A ficção nacional ainda vai ser destes pequeninos

O ar frágil e angelical esconde a determinação destes jovens atores que já descobriram a verdadeira paixão das suas vidas: representar. Estão conscientes de que todas as rosas têm espinhos, mas isso não os impede de lutar por um sonho que já nasceu com eles. Na escola não passam despercebidos e sentem o peso do mediatismo que vai da popularidade ao 'bullying'. No entanto, a competitividade e a crise financeira que também já se alastrou a esta indústria faz que ponderem construir uma carreira fora de Portugal...

Longe vão os tempos em que as personagens infantis se limitavam a ser filhas de X ou netas de Y. Hoje, atores como Matilde Miguel, Diogo Carmona, João Maria Maneira, Rebeca Gonçalves, Simão Santos e Henrique Gil dão vida a personagens mais densas e que são determinantes para o desenrolar da trama. A experiência que têm adquirido na ficção nacional dá-lhes estofo para no futuro serem eles os próximos protagonistas. Um futuro que está nas suas mãos.

As opiniões em torno do mundo da representação podem variar, mas uma coisa é certa: todos eles querem fazer carreira nesta indústria. "Não me vejo a fazer mais nada. Profissão, só ator. Não questiono isso", atira Diogo Carmona, 15 anos, que interpreta Bruno Henriques na novela da SIC Dancin' Days. A jovem atriz Matilde Miguel, 11 anos, que deu vida a Matilde na novela Rosa Fogo, quer seguir os mesmos passos do colega de profissão e até faz um pedido: "Ainda não sei se vou participar nalguma novela em 2013, mas gostava muito. Era um grande presente se isso acontecesse."

Apesar de ainda estarem na flor da idade, todos eles sabem bem o caminho que querem trilhar e até já têm arquitetado um plano para lá chegar. João Maria Maneira, 17 anos, cujo último trabalho em televisão foi em Laços de Sangue (SIC), já tem tudo pensado. "Quero ir para o conservatório tirar o curso de Teatro e depois sigo para o estrangeiro", explica o jovem ator. Rebeca Gonçalves, que interpreta Marina Miranda na novela Louco Amor (TVI), arregaçou as mangas e já começou a investir na sua formação de atriz. "Comecei a estudar teatro na Escola Profissional de Teatro de Cascais ao mesmo tempo que fazia a novela", conta, orgulhosa, a menina de 16 anos.

As obrigações profissionais a que estão expostos desde tenra idade faz que o seu amadurecimento acelere. Os jovens atores têm consciência de que não podem descurar os estudos. "No que respeita ao aproveitamento escolar sempre consegui e nunca baixei as notas. Por vezes tinha de faltar, mas nunca saí prejudicada", esclarece Rebeca Gonçalves. Simão Santos, que integra o elenco da novela Doce Tentação (TVI), em que dá vida a Simão Dias, frisa que tem obrigações a cumprir. "Os meus pais incentivam a minha carreira de ator desde que mantenha as boas notas na escola. No início foi difícil, mas agora consigo conciliar os estudos com as gravações", diz.

Já o ator Henrique Gil salienta que "quem corre por gosto não cansa". "É um esforço extra que tenho de fazer [conciliar estudos com as gravações], mas qualquer outra atividade é cansativa", diz o ator, que interpreta Paulo Esteves da novela Dancin' Days (SIC).

Opinião contrária tem Diogo Carmona, que não tem problemas em admitir que ser ator não é pera doce. "À medida que os anos vão passando torna-se cada vez mais difícil porque na escola a exigência é cada vez maior. Quando chego a casa penso que tenho de fazer os trabalhos da escola. Quando acabo penso que vou dormir e depois lembro-me de que não posso, que ainda tenho de ir estudar os textos para a novela", começa por explicar o ator. "Eu já disse várias vezes que quem corre por gosto não cansa, mas há pouco tempo descobri que não faz assim tanto sentido. Uma pessoa pode fazer o que gosta, mas isso também cansa", adianta.

Profissão difícil e competitiva

A "guerra" entre a SIC e a TVI e a luta pelas audiências num cenário em que a crise atinge todos os sectores da sociedade está presente no dia a dia destes jovens atores. João Maria Maneira admite que a produtora para a qual trabalha, SP Televisão, é cada vez mais exigente. "Cada vez há mais disputa pelas audiências. Desde que a SIC começou a subir, as exigências são maiores. Há mais competitividade para ultrapassar os trabalhos das outras produtoras. Mas é uma competição saudável", afiança o ator, que vai trabalhar em séries como Sinais de Vida e Depois do Adeus, que a RTP1 deverá estrear em 2013.

Henrique Gil lamenta que a sua classe profissional não seja sempre tão unida quanto era desejável e até deixa um conselho: "Sempre tive ideia de que é um meio muito competitivo. As pessoas, não digo todas, mas muitas fazem tudo para poder subir na vida. Acho que é um trabalho de equipa, especialmente este que é à base de relações e emoções, e acho que as pessoas deviam preocupar-se mais em ajudar os outros em vez de pensarem só nelas. Ao ajudarmos os que estão ao nosso lado também estamos a evoluir."

Aos 15 anos e já com dez de carreira, Diogo Carmona conhece de perto as dificuldades que alguns atores enfrentam e sabe bem que o mundo da representação não é tão cor-de-rosa como alguns pintam. "Às vezes as pessoas pensam que ser ator é ter muito dinheiro e ser famoso, mas não. Há atores que vão ao Banco Alimentar, que foram conhecidos em tempos e que agora são sem-abrigo. É mau... ator não é só coisas boas. Sei que hoje posso estar em cima e amanhã já não ser ninguém. Pode acontecer comigo. Daqui a uns anos posso passar na rua e ninguém me dar valor", atira o jovem.

A crise que se tem instalado também na indústria das novelas não passa despercebida à pequena Matilde Miguel, de 11 anos. "Apercebo-me da crise porque vejo que estão a pôr muitas novelas antigas no ar", destaca.

Rebeca Gonçalves, que se estreou no pequeno ecrã na série juvenil Morangos com Açúcar, sabe que esta é uma profissão "de espera e incertezas", mas não se deixa abalar por isso. "Claro que é uma profissão difícil, mas não há outra igual. É fascinante, um mundo autêntico, mas é também um mundo do qual é muito fácil sair sem ninguém dar por isso", sublinha.

Colegas são curiosos e dão dicas

Apesar de se mover num mundo "onde tudo é a fingir", estes jovens atores também enfrentam a vida real todos os dias. Na altura em que gravou a novela Rosa Fogo, Matilde Miguel sentiu na pele o que é ter uma profissão em que a privacidade é pouca. "No início os meus colegas tratavam-me mal, batiam-me na escola por causa da novela. Ficava triste e dizia-lhes que era uma menina normal. Mas agora damo-nos todos bem. Alguns colegas dizem-me que gostavam muito de me ver e faziam-me muitas perguntas. Perguntavam como é que era ser ator, se eu gostava, como tinham corrido as gravações e eu respondia a tudo, claro", conta a atriz.

Quem também está constantemente a ser confrontado com a curiosidade dos colegas é Simão Santos. Ao jovem ator até já perguntaram se ele pode "meter cunhas". "Estão sempre a perguntar como foi a seleção, se é giro ser ator. Dizem-me que sou totalmente diferente da personagem, sou mais magro e mais extrovertido e claro que conseguem separar a ficção da realidade. Até já me deram dicas em relação ao vestuário", diz, entre risos.

Quando era mais nova, Rebeca Gonçalves era muito popular entre os colegas por causa da sua profissão. "Quando estava na escola básica a reação foi mais efusiva, pediam-me autógrafos e faziam-me montes de perguntas. Agora estou numa escola de Teatro onde estudo com outros atores, por isso é uma coisa natural. Os meus colegas ajudam--me a decorar textos e dizem-me que pareço mais nova no ecrã", confidencia.

Protagonismo não é objetivo

Ainda que eles sejam o sangue novo da ficção nacional e não tenham dúvidas de que querem fazer da representação a sua vida, protagonizar uma novela é algo que não ambicionam. João Maria Maneira diz: "Já me imaginei a ser protagonista, mas não é algo que me mova", destaca o jovem ator.

Mais incisivo é Diogo Carmona, que explica os motivos por que não pretende ser a figura central de uma trama. "Não me vejo como protagonista a fazer todas as novelas. Vejo isso acontecer e acho que é mau, porque há muitos atores que andaram no conservatório que são atores bons e não têm trabalho. E depois há muitos atores que estão aqui e que, não falando mal de ninguém, às vezes deviam dar mais oportunidade a quem não aparece há algum tempo ou a novas caras, e eu não quero contribuir para isso. Não é bonito fazê-lo...", argumenta o ator de Dancin' Days.

E ainda que pertençam à nova fornada de atores, não deixam de valorizar o trabalho que é desempenhado pelos artistas veteranos, que muitas vezes são esquecidos e até colocados na prateleira. Henrique Gil não hesita quando é questionado sobre os atores que mais admira em Portugal. "Ganhei um grande respeito pela Margarida Carpinteiro, pela Catarina Avelar e pelo Igor Sampaio, esses veteranos da representação. Tenho muito respeito e consideração por eles", justifica.

A pequena Matilde Miguel também tem os nomes dos seus "atores de referência" na ponta da língua. "Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho, Rogério Samora, Helena Laureano, a avó Irene [Cruz], Maria Emília Correia, Lídia Franco, Manuel Cavaco e Joaquim Nicolau."

Diogo Carmona, Rebeca Gonçalves e João Maria Maneira, à semelhança dos restantes colegas, também optam por eleger os atores veteranos como aqueles que mais admiram e acrescentam o nome de João Perry, Custódia Gallego e Maria João Luís.

Conscientes de que a crise financeira alastrou praticamente a todos os sectores, e entre eles também inclui-se a ficção nacional, a possibilidade de emigrar e trabalhar noutro país é algo que passa pela cabeça destes jovens atores. Henrique Gil não esconde que "gostava de tentar uma carreira internacional". "O sítio não interessa, pode até ser no Dubai, desde que eu goste do que estou a fazer. Em Portugal está complicado para toda a gente até para os atores. Mas se pudesse escolher optava por Inglaterra ou os Estados Unidos", diz.

"O meu objetivo é ir para Los Angeles, que é um grande centro de representação. Dizem que em Portugal não dá para representar, todos me dizem para ir para fora. Eu vou, mas quero voltar para experimentar fazer carreira no meu país", conclui.

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