O homem que passa a vida a fazer rir os outros

Conheça o ator que está em estado de graça na televisão nacional. Depois da RTP, a SIC quer Monchique a avaliar gordinhos. Uma tarefa árdua para quem tem "coração de manteiga".

Filho único, o ator que se prepara para estar em dose dupla na televisão nacional - em Estado de Graça na RTP1 e Toca a Mexer na SIC - deu o primeiro ar de sua graça a 23 de agosto de 1968. Nasceu na capital, mas nunca achou piada ser o único herdeiro. "Sou filho único, é uma tragédia. Sempre quis ter irmãos, mas não tive. Por isso é que sempre inventei personagens", descreveu Monchique à nossa revista.

Mas nem tudo são... desgraças. Como tem adiantado o próprio, "o ano em que nasci foi um ano de uma grande colheita e de grandes revoluções, como o Maio de 68. Nasci num mês de grandes artistas e de grandes egos, como a Madonna. Por alguma razão, sou Leão, o signo dos egos. Ainda por cima, sou Leão com ascendente em Leão." Aos 44 anos, é um dos mais elogiados atores e humoristas portugueses. E, pelos vistos, requisitado. Embora não queira prestar declarações, o ator tem múltiplas personalidades para dar corpo a breve trecho. Vai estar no teatro, a partir de 12 de setembro, na peça Lar, Doce Lar, no Casino Lisboa, e em Estado de Graça, na estação pública.

Quanto ao programa de Bárbara Guimarães "ainda é cedo para falar porque as negociações para ser jurado estão em curso com a SIC", reitera fonte oficial próxima do ator.

A descoberta para a representação

Joaquim Monchique não levou muito tempo a descobrir que seria feliz em cima de um palco e ouvir bater as palmas. Conta-se que esse momento chegou aos 6 anos, estaria, então, "numa festa escolar a recitar e a bisar um poema vestido de coelho, na Páscoa".

Aos 20 anos, participa num casting no Teatro Aberto, onde fica como ator residente por quatro anos. Esteve várias vezes sob a direção de João Lourenço e contracenou com Mário Viegas e João Perry. É este palco que lhe traz o seu primeiro salário, circunstância e montante de que ainda se lembra. "O meu primeiro ordenado foi de 35 contos, no Teatro Aberto. Fiquei felicíssimo, porque abri uma conta e deram-me um cartão multibanco", recordou, há um ano.

Foi a passar cartão a Maria Vieira que a atriz conheceu Joaquim Monchique. "Não consigo lembrar-me em que ano, mas lembro-me que ele já trabalhava no Teatro Aberto e me foi ver ao teatro Adoque, no Martim Moniz. No final, veio ter comigo para me dar os parabéns. Era um miúdo muito simpático", conta à NTV.

A chegada à televisão

Dois anos depois das tábuas dos teatros, Monchique chega à televisão. Em 1990, estreia-se, com Filipe La Féria, em GrandeNoite, ao lado de João Baião. "Sempre trabalhei com os melhores e o La Féria é o melhor de todos", referiu o ator em tempos. Foi também nessa altura que Monchique se cruzou com Herman José. " Conhecemo-nos há pouco mais de 20 anos, encontramo-nos na gravação do programa do Filipe La Féria. Com o tempo nasceu uma amizade", recorda o humorista, que vai regressar este sábado à RTP1 com uma nova edição de Herman 2012.

A televisão acabou por tornar-se o canal preferencial por onde passaram aqueles que viriam a tornar-se os seus amigos mais chegados. Ana Bola só não sabe bem as datas. "Foi há 15 ou 16 anos, creio que num programa do Herman", diz. E não se equivocou com as primeiras impressões: "O Joaquim é um falso mauzão, tem um coração de manteiga, ele é muito mais generoso do que se possa imaginar, só que ele não gosta que se note. Esconde isso com aparente arrogância e frieza e não passa disso", revela a atriz.

Ponte área Lisboa-Rio de Janeiro

A história do encontro entre Miguel Falabella, ator e argumentista da Globo, e Monchique não seria muito diferente e também passaria, como se diz na gíria brasileira, "pela telinha". À Notícias TV, Falabella revelou que o primeiro contacto terá sido há cerca de uma década, quando esteve em Portugal a promover a série Sai de Baixo exibida na SIC. "Conheci o Joaquim num programa do Herman em que fiz a participação no sketch do Credo [canal regional]. Recordo-me de que imediatamente ficámos amigos como se fosse de infância. Temos um olhar muito curioso e parecido sobre o mundo", diz.

E tem até um exemplo. "Uma vez, estávamos em casa dele quando um tsunami atingiu o Sri Lanka. Estávamos a ver ainda as imagens jornalísticas da tragédia quando, ao fundo da imagem, surge uma placa a dizer 'Loteria'. Olhámos um para o outro e vimos que tínhamos reparado precisamente numa coisa absurda no meio da devastação", lembra Falabella, que mantém contacto regular com Monchique. Para lá de serem visita de casa um do outro, conta o argumentista brasileiro que "se falam por telefone duas a três vezes por semana".

As histórias com Herman José abundam e, curiosamente, uma delas também mete água. "A mais fantástica história que tenho foi passada no mar. Um dia, no Algarve, levei-o para a praia de barco juntamente com o João Baião. Meti-os no bote auxiliar e voltei para o barco para preparar as coisas para levar para a praia. Quando saí, deparo-me com os dois com água pela cintura e um sorriso amarelo. O bote tinha os pipos abertos e estava a perder o ar. Tive dos maiores ataques de riso desde que me lembro de existir." Também é de risadas monumentais que Ana Bola se recorda. "Lembro-me particularmente de umas férias em Ibiza, há cerca de dez ou 12 anos. Não parámos de rir durante uma semana, foram 24 sobre 24 horas a rir. Quando chegámos a Portugal, doía-nos tanto a barriga que o melhor mesmo era ir de férias."

Quem priva com Monchique não lhe vê imperfeições. "Os amigos não têm defeitos. As qualidades? Muitas. Generosidade, bom caráter, capacidade de trabalho e um sentido de ironia deliciosamente sibilino!", conta Herman. Falabella acrescenta: "Ele é muito metódico e, mesmo na loucura toda dele, é muito organizado." Uma coisa é certa para o argumentista da Globo: "O Joaquim só faz o que quer e não adianta tentar levá-lo a lugar algum que ele não queira. Muito menos vai querer estar em algum lugar."

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