Anabela Teixeira: "Seria uma afronta fazer ficção com balúrdios de dinheiro"

A comemorar 20 anos de carreira, a protagonista de Os Nossos Dias fala sobre o seu percurso no pequeno ecrã, nos palcos e nas telas de cinema. Com vontade de "continuar a ser desafiada", Anabela Teixeira diz-se uma mulher "feliz" e concretizada.

Depois de lutar contra o cancro de mama na novela Rosa Fogo, volta a sofrer em Os Nossos Dias com a doença da filha da sua personagem. Não é muito sofrimento de seguida?

Não, a Rosa Fogo já foi gravada há dois anos [risos].

Sim, mas para si em televisão é como se fosse de seguida, pois entretanto não teve outros projetos. E, neste momento, Rosa Fogo está a repetir na SIC.

É verdade, mas a minha primeira personagem em A Viúva do Enforcado também era muito sofrida. Tenho feito, ao longo destes 20 anos, sempre personagens dramáticas, sofridas.

Está talhada para este tipo de personagens?

Não sei. Alguns professores ao longo da minha vida têm-me dito que tenho uma veia cómica e que sou uma atriz de comédia extraordinária. Participei na série da SIC A Família Mata, que foi realmente muito interessante. A comédia é um lado meu que sei que tenho. Por exemplo, recebi recentemente um prémio [de Melhor Atriz Secundária] que é equivalente ao nosso Óscar, o Prémio Sophia, com uma personagem cómica. Realmente às vezes nós, atores, ficamos talhados, ou as pessoas acham que temos mais propensão ou facilidade para determinado tipo de cor.

Não gostava de explorar em televisão esta sua veia cómica?

Gostava. Depois deste seria um grande desafio.

Qual é o maior desafio ao dar vida à Marta?

É sobretudo a forma como ela encara o amor. O amor para ela é incondicional. O que ela está habituada a ter na vida é o amor pelas filhas. E sempre que ela tem um amor que é diferente, por um homem, há vários traumas ou problemas. Por isso é um grande desafio para mim representar uma mulher tão madura.

Volta a ser protagonista de uma novela, algo que já não fazia há alguns anos.

Sim, a última que fiz foi em Ajuste de Contas. Já há muitos anos. [risos]

Era um papel de que já tinha saudades?

É sempre bom ser protagonista sobretudo da nossa própria vida. Mas ser protagonista de uma história é bom, porque de repente aquela personagem tem uma casa, tem uma profissão, tem uma profundidade e um trabalho à volta dela, que eu como atriz passo a criar logo mais empatia, porque tenho muitas coisas para explorar, para descobrir.

Isso não acontece com as personagens secundárias?

Acontece, só que é diferente. Por exemplo a minha personagem de Rosa Fogo começou por ter um trabalho, depois ficou doente, então acabava por estar sempre em casa. Fica muito focado só num assunto. Embora um protagonista precise sempre de todos os atores secundários.

Mas é um papel que a desafia mais do que um secundário?

Não sei. Acabei de ganhar o nosso Óscar como atriz secundária. E o prémio foi-me entregue com esta frase: "Não há pequenos papéis, só pequenos atores." Concordo plenamente com isso. Aliás, nesse filme tinha uma cena. Ganhei um Óscar com uma cena!

As gravações de Os Nossos Dias terminaram em novembro. Gostava que a RTP apostasse numa nova temporada?

Obviamente que sim! A RTP está muito feliz. É um horário acertadíssimo, e tanto que isso se vê com as audiências que conseguiu conquistar naquele horário, que têm sido mesmo muito boas. E têm estado a aumentar. As pessoas estão a gostar cada vez mais de ver a novela.

A novela começou a ser gravada em abril, estreou-se em setembro, acabou de ser gravada em novembro e vai estar no ar durante quase todo o ano de 2014. Faz sentido uma novela que se pretende adequada à realidade gravar com tanta antecedência?

Esta é uma novela altamente contemporânea. Comecei a ler os guiões há nove meses e parece que foi ontem. O tempo passa a voar. E, portanto, daqui a nove meses, o tempo também vai passar a voar. Espero que muitas coisas mudem no nosso país, para melhor, mas a novela fala de muitos temas atuais, como a emigração, a dificuldade das pessoas de viver, mas também de valores intemporais, como a lealdade, o amor, a amizade, a coragem, a esperança. Quando comecei a ler a novela senti que nunca tinha visto uma em que me sentisse tão retratada por tantos motivos.

Mas acha que os nossos dias daqui a um ano serão os mesmos dias?

[risos] Obviamente que há coisas que mudam. Mas espero que se fizermos uma segunda temporada seja para dar outras notícias. E algumas que sejam muito alegres.

Os Nossos Dias foi apresentada como a novela low cost da RTP. O seu ordenado também é low cost?

[risos] Não falo do meu ordenado em público.

Mas houve uma diminuição por esta ser uma novela de baixo custo?

Em relação a esse tema de low cost, acho que Portugal e a zona euro neste momento estão low cost. E se nós acharmos que neste momento não estamos low cost é porque vivemos na Lua. A economia chinesa é a única que não está low cost, talvez a americana também. Seria até uma afronta fazer ficção com balúrdios de dinheiro com toda a gente a apertar o cinto e a quererem cortar em pensões de sobrevivência. Isso seria surreal.

Ganha-se bem a fazer televisão?

Quem é exclusivo consegue equilibrar a balança e quem o é há muitos anos acredito que possa dizer que ganha bem. Para um ator que faz cinema, teatro e televisão e nunca fui exclusivo, como eu, talvez não. O futuro é sempre incerto, mas isso é a vida que um ator escolhe.

É difícil a vida de um ator?

Acho que se não fosse difícil, se fazer arte não fosse difícil, os artistas não embarcavam nela. Acho que tem de haver um certo perigo. Às vezes perguntam-me se não fosse atriz o que queria ser. E eu digo astronauta ou paraquedista. Porque são profissões perigosas, difíceis, há uma certa loucura e é isto que sinto todos os dias quando vou gravar ou quando piso um palco.

Foi por isso que sempre se manteve nesta profissão?

Eu sou atriz desde que me lembro. Desde os seis anos que faço teatro na escola. Desde aí que tenho esta paixão e este amor. E algo de que gosto é estar sempre a estudar. O primeiro curso que fiz foi aos 18 anos e nunca mais parei.

É importante para um ator estar sempre a aprender mais?

Não sei se para um ator é, mas para mim é. Vejo o trabalho de ator como o trabalho de um músico ou de um bailarino. Se o bailarino deixa de trabalhar o seu corpo, já não dança.

Há muito a ideia de que um ator para "sobreviver" tem de fazer televisão. Concorda?

Em Portugal, sim. Lá fora, depende. Um ator que também faça teatro consegue sobreviver, se fizer teatro a vida toda, todos os meses. Se fizer parte de uma companhia, mas isso torna-se muito difícil, sobretudo com o Estado a subsidiar cada vez menos a cultura em Portugal.

Tem por hábito fazer novelas esporadicamente. Faz questão de que assim seja ou é por falta de convites?

Não. Normalmente é algo natural, mas de que tenho gostado. Às vezes surgem convites que não são assim tão aliciantes.

Se pudesse escolher preferia fazer teatro e cinema e deixava de lado a televisão?

Não. Não tenho um género preferido. Já fiz peças teatro de que me arrependi no fim. E digo-lhe que cada vez mais em teatro é preciso uma grande dedicação, uma grande entrega. São muitas horas e então o ideal é mesmo trabalhar com as pessoas que se quer. Com as pessoas que se ama. E nesse aspeto tenho tido muita sorte.

Para além de atriz é também a vice-presidente da Academia Portuguesa de Cinema. Como é que avalia o atual estado da cultura no nosso país?

Vejo como todos vemos. Precisamos de pôr uns óculos. Eu sou muito míope, mas preciso de pôr uns óculos maiores para a ver melhor. Porque se continuamos assim definhamos. E o ser humano sem cultura, sem sonhos, deixa de ser um ser humano. Precisamos de alimentar o espírito e a alma e de nos enriquecer interiormente. O que nos eleva e o que nos transforma é a arte, mas só mesmo a arte. E a arte é revolucionária. É através da arte que o ser humano se pode manifestar e é através dela que nos manifestaremos.

Está a celebrar 20 anos de carreira. Como olha para o seu percurso?

Com orgulho. Satisfação.

Foi exatamente aquele que queria?

Sim. Há coisas que às vezes penso que poderia ter feito de outra forma, mas depois acho que não vale a pena pensar nisso, porque as fiz. E se não as tivesse feito não estava neste momento onde estou agora. Estou muito bem, estou muito feliz.

E o que gostava de fazer a seguir?

Bem, já falámos na segunda temporada de Os Nossos Dias, que seria interessante. Gostava obviamente de continuar a fazer cinema, de fazer mais uma peça com o Nuno Carinhas, de fazer um filme com o Pedro Almodóvar em Espanha, em Portugal com o Vicente Alves do Ó outra vez, com o João Canijo, entre tantos outros.

Vive em união de facto com o músico Frederico Pereira há 13 anos. Ele compreende a instabilidade da sua profissão?

Claro, até porque ele é músico, uma profissão igualmente instável.

Mas é fácil para os dois terem uma vida tão instável?

Acho que sim, é assim que nos entendemos, que nos percebemos. Não consigo imaginar a minha vida sem o Fred. Ele é mesmo o amor da minha vida.

Já disse várias vezes que deseja ser mãe. A Marta, que tem duas filhas, veio despertar ainda mais essa vontade?

Se o meu relógio biológico já tocava, agora ainda toca mais. Mas com esta personagem estou sempre a lembrar-me da minha mãe, porque é, realmente, uma mãe exímia, maravilhosa, com um amor extraordinário. É um grande curso de como ser mãe

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