Francisco Pinto Balsemão: "Só quem nada produz é que pode querer usar sem pagar os conteúdos criados pelos media"

Em 1992, a Globo foi decisiva para o lançamento da primeira televisão privada em Portugal. Mais de 20 anos depois, no ano em que se assinalam quatro décadas de democracia em Portugal, desafiámos o presidente da Globo, Roberto Irineu Marinho, a entrevistar o presidente da SIC, Francisco Pinto Balsemão. Uma conversa exclusiva e irrepetível, cuja primeira parte, sobre a atividade política do antigo primeiro-ministro, foi publicada na edição especial 25 de Abril do Diário de Notícias. Hoje concluímos a publicação, falando de televisão, jornalismo e os novos caminhos dos media.

A criação da SIC, como primeira televisão privada portuguesa em 1992, foi um marco na história das comunicações em Portugal e revelou-se uma empreitada correta, pois, em apenas três anos, chegou à liderança em audiência. Como o senhor vê a gestão da televisão daquele tempo e a de hoje?

Quando, nos anos 80, pensei em criar um canal de TV privado - Portugal era dos últimos países europeus que mantinha o monopólio do serviço público -, entendi que precisava de um aliado, de um sócio que soubesse mais de televisão do que eu. Fui ao Brasil. Falei com os principais proprietários de redes de televisão. Entre eles, com o fundador da Rede Manchete, Adolpho Bloch, que me disse isto: "Você quer ter um ataque de coração, quer passar noites inclementes quer sofrer? Então meta-se num projeto de televisão!"

Mas não desistiu...

Para ser franco, a conversa desencorajou-me completamente, mas eu não desisti. No entanto, a conversa que, de longe, mais me impressionou foi a que tive com o fundador da Rede Globo, Dr. Roberto Marinho, e decidi que era com ele que eu queria trabalhar. Não foi fácil, porque, naquela altura, a Globo digeria uma má experiência em Itália, através da Tele Monte Carlo. Houve momentos de alguma dúvida, mas prevaleceu a palavra de concordância quanto à entrada da Globo no capital da SIC, que me fora dada por si, Roberto Irineu Marinho, filho mais velho de Roberto Marinho. Gosto de recordar e sublinhar este ponto por duas razões: porque, infelizmente, hoje em dia, são raros os casos em que a palavra dada, sem necessidade de documentos ou de testemunhas, mantém o seu valor, como compromisso irrevogável para se avançar num negócio; e porque, desde esse momento, construímos, a família Marinho e a família Balsemão, uma relação de amizade que em muito transcende as relações empresariais.

Mas a Globo não foi o único parceiro...

Não. Outro objetivo estratégico que tive, em paralelo, foi convidar sócios portugueses da área dos media: desde a Castelo Lopes às Publicações Europa-América, ao grupo O Jornal, a outros sócios ligados ao cinema, como foi o caso da Lusomundo. Também tive a preocupação de integrar grupos financeiros e empresariais de Lisboa, como Espírito Santo ou Mello, e do Norte, como Riopele, FAFE ou Porto Editora.

De que forma é que a Globo foi importante nesse projeto?

A Globo ajudou-nos a vários níveis. Tivemos a visita de pessoas da área técnica que nos aconselharam sobre, por exemplo, o tipo de equipamento a adquirir, uma delas foi Ricardo Pereira, atual representante da Globo em Portugal e Europa. Finalizado o projeto de grelha, fui ao Brasil e Boni, o então todo-poderoso responsável pela programação da Rede Globo, arrasou boa parte do que tinha levado, o que nos obrigou a reformular a programação...

Porquê?

Era preciso ter uma presença nova, mais marcante, para captar audiências. Nesse momento inicial - e nos anos que se seguiram, com a ativa presença de Pedro de Carvalho e mais tarde de Ricardo Scalamandré, como representante da Globo no conselho de administração e na comissão executiva da SIC - a ajuda da Globo foi decisiva. Depois de a Globo ter tido de vender a sua posição acionista na SIC, muitos aspetos na gestão da televisão mudaram com os anos, com as novas tecnologias, com a criação de novos canais temáticos, etc., mas as relações de amizade e parceria sobrevivem aos tempos. Por tudo isto, estou muito grato pela ajuda da Globo.

Que impacto causou na sociedade e na audiência portuguesa a chegada de uma televisão com um conceito inovador como a SIC?

Foram precisos quase três anos para que essa inovação se traduzisse em liderança. Achei que tudo ia ser quase instantâneo pelo contraste, pela diferença, em relação à monotonia dos canais 1 e 2, os únicos que existiam, da televisão do Estado. Mas as pessoas são conservadoras, agarram-se àquilo a que estão mais habituadas e, até mudarem, demoram algum tempo. Os anos iniciais foram complicados porque eu tinha dito aos acionistas que só precisava de um determinado capital e acabei por lhes pedir dois aumentos e, em cada um deles, para não perder posição, tive, pelo meu lado, de arranjar dinheiro.

Uma das marcas inovadoras da SIC foi a informação, promotora de um jornalismo pró-ativo em relação às várias áreas sociais. Apresentámos um jornalismo mais independente e mais irreverente em relação ao poder político, feito com gente mais nova, mais atrevida e, sobretudo, focando assuntos que normalmente não eram tratados em televisão. O Praça Pública é o exemplo sempre citado. É um bom exemplo.

A informação sempre foi uma marca importante na SIC.

Sim, aliás, mais tarde, a SIC Notícias foi outro grande projeto do qual me orgulho, e que serve um público mais restrito, que quer ver informação, tanto em Portugal como noutros países, como é o caso de Angola, onde o canal tem muita audiência. Este projeto confirma que há uma grande apetência dos telespectadores pela informação como prioridade em termos de consumo televisivo. Aliás, só em Portugal é que os três jornais das 20.00 das televisões generalistas duram mais de uma hora e são vistos, diariamente, por cerca de três milhões de pessoas.

Historicamente a literatura portuguesa vem influenciando a cultura e a sociedade brasileiras desde o século XIX, com Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco, até hoje, com os autores portugueses contemporâneos. Considera que a telenovela brasileira, para além de ser um sucesso de audiência em Portugal, constituiu um produto cultural relevante a influenciar a produção cultural portuguesa? De que modo isso ocorreu?

Indiscutivelmente. Foi paixão à primeira vista, logo com a Gabriela, em 1977, que até o Parlamento parava... E, quase 40 anos depois, o remake de Gabriela, exibido na SIC, voltou a ser líder. Entretanto, o produto novela começou a desenvolver-se em Portugal, beneficiando, no nosso caso, das parcerias de coprodução com a Globo, como sucedeu nas novelas Laços de Sangue (vencedora do Emmy em 2011) e Dancin"Days. E por tudo isto acho que a telenovela é o maior elo de ligação entre Portugal e o Brasil.

O seu incentivo à produção de teledramaturgia em Portugal foi uma característica desde o início. O que o senhor identifica como peculiar da teledramaturgia portuguesa, e o que a diferencia da produção de outros países?

A indústria de ficção em Portugal apenas se desenvolveu em pleno com a chegada das televisões privadas. O mercado abriu-se e isso permitiu criar novas produtoras, formar novos atores e inovar em mais produtos. Os dez telefilmes produzidos pela SIC Filmes e o êxito que obtiveram são prova disso. Neste momento, a telenovela Sol de Inverno, produzida pela SIC, é líder de audiências desde a estreia.

SIC e Globo produziram em conjunto uma telenovela de grande sucesso, Laços de Sangue, ganhadora do Prémio Emmy em 2011. Que vantagens o senhor vê no modelo de coprodução para televisão?

O apoio da Globo, à SIC e à SP Televisão permitiu-nos, sem dúvida, melhorar a qualidade e desenvolver competências internas. Temos aprendido com a Globo e achamos que é um modelo de parceria para manter.

Os novos media digitais têm disputado a atenção e o tempo disponível das pessoas, concorrendo com os meios tradicionais, principalmente aqueles ligados aos produtos impressos. O senhor considera isso uma ameaça aos media tradicionais ou uma oportunidade de informar e entreter de forma ainda melhor o público?

A ameaça existe, como o provam as descidas na circulação dos produtos em papel e, de um modo mais geral, a dispersão do tempo disponível, que por definição é limitado, pela variedade de opções de informação e entretenimento que a revolução digital veio proporcionar. Mas a oportunidade também existe e não há razão para as boas marcas de comunicação social não a aproveitarem.

Embora a questão também se coloque quanto ao entretenimento - o low cost tem limites -, o problema e a oportunidade são mais relevantes e urgentes na área do jornalismo.

Hoje, mais do que nunca, é necessário um jornalismo profissional e sério, porque nunca como hoje se consumiu tanta informação e tanta desinformação, através de plataformas tão diversas. Perante a avalancha, o jornalismo enfrenta desafios novos, não só quanto ao cumprimento, com isenção e independência, das suas funções, mas também no que toca à redução do tempo entre o acontecimento e a divulgação da notícia e ao uso da linguagem ou narrativa adequadas a cada plataforma de distribuição de conteúdos.

O que deveriam fazer as empresas de media para aproveitar as facilidades criadas com as novas tecnologias digitais e os novos hábitos criados, como por exemplo o do uso intensivo das redes sociais?

Antes do mais, não irem atrás, mas à frente, serem pioneiras. No Expresso, por exemplo, 10% dos leitores já compram o jornal em formato digital. Em algumas das nossas revistas, a percentagem chega aos 20%. A nossa quota de vendas de produtos digitais originariamente em papel atinge 47% do mercado português. Depois, trabalhar sempre as marcas, nas áreas editorial, comercial e de marketing, numa vertente multiplataforma: em papel, no site, nas redes sociais, no iPad. O que importa é o público contactar com a marca, independentemente do veículo.

Só assim, aliás, se caminha para outro objetivo fundamental: a diversificação das receitas, incluindo a criação de novos produtos, alguns dos quais até podem ser de curta duração. O recente lançamento do Expresso Diário - é um bom exemplo do que pretendo dizer. O mesmo raciocínio se aplica à televisão, onde, para além da melhoria de qualidade de imagem, a exploração das virtualidades da OTT - Over the Top Television - é fundamental pelas facilidades que concede de distribuição, de contacto direto com o cliente final e de criação de novos produtos.

E as redes sociais?

Quanto às redes sociais, é óbvio que elas passaram a fazer parte da nossa vida. Há, portanto, que aproveitá-las e cuidá-las. Estamos a profissionalizar a nossa atuação em dois vetores: do lado editorial, o conhecimento sistemático e aproveitamento por antecipação das tendências e do que verdadeiramente interessa às pessoas; do lado comercial e do marketing, a venda indireta ou direta dos vários produtos e a escolha e colaboração da publicidade.

As empresas privadas de media bem sucedidas sempre tiveram no lucro e na visão de longo prazo fatores de garantia de sua independência, em sua missão de criar produtos culturais e de informação relevantes para a sociedade às quais pertencem, na maioria dos casos com ênfase local ou regional. Nos últimos anos, temos visto a criação de conglomerados gigantes, que juntam produção de conteúdos e infraestrutura de distribuição, além do predomínio da visão financeira e de resultados e retorno de curto prazo. Que efeitos o senhor considera que essa tendência terá sobre os produtos de media, e, em última análise, sobre nossas sociedades?

Penso que as empresas de media se devem concentrar naquilo que devem fazer bem: produzir conteúdos e assegurar a sua distribuição interna e externa. É perigoso para a sociedade e para a democracia uma concentração que leve a que as empresas de media estejam por debaixo de grandes telecons. A manutenção da "net neutrality", por exemplo, é fundamental para o prosseguimento dessa finalidade.

Temos visto que o bom jornalismo está encontrando ameaças em diferentes frentes: o surgimento de empresas jornalísticas digitais e plataformas de busca que sugam e distribuem os produtos jornalísticos de outros e nada pagam por ele, distribuindo-os a seu bel-prazer; a mudança dos hábitos de leitura, dando-se preferência a matérias curtas, com análises pouco profundas; a grande oferta de outros produtos, como jogos eletrónicos e plataformas de media sociais, que roubam o tempo de leitura. O senhor acredita que é possível fazer frente a essas ameaças, garantindo a sobrevivência do bom jornalismo? De que forma?

O momento que hoje vivemos exige, mais do que nunca, que os meios de comunicação social se assumam como tal. A sociedade da Net, do Google, do Facebook necessita de quem selecione, ordene e hierarquize a informação. E que o faça profissionalmente, o que implica obedecer a regras deontológicas e poder ser objeto de sanções, quando essas regras não são cumpridas. Se não houver quem separe o trigo do joio, quem exerça as funções de depuração e filtragem, quem veicule opiniões de sinal contrário, acentuar-se-á a tendência para a desinformação, para o alinhar por baixo, o que é nocivo para a democracia, pelas razões que conhecemos.

E esse trabalho só pode ser feito pelos jornalistas...

Pondo de lado os casos de mau jornalismo - que, obviamente, existem, tal como existem casos de má medicina, de má gestão, de má advocacia -, os media profissionais são necessários para salvaguardar a liberdade de informar e ser informado, uma das traves mestras da democracia, para dar a conhecer, ordenadamente, pontos de vista diferentes e para funcionar como aguilhão perante a indiferença da opinião pública. A nossa missão é municiar o leitor para que ele decida em liberdade e por si próprio. Para que essa missão possa ser cumprida, os conteúdos jornalísticos e de entretenimento, de qualidade, profissionais, assegurados pela credibilidade de marcas de media com provas dadas, têm de ser devidamente remunerados.

A ideia que se criou de que tudo o que circula na Net deve ser gratuito não é apenas um atentado aos princípios consagrados dos direitos de autor. É também uma maneira subtil de enfraquecer a independência das empresas de comunicação social e a sua capacidade de investigação. Quem beneficia com isso são os chamados novos protagonistas. Só quem nada produz, apenas utiliza, pode querer usar sem pagar os conteúdos criados pelos media.

Considera que uma eventual decadência do jornalismo como o conhecemos terá efeitos maléficos para a democracia e a sociedade?

A democracia sem o jornalismo livre e independente, sem liberdade de expressão e de informação, não existe. A proliferação de meios nas plataformas digitais gera a possibilidade de que cada indivíduo crie o seu próprio serviço de informação, o seu próprio jornal digital, sem a necessidade de "intermediação" das empresas jornalísticas. Se por um lado isto facilita a diversidade de meios de comunicação, por outro lado coloca em questão a confiabilidade e a respeitabilidade de cada um desses meios.

Considera que o papel da imprensa está a ser banalizado? Acredita que o público fará uma seleção natural, mesmo na internet, dos meios onde procura se informar?

O público seleciona o quando, o como, o onde consome a informação. Mas, acredito que, ao mesmo tempo, se vai tornando mais exigente, ou, pelo menos, vai tomando consciência de que, como afirmou o próprio presidente executivo do Google, Eric Schmidt: "A internet transformou-se em 90% numa lixeira repleta de opiniões avulsas e anónimas e de não notícias." Uma lixeira em que prevalece o alinhar por baixo, a devassa da vida privada, os insultos e a mentira, ao abrigo do mais cobarde anonimato. Quanto mais crescer essa tomada de consciência, maior necessidade haverá de media profissionais de qualidade e independentes.

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