"Há uma nova forma de censura, sem cara, subtil"

Apreensão e esperança atravessam o discurso de Maria Rueff, Herman José, Luís Filipe Borges, Nuno Artur Silva e Rui Sinel de Cordes. Quatro décadas de humor puseram o país a rir em liberdade mas... e agora?

No princípio era o verbo, e o verbo era riscado pelo lápis azul dos censores. Raul Solnado, pioneiro, contornava o risco com mestria. Depois veio Abril, e a liberdade. E Herman, mestre das gerações que lhe seguiram. E as privadas, e o stand up comedy, e os Gato Fedorento. E enquanto o diabo esfrega um olho passaram-se 40 anos. A rir. Em 2014 há liberdade, sim, mas, como explica Herman José, quem é livre paga a fatura. "Cada criador escolhe até onde quer e pode ir no uso da sua liberdade. Nem todos estão dispostos a pagar o preço alto das represálias de quem resolve não encaixar uma piada. Hoje, apesar de tudo, como a base de criadores humoristas atrevidos se alargou, as coisas estão mais libertas e mais fáceis." Herman, que sofreu na pele as consequências de um país pouco habituado a rir de si mesmo, mostra-se otimista em relação ao presente. "Em Portugal, a classe política fornece a própria caricatura, pelo que muitas vezes gozar com eles pode tornar-se redundante. É bom sinal - é sinal de vitalidade da nossa democracia. Acredito que neste momento na Rússia muito poucos se atrevam a beliscar o líder Putin. Espero que Portugal nunca volte a ter de lidar com esse tipo de "músculo".

Menos otimista, Maria Rueff, que iniciou a sua carreira pela mão de Herman José, afirma que "há uma nova forma de censura, mais encapotada, sem cara, muito subtil". "Muitas vezes as formas de censurar, e não estou a falar apenas de Portugal, implicam esvaziamentos desses produtos, não dar tantos recursos às pessoas. Ou pôr pessoas com menos peso a fazer esses produtos." Rueff, que fez parte da célebre rábula A Última Ceia, do programa Herman Zap!, acrescenta que observa um "retrocesso", apesar da inegável evolução trazida pelo 25 de Abril." Não é que nos façam um X por cima dos textos, mas nota-se que não se está à vontadinha. A censura que noto mais tem que ver com esse esvaziamento, não haver tanto dinheiro para se inovar. A aposta nestes concursos funny, em que se privilegia mais o divertimento e menos o humor, que alfineta realmente. Tem que ver com isso, com políticas decisórias." Rui Sinel de Cordes vai mais longe: "Já tive mais liberdade do que a que tenho hoje e vejo colegas meus a passar pelo mesmo." O humorista, que se tornou conhecido no programa da SIC Radical Gente da Minha Terra, refere os constrangimentos financeiros como principal inimigo da liberdade dos humoristas. "As pessoas têm medo. Há menos dinheiro, há menos trabalho. E as pessoas têm medo de perder o que têm. Quando vemos humoristas a pedir desculpa por cenas que fizeram... acho que antigamente havia mais a filosofia de hei de continuar o meu caminho noutro sítio qualquer." Pedir desculpa por uma piada é completamente ridículo", diz Sinel de Cordes.

O humorista, que também passou pelo guionismo, afiança que tem mais liberdade criativa nos espetáculos ao vivo do que em televisão. "Não há intermediários, não há pessoas a estragar aquilo que gosto de fazer. Que é o que me acontece em televisão. Para dar um exemplo, quando trabalhava nas Produções Fictícias, havia coordenação de guião. Eu mandava para lá e eles mandavam para os canais, produtoras ou atores. E sempre que me telefonavam a dizer "esta piada aqui..." e eu dizia "expliquem-me lá onde é para tirar piada". Tive grandes conflitos com eles na altura", recorda.

Luís Filipe Borges tem uma perspetiva mais positiva e afirma: "O humor é uma das artes mais potencialmente minimais." O guionista e apresentador do programa da RTP1 5 para a Meia-Noite garante que "há sempre maneira de contornar a falta de dinheiro". "Em cinco anos nunca me censuraram minimamente", garante. "Dentro do orçamento, da nossa criatividade e do bom senso, sinto que podemos fazer aquilo que quisermos", acrescenta.

Borges afirma, contudo, que a herança da censura persiste na mentalidade do país. "Para muito português o respeitinho ainda é muito bonito, uma máxima que nos foi inculcada pelo salazarismo, mas acho que até na classe política vamos encontrando exemplos de abertura. Não quero ser utópico e dizer que os nossos políticos são uns grandes bacanos, que sabem rir de si próprios. Não diria tanto, de maneira nenhuma. Mas têm percebido que isso também os beneficia."

Metade dos anos televisivos vividos sem censura não podem ser dissociados de uma empresa - as Produções Fictícias. Nuno Artur Silva, diretor-geral da produtora que lançou nomes como João Quadros, Nuno Markl e o quarteto Gato Fedorento, garante que "hoje há uma censura indireta". "Há vários tipos de situações que não pressupõem a figura clássica da censura mas que têm que ver com programas que são interrompidos e cujas justificações são que não fazem audiências, que não são neste momento os mais adequados, e nós nunca sabemos se por detrás disso não está uma decisão que pode, pura e simplesmente, ter que ver com censura." O responsável das Produções Fictícias lamenta que haja atualmente "um retrocesso porque não há programas de humor nas televisões portuguesas". "À exceção do Melhor do que Falecer [TVI], não há nenhuma série de humor em exibição produzida agora. Não há um programa de sketches, não há uma série de humor, nada!" Nuno Artur Silva diz que nos canais generalistas "há um domínio absoluto do entretenimento ligeiro sobre a ficção". "Há comediantes a escorregar por paredes, a serem jurados de concursos, a fazer novelas. Ou seja, estamos pior do que já estivemos. A justificação é longa, mas em última análise é responsabilidade das linhas editorais dos canais."

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