Victoria Guerra: "Andar num colégio de freiras foi muito bom para mim"

Aceitou o desafio de fazer uma toxicodependente em 'Dancin'Days' da SIC, depois de ter feito um nu integral no seu primeiro filme e interpretado uma mãe adolescente na ficção da TVI. Com seis anos de profissão e 23 de vida, a atriz admite que, apesar da vida lhe correr de feição, ainda tem muito para aprender.

Em Dancin'Days (SIC) veste a pele de uma toxicodependente. No filme As Linhas de Wellington interpretou cenas de nu integral. Em Mar de Paixão (TVI, 2010) fez uma mãe. Para uma atriz com seis pequenos anos de carreira, pode-se dizer que já fez papéis maiores?

Nunca tinha pensado nisso... Para mim todos os papéis são grandes e significam novos desafios.

Mas estes três que referi são marcantes para quem está em início de carreira, ou não?

Realmente... foram as três personagens mais fortes que tive. Interpretar uma mãe aos 20 anos é estranho. Não fazer ideia do que é ter filhos, do que é ser mãe, torna o trabalho muito pesado. Depois esta toxicodependente de Dancin'Days é muito difícil. Em televisão temos de mostrar a verdade, mas ao mesmo tempo temos de ter cuidado porque os espectadores querem muitas vezes seguir os passos das personagens. Há que ter o cuidado de não abusar. Por outro lado, fiz o filme que, sim, teve o nu integral, mas era uma personagem de 17 anos de 1810.

Foi complicado passar de uma jovem mãe do século XXI para uma adolescente de uma época em que tudo era diferente e logo a seguir para uma toxicodependente?

Acho que, acima de tudo, tenho tido muita sorte na minha carreira, porque seis anos é mesmo muito pouco tempo.

Pode-se dizer que o ano de 2012 sorriu-lhe?

Foi o meu melhor ano desde que comecei a trabalhar. Fiz papéis muito intensos e diferentes entre si e em projetos bastante bons. Tive oportunidade de trabalhar com atores incríveis e poder aprender e crescer com eles.

A personagem que interpreta na novela da SIC não é comum na ficção portuguesa. Como se prepara para estar na pele de uma toxicodependente?

Vi todos os filmes e mais alguns sobre droga. Depois, falei com ex-toxicodependentes estive numa casa de reabilitação para perceber como é que o corpo reage aos químicos. Percebendo como é que tudo funciona, foi adaptar à personagem: uma rapariga jovem e inteligente, que sabe o que está a fazer, mas que não pensou nas consequências. É como na realidade dos dias de hoje. A droga é uma coisa tão fácil, está em todo o lado, nas discotecas...

Como foi filmar?

Bem, nós não estamos a consumir (risos). Aquilo é um truque de câmara. Acho que isso foi muito bem feito porque quando estávamos a filmar não sabíamos como ia ficar e é engraçado ver que não é preciso mostrar como é que se consume para se ter a noção do que se passa. O que é interessante e que aqui foi feito é mostrar como é que o corpo reage. Para mim, enquanto atriz, trabalhar como a mente e o corpo reagem à droga é a parte interessante.

A produção da SP Televisão arriscou ao emitir essas cenas em horário nobre?

Acho que arriscou. Lembro-me de ter lido uma crítica à transmissão nesse horário deste tipo de cenas, sendo que os espectadores da novela são maioritariamente crianças. Já houve realmente mais novelas em que a droga foi abordada, mas nunca de uma forma tão intensa. Acho que a ideia foi precisamente mostrar que estas coisas podem acontecer a toda a gente. O facto de a Vera ser uma personagem honesta e trabalhadora foi aproveitado para mostrar que as pessoas boas também podem cair na tentação. A droga não é exclusiva das pessoas más e sem caráter. Mas também acho que as crianças não devem ver a novela sozinhas, devem ter os pais ao lado, para que lhes seja explicado o que se passa. Além disso, também existem de sexo, de violação, com armas, com mortes... Com tantas coisas más, não podem achar que a droga é a pior das piores. É apenas uma coisa que existe e as pessoas precisam ter noção disso.

Na rua olham para si como a atriz Victoria Guerra ou como a personagem Vera Dias?

Olham como Vera. Quando estas cenas mais complicadas passaram na SIC, chegavam ao pé de mim e perguntavam-me o que é que se tinha passado comigo, diziam-me que eu era boazinha e que tinha de largar aquilo, que só me fazia mal. Perceberam que a Vera não era má. Geralmente, a maior parte das pessoas associa a droga a pessoas más, que não têm caráter, e isso é falso. Toda a gente pode passar por isso e o que é preciso é ter os olhos bem abertos porque a droga está em todo o lado.

Quando diz que está em todo o lado refere-se também ao meio artístico. Depois de estar na pele da Vera Dias e de, presumo, estar mais próxima do problema, a sua atitude perante aqueles que são toxicodependentes mudou?

Eu percebi que existe o mito que a droga é exclusiva do mundo artístico. Eu própria pensava assim. É verdade que neste meio é mais assumida, mais consumida às claras, mas existe em todos os meios e atinge médicos, advogados, pilotos... A droga... pelo menos a cocaína está em todo o lado.

Mas a sua atitude perante quem a consome mudou?

Fiquei a perceber que é muito difícil viver sem cocaína. A Vera teve a sorte de parar a tempo, mas há pessoas que chegam àquela fase em que já nem têm a noção do que se passa com elas.

Nunca sentiu curiosidade pelo consumo de drogas?

Não.

Nunca a tentaram, a seduziram a consumir?

(silêncio) Como tentaram qualquer pessoa da minha idade. Qualquer pessoa da minha idade já teve acesso a essas drogas.

Basta ir a uma discoteca, como já disse...

Basta ir ali às ruas do Bairro Alto [Lisboa]. A circulação de droga é das coisas mais vulgares. As pessoas têm é de conhecer os seus limites. Cada pessoa sabe de si, do que o seu corpo precisa e aguenta. Não condeno quem consome, mas no meu caso... sempre tive muito respeito por essas coisas. A droga sempre me assustou.

"Há quem tenha começado a prestar mais atenção ao meu trabalho"

Não é só na televisão que tem dado cartas. O seu primeiro papel em cinema [As Linhas de Wellington] também foi desafiante, na medida em que teve de fazer um nu integral. Estas personagens são reflexo da maturidade que vai atingindo na vida real?

Sim, muito. Não tendo estudos, nem ferramentas que uma escola de teatro me daria, todo o trabalho que faço tem que ver com a maturidade que vou ganhando, com o que vou aprendendo com a vida. Eu depois de me ter estreado enquanto atriz estive quatro anos sem parar de fazer novelas e isso faz com que se torne uma rotina. Depois estive um ano em que não fiz novela e esse ano foi muito bom porque cresci enquanto Victoria Guerra. Foi uma escola minha. Aquilo que se absorve da vida ajuda-me a perceber como eu penso e, desta forma, que os outros pensam de forma diferente de mim. Permitiu-me alargar todo o universo onde vou buscar pormenores para as minhas personagens.

Isso é o que dentro de si para interpretar papéis, mas pelo que sei também acontece ao contrário. Lembro-me que quando fez de mãe em Mar de Paixão sonhava que estava grávida. As personagens também lhe dão qualquer coisa...

(risos) Isso é uma coisa que me acontece muito. Muito mesmo. Quando fiz essa personagem e durante o tempo em que tinha barriga, sonhava imensas vezes que estava grávida. E mesmo depois de ter o bebé... Era demais (risos).

Chama-se a isso levar a personagem para casa.

O que em novela é muito difícil não acontecer, porque se trabalha cerca de 12 horas por dia. Esse caso fez-se crescer. Não digo que fiquei adulta, mas fez-me ver as coisas de outra forma, fez-me ponderar ter uma família, ter filhos. Deparei-me com essa realidade pela primeira vez. Aos 20 anos nem pensava nisso. Senti-o apenas naquela altura, depois a novela acabou e a vontade também desapareceu (risos). E o engraçado é que logo a seguir fiz a Clarissa das Linhas de Wellington, que tem 17 anos, e um amigo meu disse-me que eu parecia uma miúda. Fiquei outra vez pequenina, mais infantil, mais traquina (risos).

Esses papéis mais maduros fizeram a industria olhar para si de forma diferente?

Não sei... Eu tenho uma imagem jovem e acho que sempre terei, o que é bom porque significa que posso trabalhar mais anos. O que acho é que o facto de ter entrado num filme, e o cinema é um meio complicado de se entrar, fez com que olhassem para mim e perguntassem quem sou eu. Chamei mais à atenção. Depois, com Dancin'Days, acredito que há quem tenha começado a prestar mais atenção ao meu trabalho e a perceber que eu sou capaz de ir mais além. Até porque (pausa)... eu não acredito no carimbo dos Morangos. Acho que foram uma coisa fantástica para todos os que de lá saíram. Encontraram-se atores incríveis. Nos últimos anos é que se olhava para a série e se pensava nela como uma fábrica, esquecendo-se que não é fácil estar em frente a uma câmara. Muitas pessoas esqueceram-se do que era os Morangos. Isto para dizer que em 2012 começaram a ver-me sem ser só como a miúda que veio daí.

O ter feito um nu integral naquele que foi o seu primeiro filme ajudou a essa mudança de postura perante o seu trabalho?

Ui... já tanta coisa foi dita sobre o nu que eu já me custa falar disso. Eu fiz o que fazia sentido para a personagem. Nos EUA, os melhores atores de Hollywood também se despem.

Mas nós não estamos nos EUA, estamos em Portugal.

Aqui, as pessoas precisam entender que usar o corpo faz parte de ser ator. É verdade que fazer estas coisas em Portugal é difícil porque tomam proporções maiores. O que acho que mostra é "tomates" [faz o gesto das aspas]. As pessoas criticam o nu no cinema português. Existe ainda um grande tabu, mas depois vão ver o filme do [Stanley] Kubrick, onde a Nicole Kidman aparece toda nua, e aí já não interessa. Agora, tirando todas as opiniões, para mim, Victoria Guerra, foi um grande passo. Foi mostrar que eu era capaz de o fazer por um bom projeto. Fiquei orgulhosa de mim por ter ultrapassado uma barreira, porque ter de utilizar o corpo não é fácil. Eu só de ter estado com vocês a tirar fotografias na rua, com toda a gente a olhar para mim, estava tão envergonhada (risos). E estava vestida dos pés à cabeça.

"Em Portugal não se acredita no cinema"

Qual é o filme da sua infância?

Bem, eu ia tanto ao cinema... A Mary Poppins [de Robert Stevenson, 1964) foi um filme que me marcou muito. Eu adoro musicais.

E quais os atores portugueses de referência?

O Albano Jerónimo. Sempre o admirei muito. E depois a Margarida Carpinteiro, o João Perry. Norte-americanos gosto muito do Sean Penn. O filme I Am Sam [2001] marcou-me muito. Ah, outro filme que marcou muito a minha infância foi A Vida É Bela [de 1997, realizado Roberto Benigni]. Acho que foi o primeiro filme em que chorei mesmo muito.

Sendo o cinema uma das suas paixões, como vê o seu futuro em Portugal?

É muito complicado... Não sei. Honestamente, não sei. É complicado porque não sabemos sequer se vai haver cinema. Os projetos que foram aprovados não têm financiamento. Quero acreditar que vai continuar a haver cinema português... em 2012 fizeram-se ótimos filmes. As Linhas de Wellington esteve em Veneza, o Tabu do Miguel [Gomes] esteve em competição no Festival de Cinema de Berlim [Alemanha], e agora está em Paris [França]. Ou seja, nós temos bons filmes, temos bons realizadores e temos ótimos atores, mas...

Não são reconhecidos no nosso país?

Acho que não. Noto que cá não se acredita no cinema, não se acredita no teatro, não se acredita na arte, não se acredita no entretenimento. As pessoas olham como se fosse um extra, que são áreas para malucos, que é algo que nós perdemos tempo a fazer. Não olham como uma profissão.

As novelas escapam a esse olhar?

As novelas são vistas como algo fantástico. E isso é ótimo. Mas e os atores de cinema? E de teatro? A Beatriz Batarda... meu Deus. É das melhores atrizes que temos. Não se lhes dá o devido valor, são vistos como "os artistas". As pessoas têm de parar e perceber que através do cinema se consegue mostrar Portugal. Não é só com o azeite, o chouriço e a cortiça. O cinema também tem de ser visto como uma amostra do que somos capazes de fazer, uma amostra do nosso país. O Governo tem de perceber que sem cinema e sem teatro não temos identidade.

E o público? Como é que se cativa os portugueses a ir ao cinema? Estou a lembrar-me que Morangos com Açúcar - O Filme foi é o 8º filme português mais visto no cinema desde 2004.

O público precisa de entender que o cinema português não é lento.

Quando diz que é lento é uma forte associação às realizações de Manoel de Oliveira?

É, mas os filmes do Manoel de Oliveira também são ótimos. Ele fez os melhores filmes portugueses de sempre. Agora... eu vou ao videoclube da TV por cabo e vejo que os filmes mais vistos são de ação. Não digo que estes sejam maus, eu também os vejo, mas não vejo muita gente ir ao cinema ver filmes mais artísticos, mais humanos. Mais reais. Depois, há aquela coisa com a língua portuguesa... se calhar é por estarmos habituados a ver tudo em inglês e legendado.

"Este ano correu mal à TVI por mérito da SIC"

Trocou as novelas da TVI pelas da SIC em boa hora. A liderança de Dancin'Days em audiências fez descer de Queluz de Baixo na tabela dos mais vistos. O que é que a ficção da TVI perdeu para deixar a liderança?

Acho que é um fenómeno, sem dúvida. E é ótimo para toda a gente. Mais competitividade faz com que toda a gente tenha de trabalhar mais e fazer melhor. O que a SIC fez com esta novela foi diferente. Tivemos meses de ensaios, apostou em atores novos como protagonistas, como a Joana Santos e a Joana Ribeiro, apresentou uma história diferente e gravou com planos também diferentes. São pequeninas coisas que ajudam ao sucesso.

Quando diz que a SIC apostou em novos atores quer dizer que a TVI aposta sempre nos mesmos?

Mais do serem sempre os mesmos, e claro que isso pode ser cansativo, é os atores fazerem sempre o mesmo tipo de papéis. O pior é serem sempre os mesmos protagonistas, sempre os mesmos bons e sempre os mesmos maus. A variedade é importante e também em termos de histórias e em núcleos.

Insisto: o que está a dizer é isso que acontece na TVI?

Não sei. Acho que a TVI tem feito um trabalho fantástico e... este ano correu-lhes mal. O que é que eu posso dizer? Correu mal por mérito da SIC. Nesta novela aconteceu-me uma coisa, que, vou ter de ser honesta, nunca me tinha acontecido: um coordenador de projeto veio ter comigo e deu-me os parabéns por uma cena que fiz. É bom haver este reconhecimento e a sensação que estamos todos a trabalhar em equipa, que estamos todos ali para o mesmo, que não há atores a querer roubar cenas, que não há maldade...

Não querendo ser chata, quando diz que na SP Televisão/SIC "não há atores a querer roubar cenas, que não há maldade" e estamos a falar da TVI, quer dizer que isso acontece na TVI.

Não... Eu tive muita sorte com as novelas que fiz na TVI. O que digo é que nesta novela senti um trabalho de todos os atores mais aprofundado. Não sei se será por na TVI ser normal fazer novelas e o que acontece muito é que já está toda a gente habituada. Na SIC começou-se quase do zero. As audiências de Laços de Sangue foram boas, depois baixaram com Rosa Fogo. Uma novela na TVI é só mais uma novela. Na TVI já sabiam que eram líderes de audiências. Não digo que não haja cuidado e trabalho, mas já é aquela coisa de "vamos fazer mais uma novela e vai correr bem". A SIC, quando começou, não sabia se ia correr bem e sinto que nesse sentido foi dado tudo por tudo.

"Vir para Lisboa [aos 15 anos] foi a melhor coisa que podia ter feito"

Estreou-se aos 17 anos em Morangos com Açúcar. Tinha o sonho de ser atriz?

Não tinha não (risos). Entrar nos Morangos aconteceu porque eu fiz um casting de rua a acabei por ser chamada.

Porque é que fez o casting?

Eu estava a estudar jornalismo na altura e uma colega minha estava a fazer um trabalho sobre os Morangos. A produção estava a fazer casting na Casa do Artista [Lisboa] e nós pensámos "vamos faltar às aulas e vamos lá" (risos). Foi pela experiência. Ela tirou várias fotografias e fez entrevistas, eu tirei só uma fotografia. Mais tarde chamaram-me para um casting de contexto e uns meses depois ligaram-me. Era só a série de verão e eu achei que podia ser divertido. Até porque sempre gostei muito de cinema. Nunca fui muito de ver novelas em miúda, só quando me mudei para Lisboa, e achei que podia ser uma coisa engraçada para experimentar, mas não mais do que isso.

Se não queria ser atriz, que profissão sonhava ter em criança?

Eu não sabia o que queria ser. Nunca tive aqueles sonhos de querer ser veterinária, nem médica, nem advogada, nem professora. Queria qualquer coisa com televisão e por isso é que fui para jornalismo. Quando comecei a estudar pensava que ia poder comunicar com as pessoas - apesar de achar que não tenho jeito. Quando entrei para os Morangos percebi que era o que queria.

Nessa altura tinha 17 anos e já estava há dois em Lisboa. Tinha o sonho de sair de Loulé, onde nasceu, e de se mudar para a capital por alguma razão especial?

(sussurra) Porque queria vir para a cidade.

E porquê?

Porque era onde aconteciam as coisas.

É na capital que se centram as oportunidades e os sonhos se realizam?

É por aí. Eu adoro a minha terra, mas não dá as mesmas oportunidades. Quando eu era miúda existia só um cinema. Só mais tarde é que abriu um centro comercial com imensas salas. Não havia tanto teatro, tantos concertos. Em Lisboa há tanta coisa. Há vida. Há mais oportunidades, mais coisas a acontecer. No Algarve uma pessoa sai à rua e conhece toda a gente: o senhor do café, do quiosque. Eu detestava isso. Em Lisboa todos os dias posso conhecer pessoas diferentes e interessantes.

Ou seja, a adaptação não foi difícil para si.

Nada. Foi a melhor coisa que podia ter feito. Na altura a minha mãe disse-me logo "tu vais e já não voltas".

Mas apoiou-a?

Sim, até por ser de Inglaterra, onde há muito o hábito de os filhos saírem de casa novos. Cá é que ficam com os pais até aos 30 anos (risos). A minha mãe também saiu de casa com 22, para vir para Portugal, e ela tinha a perfeita noção de que eu não queria ficar no Algarve. Depois, as coisas foram feitas de forma a que não fosse "agora vai e faz-te à vida". Eles vieram comigo para ver onde eu ia ficar e sempre estiveram presentes. Acho até que ficámos mais próximos por eu ter saído de casa tão cedo.

Ficou a viver sozinha?

Fui para um colégio de freiras. Com 15 anos eu não podia nem me imaginava a viver sozinha e os outros colégios eram para universitários, para raparigas mais novas. Este tinha meninas dos nove aos 30 anos. Havia um andar com raparigas cujos pais não tinham possibilidade de cuidar e que ficavam ao cuidado das irmãs. Eram 90 raparigas de todas as nacionalidades, de angolanas a cabo verdianas, passando por holandesas e indianas, e também de todas as zonas de Portugal. Foi muito bom para mim porque eu vinha de uma família grande. Tenho três irmãos e estava um bocado assustada por ficar sozinha. De repente estava com 90 raparigas. Foram dois anos ótimos. Só saí de lá porque comecei nos Morangos e com gravações à noite tornava-se complicado as entradas e as saídas.

"Foi por não ter um contrato que tive a oportunidade de fazer um filme"

Na altura deixou os estudos que já disse que gostaria de retomar.

Eu trabalho à base do meu instinto, dos meus sentimentos. É engraçado já termos falado de eu levar o trabalho para casa porque sinto que isso mostra que não conheço os métodos nem tenho as ferramentas para separar as coisas. Eu tenho medo de experimentar, de arriscar, de errar. Gostava de estar em aulas para poder ir além dos meus limites, em que podia errar, ver até onde podia ir, experimentar tudo. Acho que isto me daria maturidade profissional.

Há cerca de ano e meio disse-me que gostava de entrar para o conservatório, que Portugal tinha uma das melhores escolas de teatro. Este ano já disse que gostava de ir estudar para Londres. O que mudou?

Eu gostava de viver algum tempo fora de Portugal, de não ser conhecida, de poder conhecer outra cultura. E gostava de experimentar estudar em inglês. É verdade que há cerca de ano e meio pensava em estudar cá, até porque achava que seria mais fácil gerir aulas e gravações. Mas já percebi que não é possível, e por isso é que ainda não fui estudar.

Não tem receio do seu futuro profissional?

Tenho.

É por querer estudar e por desejar ter liberdade para escolher o que quer fazer que um contrato com uma estação não a atrai?

Não é que eu não gostasse de ter contrato, mas tenho 23 anos. Ter contrato neste momento seria (pausa)... não sei.

Uma prisão?

Talvez. Foi por não ter um contrato que tive a oportunidade de fazer um filme que me fez crescer muito, que fez com que as pessoas reparassem em mim, com que eu trabalhasse com profissionais maravilhosos. Não sei o que é que um contrato de exclusividade me traria de novo.

Segurança?

Se calhar, mas prefiro ter essa segurança aos 30 anos. Com 23 seria muito triste se eu metesse a segurança à frente da minha felicidade. Se calhar devia pensar assim, porque as coisas estão mesmo muito complicadas, mas com esta idade prefiro sonhar. Sonhar... sim! Neste momento eu quero sonhar.

Muitas atrizes, incluindo a Victoria, dizem que por serem bonitas têm de trabalhar a dobrar. A verdade é que a ficção portuguesa está cheia de caras bonitas. Em jeito de provocação: as menos bonitas trabalham menos?

(risos) Não. Toda a gente tem de trabalhar muito. O que digo é que na minha geração, começando por ser uma cara bonita, é preciso trabalhar muito. Quando se começa nos Morangos por se ser uma cara bonita, e eu tenho a noção que foi por isso que comecei, há que trabalhar muito para continuar. É preciso mostrar que não é só isso.

A sua geração de atrizes é assim: caras bonitas. Uma jovem adolescente que não seja especialmente bela consegue fazer carreira em Portugal?

Consegue... Eh pá... eu não quero dizer que não porque isso seria horrível. Não quero pensar que só pessoas bonitas é que trabalham nesta área. Não quero mesmo acreditar nisso. Além disso existe o outro lado. Nos Morangos, por exemplo, entrarem centenas de caras bonitas e nem todas continuam a trabalhar porque só isso não chega. No Conservatório há atores geniais e que não são especialmente bonitos. E trabalham... em teatro. O ser bonito ou ser feio não tem lugar.

É ambiciosa?

Sou ambiciosa até conseguir ter aquilo que quero, mas mantendo sempre a noção do que posso ou não fazer.

"Casar não faz sentido para mim"

É filha de uma inglesa e de um português. Tendo vivido sempre em Portugal, de que forma é que a cultura britânica a influenciou?

Eu sou uma mistura das duas culturas. O facto de ter saído de casa, de ser independente, é uma coisa muito inglesa. Eu não espero pela minha mãe para ter a roupa passada a ferro ou para ter almoço feito.

E os seus irmãos? Algum dos três é influenciado por si e quer seguir os seus passos na representação?

Um deles gostava. O do meio, que tem 18 anos [outro tem 21 e a mais nova tem 14].

E incentiva-o?

Não. Este meio é tão difícil...

Então desincentiva-o?

Também não (risos). Eu vou estar sempre aqui para os apoiar, independentemente do que eles quiserem fazer. Ele fala muitas vezes em ser ator, em fazer filmes e teatro. É giro ouvi-lo falar disso.

Acha que isso é a sua influência ou resultado da mesma influência que a Victoria teve?

Da mesma que eu tive. Se eu sentisse que era por minha causa, por eu aparecer em televisão, dizia-lhe logo para ele esquecer. Mas não. Ele está sempre a cantar e a fazer teatros. E tem imenso jeito. É algo dele. Ele nunca tentou, mas se tentasse claro que o apoiava.

Namora há três anos com o operador de câmara Luís Piçarra. Não pensa em casamento?

Casar não. O casamento é uma coisa horrível. Casar não faz sentido para mim, isso está fora de questão. Não sou católica, não acredito na Igreja, não acredito em Deus...

Poderia casar pelo registo.

Nem isso. Eu se me casasse era em Las Vegas e só pela festa (risos).

É pessoa para colocar a carreira à frente do amor?

Isso é algo que nunca percebi muito bem. Quando se ama alguém, e a não ser que se tenha de ir trabalhar para o outro lado do mundo e essa pessoa não possa ir, não vejo como se pode meter a carreira à frente do amor. É possível ter ambas. Sem estas duas coisas a vida é morta.

Mas se a Victoria for estudar para fora de Portugal...

Se assim for nós desenrascamo-nos (risos). Já falámos sobre isso muitas vezes. Mas eu não vou para o outro lado do mundo. É preciso ver as coisas de forma positiva.

Quer ter filhos?

Isso, sim. Gostava de ter muitos, mas é financeiramente difícil. E esse é um sonho que adiaria por causa da profissão. A minha família esteve sempre comigo e eu sei que não vou poder pensar da mesma maneira. Como as coisas são nos dias de hoje, eu sei que quando os tiver não vou poder ir buscá-los sempre à escola, não vou estar sempre lá nos momentos importantes, que tenho uma profissão difícil.

O que é faz a Victoria ir à guerra?

Esta porcaria desta crise. E eu espero que, além de mim, a todos os portugueses.

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