Júlio Isidro: "Se pensasse em direitos de autor, podia estar milionário"

Aprendeu a fazer televisão num vão de escada e, mais de meio século depois, sente que podia estar a ser mais bem aproveitado pela RTP. Aos 68 anos, diz que não se sente um artista da televisão, mas sim um operário. Há 53 anos a trabalhar, nunca teve um contrato. "Só nunca casei [com a RTP] porque uma das partes não quis", conta em entrevista.

A RTP e Júlio Isidro vivem em união de facto há 53 anos. Porque nunca se casaram com um contrato assinado?

Exatamente [risos]. Olhe... temo-nos dado suficientemente bem para termos confiança um no outro. E eu sou de casar. Só não casei porque uma das partes não quis ou nunca houve uma ocasião para que isso acontecesse. E depois porque a determinada altura da minha vida achei graça ser freelancer para toda a vida. É uma sensação estranha. É quase inimaginável que alguém tenha feito uma vida inteira com uma instituição, com uma empresa, onde apenas tive recibos verdes, outras vezes amarelos e até encarnados.

E foi, e é, uma das caras mais importantes da RTP...

Sou sem dúvida a cara mais antiga da RTP e, por consequência, a cara mais antiga da televisão portuguesa. E, segundo sondagens recentes que fiz, sou o profissional mais antigo da Europa com a minha idade. Comecei logo aos 15 anos a trabalhar...

E como foi a sua entrada na RTP tão novo?

Entrei por concurso, que hoje pomposamente se diz casting. Entraram uns senhores no Liceu Camões a convidarem uma série de miúdos, o que aliás aconteceu noutros liceus de Lisboa. E esses senhores disseram-me para fazer esse concurso, talvez porque sabiam que eu apresentava o Orfeão do Liceu Camões, onde cantava também. Antes disso, com dez anos, lembro-me de ter feito uma máquina de projetar em casa, com lentes de óculos velhos das minhas avós. Eu próprio desenhei o filme em papel vegetal. Fiz teatros em casa escritos por mim e interpretados por mim e pelas minhas irmãs. Eu andava em sistemática exaltação. Ao mesmo tempo que fazia isso, fazia também experiências de química. E também fiz um castelo fantasma em papelão no jardim da casa e pus lá dentro esqueletos a mexer... e ainda fazia aviões... Eu acho que vivia numa exaltação, e vivo, numa exaltação permanente de inventar coisas.

Exaltada, mas noutro sentido, vive a RTP. Indecisões, indefinições, cortes... Vivemos o pior momento da história da estação pública?

Temos pensar em relação à RTP é que, às vezes, é nos momentos difíceis que se dão os grandes saltos qualitativos, quase decalcando de um lugar comum, que é muito verdadeiro. Daí pensar que neste momento difícil, não só na RTP mas também no país, na Europa... se podem dar saltos qualitativos. Eu não tenho nenhuma sensação de dor ou saudosismo em relação ao tempo em que a televisão era melhor. A televisão é outra.

E continuando a olhar para o presente... o que deve ser a RTP do nosso tempo?

Não imagino um país da Europa que não tenha verdadeiro serviço público de televisão. E aquilo que sinto é que há uma grande vontade por parte dos responsáveis da RTP de fazer cada vez mais serviço público. Mas não vou adiantar os conceitos todos que estão à volta do serviço público, nem ter a discussão, às vezes, um bocado académica sobre a ideia de serviço público. Nós sabemos perfeitamente o que é. Aliás, qualquer cidadão atento sabe perfeitamente quando a televisão está aberta para ele e quando lhe está a prestar um serviço, seja a ele ou à sociedade. Por isso, não vale a pena estar com discussões estéreis sobre o que será o serviço público. Resumo isto normalmente em duas palavras: o serviço público é a ética e a estética. E a partir daqui cabe tudo.

Desde 1960, ano em que entrou na RTP, a televisão caminhou para melhor, para pior ou simplesmente é diferente?

Nalguns casos para melhor e outros para pior. Não a RTP, mas a televisão em Portugal. E eu não sou daqueles que dizem que o serviço público é bom e o serviço não público é mau. É uma dicotomia que recuso liminarmente. Até porque tenho visto nas televisões ditas comerciais muito bom serviço público. Quando não somos agredidos na nossa cultura, na nossa estrutura moral, nos nossos valores de sociedade e quando há respeito pelo indivíduo como um todo, então está a cumprir-se serviço público. E isso tem acontecido em muitos programas, sejam da RTP ou dos canais comerciais. Mas, respondendo à sua pergunta, há uma enorme diferença dos anos 60 para agora. É que eu sou do tempo - e esta expressão incomoda-me extraordinariamente - em que cada programa e cada projeto era uma aventura. Era a ideia de que alguma coisa tinha sido conquistada, a ideia do pioneirismo, de um passo à frente, de ir um bocadinho mais longe. E isso perdeu-se, como é natural. Aqueles que começaram na televisão criaram televisão sem nunca antes terem visto televisão, como no meu caso. Mas também de muitos outros... criativos, os produtores... Nesse tempo eu era um menino, não é? Essas pessoas é que já não existem e esse espírito também não. E disso tenho pena. É excelente a sensação de que vamos criar um programa e que vamos fazer qualquer coisa de novo. Nessa altura o julgamento incidia apenas sobre a qualidade intrínseca do programa. Hoje em dia a qualidade intrínseca do programa é medida em ratings e share. E isso incomoda-me. Deve conjugar-se uma coisa com a outra. Deve fazer-se uma avaliação crítica do que se faz e simultaneamente saber se as pessoas viram. Mas as audiências só nos fornecem a quantidade, não sabemos se as pessoas estavam a ver por ódio, se estavam a detestar e a ver. Continuo a acreditar que se baixa o nível da televisão quando se argumenta que vamos dar ao povo aquilo que o povo quer. Isso é maltratar o povo, mesmo não sabendo que está a ser maltratado. Considero que se deve dar ao povo aquilo que o povo merece. E vou mais longe, dizendo que nós não temos o direito de saber o que o povo quer. Eu dou sempre o seguinte exemplo: a chamada ópera popular no Coliseu metia lá cinco mil pessoas e o Teatro de São Carlos metia 800. E era a mesma ópera para uns e para outros. Então... o povo também quer ópera...

Mas as privadas também têm programas de qualidade...

Naturalmente. Não há nenhuma dicotomia do tipo as privadas fazem má televisão e a estação pública faz boa televisão. Recuso essa ideia liminarmente. Quando vejo um programa muito bem feito, que desperta a minha curiosidade, que me dá prazer, que me faz sorrir de forma inteligente, que me transmite conhecimento, que me faz despertar qualquer coisa que tem que ver com o outro... isso é serviço público. E isso acontece-me diariamente nos canais comerciais. A RTP tem é de ir ainda mais longe, porque tem de dar cobertura às minorias, aos valores nacionais, às questões institucionais... coisas que as privadas não estão obrigadas.

Começou a trabalhar na programação infantil e juvenil. A TV portuguesa oferece bons formatos para este target?

Tenho acompanhado menos, mas penso que faz parte do serviço público oferecer bons programas infantis e juvenis. É a grande semente...

Mas já não há grandes programas para essas idades como havia nos anos 80 e que o Júlio apresentou...

Não... e tenho pena de que isso não aconteça. Mas tenho a certeza absoluta de que os responsáveis quereriam mais. Mais tempo, mais exposição, mais dinheiro.

Mas é caro...

Fazer televisão é caro. E sendo uma indústria cara o que é mais fascinante é ser-se criativo em vários pontos de vista, não é ser-se só criativo naquilo que se inventa. Tem de se ser criativo na forma como se executa aquilo que se inventa. E nisso sou um verdadeiro criativo, porque aprendi a fazer televisão num vão de escada. Ainda hoje sou capaz de fazer programas de televisão com budgets baixos. Então nesta altura o desafio é cada vez maior e é algo que está a acontecer na direção de Programas. O facto de se baixar o valor não implica que se baixe a qualidade. Têm de se encontrar novos caminhos.

Consegue dizer qual foi o seu programa mais marcante?

Daqueles que fiz as pessoas referem sempre O Passeio dos Alegres e fico muito satisfeito. Passado estes anos todos - fiz o Passeio dos Alegres simultaneamente com um programa de rádio chamado Febre de Sábado de Manhã - posso dizer com orgulho... com muito orgulho, que o que fiz até hoje na rádio e na televisão é irrepetível. Criei um conceito que ainda hoje tem muitos resquícios em muitas coisas que vemos por aí. Eram programas longos, de entretenimento, em que acontecia tudo e também muita cultura. Esses dois programas foram uma grande oportunidade para desenvolver muita criatividade por parte dos jovens e dar um salto enorme na música que se fazia em Portugal. E num período em que as questões políticas estavam muito marcadas. Ainda havia muito PREC à flor da pele. Foi um grande desafio. Mas recordo outra coisa... Eu meti no Estádio de Alvalade 50 mil jovens para me irem "ouver". Não foram ouvir nem ver. Foram "ouver" um programa de rádio com três horas de duração. Também enchi o Estádio do Restelo e o Estádio do Bessa com O Passeio dos Alegres... Já tenho tudo feito... Portanto, teoricamente, O Passeio dos Alegres foi o mais marcante. Mas às vezes, artisticamente, há outras coisas que nos dão muito gozo. E devo dizer que dos programas mais marcantes da minha história e, passe a imodéstia, da história da RTP, foi um programa chamado A Outra Face da Lua, porque aquilo passou por mim desde a minha conceção cenográfica até ao clima que se gerava. No fundo era um talk show, mas um talk show muito suigeneris, em que toda a música que ali passava era ao vivo, não havia playback nem vender o disquinho da véspera. A conversa com os convidados era de um intimismo muito bom, era ilustrado apenas com uma ou outra fotografia, eu abria sempre o programa a falar de qualquer coisa relacionada com a Lua... O Outra Face da Lua foi o meu programa de carinho.

Como era a sua vida no tempo d'O Passeio dos Alegres?

Trabalhava sete dias por semana. Nessa época fazia todos os dias um programa de rádio que durava três horas, das 10.00 às 13.00, que se chamava Grafonola Ideal, escrito e produzido por mim. Ao sábado fazia também na rádio o Febre de Sábado de Manhã, das 10.00 às 13.00. E ao domingo O Passeio dos Alegres, com quatro horas... e mais tarde subiu para cinco. Eu vivia sozinho e passava os dias e as noites a trabalhar. Não pensava em mais nada. Mas não estou nada arrependido. Nunca fui uma vedeta. Sou um operário deste ofício. Não sou um artista, sou um artífice. Nem nunca dimensionei o poder que tive. Todos os artistas plásticos do país foram ao programa, bem como os cantores líricos, os maiores escritores, como José Cardoso Pires, os grandes cineastas.

Por que razão esse tipo de pessoas já não vai a um programa de grande entretenimento?

Passe a imodéstia, porque confiavam em mim e sabiam que eu tinha lido livros. Sabiam que eu respeitava a cultura. Não fazia conversas estéreis.

E também será porque os programas sucedâneos desse já não têm o mesmo prestígio?

Tenho a certeza de que se hoje fizesse um programa desses, as pessoas quereriam ir. São outros tempos, a verdade também é essa. Mas enclausurar as pessoas nos programas culturais é reduzir-lhes o campo de ação e de divulgação. E ali havia de tudo. Também havia momentos de humor, com a Ana Bola e a Maria Vieira. Eu passava a semana a inventar coisas... Devo dizer que tenho dossiês em casa com coisas que ainda não fiz. E nem que dure até à idade de Manoel de Oliveira alguma vez terei tempo de fazer.

Também ficou conhecido por lançar vários músicos ao longo da vida. De qual deles se orgulha mais?

Do António Variações. Esse foi de raiz, porque alguns já tinham obra e eu só os ajudei a divulgar. Noutros casos fui procurar. No caso do Fernando Pereira fui a um bar chamado Berro, onde ele atuava. Com António Variações foi diferente. Ele gravou uma cassete de propósito para mim, que infelizmente não sei onde está, mas que ainda hei de descobrir.

Conte-me esse episódio. Sentiu de imediato o valor de António Variações?

Logo. Foi um clique. Eu recebi a cassete a uma segunda-feira. Ele foi entregar-ma a um restaurante. Estava muito extravagante, naquele seu estilo, vestido com um gibão entre o medieval e o alentejano de fazenda grossa. E levava um cajado na mão. Nessa mesma noite liguei-lhe para ele ir ao programa do domingo seguinte.

Se bem me recordo, nunca teve cantores chamados pimba nos seus programas. O que acha de os programas de day time terem esse tipo de música?

Acho que todos os cantores têm direito à vida e às suas escolhas. Mas naquela altura sentia que esses cantores não estavam desprotegidos, como não estão agora porque têm sempre mais tempo de antena. A opção que fiz não era de segregação, mas mostrar outros. Foi apenas isso.

Em toda a sua carreira houve alguma coisa que se tenha arrependido de ter feito?

Em termos de programas não... Fiz alguns programas menos compreendidos... e que hoje em dia ouço gente nova da televisão a elogiar tremendamente, como um talk show que fiz e que se chamava Arroz-Doce. O nome era muito provocatório, se bem que anos depois apareceu um que se chamava A Revolta dos Pastéis de Nata. O grave na minha vida, quando muito, foi ter tido razão antes do tempo... muitas vezes... muitas vezes. Eu tinha uma rubrica n'O Passeio dos Alegres que se chamava Papel Químico. E o que era? Nada mais nada menos do que convidar rapaziada para se mascarar o mais parecido possível com vedetas da música e ir lá cantar para ser analisado por um júri. Isto não lhe diz nada?

Chuva de Estrelas...

Pois... E eu fiz isso anos e anos antes do Chuva de Estrelas. Poderia dar-lhe muitos mais exemplos além deste.

Podia estar milionário...

Evidente. Se fôssemos pensar em direitos de autor, poderia estar milionário e a dar esta entrevista num iate meu ali no Tejo.

Pensa que a sua larga experiência é bem aproveitada pela RTP?

[Longa pausa, enquanto enche o copo de refrigerante] Gostava de que fosse mais... gostava de que fosse mais... Tenho dado aulas. Dei aulas na UAL [Universidade Autónoma de Lisboa] e na Lusófona, de apresentação de televisão e de rádio. Deu-me muito gozo. Acho que teve bastante sucesso, a avaliar pelos comentários que as pessoas e alunos fizeram. Eu sou o único português com o master grade [equivalente ao mestrado] de Produção e Realização de Televisão da UCLA, University California Los Angeles, onde saí com o valor máximo, com 100%. Só havia nove alunos, oito norte-americanos e aqui o portuga. E foi o português que ficou em primeiro lugar. Acho que estou com idade para poder dizer estas coisas. Também fui diretor criativo da Disney para a Europa. Levei o conceito do Clube Amigos Disney à Grécia, curiosamente. Quando lá cheguei, havia uma manifestação com gás lacrimogéneo. Já era uma tradição...Tenho uma entrevista exclusiva com o senhor Roy Disney. Fui o primeiro português a fazer uma transmissão da ONU, quando pela primeira vez um presidente da República lá discursou. Estive na Sala Oval a recolher um depoimento do presidente dos EUA. Aliás, ia sendo detido nos jardins da Casa Branca, porque andava lá de um lado para o outro a ver os esquilos e aparecem seis tipos do FBI ou da CIA, não sei, a perguntarem o que andava ali a fazer... Tenho realmente no meu currículo momentos fascinantes.

E pensa, portanto, que a RTP devia usar esse ativo.

Haverá proximamente oportunidade para que isso aconteça, porque poderei dar workshops nesse sentido. E sei que sou muito respeitado na direção de Programas, concretamente pelo Hugo Andrade.

Não sente que os veteranos, e Eládio Clímaco é outro exemplo, são "atirados" para a RTP Memória?

Não penso isso. É para mim uma honra estar na RTP Memória. Hoje em dia já não me bato pela ideia que têm de ser muitos a ver-me. O meu programa Inesquecível, que passa duas vezes por semana, poderia passar em qualquer generalista, mas estou ali muitíssimo bem. E já foi o programa mais visto do dia no canal e é habitualmente dos mais vistos. A RTP Memória não é o depósito geral de adidos. Pelo contrário, a RTP Memória tem a função de chamar gente nova para ir lá ver que antes desta televisão houve outra. Isso é um papel fundamental.

Por falar em jovens... os profissionais mais novos da RTP pedem-lhe conselhos? Falam consigo sobre o trabalho?

Não... mas tenho a certeza de que não é por atitude, é pelo ritmo de vida. Sou muito bem tratado pelos mais novos. Já fui duas ou três vezes ao 5 para a Meia-Noite e um deles fez a melhor audiência daquela temporada. E a Sílvia [Alberto], que já fez comigo três programas sobre o 25 de Abril - grandes galas que escrevi e produzi sobre a revolução - é uma parceira extraordinária.

E sente que eles bebem da sua experiência?

Eu acho que sim. Até porque o que eu sou devo-o também aos mais velhos com quem trabalhei. Ficava a ver o Artur Agostinho a trabalhar, o Fernando Pessa... Devo dizer que ainda há dias a Sílvia [Alberto] veio ter comigo, em frente ao Hugo Andrade, e disse que me viu em casa no Natal dos Hospitais e que eu tinha dito aquilo que ela gostava de dizer, que tinha falado de felicidade e da solidão. Ela é uma pessoa excecional, quer do ponto vista pessoal quer profissional.

Numa época em que as novas tecnologias são cada vez mais importantes, e o Júlio passou por todas as mudanças tecnológicas desde os anos 60, a forma de fazer televisão também tem de mudar?

A minha grande preocupação é assistir ao definhar da televisão convencional, mas acho que vai acontecer... No entanto, há formas de alterar esta situação. A televisão no sentido de nos sentarmos no sofá e esperar que nos deem alguma coisa para ver está em vias de extinção. Mas com todas as novas plataformas há forma de sincronizar ou estabelecer sinergias entre tudo.

O que já está a acontecer.

Exato. Estar a fazer um programa de televisão e comunicar através do Facebook e meter o vídeo no YouTube. E promover os programas nas redes sociais antes de eles acontecerem. Se isto for bem feito, a televisão generalista pode ter uma vida mais prolongada até ao dia em que as pessoas fiquem dependentes de uns óculos com televisão.

Foi para a TVI em 1993, ano em que o canal arrancou. Como foi passar para uma estação privada?

Não posso dizer que tenha sido uma boa experiência. O diretor de Programas era o José Nuno Martins, um grande amigo meu e uma pessoa por quem tenho enorme admiração. Foi ele quem me convidou e, depois, também acabou por sair. Havia dentro da TVI um pecado original.

Pertencer à Igreja Católica? Não deixa de ser irónico...

Sim. Como se fazia uma estação de televisão, que não era TVI de Televisão Independente, mas TVI de Televisão da Igreja? E digo isto com todo o à-vontade porque sou cristão. Mas havia questões difíceis de ultrapassar, como questões sobre a moral instituída... E, independentemente disso, havia um grupo de profissionais excelentes, com história de televisão, e um outro grupo de estudiosos de televisão, de marketing e de estudos de audiências, que tinha uma intervenção muito desastrada. E esses tinham uma influência dominadora. Eles tinham cursos dessas coisas, mas não percebiam nada de televisão.

Arrependeu-se de ter ido para a TVI?

Não, nessa altura reentrei na televisão. Foi uma experiência.

Para uma geração que tem agora entre 35 e 40 e poucos, um dos seus programas mais marcantes foi o Clube Amigos Disney, do que falou há pouco. O que recorda desses tempos?

A paixão que tive por esse programa prendia-se com a paixão que tinha desde pequeno pela estética da Disney. Eu ia à Biblioteca Americana, quando saía do Liceu Camões, com uns 10 anos, ler os livrinhos da Disney que lá estavam. Levava-os para casa, pegava em papel vegetal, copiava o Mickey, o Pato Donald... e depois passava para contraplacado, pintava e dava a amigos meus quando faziam anos. Por isso, quando me convidaram para fazer o programa da Disney, recuei esses anos todos... A minha cabeça exaltou-se e inventei para ali tudo o que me veio à cabeça. E depois surge um momento histórico, a oportunidade de levar 150 crianças ao Walt Disney World, em Orlando, nos EUA . Foi das coisas mais maravilhosas... Eu olhei para aqueles meninos e vi-me na idade deles. "Olha se eu tinha vindo aqui com 10 anos", pensei. Foi fantástico olhar para os olhos deles e perceber a sua capacidade de sonhar. Depois disso já me cruzei com uns dois ou três, mas gostava de me reencontrar com muitos deles. Depois tive outro momento em que fui convidado pelo CEO da Disney, o Michael Eisner, para ir a Paris apresentar o conceito do Clube Amigos Disney. Levei uma cassete com 15 minutos e disseram-me logo que ele não ia ver porque nunca via nada com mais do que sete ou oito minutos. Quando entrei na suite, estavam todos, à americana, sem casaco com os pés em cima dos sofás e das mesas. E eu engravatadinho, como ando muitas vezes... A primeira coisa que o Michael Eisner, o homem mais bem pago do mundo daquela altura, faz é vestir o casaco... Lá meti a cassete e fui explicando, em inglês, o que eles estavam a ver. Fui vendo os minutos passar... E quando aquilo acabou ele disse esta frase: "Bem... em Portugal temos um Júlio Isidro. Agora queremos ter um em França, um em Inglaterra, um em Espanha, um na Holanda..." Depois só lhe pedi que lesse o relatório. Esses foram os dois momentos que mais me marcaram com o Clube Amigo Disney, um programa que contribuiu para a felicidade de muita gente.

O que vê hoje na televisão?

Vejo os noticiários e as reportagens que dão a seguir, de todos os canais. Há trabalhos jornalísticos muito bons, até do ponto de vista estético. Tenho um sentido utilitário da televisão e até há pouco tempo deixei-me envolver demasiado nas mesas-redondas e quadradas de comentadores da crise. Mas agora entrei em greve geral e não os quero ver nem ouvir. O que faz falta na televisão não é uns senhores falarem uns com os outros, é uns senhores falarem connosco.

E no cabo?

Isso é outra coisa... Vejo séries. Acho Uma Família Muito Moderna absolutamente genial. Vejo o Ossos, Casos Arquivados. Adoro a nova linguagem estética, quase de palavras soltas, é extraordinário.

E há outras coisas que gostaria de fazer?

Há duas coisas fora da televisão que gostava de fazer ainda. Uma era meter a voz num destes filmes de desenhos animados, e acho que podia fazer porque tenho grande capacidade interpretativa ao nível da voz. Outra era fazer um papelzinho no cinema, nem que seja só para entregar uma carta. Em televisão o que gostava era de ter um programa para revelar gente da música, mas de forma diferente do que já se fez. Eu sei qual era a maneira, porque está escrita. Se um dia me derem tempo de antena, o pessoal que anda aí à procura de um espaço para mostrar a enorme qualidade que tem vai poder mostrar o que vale. Fico à espera dessa oportunidade. E gostava de fazer um programa como o da Reconstrução Total, até porque sou bricoleur. Mas esse é muito caro, cada episódio custa um milhão de dólares nos EUA. Se um dia fizesse esse programa, depois já poderia retirar-me. Aquilo tem tudo o que tem que ver comigo. Há a ideia da televisão conseguir surpreender, de ser uma prenda... Tem a questão humanitária e a questão exemplar. Não perco um.

O que nunca faria?

Nunca faria um reality show. Porque se há mentira é o nome do próprio formato, de reality não tem nada. É a exaltação da mediocridade, da iliteracia, da imoralidade, da inveja, da agressividade, da concorrência desleal, da indigência... Não é para mim um valor televisivo.

Como lidou com o sucesso ao longo do tempo?

De uma forma completamente inconsciente. Nunca percebi o poder que tive. Sempre fui modesto nessas coisas e tímido em relação a isso. Sempre negociei mal, nunca me dei ar de vedeta, nunca me fiz de difícil. Se calhar devia ter pensado um bocadinho melhor nos meus interesses, teria sido melhor. Nunca me atribuí tempo para pensar num contrato. Nunca me preocupei com o encontro com o senhor que era importante para alguma coisa. Nunca fui à festa em que me dava jeito apertar a mão a determinada pessoa.

Como o interpelam na rua?

Com muito carinho, por todo o lado e todos os dias. Os quarentões dizem que cresceram comigo e as pessoas mais velhas dizem que envelheceram comigo. E muitas pessoas dizem que tenho uma relação muito elegante com todos, seja no ar seja fora do ar. E isso quero continuar a manter. É um princípio de vida. Trato sempre os outros muito bem.

É um gentleman.

Não me fica bem dizer isso, mas normalmente as pessoas dizem-me que estão na presença de um senhor.

Continua a receber cartas de fãs?

Fui um solteirão convicto até determinada altura e tinha como filosofia de vida viver sempre sozinho, com amizades coloridas. E há 21 anos comecei a trabalhar com uma menina, que entrou para substituir a minha secretária que estava doente. Depois ficou na empresa e a seguir transformou-se em produtora. Trabalhávamos muito juntos e um dia pedi-a em casamento. E casámos. Mas também posso dizer que sinto o carinho e a simpatia de muitas mulheres, que devem gostar do meu estilo, de ser uma pessoa polida e de ter algum charme. Gosto de fazer sedução.

Que lugar tem a família na sua vida?

A família está absolutamente em primeiro lugar. Não tinha esse projeto de vida, o meu projeto de vida era o trabalho. A viragem deu-se há 15 anos, quando pedi a minha mulher em casamento.

É um homem apaixonado?

Absolutamente. Mas de amor duradouro esta foi a primeira experiência.

Outra paixão sua é o aeromodelismo. É uma fuga da televisão?

É... É uma fuga em relação a tudo. E é a prova provada de que as mãos não servem só para usar as cabeças dos dedos. E o aeromodelismo dá-me um exemplo: ponho um avião no ar e, se tiver sido mal preparado em terra... cai. O meu lema é: preparar-me muito bem em terra para os voos que vou fazendo. E já reconstruí, tal como os aviões, inúmeras vezes a minha vida.

Que outros prazeres tem na vida?

Sou completamente viciado em cinema e não o vejo em televisão. Eu gosto de ir para a sala às escuras. Quero ir ver Os Miseráveis agora. Mas também gosto muito de teatro, de ler biografias. E gosto de viajar... gosto muito de Londres e de Paris. E Nova Iorque também me deixa fascinado.

E em Portugal?

Gosto mais do campo do que da praia, mas em relação a cidades gosto de Lisboa e do Porto. E também de Évora e Viseu.

Com que imagem gostaria de ficar na história da televisão?

Já a tenho. Calculo que quando morrer terei um minuto no Telejornal.

Tem medo da morte?

Não... mas o momento da morte de qualquer pessoa não deve ser agradável. Temos todos esse encontro marcado, mas quero chegar o mais atrasado possível.

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