José Gomes Ferreira: uma vida guardada num monte de faturas

Aluno "mediano" a Matemática, rapaz brincalhão, colega e chefe acessível. À NTV, amigos e profissionais revelam quem é o homem que tem ajudado o país a perceber a crise e a saber mais sobre economia.

Vale da Lage, freguesia da Serra, concelho de Tomar. O sol já nasceu e José tem à sua espera mais um dia de escola pela frente e também uma dura caminhada. Ali, naquela aldeia onde nasceu a 17 de setembro de 1964, quase tudo falta. Não há ainda luz, água canalizada nem muitos transportes. "Quando ia para a escola primária e secundária tinha de andar uns oito quilómetros a pé até lá chegar. Lembro-me, ainda hoje, de uma vez em que eu estava numa aula de Educação Física que terminava às 18.50 mas o único autocarro que me levava de volta à minha aldeia arrancava às 19.00. Perdi-o e acabei por ter de voltar para casa a pé. Tive de andar 16 quilómetros a pé, choveu três vezes nessa noite", recorda à Notícias TV José Gomes Ferreira.

Na sala de aula, cresce e cumpre os deveres de aluno sem obter notas brilhantes. Longe de imaginar que um dia seria ele quem ajudaria Portugal a saber mais sobre economia, José Gomes Ferreira - que trabalha desde 1992 na SIC como jornalista especialista em economia e onde também desempenha funções como subdiretor de informação - nunca foi um ás em números. "Eu era um aluno mediano a Matemática. Até tinha dificuldades para perceber equações (risos)", descreve o responsável da estação de Carnaxide.

A sua infância seria dividida entre os estudos e os dias de trabalho árduo no campo. "Tive uns pais que me deram condições para crescer e nunca me faltou nada. Eles são uns heróis. Mas ali, naquela aldeia, quem tinha mais de 11 anos também ajudava e trabalhava nas horas vagas. Fazia todas as tarefas. É por isso que hoje digo que estou vacinado contra qualquer crise. Já vivi tempos difíceis."

Tinha 14 anos quando viu pela primeira vez um programa de televisão. Só em 1978 é instalada eletricidade em Vale da Lage e é nesse ano que os seus pais compram um televisor. Porém, e desde tenra idade, José Gomes Ferreira faz dos livros os seus melhores amigos: "Tinha 13 anos e costumava pedir aos meus amigos que me trouxessem livros da biblioteca de Tomar. Lia, naquela altura, clássicos nacionais e internacionais como a obra de Dostoievski. Gostava de ler e por isso ainda tive presente o sonho de ser escritor. Mas sempre quis ser jornalista, gostava de comunicar."

O gosto pelos estudos levam-no a mudar-se, em 1982, sozinho para Lisboa. É na capital que frequenta o curso de Comunicação Social, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa.

Fernando Peixeiro, jornalista da Lusa e ex-colega de carteira nos tempos de faculdade, descreve José Gomes Ferreira como um aluno "inteligente". "Ele não tinha muito dinheiro para comprar livros e faltava às aulas porque tinha de ir trabalhar. Mas via-se claramente que era uma pessoa inteligente porque conseguiu passar todos os anos e tinha boas notas", conta à Notícias TV.

O jornalista era, aliás, muito popular entre o sexo feminino, conta ainda o amigo Fernando Peixeiro, hoje delegado da agência na Guiné. "Não posso dizer que era namoradeiro. Mas ele era um rapaz muito bonito e acabava por captar as atenções por parte das raparigas, era requisitado (risos)." Em Mirandela, onde trabalhariam juntos num jornal regional, Fernando conheceu o lado mais divertido de José Gomes Ferreira: "Morámos numa casa que ficava a 500 metros da estação de comboios de Mirandela. Um dia, convidámos um grupo de amigos a visitarem-nos, mas quando eles chegaram o Zé teve a ideia de os enganar. Não dissemos onde era a casa e fizemo-los andar quilómetros e quilómetros (risos). Ele sempre foi uma pessoa divertida, mas muito responsável", recorda.

António Pinto Rodrigues, jornalista da TSF e também ex-colega de faculdade, enaltece a aptidão de José Gomes Ferreira para a escrita. "Ele escreve como ninguém! Aos 13 anos já tinha lido todos os livros da biblioteca de Tomar. Lembro-me de que, quando fizemos testes para sermos admitidos para a TSF, o José foi o único dos concorrentes que soube identificar quem era Agostinho da Silva. Ele já tinha lido vários livros daquele pensador."

Foi ainda na faculdade que o jornalista da SIC decidiu que o seu percurso profissional iria cruzar-se com os números. "Ainda estudante, percebi que quando se fazia jornalismo baseado em opiniões isso era algo muito escorregadio e sempre me fez muita confusão. Para mim os números são rochas", conta.

Colega "disponível" mas teimoso

Decidido a vingar no mercado da comunicação social, José Gomes Ferreira cruza várias etapas: em 1988 funda a revista Classe - primeira revista mensal de economia; em 1988 integra a equipa da TSF, onde fica até 1989. Nesse ano é convidado a assumir funções como jornalista e subeditor de economia do jornal Público, onde permanece até 1992. A convite de Emídio Rangel, que conhece durante a cobertura de uma conferência, começa a trabalhar na SIC.

Alcides Vieira, atual diretor de Informação da estação de Carnaxide, não hesita em aplaudir o desempenho do profissional da SIC. "Ele sabe muito de economia e sobretudo sabe como deve descodificar mensagens mais complicadas. Ele não tem medo das palavras e tem uma comunicação envolvente", elogia. E atreve-se, revelando um defeito de José Gomes Ferreira: "Quando acha que tem razão, é difícil demovê-lo. Mas não é uma pessoa intolerante."

Clara de Sousa, pivô do Jornal da Noite, elogia a simpatia do subdiretor de Informação da SIC. "É uma pessoa de trato fácil, bom colega, disponível, conhecedor, estudioso, organizado q.b. - e uma voz/opinião que pessoalmente gosto muito de ouvir e em quem confio."

Colecionador de faturas fiscais

Casado e pai de duas raparigas gémeas, José Gomes Ferreira não esconde que é um whorkaolic, mas lamenta não ter mais tempo para a família. "Tenho sido um pai ausente. Toda a estrutura informativa da SIC está a meu cargo e isso implica muitas responsabilidades."

À Notícias TV aceita revelar aquele que é um dos seus maiores vícios. "Tenho o hábito de guardar todas as faturas fiscais. Se me perguntar onde bebi café em 1988, eu sei dizê-lo. Guardo todas as faturas e até extratos bancários por precaução. Sou jornalista e sei que aquilo que digo em televisão e os comentários que faço sobre questões económicas tocam em muitos interesses."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Estou a torcer por Rio apesar do teimoso Rui

Meu Deus, eu, de esquerda, e só me faltava esta: sofrer pelo PSD... É um problema que se agrava. Antigamente confrontava-me com a fria ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, e agora vejo a clarividente e humana comentadora Manuela Ferreira Leite... Pacheco Pereira, um herói na cruzada anti-Sócrates, a voz mais clarividente sobre a tragédia da troika passista... tornou-se uma bússola! Quanto não desejei que Rangel tivesse ganho a Passos naquele congresso trágico para o país?!... Pudesse eu escolher para líder a seguir a Rio, apostava tudo em Moreira da Silva ou José Eduardo Martins... O PSD tomou conta dos meus pesadelos! Precisarei de ajuda...?

Premium

arménios na síria

Escapar à Síria para voltar à Arménia de onde os avós fugiram

Em 1915, no Império Otomano, tiveram início os acontecimentos que ficariam conhecidos como o genocídio arménio. Ainda hoje as duas nações continuam de costas voltadas, em grande parte porque a Turquia não reconhece que tenha havido uma matança sistemática. Muitas famílias procuraram então refúgio na Síria. Agora, devido à guerra civil que começou em 2011, os netos daqueles que fugiram voltam a deixar tudo para trás.