"A TVI é popular e com muito orgulho"

A apresentadora Fátima Lopes, o jornalista Pedro Pinto e a atriz Maria João Bastos aceitaram o desafio da NTV para debater o passado, o presente e os desafios da estação onde trabalham. E o que ressalta é considerarem a TVI um canal que tem orgulho da portugalidade, sem vergonhas.

O que distingue a TVI hoje, 20 anos depois de ter sido lançada, dos outros canais generalistas, em cada uma das vossas áreas?

Maria João Bastos: Por acaso eu fiz a primeira novela da TVI, Todo o Tempo do Mundo, que deve ter sido há uns 15 anos... E acho que houve uma grande evolução desde esse tempo até agora. Sem dúvida nenhuma, a TVI hoje é a carne da ficção nacional, ainda que hoje haja outro canal que faça ficção, mas não tão nacional assim. Porque a nossa é ficção portuguesa em português, com autores portugueses, atores portugueses... Mesmo Dancin' Days é um remake de uma novela brasileira. A TVI tem feito uma aposta no talento nacional, a todos os níveis... é um trabalho que tem evoluído muito.

Fátima Lopes: O que eu noto no entretenimento da TVI é transmitir muito do que é o nosso cunho, do que é português. O que é mais distintivo por parte da TVI é haver orgulho da forma como somos, ou seja, em sermos portugueses. E não há qualquer conflito com o povo, com as massas que nos veem. É isso que faz a TVI estar onde está e ter esta história de sucesso. E os programas de entretenimento são o espelho disso mesmo. São programas que estão muito bem resolvidos consigo próprios. Não há qualquer conflito interior a nível de conteúdos entre o que apresentamos ao espectador e o que sente o apresentador ou de quem decide os temas. Nós somos assim. Não há qualquer tipo de vergonha.

Pedro Pinto: Somos transparentes.

FL: Isso, somos transparentes. Mas além de transparentes estamos de bem connosco, com a génese portuguesa, com a nossa cultura.

PP: E acreditamos nesse ADN

FL: Exatamente. E o espectador sente, nos programas de daytime, por exemplo, é que: "Está ali o António no programa, mas podia ser eu". Esta identificação é muito genuína.

PP: E na ficção também.

MJB: Era isso que eu ia dizer... Grande parte do sucesso da TVI foi de facto ter-se apostado em histórias em diferentes locais de Portugal. Isso fez que o público se identificasse com as terras, com as pessoas, com as histórias. E deu a conhecer várias regiões do nosso país.

PP: Antes de falar na informação, acho que houve aqui uma troika de sucesso que catapultou a TVI e que teve que ver com uma informação genuinamente portuguesa, olhando para o país real e indo buscar histórias ao país real. Depois ter uma ficção em que as pessoas se reviam, que tinha que ver com o lado tradicional, os locais que conheciam ou que gostavam de aprofundar e que não eram coisas importadas do Brasil ou de outro sítio qualquer. E ter um entretenimento que mudou a televisão em Portugal e que começou com o Big Brother. E como a Fátima [Lopes] diz, é um entretenimento muito transparente e que tem uma grande ligação com as pessoas.

FL: É muito genuíno e as pessoas sentem-no nas três áreas: informação, entretenimento e ficção. E eu estou à vontade para dizer isto porque quando entrei era quase uma outsider. E depois tentei perceber o ADN da casa e neste momento não só o percebo como sou parte integrante desse ADN. Eu sou muito bem resolvida com o entretenimento e adoro fazer entretenimento. E senti-lo.

E qual é a diferença entre a informação da TVI e das outras estações?

PP: A TVI começou a discutir taco a taco na informação com os outros canais, às 20.00, no ano 2000. Porque é bom recordar que, tirando um curto período, antes desse ano não competia com um noticiário às 20.00. Mas depois a informação foi entendida como um projeto tão importante como o entretenimento, como os filmes ou como as séries que passavam. Na informação houve a capacidade de sermos irreverentes, descomprometidos com os poderes existentes, de irmos à procura de histórias que mais ninguém contava, marcando uma posição em relação às concorrentes, que estavam instaladas num determinado statu quo. E é muito difícil em televisão, quando as pessoas estão habituadas a dois noticiários da noite, haver um terceiro que surge. Como é possível fazer essa diferenciação, de trazer essas pessoas para a nossa informação? Era trilhando caminhos diferentes. Se fôssemos fazer a mesma coisa que os outros era mais do mesmo. E essa irreverência ainda hoje existe. As pessoas reveem-se nessa cultura da TVI.

É uma TV mais próxima das pessoas?

PP: A partir de 2000 foi essa a intenção. E houve uma dessacralização. Havia uma reverência, como se os jornalistas estivessem num pedestal.

Mas quando a SIC surgiu, em 1992, deu um grande impulso numa nova forma de fazer informação na televisão...

PP: Sim, mas estou a falar de quase dez anos mais tarde. A TVI teve de encontrar um outro caminho para sobressair. Mas quanto à dessacralização dos jornalistas, nós desconstruímos isso com as galas. Mostrando que os jornalistas são pessoas normais, com as nossas fraquezas, com as nossas fragilidades, com quem se pode brincar.

FL: E queria acrescentar que quando passa uma reportagem no Jornal das 8 que tem um grande impacto. Estou a lembrar-me de uma recente, sobre um encerramento de um lar. E isso não morreu na informação. Nós percebemos que essa história teve uma grande repercussão nas pessoas e fomos pegar no jornalista que fez a reportagem, em duas das pessoas que deram a cara, convidámos um especialista que pudesse comentar esta área e fizemos um painel. E estamos a falar de entretenimento, que agarrou o público numa outra vertente. Isto tem a ver com o que o Pedro [Pinto] estava a dizer... de não colocar os jornalistas e pivôs noutro patamar, é qualquer coisa claríssima na TVI. Isso é muito saudável. A informação não tem vergonha do entretenimento nem o entretenimento é um parente pobre da estação. Estamos todos ao mesmo nível, assim como a ficção. De tal maneira que quando precisamos de trabalhar num tema que foi feito na informação, só precisamos de contactar o colega jornalista, que nos agiliza tudo o que precisamos e depois nós pomos aquilo que achamos que é o nosso input.

Há uma sinergia...

FL: Absoluta.

O que mudou em cada uma das vossas áreas nestes 20 anos?

MJB: Ganhou-se muita experiência e passou a investir-se mais, tanto na parte financeira como na criativa, no caso da ficção. O facto de as novelas serem feitas em vários locais do país, que encarece a produção. Claro que também se evoluiu tecnicamente. A TVI deu uma reviravolta na ficção nacional, passou a existir um mercado. As novelas portuguesas faziam-se esporadicamente e isso mudou com a TVI. Passaram a fazer parte da sociedade.

FL: E a nível de temáticas. Na Vila Faia [a primeira novela portuguesa, em 1982, na RTP1] ou nas Origens não nos fica na memória nenhum papel de impulsionador de mentalidades e depois olhamos para a fábrica de novelas da TVI e há sempre a preocupação de introduzir determinados temas que obrigam a uma consciencialização, de mudança de mentalidades. As novelas podem ser isso mesmo, até de passar informação para o público. Não vale a pena sermos muito intelectuais ou excessivamente elaborados porque depois ninguém nos compreende. As novelas fazem esse papel muito bem.

PP: A questão dos Morangos com Açúcar é curioso. A abordagem de certos temas, que não eram fáceis na sociedade portuguesa, como o sexo, a droga... Foi absolutamente revolucionário.

As temáticas na informação também mudaram?

PP: Acho que não... ou melhor... mudaram porque estamos num tempo completamente diferente. Nos últimos quatro anos todas as atenções se voltaram para a economia por causa da crise. As pessoas estão a ver o seu poder de compra diminuir, a perder o emprego... E há uma predominância da economia muito maior do que há uns anos. Mas recordo que em 2005, se a memória não me falha, o Jornal Nacional já era o noticiário com mais temas ligas à economia política. As temáticas não mudam, mas podem ser mais sublinhadas num tempo ou noutro. O desemprego, os impostos... são assuntos mais destacados do que a moda, do que o lançamento de uma novela. Recordo que houve uma notícia na TVI, que teve uma audiência extraordinária, o peeling de Lili Caneças. Mas agora as pessoas estão ávidas de informação que lhes diga respeito no dia a dia. Os jornalistas têm de acompanhar esse andamento social.

E o direto passou a ter um papel mais preponderante...

PP: Porque a técnica evoluiu. Hoje em dia é mais fácil e barato fazer diretos. E temos canais de informação no cabo, 24 horas por dia, e não se sobrevive se não houver diretos. E até já se começa a entrar em direto com o telemóvel, apesar de a imagem ainda não ser a mais brilhante. Mas quando se trata de um acontecimento que tem uma importância decisiva, o facto de a imagem estar a 80% isso é completamente irrelevante. O importante nesses casos é o testemunho do jornalista que está a relatar os factos.

FL: O espectador também evoluiu muito. Há uns anos havia muitos segredos na televisão e hoje a televisão tem muito poucos segredos. E o espectador valoriza os diretos, sabe que se é direto é porque está a acontecer naquele exato momento, que não há filtro, que não pode ser ludibriado.

PP: Não foi editado, não foi cortado...

FL: A imagem pode não ser boa, não interessa, mas o jornalista está lá e está a contar-me o que se passa.

Mas o recurso ao direto não tem sido excessivo? Há muitos diretos sem qualquer conteúdo noticioso...

FL: Sim, mas isso pode ser mais desconfortável para o profissional que faz do que para o espectador. O jornalista até pode não ter muito que contar, mas está lá.

PP: E a qualquer momento pode entrar com uma informação decisiva.

FL: E isso é importante. É sinal que a estação deslocou um elemento para lá e assim que acontecer alguma coisa, a informação é dada.

E no que toca à ficção... Como veem a subida de audiências da SIC? Dancin' Days tem vindo a ganhar, as novelas brasileiras subiram em relação ao passado recente... Estão preocupados com a quebra de audiências da ficção da TVI?

MJB: No horário nobre, a SIC tem dois produtos... aliás, três produtos brasileiros, porque Dancin' Days é metade brasileira, que marcaram uma época em Portugal, como a Gabriela. Acho que a TVI continua a fazer boa ficção. Não estou muito preocupada. Esta nova novela, Destinos Cruzados, está a ganhar terreno e vai conquistar o lugar que temos tido até aqui. Acho que a concorrência é boa, porque puxa por nós.

Mas o investimento na ficção na SIC e na TVI é totalmente diferente. A SIC tem apenas uma produção nacional, porque o resto são novelas importadas, enquanto a TVI tem quatro novelas nacionais no ar.

PP: Esse é um património fortíssimo da TVI, que tem novelas em português, pensadas por portugueses, com atores portugueses, com técnicos portugueses e com música portuguesa. E isso não se vai perder. Claro que há ciclos onde alguns produtos adversários acabem, aqui ou ali, também pela qualidade que têm, por marcar pontos em audiência. Mas acho que é mais conjuntural do que estrutural. Isto é uma corrida de fundo e as coisas podem inverter-se. E o que conta é a curva de longo prazo e aí a TVI ganha.

FL: Concordo. Se nós olharmos para os produtos SIC que agora fizeram mais pontos do que é habitual, nós percebemos que têm um cunho de revivalismo muito grande. São remakes e sabemos que em época de crise vamos buscar memórias do passado, que estão associados a tempos melhores, pelo menos na perceção das pessoas. E se virmos bem os produtos da Globo, até aos remakes estava a passar um mau bocado. E foram muitos os flops. E o ciclo de remakes correu-lhes muito bem. Mas é um ciclo.

MJB: Houve uma feliz coincidência. As pessoas quiseram reviver histórias antigas. Não acredito que a ficção da TVI vá perder o seu espaço.

Outro concorrente forte das generalistas é o cabo. Como se pode combater a fragmentação? Estações como a TVI lançar mais canais no cabo, como fez recentemente?

MJB: Sim, eu destaco a TVI Ficção que permite os espectadores verem produtos que não viram na generalista ou que querem rever. Havia muitos pedidos para se repor o Equador, por exemplo. E programas que moldam a realidade da ficção em Portugal, os bastidores, entrevistas com atores... É um canal que eu gosto muito, que fazia falta...

Mas é o aceitar de que as maiores estações têm de estar no cabo com canais temáticos.

PP: É uma tendência irreversível. Há uma segmentação do mercado, com públicos específicos. Essa tendência começou em Portugal há uma década e vai evoluir ainda mais nos próximos anos. Há quem fale na erosão dos canais generalistas, mas eu tenho algumas dúvidas.

FL: Eu também.

PP: Porque acho que as pessoas vão continuar a olhar para a generalista com uma referência. Na generalista é uma maior situação de permanência e o cabo é mais uma complementaridade. Mas seria impossível à TVI ficar fora do cabo com canais temáticos. E tem feito isso com muita qualidade.

FL: O que se tem visto cada vez mais é que o grande diretor de programas é o público. O público é que faz a grelha. Mas também é verdade que os canais generalistas são a âncora. São os canais que se ligam quando se chega a casa. E que ficam ligados enquanto se fazem outras coisas. E o cuidado que os diretores de programas dos canais generalistas têm é passar programas consensuais, ao gosto das grandes massas. Porque para coisas elitistas ou mais específicas existem os canais do cabo. Por isso é que existem programas como A Tua Cara não Me É Estranha, Casa dos Segredos..., para um público mais vasto...

E tanto as gravações que cada um pode fazer na box como a recente aplicação em que se pode ver qualquer programa que passou nos últimos sete dias vai mudar muito a forma como vemos televisão e coloca um problema na medição das audiências...

MJB: Pois, no outro dia cheguei a casa de uma tia e lhe disse: "Eu não acredito que está a ver a novela da SIC..." E ela respondeu: "Sim, mas estou a gravar a da TVI." Como é que se mede isto? Ela de facto não perde e novela da TVI. Isso possibilita que se veja os dois produtos, mas que apenas um fique contabilizado.

FL: Isso tem que ver também com toda esta polémica da medição de audiências. Temos uma empresa oficial, temos uma empresa não oficial... Os números às vezes são completamente díspares. Agora estão a mudar o painel, mas quanto tempo demoram a mudar o painel? E até lá em quem é que os anunciantes acreditam? Isto é muito desestabilizador para o mercado.

Mas até foi a RTP1 que mais perdeu com as medições da GfK.

FL: Sim...

Com a crise, também as empresas ligadas aos media têm feito ajustamentos, com grandes cortes. Como têm sentido os cortes em cada uma das vossas áreas?

MJB: No caso desta novela, Destinos Cruzados, foi toda feita em Lisboa e à volta de Lisboa. Logo aí há uma redução muito grande. Depois há mais cenas em estúdio e menos exteriores. E os elencos também diminuíram um pouco. Mas assim ficam muitos atores muito bons juntos, o que garante qualidade. Mas no meu dia a dia não sinto grandes diferenças. As pessoas continuam dedicadas ao trabalho, a mesma energia, vontade de fazer bem e de evoluir. Era fácil num momento de crise desmotivarem-se um pouco, mas não sinto isso. E a TVI tem investido. Ainda agora se fez a série O Bairro, que teve muito investimento, com o objetivo de trazer um produto diferente.

PP: É em todo o lado. Há uma inevitável redução de custos. Se anteriormente trabalhávamos para um mercado de 700 milhões de euros, hoje trabalhamos para um mercado de 450 milhões. Se o nível das receitas diminuiu, obviamente que os custos também têm de ser adequados para que as empresas continuem a ter rentabilidade. As pessoas têm de fazer mais e melhor com menos recursos. Há também um maior critério em relação a reportagens, em idas ao estrangeiro... Se calhar, as coisas são discutidas duas e três vezes antes de se mandar alguém para as eleições americanas, para a crise na Grécia ou para a guerra na Síria... Porque o nível orçamental não é o que existia há uns quatro ou cinco anos. Mas nas redações a batalha é diária e todos os dias é preciso fazer melhor do que no dia anterior porque a concorrência pode encontrar outro ângulo mais interessante do que o nosso e isso acaba por nos penalizar. Essa batalha constante continua a existir, mas obviamente com menos recursos e, sobretudo, com mais critério na utilização desses recursos.

E o mesmo acontece no entretenimento...

FL: Sim. Os cortes existiram como em todas as empresas e em todas as áreas. Mas, como diz o ditado popular, "a necessidade aguça o engenho". Vou ter de usar mais imaginação, mais criatividade para conseguir inventar algo com um resultado tão bom como anteriormente. Por exemplo, no Somos Portugal, que é um programa tipicamente português e que percorre o país inteiro, como se faz para cortar nos custos? Fazem-se mais parcerias no terreno, com a ajuda das câmaras municipais, das empresas, das instituições... Monta-se uma rede de resposta, que faz com que o programa chegue a casa das pessoas como tem de chegar, com a mesma qualidade.

MJB: E o mesmo acontece com a ficção nacional. Também se encontram essas parcerias quando vamos gravar fora.

PP: Foi necessário encontrar outras áreas de negócio, outras ajudas. Mesmo ao nível da informação. Todo o sector dos media vive de publicidade e nos períodos de crise é onde se corta mais. Ao mesmo tempo vivemos uma transformação tecnológica, em que cada vez mais as pessoas vão à Internet e nada pagam pelos conteúdos. E ainda por cima a publicidade, que é o suporte desse trabalho, está claramente em queda. Há que encontrar novas áreas de negócio...

Como respondem a quem diz que a TVI é "popularucha"?

FL: Definam o que é "popularucha". A TVI é popular e com muito orgulho. Voltamos ao início da conversa. Esse é o nosso ADN. E estamos de bem com isso. Somos uma televisão portuguesa, feita por portugueses, com a cultura portuguesa e com o povo. E digo isto com muito orgulho porque eu venho do povo. Acho até que os nossos programas fazem um serviço que seria mais espectável na RTP, que é uma estação do Estado. Temos uma preocupação social e avança ao lado das pessoas que a veem. Isto é ser "popularucho"? Ótimo. Eu acho que isto é ser popular e ainda bem que somos populares.

MJB: Concordo.

PP: A Fátima [Lopes] já disse praticamente tudo. A TVI não é uma televisão aristocrata, não é uma televisão pedante, não é presunçosa nem elitista. É uma televisão feita para os portugueses e temos muito orgulho nisso.

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