A voz que nos explica a natureza na TV há 25 anos

A voz de 'Vida Selvagem' (SIC), que terá produção nacional, recorda o início de carreira, a luta contra o sotaque e fala da paixão pelos 'bichos'.

Nuno Cardoso/Fotos Filipe Araújo / Global Imagens

Duas décadas e meia. Já lá vão 25 anos a falar sobre animais, plantas e afins. A paixão é a mesma. A voz, essa, é inconfundível. Eduardo Rêgo é o timbre que todos reconhecemos, mas a cara que poucos vimos. É ele o locutor de Vida Selvagem, o programa semanal que já teve a chancela da BBC, sobre animais, plantas e natureza, no geral, que começou a ser exibido na RTP e passou para a SIC no seu arranque, há 20 anos.

"Se é repetitivo fazer isto há tanto tempo? Nada disso! A paixão é a mesma todos os dias, porque encontro novidades em todos os programas. Fascino-me com estas coisas. E só assim é que pode funcionar para conseguir transmitir o mesmo sentimento aos outros", explica Eduardo Rêgo à NTV, no escritório da Traduvárius, empresa que traduz, legenda, edita e publica livros e vídeos e que dirige há já 12 anos, em Lisboa.

Com um discurso organizado e o sorriso constante, a voz-off de Vida Selvagem recorda como tudo começou. "Quando a televisão portuguesa começou a exibir programas de vida selvagem, havia todo um estilo de fazer locução, que eu achava chata, monocórdica. A locução deve ser vivida, sentida, com a vida. Com paixão, com envolvimento. No princípio, na RTP, era muito complicado. Eu queria ser assim mas as pessoas não me deixavam. Muito paulatinamente fui conseguindo. Na transição, quando apareceram os novos canais privados, fui convidado para ir para a SIC logo no início, há 20 anos. O diretor de programas da altura, Emídio Rangel, pura e simplesmente deixou-me ser assim. Toda essa minha postura acabou por fazer a diferença", relembra o locutor, que ainda trabalhou na Rádio Renascença depois de se ter formado em Teologia.

Minhoto de nascença, teve também de aprender a fintar o acentuado sotaque nortenho que tinha. "Sempre tive fascínio pela locução. Tinha uma grande dificuldade, a pronúncia marcada. Fui ouvindo todas as conversas no autocarro, no metro, no café e estudando as formas de falar. Depois, gravava todos os meus programas na Renascença e ouvia várias vezes a minha voz, para perceber as diferenças. Com esta pesquisa, fui treinando a dicção", explica.

Há 25 anos a trabalhar em locução e no ramo da natureza, Eduardo Rêgo, de 61 anos, explica que é no pormenor que está a fórmula para o sucesso. "Existe o guião original que a BBC ou o Discovery ou o National Geographic, etc., enviam. A SIC manda-me o vídeo na língua que for, alemão, francês, inglês, seja o que for. E manda também o guião. Nós na Traduvárius traduzimos o guião, legendamos e depois há toda uma preparação, uma linguagem própria, oralizada, própria de televisão. É isso que faz a diferença. Quando traduzo um texto à letra fica seco. Se o traduzo a pensar em ouvintes, dou-lhe o ritmo próprio da nossa linguagem. As palavras levam energia, uma carga própria, propriedade. É um trabalho de horas e horas e horas. Muitas vezes, mal pago (risos). Mas a nossa paixão é maior", explica a voz de Vida Selvagem, o formato das manhãs de domingo da estação de Carnaxide.

Programa aposta em produção nacional

A grande novidade de Vida Selvagem está na aposta na produção nacional. A decisão de fazer cinco episódios sobre a flora e fauna portuguesas, para serem exibidos ainda este ano, é do agrado de Eduardo Rêgo, que frisa que termos um país bonito. "Havia nos bastidores da SIC vontade de que algum dia isso pudesse acontecer. É ótimo, temos belezas infinitas no nosso país. Basta ir à Madeira e aos Açores, por exemplo, para perceber que existem lá dezenas e dezenas de investigadores a avaliar a nossa fauna e flora", diz o locutor.

Os cinco episódios que já foram gravados terão como destaque o painho-de-monteiro, uma ave marinha existente na ilha Graciosa, nos Açores; uma região subaquática perto de Lisboa; os animais e plantas que abundam na serra da Arrábida; o leito marinho nos Açores; ou a riqueza do fundo marinho junto à Costa de Caparica e até ao cabo Espichel.

Sobre o trabalho de locução, afirma que a maior parte das pessoas não tem noção da complexidade desta profissão e paixão. "Conhece o trabalho de um filigrana? Trabalhar o ouro e a prata? É isso. Com pormenor, muita minúcia. Isto é que faz a diferença entre uma boa tradução e uma tradução mais ou menos", frisa a voz de Vida Selvagem.

Sobre o estado da locução em Portugal, Rêgo explica: "Falta escola. Há vozes maravilhosas, bons timbres, gente que podia ser um pouco trabalhada. A escola pode começar nas rádios locais. Há quem queira logo saltar para rádios nacionais. Há que saber crescer com calma", acrescentou o diretor da Tradivárius que abriu há 12 anos. "Foi um risco abrir este negócio, mas minimamente calculado".

Eduardo foi a voz de 'Último a Sair' (RTP1)

No ano passado, Eduardo Rêgo saiu do seu registo ligado à natureza para ser o locutor de Último a Sair, o formato de humor de sucesso criado por Bruno Nogueira para a RTP1. Sobre a experiência, recorda bons tempos e algumas peripécias. "O Bruno Nogueira encarou aquele programa como uma espécie de Big Brother, ou uma sátira à moda dos reality shows em que andam ali uns quantos seres, para não lhes chamar outra coisa (risos). O Bruno achou por bem ter uma voz-off que fosse identificável, que estivesse muito por dentro desta coisa da bicharada", explica Rêgo soltando uma gargalhada.

"Aconteceram algumas peripécias engraçadas. Uma vez estava a tirar umas feriazinhas nos Açores e recebo um telefonema da produtora a dizer que tinham de alterar uma parte do texto de locução, que já estava todo feito. Criou-se ali um imbróglio e tentei saber se havia ali alguma delegação da RTP. Havia, mas não tinha grandes meios. Mas lá se conseguiu alguém que era produtor independente, com magros recursos. Fomos para um descampado. Eu estava a gravar o texto e só me lembro de que havia uma cabra a berrar. Tentámos que ela se calasse mas estava difícil. Lá conseguimos", ri-se o locutor.

Com uma das vozes mais reconhecidas em Portugal, Eduardo Rêgo frisa, contudo, que nem todos o associam ao programa da SIC quando o ouvem na rua. "Reconhecer está ao alcance de alguns. Eu só tenho aquele registo de voz dos programas quando vibro com as coisas. Nem sempre estou nesse registo. Vou a um restaurante e falo normalmente, com calma. Peço um arroz de tomate com "jaquinzinhos" e as pessoas não percebem (risos). Eu faço a distinção. Mas, claro, há pessoas que reconhecem", explica o locutor. E atira com orgulho: "Mas há uma situação comum. Dizem-me muito: 'A paixão que passei a sentir pela natureza foi de tal ordem que tirei o curso de Biologia... por causa de si'. É bom ouvir isto", diz Rêgo.

Mas engane-se quem pense que este apaixonado pela natureza tem animais em casa. "É um dilema. Tenho um amor e carinho pelos animais muito especial, mas o respeito pela natureza é mais forte. A natureza não deve ser condicionável."