Cláudia Semedo: "A vida é um fósforo. Num dia somos os maiores e no outro já não"

Há 17 anos, começou o seu percurso no teatro para "experimentar outras vidas". E experimentou mesmo. Atriz, apresentadora, radialista, Cláudia Semedo prepara-se para arrancar com um novo projeto, de culinária.

Já passaram 16 anos desde que o Rato Micro animava a Rádio Renascença...

Está-me a fazer sentir velha [risos]. Na altura, soube do casting que estavam a fazer através de uma amiga da minha irmã mais velha, que trabalhava na Renascença. Lembrou-se de que eu era muito latosa e comunicativa e então chamaram-me para um programa, a Rádio da Malta. Era feito com muitas crianças e eu era o Rato Micro, responsável pela parte enciclopédica do programa. Foram dois anos muito bons.

O Rato Micro tinha a função de explicar "palavras difíceis" às crianças. Qual a palavra que melhor descreve a sua carreira?

Trocaria carreira por percurso, porque acho que carreira tem o Nicolau Breyner. Tenho um percurso que vou fazendo com muita sorte, porque esta é uma profissão muito sazonal e, felizmente, eu não tenho sentido isso. Tem sido tudo contínuo e sempre com desafios muito interessantes. Adoro comunicar, representar e então consigo gerir a minha vida nessas vertentes, a apresentar programas, fazer peças de teatro, séries, televisão... Então, penso que a palavra seria mesmo "incansável".

A Cláudia ou o percurso?

[Risos]. Uma Cláudia incansável porque é uma área em que, apesar de ser vista como entretenimento, dá muito trabalho. Dá trabalho mantermo-nos atualizados e para se ser ator e comunicar tem de se estar atual, é também por isso que faço questão de não parar de estudar e o que me fez estudar, mais tarde, Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Por isso é que digo "incansável", porque todos os dias temos de nos reinventar.

Já foi apresentadora, atriz, radialista, já tirou Jornalismo. Quando lhe perguntam qual é a sua profissão, o que é que responde?

Dou uma resposta longa [risos]. Pensando em situações com amigos no estrangeiro, regra geral, digo que sou atriz e apresentadora. Mas enquanto definição daquilo que sou, não penso nisso. Sinto necessidade de tudo um pouco, é como num cozinhado, precisamos de todos os condimentos. E preciso dessa diversidade na minha vida. Há alturas em que me faz mesmo falta estar a apresentar um formato em que possa falar de temas que me preocupem e há alturas em que estou a sentir a necessidade de viver outra vida.

Para além do Nós, RTP, tem um projeto novo entre mãos. O que pode revelar?

Estou a preparar um programa para o canal 24 Kitchen, de culinária. Vou ser apresentadora e o programa vai fazer-nos andar de norte a sul do país. É um projeto no qual vou estar concentrada nos próximos dois meses, e vamos ter dois chefes reconhecidos connosco. Em relação ao Nós, continua a ser emitido, mas já o acabámos de gravar. Há muitas ideias para o que pode vir a ser o futuro do programa e estamos a amadurecer um novo formato, que em princípio começamos a gravar em julho. Mas é um projeto que se quer com alguma continuidade porque são temas que importam e fazem falta, até para desmistificar alguns preconceitos.

O Nós já a ajudou a desmistificar alguns preconceitos?

Sim. Felizmente, devido à formação que tive e pela diversidade da minha família, sou muito pouco dada a preconceitos. Sou uma pessoa muito curiosa por natureza e disponível para olhar para o outro e tentar pôr-me no lugar dele sem julgamentos. Mas é difícil porque a sociedade vai ensinando-nos coisas e passando conceitos muito fechados.

Para além de apresentadora, é também uma atriz sem preconceitos? Não tem reservas em relação a nada?

Não tenho reservas em relação a nada desde que as coisas sejam feitas com sentido e não sejam só exposição por exposição. Se for para chocar ou vender, opto por não aceitar o papel porque esse não é o meu posicionamento nem na arte nem em nada. Devo ser das poucas atrizes ou apresentadoras que não se importa com as audiências e felizmente até trabalho mais na RTP, que faz serviço público.

Mas sem audiências, não há programas.

Não sei se será bem assim, mas sim, infelizmente vivemos numa sociedade capitalista em que o lucro define tudo, muitas vezes até valores. E infelizmente temos de ter audiências para ter coisas no ar. Eu preocupo-me sempre em fazer um bom trabalho, agora se faz audiências ou não faz? É mesmo uma guerra que não me interessa.

Em ficção, já esteve em produções como Jura, Podia Acabar o Mundo, o Crime do Padre Amaro, Maternidade, mas nunca foi protagonista. É algo que a incomoda?

Estou a pensar nisso pela primeira vez [risos]. Não ponho as coisas assim. Ser protagonista em televisão não é nada... em primeiro lugar não é nada em que pense ou ambicione. Mais do que pensar em ser protagonista ou não, eu gosto de bons desafios. Então preocupo-me em saber se a minha personagem me traz algum desafio e se é interessante por si só, mais do que o impacto que ela terá em câmara ou da quantidade de vezes que aparece no ecrã.

Tem descendência africana e indiana. Alguma vez sentiu alguma discriminação em termos de papéis, na ficção?

Nunca senti diretamente discriminação. Obviamente, e fazendo eu parte de um país em que a regra é ser-se caucasiano, há uma limitação de papéis. Algo que em televisão, até acho natural. Por exemplo, eu não posso ter dois pais brancos e, de repente, ser mulata e não se falar sobre isso em televisão. Porque não responde à verosimilhança e ao que a televisão pede. Claro que sei que tenho um número de papéis mais limitados, mas nunca senti diretamente racismo. Em teatro, tenho pena que isso aconteça.

Sente que existe mais discriminação em teatro?

Não sinto, mas tenho pena que quando raramente abre uma audição para As Três Irmãs do [Anton] Tchecov, eu à partida não faça parte do perfil. E, em teatro, isso chateia-me um bocadinho mais. Porque o teatro é o sítio onde não temos de obedecer à realidade, é o sítio dos sonhos, do faz-de-conta, do brincar. E lá fora, em peças que vou ver a Londres, há atores negros e brancos a fazer papéis inversos sem problema nenhum. Porque o que conta é a história que nos estão a contar e quando está bem feita abstraímo-nos. Estamos, por exemplo, a olhar para um tapete e sabemos que não é um tapete voador e acho que aqui não devia haver nenhuma limitação de género.

Gostava que as estações apostassem numa maior diversidade nas suas produções?

Portugal é um caldeirão cultural e acho que mais tarde ou mais cedo a ficção nacional vai ter de se render a isso. No I Love It, acho que já há vários protagonistas de várias nacionalidades, o que é um primeiro passo. Eu cruzo-me todos os dias com chineses, ucranianos, indianos, brasileiros e era bom que tivessem representação na ficção nacional. Há uma não representação. Mas já se começa a ver algumas coisas a acontecer, Belmonte já tem, na Maternidade a Adriane Garcia participava. Até porque a emigração é uma realidade altamente portuguesa.

Como é que olha para a participação de atores em produções portuguesas?

Eu sou o tipo de pessoa que vê o mundo como um todo, não olho a fronteira nem portagens. Adoro o facto de a Daniela Ruah poder estar a fazer sucesso nos Estado Unidos, do Ricardo Pereira estar no Brasil, portanto só posso ficar contente quando vejo uma Graziella [Schmitt] a fazer sucesso em Portugal. Acho ótimo que haja esta miscigenação e se isso puder ser a realidade em todo o lado seria maravilhoso. Porque acho que esta coisa do "somos portugueses e aqueles são verdes e aqueles são amarelos"... Espero que um dia estejamos todos tão misturados que não haja cor.

Ainda jovem, resolveu apostar na área da representação. Como é que com 14 anos se diz: "Quero ir estudar teatro"?

Acho que sempre soube que queria ser atriz. Estava muito presente em mim, no facto de querer ser tudo: ser bailarina, pintora, cozinheira, psicóloga... e a única forma de experimentar tudo era através da representação. Aos 14 anos, prendeu-se com o facto de uma amiga da minha irmã mais velha ter ido para a escola de Teatro e eu pensei: "Uau, então posso estudar esta coisa que adoro?" E adoro representar e qualquer plataforma para mim é válida, seja o que for. Há uma certa tentativa quase de hierarquizar, como se o teatro ou a televisão fosse melhor, mas eu não tenho esse problema na minha cabeça. Para mim representação é representação e as várias plataformas servem para trabalhar mais umas coisas do que outras.

Com esta ânsia de querer ser toda a gente, nunca se esqueceu de ser a Cláudia, num mercado tão competitivo?

Nunca me esqueço de ser a Cláudia e estou bem consciente do quão carne e osso eu sou. Tive a sorte de ter nascido na família em que nasci, de termos todos os pés muito assentes na terra, mas a cabeça muito nas nuvens para sonhar. O ego é uma coisa que todos temos, mas está muito bem trabalhado. Não tenho porquê achar que sou mais. Já vi pessoas a fazerem atendimento ao público que se acham a última Coca-Cola do deserto ou pessoas num banco que te tratam com alguma sobranceria e acho que isso tem que ver com as pessoas, não com as profissões. Os egos pertencem às pessoas, ou o têm ou não.

"Não meço o meu sucesso pela hora a que apareço"

Na área da apresentação tem feito vários programas para a RTP, mas começou na SIC. O que levou à sua saída da estação?

Na altura, senti necessidade de sair porque senti que aquilo que estava a fazer não refletia o que queria fazer. O tipo de programa que estava a fazer [Contacto] não se coadunava com as preocupações que andavam na minha cabeça. Então saí, de forma muito concertada, com toda a civilidade do mundo e com as portas abertas para voltar.

Desde aí tem apostado num tipo diferente de programas, mais voltados para preocupações sociais.

Na altura era mais miúda e estava na altura da minha veia reivindicativa e o caminho que tomei foi muito nesse sentido, de falar de minorias, preocupação ambiental....

De onde é que vem essa paixão por estes temas?

Vem de uma consciência, desde muito nova, de que o sistema social em que vivemos é muito desigual. E tenho visto muitas situações de injustiça, desigualdade e pobreza que não fazem sentido. E sempre achei que devia fazer, pelo menos, barulho. Mas só tenho dois braços e só alcançam um metro. E sempre tive esta necessidade... Até porque a vida é um fósforo, num momento somos os maiores e no outro já não. Um dia temos carreiras promissoras e no minuto seguinte estamos na fila para receber comida, pedir um banho ou dormir num abrigo.

Tem apresentado muitos programas pontuais, mas não está, em permanência, na TV. É algo que pode prejudicar a sua carreira?

Acho que não me prejudica em nada, até firma muito aquela que é a minha identidade e aproxima-me mais dos projetos que fazem sentido. É engraçado que as pessoas medem muito o teu sucesso pela hora a que apareces ou quantas vezes apareces. Eu não meço o meu sucesso por isso. Agora, se me perguntarem: "Sentes que perdeste a oportunidade de fazer imensa publicidade e ganhar imenso dinheiro por não estar aí?" Claro, mas é esse o meu objetivo? Não.

Tem passado de forma discreta entre as luzes da ribalta. Não dispensa a sua privacidade?

Não tenho essa ânsia de aparecer, não tem nada que ver comigo. Sou uma miúda muito caseira, dedicada à família e gosto de poder ter o meu recolhimento. Mas acredito que não deve ser fácil, quando se está muito exposta, proteger as pessoas mais próximas.

Nunca sentiu essa invasão da privacidade?

Acho que se tivesse de gerir paparazzi, essas coisas, não ia lidar nada bem, mas acho que a imprensa respeita muito e percebe, pelo menos comigo. Também não tenho uma vida muito escandalosa [risos]. Se calhar também é por isso. Acho que se nos posicionarmos, a imprensa posiciona-se.

É mãe de uma menina, Alice, de 15 meses, fruto da sua relação com João Ribeiro. Ser mãe sempre foi um desejo seu?

Sempre quis ser mãe e quero ter mais filhos. Mas ser mãe é muito mais do que qualquer coisa que se possa imaginar. É uma outra pessoa que está ao nosso lado e que nós estamos a conhecer e que tem as suas características, vontades e é um mundo a ser construído com uma grande responsabilidade da nossa parte que é educar e dar balizas. Tem tudo de maravilhoso que imaginei e muito mais e tem tudo de assustador que imaginei e muito mais, que é questionar a todo o tempo se aquela decisão é a mais correta para aquela pessoa poder crescer livre de preconceitos, disponível para a vida e feliz.

E em relação à sua infância, que memórias guarda?

Tenho duas irmãs e a infância foi passada na rua, com os joelhos esfolados, a apanhar amoras. Jogávamos à sirumba na estrada e éramos uma cambada enorme, uns 12 miúdos com quem continuo a manter o contacto, uma delas é madrinha da minha filhota.

A sua mãe nasceu em Goa e o pai na Guiné-Bissau. Como foi crescer com essa mescla de culturas em casa?

Foi ótimo, sempre tive muita diversidade, até numa coisa tão básica como a refeição, porque um dia era um prato africano, no outro indiano e a seguir um português, indiscriminadamente. Sempre achei que foi uma sorte ter nascido na minha família, porque entrei em contacto com muitas culturas e deu-me uma abertura para a vida.

Ler mais

Exclusivos