Novelas mais reais exageram nas doenças

A ficção está cada vez mais colada ao mundo real. Prova disso é o número de doenças retratadas pelas personagens. Especialistas alertam que nem sempre estas representações são benéficas, enquanto outros salientam a importância do papel social da novela

Inês Castel-Branco está deitada num bloco operatório. À sua volta, figuras de bata, de máscara e de luvas preparam-se para dar início a uma intervenção cirúrgica. Mas não há motivo de preocupação, não é a atriz que vai ser operada. Está em personagem a encarnar o papel de Teresa, uma doente renal, que vai submeter-se a um transplante de rim, doado pelo irmão (Diogo Morgado), na trama de Sol de Inverno, da SIC.

Dez anos após a personagem interpretada por Fernanda Serrano, em Queridas Feras, ter rapado o cabelo, são várias as personagens que têm lidado de perto com problemas de saúde, em vários formatos de ficção. É o caso de José Carlos Pereira, cuja personagem foi diagnosticada com leucemia em Destinos Cruzados, de Mariana Monteiro, que sofre de depressão na mesma trama, de Custódia Gallego, a quem foi diagnosticada bipolaridade, de Maya Booth, que sofreu com síndrome de borderline, ambas em Dancin" Days, de Margarida Carpinteiro, que lutava contra um tumor cerebral, e de Lídia Franco, que interpretava uma doente de Alzheimer, em Rosa Fogo.

Uma tendência que Pedro Lopes, autor da novela Sol de Inverno, justifica como fazendo parte de uma tentativa de retratar a realidade. "O meu objetivo é que as novelas sejam também o espelho da sociedade em determinado momento. Quero que, daqui a uns anos, quando se vir a novela, se consiga perceber pelas temáticas abordadas em que época é que esta se passa", começa por afirmar o argumentista da trama da SIC. "Em Portugal não se fala muito do merchandising social mas, na América Latina, há algumas décadas, a novela foi importante na educação da população. Em África, chegou-se mesmo a ter novelas subsidiadas pelo Ministério da Saúde como forma de passar a mensagem. Embora, em Portugal, esta necessidade não seja tão evidente, acho que a novela tem este papel social", acrescenta ainda.

Opinião partilhada pela psicóloga Conceição Tavares de Almeida, que se refere a estes produtos de ficção como parte de um modelo de identificação para a sociedade. "As personagens das novelas são uma espécie de avatares e alter egos e fornecem modelos com os quais as pessoas podem identificar-se. Acho que nesse sentido se cumpre muito esse papel social", refere a também assessora do Programa Nacional de Saúde Mental para a área de infância e adolescência, acrescentando: "Acho que retratar situações da vida comum pode ser positivo, tudo depende da qualidade e da consistência da personagem."

Até aqui tudo bem. Não fossem surgir algumas críticas quanto à forma como estas doenças são retratadas no pequeno ecrã. Mas, afinal, são ou não fiéis à realidade? Para Jorge Silva, urologista do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, nem sempre estas personagens com problemas de saúde refletem o que acontece no mundo real. "Tenho a ideia de que a abordagem nem sempre tem muito que ver com a realidade, que é muito fantasiada", diz o especialista. Afirmação sustentada por um doente renal, transplantado recentemente, e espectador da novela da estação de Carnaxide.

"Um dos erros que vi na história da personagem da Inês Castel-Branco [Teresa Teles de Aragão] foi quando ela acabou de fazer o transplante. Recebe logo visitas de toda a gente quando não se pode. Eu não tive visitas e ninguém tem porque as nossas defesas estão muito em baixo e qualquer bactéria pode ser fatal. E depois é curioso porque o único que aparece com a máscara é o dador [Diogo Morgado], que é o único que não precisa", afirma. Referindo-se às cenas em que a atriz está a fazer diálise, tratamento para insuficiência renal, o paciente prossegue ainda as críticas. "A personagem está sempre a tossir, enquanto está a fazer diálise. E não é isso que acontece. A tosse surge depois de deixada a diálise, porque os líquidos que vão para os pulmões provocam a tosse."

Confrontado com a crítica, o autor da trama justifica-se, dizendo que a produtora procura ser o mais rigorosa possível, mas mantendo sempre em mente que está a ser feita ficção. "No guião pusemos que ela não podia receber visitas e que houve ali um regime de exceção e isso passou na cena. Podem dizer: "Sim, não deveria ter havido esse regime de exceção." Mas estamos na ficção e queremos ver a Teresa em interação com outras personagens, mas sempre salvaguardando para o espectador que é um regime de exceção. Sabemos que não devia, mas a Laura [Maria João Luís], com a sua personalidade vincada, consegue de alguma forma que a deixem entrar para ver a filha", diz, explicando que estas pequenas alterações não "diminuem o trabalho que é feito" e que "cada doente é um caso específico".

A própria atriz, que dá vida à filha de Laura Teles de Aragão, reconhece ter recebido alguns reparos de doentes renais. "Muitos apontam alguns erros, mas nada de grave. Como, por exemplo, o catéter que não pode estar exposto... mas não podemos fazer nada porque já está gravado e fechado."

Como os atores se prepararam?

Apesar de receber críticas, Inês Castel-Branco garante que tentou preparar-se muito bem para fazer esta personagem. "Falei com uma especialista, com uma doente transplantada, fui a uma clínica ver pessoas a fazer hemodiálise, falei com uma rapariga que tem a minha idade e que tem as mesmas características da minha personagem, porque teve um transplante que não resultou. E tenho recebido imensas mensagens de pessoas a contar a sua história", conta a atriz.

Também José Carlos Pereira, cuja personagem, Afonso, é diagnosticada com leucemia em Destinos Cruzados, aproveitou a ajuda de António Sala, voluntário no IPO - com quem pontuava os concorrentes de A Tua Cara Não Me É Estranha -, para visitar os pacientes. "Falei com algumas pessoas com idade próxima do Afonso no IPO. E não foi uma pesquisa muito agradável, mas faz parte", diz o ator, explicando que esta já era uma "realidade próxima", uma vez que já tinha estagiado no IPO. Já, em Dancin" Days, Maya Booth optou por pesquisar na web, ler testemunhos via e-mail e assistir a documentários.

O método nem sempre é o mesmo, mas as visitas a associações são comuns, tanto por iniciativa dos atores como da equipa de argumentistas. Que o diga Pedro Lopes, que tem mantido, ao longo da trama de Sol de Inverno, uma relação próxima com a Associação de Doentes Renais. "Quando existem personagens que requerem um conhecimento mais específico, há inicialmente uma pesquisa, por parte dos argumentistas, mas isso depois não é suficiente, portanto contactamos sempre um médico e neste caso específico contactámos a Associação de Doentes Renais", conta.

Procurando fazer uma abordagem o mais séria possível, o autor do formato afirma ainda estar aberto a sugestões dos profissionais que trabalham nestas associações, tal como aconteceu na novela Laços de Sangue. "Quando à personagem da Margarida Carpinteiro, a quem foi diagnosticado cancro, fomos contactados por muitas associações a elogiar e até pediram que incorporássemos no guião que as pessoas que estão sozinhas podem dirigir-se às associações e que existem pessoas que as podem acompanhar aos tratamentos", refere o guionista, adiantando: "Temos sempre a porta aberta para que as associações e os médicos possam ajudar-nos de forma a que qualquer eventual situação menos clara possa ser corrigida".

Por sua vez, Tozé Martinho, argumentista, revela à Notícias TV que a sua "consulta médica" para personagens de novelas está em casa. "Na minha família todos os homens são médicos menos eu, de maneira que é fácil porque tenho acesso a pai, tios, primos, médicos... tenho acesso a médicos de diferentes áreas", conclui o autor de Louco Amor (TVI).

Perigos e exageros

José Carlos Pereira, que interpreta um doente oncológico, reconhece que "é preciso ter um bocadinho de cuidado na forma como se abordam certas situações". "Em pouco tempo, nas tramas procuramos abordar os temas da vida real e aí podemos cair um bocadinho no exagero ao tentarmos tratar todas as temáticas às três pancadas. Há que ter cuidado para evitar exageros ou o impacto que não é pretendido."

Jorge Silva põe o dedo na ferida e alerta para os perigos que a sucessiva representação da mesma doença em televisão pode trazer. "O facto de haver muito doentes de foro psicológico ao longo destes anos nas novelas pode acabar por banalizar a doença mental. O facto de ser um assunto muito retratado em novelas poderá criar a sensação ao espectador da novela de que também tem aquela doença, ficando mais hipocondríaco. Deve falar-se, mas com moderação", explica o especialista. Também o psicólogo Sérgio Paixão é da mesma opinião. "A pessoa que está informada sobre a doença consegue fazer a distinção entre o que é a realidade e o que está a ser interpretado, mas para as pessoas que não conhecem pode haver o perigo de associar que têm comportamentos parecidos. Agora, obviamente que é uma forma de sensibilizar e acredito que há muitas pessoas que procuram mais informação."

A psicóloga Conceição Tavares de Almeida também alerta para o risco do autodiagnóstico de uma doença por parte do espectador. "As pessoas podem começar a achar que têm isto e aquilo", diz, adiantando que se "corre o risco de cair no estereótipo e no preconceito em relação à doença mental" quando existe uma conotação moral negativa associada às personagens, na novela.

Delfim Oliveira, presidente da Direção Nacional da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, ressalvou recentemente à nossa revista que "de facto, o que é importante nestas telenovelas é ver qual é a mensagem pedagógica ou psicopedagógica de uma forma positiva". "Não é desumanizar efetivamente a figura para depois a estigmatizar e desvalorizar a importância que as pessoas têm."

Para o psiquiatra António Sampaio, "o facto de as doenças serem divulgadas em novelas dá um conhecimento mais próximo às pessoas, do que se fossem apenas à internet ver a sua definição", conclui o especialista.

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