ao 25 de Abril. Ah, e lembro-me do fumo dos cigarros. Naqueles anos que se seguiram, havia sempre mil e uma pessoas a entrar e a sair lá de casa, e havia sempre uma nuvem de fumo por lá...

"Devia haver consenso político alargado em redor da RTP"

C.F. - Bem, vamos dar um salto no tempo. Que marca é que acha que deixou enquanto diretor da RTP?

J.F. - Vamos aos factos. Aquela foi a primeira direção que travou a descida das audiências da RTP na sequência do surgimento das privadas. Uma outra marca que julgo ter deixado foi o arranque daquilo a que podemos chamar a desgovernamentalização da RTP. Isso deve ser visto com atenção. A governamentalização decorria do próprio estatuto da RTP. Eu sempre defendi uma alteração dos estatutos da RTP.

N.A. - Está-se agora a discutir isso mesmo...

J.F. - Sim, embora o Conselho Geral Independente não me parece que resolva a contento o problema da imagem e da verdadeira independência, uma vez que dos seis elementos, dois são nomeados pelo governo, dois pelo Conselho de Opinião e os outros dois são cooptados pelos outros quatro. Isso levanta desde logo a questão de que um novo governo vai querer substituir os membros deste órgão... Hoje que se fala de consenso, poderia a este propósito adoptar-se uma solução mais consensual e mais abrangente, passando pela AR.

N.A. - É possível mudar essa perceção dos portugueses?

J.F. - Não sei, mas sinto que devia haver uma tentativa de grande consenso em redor da RTP. Falo de consensos políticos. A RTP é um bem essencial, e é de todos.

C.F. - Pai, deixe-me falar de A Guerra [a série que fez para a RTP]. Eu sei que sou suspeitíssima, mas acho-a uma verdadeira obra-prima...

J.F. - Obra filha, é o que queres dizer [risos].

C.F. - Obra-prima jornalística, queria eu dizer. De resto, elas têm sido altamente elogiadas por vários quadrantes. Qual é o elogio que mais gosta de ouvir?

J.F. - É quando as pessoas dizem que procurei ser isento e que fiz um relato o mais independente possível e que as pessoas acreditaram na série por causa disso.

N.A. - O tempo é um bom conselheiro? É preciso distanciamento para contar a História?

J.F. - Sim, absolutamente.

N.A. - O jornalista é como um historiador?

J.F. - Com métodos diferentes. O jornalista é o historiador do dia-a-dia, mas também o pode ser dos dias passados, embora usando métodos diferentes. Há programas de televisão que deveriam ter lugar na historiografia portuguesa, o que não é a mesma coisa que dizer que o jornalista é um historiador. Este trabalho, que tem sido tão citado por historiadores, têm-me dito que tem servido como um instrumento válido para os historiadores. Portanto, nesse sentido sim. No sentido em que recolho uma série de testemunhos e que os articulo com um conjunto de filmes que procuram recriar uma parte da realidade.

C.F. - É verdade que houve pessoas dos dois lados da barricada que foram entrevistadas por si e que lhe disseram que só autorizavam a exibição para o seu programa?

J.F. - [pausa] Não, não tenho ideia disso.

C.F. - Ouvi dizer que isso aconteceu...

J.F. - Mas ouviste dizer a quem? A mim nunca foi [sorriso]. Confesso que não me lembro de isso ter acontecido, mas, sem falsas modéstias, acredito que sim, que isso tenha acontecido. É natural, tem que ver com o meu percurso. O tempo e o distanciamento são importantes. Mas, sobretudo, o que eu acho que foi decisivo foi a proposta de abordagem que eu fazia às pessoas. Houve pessoas que numa fase inicial não quiseram falar mas que, depois, à medida que foram vendo o programa aceitaram.

C.F. - Como é que conseguiu isso?

J.F. - Foi um trabalho longo, de muita persistência. Eu entrevistei mais de 260 pessoas. São muitas pessoas, apesar de serem poucas no universo total. Mas é preciso conciliar muitas ideias, ainda por cima porque tudo aquilo que tinha sido feito até ali sobre a guerra era muito, como dizer, muito primário, no sentido de muito militante, do género "estes tinham razão, aqueles não tinham razão"". Ora, eu tentei abstrair-me disso, naquela lógica da procura pela objetividade. Procurei organizar os depoimentos e todos os elementos da série de forma a que a minha opinião ficasse o mais afastada possível, para que fossem os espectadores a fazer a sua própria leitura.

C.F. - Entre tantos prémios que recebeu, e até recebeu uma condecoração por parte do presidente Mário Soares, houve algum que tenha tido um significado especial?

J.F. - Os prémios são sempre importantes, quanto mais não seja porque nos dispensam de sermos nós próprios a dizer bem do nosso trabalho [risos]. Mas atenção: a condecoração será também um prémio, mas de outra natureza. É aquilo a que o Aquilino Ribeiro disse que nunca se usa nem se recusa.

N.A. - Há quem a recuse...

J.F. - Eu sei, eu sei [gargalhada]. Eu próprio, se fosse hoje, acho que não aceitaria.

C.F. - O pai recebeu a condecoração das mãos de Mário Soares, que já disse que o 25 de Abril foi o dia mais feliz da sua vida. Eu espero que o pai não diga isso [gargalhada].

J.F. - Foi o dia mais feliz como cidadão. Como português.

C.F. - Repito [enfatiza a pergunta com uma gargalhada]: espero que o pai diga que o dia mais feliz da sua vida foi o 25 de agosto [data de nascimento de Catarina Furtado] ou o 7 de junho [data de nascimento da irmã de Catarina, Marta]...

J.F. - [risos] A vida é feita de várias coisas, de várias memórias, de várias vidas. Há o lado profissional e há o lado pessoal e eles misturam-se.

C.F. - Uma das coisas mais marcantes em si, e que eu me habituei a respeitar, é a sua total aversão à cunha, essa instituição tão portuguesa.

J.F. - É verdade.

C.F. - E precisamente por isso lembro-me quando me inscrevi no Cenjor [Centro Protocolar de Formação de Jornalistas] e quando me candidatei, mais tarde, ao meu primeiro casting, não usei o nome Furtado, nem lhe disse nada a si. Tudo com medo que alguém me pudesse favorecer não pelas minhas eventuais qualidades mas por ser sua filha.

J.F. - E acho que fizeste bem.

C.F. - Mas com essa sua aversão à cunha, acredita que alguma vez prejudicou alguém que lhe estava próximo? Ou pelo menos não beneficiou...

J.F. - [pausa] Não estou a lembrar-me de algum caso em concreto, mas talvez sim, acredito que sim. À cunha associa-se a ideia de serem pessoas que têm uma ligação privilegiada apesar de não terem aptidões para as funções que vão desempenhar. Mas é verdade o que dizes, não gosto de cunhas, e nunca meti cunhas a ninguém.

C.F. - Quando eu estava na SIC, e o pai e o Joaquim Vieira estavam na direção da RTP, lembro-me de a minha entrada na RTP ter sido vetada por si [risos]. Recordo-me que o Joaquim me dizia que eu só não ia para lá porque o pai não estava de acordo...

J.F. - Sim, é verdade. Lembro-me disso. E não acho que isso tenha especial mérito. Eu sou assim e tu conheces-me. É a única atitude que me pareceu adequada na altura. E hoje também.

C.F. - E se não fosse meu pai, ter-me-ia ido buscar [sorriso maroto, quase a medo]?

J.F. - Ah, isso é outra coisa, isso é outra coisa.

N.A. - O que achou da primeira vez que viu a Catarina na televisão a apresentar o Top +?

J.F. - A primeira vez que eu a vi na televisão foi a fazer um anúncio com o António Sala [Catarina sorri e canta o jingle associado à marca de eletrodomésticos em causa]. Mas, sabe, eu comecei por não levar muito a sério os primeiros passos da Catarina na televisão. Ela tinha feito o curso de dança e eu achava que ela ia por esse caminho. Mas achei a sua prestação boa. E, antes que vocês me perguntem que opinião é que tenho sobre a carreira da Catarina, posso dizer o seguinte: ela conseguiu defender-se muito bem do facto de ser bonita...

[Catarina olha para o pai e não reage. Os olhos brilham]

J.F. - ... Ela defendeu-se bem da beleza, porque a beleza podia ter sido um obstáculo, porque há muitas vezes a tendência de achar que o simples facto de alguém ser bonito pode ser suficiente para triunfar. Ora, se ela tivesse achado isso, isso tê-la-ia limitado. A Catarina procurou fazer um percurso que contrariou essa ideia. Estudou, investiu na carreira.

"Se me convidassem para ser pivô agora? Acham que rejeitaria? não, não rejeitaria"

C.F. - Mudemos de tema. Muitas vezes as pessoas na rua dizem-me que têm saudades suas a apresentar o Jornal das 9. E o pai, não tem saudades?

J.F. - Eu tenho 66 anos e não há tradição em Portugal de haver pivôs a apresentar jornais com essa idade. A idade é uma coisa muito importante. A vossa geração é que ainda não pensa muito nisso. Se vocês me perguntassem o que é que separa as nossas duas gerações...

C.F. - ... olhe, tinha aqui essa pergunta: o que separa os seus 66 anos dos meus 41?

J.F. - Lembro-me sempre de um verso do Fernando Pessoa, que é: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém estava morto." Isto representa os anos em que nós somos novos. A partir de certa altura começam a morrer-nos pessoas. Há uma idade que ainda não é a vossa, mas que vai passar a ser, em que a ideia de vida está sempre associada à morte. Está sempre a aparecer, aparece a todo o momento.

C.F. - Mas o pai está ótimo...

J.F. - Não é disso que estou a falar. É uma ideia que se vai instalando e que é a diferença entre os 40 e os 60 anos. Preparem-se [risos].

C.F. - Essa ideia é assustadora?

J.F. - Não é assustadora porque "isto" está feito de tal maneira que as pessoas se vão habituando. Não há como não pensar nisso. Em princípio, as pessoas não querem morrer, mas a ideia começa a instalar-se na nossa cabeça a uma certa altura. Eu acho que é para nos irmos preparando.

N.A. - Sim, isso é uma reflexão muito interessante e, apesar de a morte ser uma inevitabilidade, eu não vou permitir que fuja à pergunta da sua filha [risos]

C.F. - Muito obrigada, Nuno [gargalhada]

J.F. - Essa questão dos pivôs de cabelos brancos é muito antiga e tem várias razões que lhe estão subjacentes...

C.F. [interrompe] - Mas o pai está a fazer uma análise. Esqueça a análise. Estou a perguntar-lhe a si. O pai gostaria ou não de voltar a apresentar um jornal? É que eu, como espectadora, gostava de voltar a vê-lo...

J.F. - Isto parece uma candidatura, uma vaga de fundo, e não é nada disso. Mas eu vou responder: continuo a ser o jornalista que era e continuo a considerar-me em condições do ponto de vista mental e físico.

N.A. - Imagine que lhe faziam um convite?

J.F. - Querem que vos diga o quê? Que rejeitaria? Não excluiria a hipótese, havendo as condições que o justificassem, mas, em termos de ecrã, acharia mais interessante, por exemplo, um programa de entrevistas.

N.A. - Como é a sua vida na reforma?

J.F. - É ver informação, ler jornais todos os dias e fazer comentários para mim próprio ou para os circunstantes. Depois, aproveito para pôr em dia certas leituras, atualizar-me em relação à poesia portuguesa dos últimos dez anos, que tinha deixado para trás. E, além disso, estou a preparar-me para a eventualidade de vir a realizar uma outra série.

N.A. - A RTP já a encomendou?

J.F. - Já conversámos e podemos vir a avançar.

N.A. - Mas sente o estigma do reformado?

J.F. - Para além do que sinto no bolso? [risos] Não sinto porque estou a tentar distrair-me disso. Com estas coisas todas, distraio-me. Sentiria esse estigma se não tivesse conseguido arranjar estas ocupações, sinto-me ativo.

N.A. - Mas quando falava do estigma era na perspetiva de que normalmente associamos à condição de reformado aquela ideia de que deixámos de ser úteis para a sociedade. E isso presumo que seja doloroso...

J.F. - Sim, eu percebo, mas nós temos muita culpa nisso. E repare que eu disse nós, nós jornalistas. Nós adoramos esses estigmas, esses rótulos, que são sempre muito redutores. Repare, um homem de 60 anos deixa de ser um homem, passa a ser um sexagenário. É muito mais pesado. A pessoa perde um pouco a identidade para se transformar numa massa.

N.A. - O homem de 66 anos que aqui está ainda está na idade dos porquês?

J.F. - Sempre. O porquê está sempre presente na minha cabeça e nunca tenho certezas de nada que seja verdadeiramente essencial. As dúvidas que poderiam explicar o essencial da minha vida estão cá todas. Procuro não me enganar, mas tenho sempre dúvidas.

N.A. - De que é que se arrepende?

J.F. - Olhem, arrependo-me de não ter ido para o estrangeiro quando tinha idade para isso. Às vezes penso nisso. Não sei para fazer o quê, mas sinto que na altura teria tido vantagens em ter ido. O mundo ter-se-ia aberto de uma outra maneira para mim e para a minha atividade futura, fosse esta ou outra qualquer.

C.F. - E do que mais se orgulha?

J.F. - [pausa] Isso é uma autoapreciação que não gosto muito de fazer. No plano profissional, orgulho-me de ser honesto com os destinatários do meu trabalho. A Guerra tem um significado especial para mim, claro. Mesmo que tenha prejudicado um bocadinho a minha reputação.

C.F. - Porquê?

J.F. - Porque as pessoas passaram a falar só de A Guerra quando falam de mim [risos]

N.A. - O Paulo de Carvalho queixa-se do mesmo. Diz que cantou muito mais coisas, e melhores do que o E depois do adeus...

J.F. - Exatamente. As pessoas falam de A Guerra, mas eu já tinha feito uma série de coisas.

N.A. - E o seu orgulho da sua vida pessoal?

J.F. - O de ter tutelado, partilhadamente com a minha mulher, uma família que procura orientar-se pelos valores que acho que são os principais na relação entre as pessoas. Isto é o natural, mas orgulho-me disso. Incluindo aqui os meus pais, que são pessoas a quem devo o essencial da minha formação.

C.F. - Se os avós estivessem cá, que infelizmente não estão, que pergunta faria a cada um deles?

J.F. - [pausa prolongada] Talvez lhes perguntasse se de alguma maneira honrei aquilo que eram os valores deles.

"O jornalismo deve ser a voz do cidadão"

Catarina Furtado (C.F.) - Quarenta anos depois, ainda sente que o jornalismo pode dar um contributo para uma sociedade mais justa, mais plural?

Joaquim Furtado (J.F.) - Acho que sim. Se não for no jornalismo, onde é que podemos ter grandes esperanças? O que nós vemos são instituições que achávamos que eram sólidas a ruir. Acaba por sobrar o jornalismo. Por muitos defeitos que tenha, quero acreditar que o jornalismo ainda é um reduto em que os cidadãos podem acreditar.

Nuno Azinheira - Continua a ser o mesmo romântico de quando tinha 25 anos?

J.F. - Talvez, talvez. Se deixar de ser, deixo de ser eu, não é? O jornalismo é a voz dos cidadãos. Mas o jornalismo está numa fase de transição. Sabe-se que já há uma tendência no estrangeiro, não sei se da mesma forma aqui, de mais interferência dos interesses comerciais do órgão de comunicação social relativamente ao próprio conteúdo. Isso é uma coisa nefasta e que por si só vai moldando o exercício da profissão. Isto para não falar da crise, que é um problema para a liberdade de expressão porque limita os espaços de atuação dos jornalistas. Há menos dinheiro, há menos reportagens, os órgãos de comunicação social estão com mais dificuldades. A crise é desde logo inimiga da liberdade de expressão.

C.F. - E isso fragiliza o jornalista?

J.F. - Está muito mais dependente porque para afirmar a sua diferença em relação a critérios editoriais que conteste tem muito menos espaço, porque há menos oportunidades de emprego. Há muita gente desempregada, que chega das universidades e quer começar a trabalhar. Tudo junto, dá hoje uma imagem do jornalismo... [pausa] desigual. Os jornalistas só têm de procurar ser isentos, mas nem sempre conseguem. É como a questão da objetividade. Costumo dizer que a objetividade é sempre um objetivo não alcançável, mas não devemos deixar de tentar atingi-la.

C.F. - Há muita gente que vem ter comigo e me diz "Dê um abraço ao seu pai. Ele faz muita falta. Jornalistas como havia no tempo dele é que era. Hoje já não há jornalistas assim". O que é que isto quer dizer?

J.F. - Quer dizer que sou um bocado velho [risos]. Começa por aí. Depois, acho que devias perguntar isso a essa gente, porque eu não sei responder. Mas, pronto, faz bem ao ego.

C.F. - Só isso? Acha que não tem qualquer outro significado?

J.F. - Enfim, quem diz isso deve ter as suas razões e isso é gratificante para mim. Mas isso serão as pessoas que são simpáticas contigo, porque sabem que sou teu pai. Provavelmente, haverá muitas outras que tu não encontraste que terão opinião contrária sobre mim.

C.F. - Uma das particularidades que reconheço no pai é o seu rigor, a sua necessidade de ir até ao osso [Joaquim franze o sobrolho], procura investigar até ao fim. Estamos numa época de grandes movimentações tecnológicas, com a internet, com novas fontes de pesquisa e trabalho. Isso veio facilitar a vida aos jornalistas?

J.F. - [pausa] Não necessariamente. Depende de como o jornalista conduzir o seu trabalho. Uma coisa é indiscutível: o jornalista tem hoje muito mais meios ao seu dispor do que tinha no meu tempo. Os tempos eram outros, de facto.

C.F. - Ai eram, eram, e bem me recordo de como era [gargalhada]: O pai estava na rádio, ia fazer o noticiário, tinha alguma dúvida e telefonava para casa e lá ia eu à biblioteca, subia as escadinhas, ia buscar o livro. Eu era uma espécie de Google daquele tempo...

J.F. - Eras um bocadinho, eras [risos].

C.F. - E o pai era incrível, sabia exatamente onde estava cada livro. "Procura-me aí o António Gedeão, está na terceira prateleira da terceira estante." Era impressionante porque eram milhares de livros. E lá ia eu à terceira prateleira da terceira estante.

J.F. - Pois, mas agora tudo é mais fácil. Há a internet, os telemóveis, os smartphones.

C.F. - Adaptou-se bem a estas novas tecnologias?

J.F. - Adaptei, adaptei.

C.F. - Mas não tem conta no Facebook [gargalhadas]...

J.F. - Não, não tenho. Isso não. Confesso que tenho um preconceito em relação ao Facebook. Pode ser extremamente útil em termos de trabalho e para ligar as pessoas. Mas não me fascina muito porque, na maior parte das vezes, as pessoas utilizam-no de uma forma que a mim não me interessa muito. Mas a Internet uso muito, é um instrumento excelente, embora seja necessário utilizá-la com cuidado. Não tenho a certeza de que os jovens jornalistas e os estudantes de Jornalismo tenham as devidas precauções com a internet. Porque a net está cheia de informação útil e importante, mas também está repleta de erros factuais.

"As nossas desgraças são risíveis"

Catarina Furtado (C.F.) - Uma das coisas que as pessoas não conhecem de si, e eu tenho muita pena, é o seu sentido de humor. É dos mais apurados que conheço e tenho pena de que a generalidade das pessoas não o conheça...

Joaquim Furtado (J.F.) - Tentei dar aqui umas amostras ao longo desta entrevista [risos]. Há bocadinho disse que sou um cristão agnóstico, portanto não partilho daquela ideia de que é a fé que nos salva. Para mim, o humor e a poesia é que nos salvam. O humor foi feito para nos salvar. Nesse sentido, a única forma que temos de encarar a vida com algum realismo é fazendo humor com ela. Com as desgraças, com as alegrias, com as nossas próprias dificuldades, angústias.

Nuno Azinheira (N.A.) - As desgraças também são risíveis?

J.F. - As nossas são, as dos outros não. E, sim, há limites para o humor. Às vezes, vejo humoristas a ultrapassar essa linha. Mas em relação a nós, não. O humor é muitas vezes a melhor forma de terapia, a melhor forma de conseguirmos superar certos problemas ou a própria vida.

N.A. - É uma espécie de catarse que fazemos na nossa vida?

J.F. - Sim, exatamente, é uma espécie de catarse. Olhar com humor para um acontecimento nefasto relativiza-o, torna-o menor aos nossos olhos, diminui o sofrimento.

"As novas gerações não foram educadas na defesa da democracia"

C.F. - Que ideia é que acha que as novas gerações têm do 25 de Abril?

J.F. - Não sei. Tenho as minhas dúvidas, mas acho que o que se faz nas efeméride, nomeadamente nesta que por ser um número redondo acaba por ser mais explorada, devia ser um complemento daquilo que essas gerações a seguir ao 25 de Abril deveriam ter recebido na escola.

C.F. - O 25 de Abril estava nos manuais escolares, mas o ano letivo acabou antes de lá chegarmos.

J.F. - Esse é provavelmente o principal fracasso daquilo que foi a forma como o país lidou com o 25 de Abril. E o 25 de Abril e o seu significado, isto é, o gosto pela democracia, pela cidadania, por as pessoas participarem na vida coletiva. Dá-me ideia que isso não foi transmitido. Faltou explicar porque a liberdade e a democracia são tão importantes para que as pessoas a defendam.

N.A. - As novas gerações não fazem ideia de como se vivia antes.

J.F. - Essa pedagogia devia ser feita para que as pessoas gostem da liberdade e da democracia. Senão, a democracia é para elas apenas um valor instrumental. Dá melhor condições de vida e, quando começa a não dar, como acontece com esta crise, já se põe tudo em causa. Isto acontece porque as novas gerações não foram educadas no plano da defesa na democracia, da cidadania e da participação.

C.F. - Isso leva-me a perguntar se acha que o voto devia ser obrigatório?

J.F. - O voto obrigatório é uma questão problemática que agora foi de alguma maneira levantada no debate político pelo professor Freitas do Amaral.

C.F. - Mas é uma forma de exercermos mais a nossa cidadania, ou não?

J.F. - Pois, quem é contra argumenta que o voto obrigatório não faz sentido numa democracia. Eu acho que pelo nível de abstenção e de desinteresse mostrado pelos cidadãos ao longo dos últimos anos podia ser uma experiência, no sentido de se perceber onde é que está o desinteresse, onde é que está o protesto das pessoas que votam e o comodismo das que não votam.

N.A. - Mas na génese o voto obrigatório não é contraditório com a liberdade individual de cada um? Até na liberdade de nos alhearmos da vida política e do nosso destino comum?

J.F. - Na génese é, porque a democracia é liberdade. As pessoas votam se quiserem, se não quiserem não votam. É por isso que tendencialmente sou contra, mas percebo alguns argumentos e poderia funcionar como experiência.

N.A. - Mas até que ponto é que a obrigatoriedade de votar faria dos cidadãos pessoas mais conscientes politicamente?

J.F. - Essa é uma das questões importantes e até anterior a este momento. Se tivesse havido a sensibilização das gerações para a importância da cidadania e da democracia, provavelmente, e embora este seja um fenómeno não só português mas europeu, o nível de abstenção seria menor. As pessoas teriam um conceito de participação na sociedade mais exigente. Provavelmente.

C.F. - Por quantas gerações então vai ainda durar o 25 de Abril? Virá nos livros como as dinastias ou irá evaporar-se?

J.F. - Não sei prever o lugar do 25 de Abril num compêndio de História daqui a 50 anos.

C.F. - A quantas mais gerações vai sobreviver?

J.F. - Neste momento, os historiadores contemporâneos dão-lhe espaços diferentes. Será certamente uma coisa diferente daqui a 50 anos do que daqui a 300.

"A poesia é exaltação"

Catarina Furtado (C.F.) - Que peso tem para si a palavra? Quer dizer, eu sei a resposta. Quando lhe pergunto isto não é no sentido da honradez e do cumprimento de promessas, mas sim no peso de cada palavra, no rigor de cada palavra dita e escrita...

Joaquim Furtado (J.F.) - Sim, é verdade, mas isso não é nada de transcendente. O que se passa comigo passa-se com muitos outros jornalistas. Cada palavra tem um peso próprio, uma carga adequada, um significado concreto. E os jornalistas trabalham com palavras, é natural que tenham de saber cuidar delas. E depois há formas mais sublimadas de utilização da palavra que ultrapassam esta vida a que estamos confinados. Com a palavra podemos construir outros mundos, outras realidades, outras ficções.

C.F. - É por isso que gosta tanto de poesia...

J.F. - Sim, a poesia é essa exaltação de que falavas, essa sublimação.

C.F. - O pai escreve poesia desde sempre.

J.F. - A poesia é o grau supremo da utilização da palavra. Esse é o meu ponto de vista. Porque é qualquer coisa que nos permite fingir que frequentamos alguns mistérios da existência humana.

C.F. - Mas porque nunca mostrou nada do que tem escrito ao longo dos anos?

J.F. - [pausa] Eu escrevo para a gaveta, vou lá pondo tudo.

Nuno Azinheira - Não é a mesma onde está o socialismo, pois não?

J.F. - [gargalhada] Não, mas parece-me que o Mário Soares já o tirou de lá.

C.F. - E o pai, vai tirar a poesia da gaveta?

J.F. - Ela não está fechada, mas também não está aberta. Não sei. A poesia é sempre um momento íntimo, mas admito que essa intimidade possa ser partilhada. Mas, por outro lado, também penso o que é que a minha voz pode acrescentar àquilo que já existe.

C.F. - Mas não fecha totalmente a porta à publicação de poesia?

J.F. - Não, não fecho.

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