Notícias nas novelas são aposta para seduzir o público

Estão as novelas a deixar de imitar a realidade para passar a incluí-la por inteiro? Saiba como autores, produtores e editores reagem à atualidade e quais os grandes momentos que merecem entrada direta no mundo da ficção televisiva...

Seleção nacional, Cristiano Ronaldo e as mortes de Eusébio e Mandela foram os momentos que melhor se qualificaram para obter uma entrada direta não só na informação mas também, e agora com muita força, na ficção.

Episódios que marcaram a atualidade nacional, que fizeram parar os portugueses e que as novelas têm sabido aproveitar para tornar a sua ficção mais atual e, ao mesmo tempo, mais real. "Apoiamos estas opções e usamos a realidade, pois consideramos importante que haja não só uma atualidade nas temáticas que são tratadas ficcionalmente como uma relação direta ao tempo e espaço em que esta ficção se desenrola", revela Artur Ribeiro. Autor da adaptação na novela da TVI, Belmonte, que recentemente usou o núcleo do café da trama para celebrar a entrega da segunda Bola de Ouro a Cristiano Ronaldo.

E se o jogador madeirense recebeu o troféu, a 13 de janeiro, das mãos do presidente da FIFA, Joseph Blatter, por volta das 19.00, às 22.46, ou seja, quase quatro horas depois, a TVI arrancava com um episódio da novela com esse acontecimento, pondo o personagem Fernando (Tó Melo) a entrar no café de Beatriz (Sofia Grillo) com um cachecol na mão a celebrar o prémio. E se naquele minuto a novela contava com 1 302 000 espectadores, no minuto seguinte era mais 52 mil as pessoas que engrossavam a média. A aposta na atualidade não traz, até ao momento, um acréscimo direto de audiência até porque aqueles resultados mimetizam o comportamento normal da trama sempre que arranca em antena.

A vantagem acaba por se prender com o facto de a história da novela "viver" no mesmo contexto que o espectador. E sendo Belmonte uma novela adaptada, isso não é impedimento: "O facto de o ponto de partida da novela ser uma adaptação não implica que o que nós acabamos por escrever não tenha nada que ver com a realidade portuguesa como algumas vozes têm criticado. Não podia haver telenovela mais portuguesa e só quem não a vê é que pode dizer algo parecido."

BOLA, NATAL E GRANDES EVENTOS

Nas palavras de Mário Cunha, autor da novela do início da tarde da RTP1 Os Nossos Dias, "qualquer evento de atualidade que tenha impacto junto da população pode ser tratado na novela". E enumera: "Os eventos são muito variáveis: vão desde a qualificação da seleção nacional de futebol para o campeonato do mundo à celebração do Natal ou à chamada de atenção para o Dia da Prevenção do Cancro da Mama."

António Barreira, autor de novelas da TVI como Destinos Cruzados ou O Beijo do Escorpião, que se estreia em breve, não duvida que "faz todo o sentido fazer estas introduções da atualidade porque aproxima a ficção da própria realidade, ainda que a ficção tenha um contexto muito próprio". Para este autor, "estas opções fazem que o espectador se sinta mais próximo quer da novela quer das personagens e torna tudo mais real". Barreira - que incluiu referências ao caso do desaparecimento de Madeleine McCann na Praia da Luz na novela Fascínios (TVI) - alerta, porém, que esta opção obedece a peso e medida, lembrando que "há histórias que se prestam mais a este tipo de situações do que outras". Mas obedece a mais: "No caso das inserções sobre o caso Maddie, os cuidados estão em não ferir as pessoas..

Mas quanto é preciso gastar para o fazer? Os custos, valores que os responsáveis pelas produções não adiantam, acabam por não ser de monta até porque se tratam apenas de alguns segundos, com os elencos normalmente mais populares, contando com os atores que já estavam em cena a trabalhar.

FICÇÃO INSPIRADA NA REALIDADE

Pedro Lopes, autor da novela Sol de Inverno (SIC), tem entendimento distinto sobre a questão. "Gosto de ver atualidade nas novelas, não especificamente nas situações dos grandes eventos ou de estarmos constantemente a refletir o dia anterior, mas antes ir buscar temas quentes e que estão na comunicação social", afirma.

Um dos pontos da novela está precisamente alicerçado num caso de coadoção protagonizado por Ângelo Rodrigues (o Simão na novela), Rui Neto (Nuno) e a pequena Ema Melo (a Camila na trama) e que sempre esteve previsto na história. Mas com a realidade a discutir a hipótese de um referendo, Pedro Lopes não tem a certeza de que inclua este assunto na novela. "Havendo referendo ou não, não quer dizer que a novela venha a refletir sobre isso, é preciso estar atento e perceber se faz sentido ou não", explica, lembrando que "o importante na história é, mais do que discutir política - e eu não tenho qualquer objetivo em fazê-la -, mostrar que existem famílias que já são famílias e que vão para lá da estrutura convencional". Mais importante do que incluir as surpresas que a atualidade acarreta, Pedro Lopes concentra esforços em fazer que "a novela não contradiga o que estiver a acontecer".

CRIAÇÃO DE NÚCLEOS DEDICADOS

A novela Os Nossos Dias nasceu com o propósito de ser uma trama de baixo custo, mas muito ligada à atualidade. As gravações começaram, porém, muito antes do momento em que a história começou a ser exibida na RTP1. Por isso, parte do elenco teve de regressar aos cenários e atrás na história para poder festejar a vitória de Portugal frente à Suécia no play off de apuramento para o Mundial de 2014.

Uma inserção que foi feita pelo núcleo dos taxistas, uma parte do elenco a quem caberia fazer a ponte entre a realidade e a ficção. "O núcleo dos taxistas não é o único em que são incluídas cenas de atualidade, mas é dos mais usados, pois, sendo um núcleo de humor, tem uma história mais "elástica" e é mais pacífico introduzir cenas a posteriori sem perturbar a continuidade da história", afirma o autor Mário Cunha.

Mas como se processa esta inclusão? O guionista da história da estação pública explica: "A inclusão de cenas de atualidade é previamente discutida entre o canal, a produção e a autoria. A proposta do tema pode vir tanto da autoria como do canal e, após estarem as partes de acordo, contacta-se a produção para sabermos qual o núcleo de personagens mais conveniente para inserir as cenas e em que episódio se devem inserir. Depois, como já estamos muito à frente na história, a autoria tem de ir reler esse episódio e os que lhe estão próximos, para que a cena seja integrada na continuidade da história e não ser um corpo estranho ali metido a meio."

No caso de Belmonte, a novela campeã nas introduções dos grandes momentos na história, o autor Artur Ribeiro conta que "a inserção de cenas com referências diretas à atualidade na telenovela foi uma ideia do Luís Esparteiro [diretor de conteúdos que saiu da Plural no início do mês]". Depois, prossegue: "Todos nós, autoria, direção artística, direção de atores, realização e produção, apoiamos e realizamos."

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