"Esta amizade não é uma série que vai acabar"

Na véspera de se assinalar dez anos do fim da série Friends, um dos formatos mais emblemáticos da ficção norte-americana, juntámos Rita Ferro Rodrigues, Andreia Vale, João Moleira, João Paulo Rodrigues, Nuno Eiró e Sara Antunes de Oliveira para uma verdadeira conversa de café. Entre amigos.

Era velho, de cor alaranjada e até destoava da restante mobília. Mas ao longo de dez temporadas foi ele que se sentou e "assistiu" aos desabafos e confidências de Joey, Rachel, Monica, Chandler, Ross e Phoebe no café Central Perk, entre um expresso e um chá. Foi este sofá que abriu o genérico de Friends, em 1994, e que esteve (quase) sempre livre para os seis amigos se sentarem até ao último episódio da série, a 6 de maio de 2004.

E, como se adivinhasse, também o sofá de um café no centro de Lisboa parecia estar reservado, à espera de Rita Ferro Rodrigues, Nuno Eiró, Andreia Vale, João Moleira, João Paulo Rodrigues e Sara Antunes de Oliveira, uma década depois de Friends terminar. A convite da Notícias TV, a apresentadora das Sextas Mágicas desafiou alguns dos seus amigos mais próximos a alinhar numa conversa de café, esta segunda-feira, para assinalar a data. E, sem hesitações, todos aceitaram. "É que nós adoramos qualquer pretexto para nos encontrar, como é o caso desta entrevista", admitiu Rita Ferro Rodrigues. E em vez de Joey, Rachel, Monica, Chandler, Ross and Phoebe, tivemos "Jota", "Moleirinha", Eiró, "a Vale", a Rita "da costela solidária" e Sara "da maratona".

"Se a nossa amizade fosse uma série, podia chamar-se Scandal"

Passam poucos minutos das 19.30 e Andreia Vale chega, sozinha, ao local combinado. Os amigos estão a caminho e as montras de lojas no Chiado já estão mais do que vistas. Do outro lado da cidade, Rita Ferro Rodrigues, João Moleira, Sara Antunes de Oliveira e João Paulo Rodrigues apressam-se a regressar ao centro da capital, após um compromisso profissional. Uma aventura que tem direito a "troca de roupa" no carro e indicações por altifalante. "Tive de trocar de vestido e a senhora do carro da frente não parava de olhar, ao mesmo tempo que a Rita dava indicações ao Jota ao telemóvel", revela Sara Antunes de Oliveira. Uma peripécia que é apenas uma das muitas partilhadas pelo grupo. Mas lá chegaremos.

Durante os próximos minutos, vão chegando em par e em trio a este Central Perk improvisado e entre risos, abraços, brincadeiras e, sobretudo, muito barulho, lá ocupam o sofá vermelho. E recordam o seu primeiro contacto com a série, quando ainda eram adolescentes. "Foi um sucesso do caraças, eu colei logo", começa por contar o companheiro de Júlia Pinheiro nas manhãs da SIC, confidenciando: "Depois comprei a série e já vi as dez temporadas três vezes". Já João Moleira admite saber "algumas falas de cor". "Ainda vejo a série porque a SIC Mulher está agora a passá-la. Todos queríamos ter cinco amigos e partilhar com eles um apartamento", confessa o jornalista, seguido pela colega Sara Antunes de Oliveira, a mais jovem do grupo, que intervém: "Tenho visto a série agora com mais atenção porque ao contrário de vocês eu era uma bebé, tinha 12 anos."

Anfitriã do grupo, Rita Ferro Rodrigues admite ter vivido alguns episódios semelhantes aos protagonizados por Friends: "É a série mais icónica da nossa geração, tinha uma linguagem muito diferente e era muito aspiracional para nós. E aquilo tem episódios que todos vivemos, aquela coisa da confusão da amizade com a paixão. O amigo que tem graça, as dúvidas em relação à sexualidade... Tudo era abordado num contexto muito inteligente e com muita graça." "E eles eram todos giros e, depois, havia a burrinha. Mas nós não temos a Phoebe, aliás não somos ninguém da série", assegura o rosto de Portugal em Festa, que chegou a aderir ao penteado The Rachel, utilizado na série pela personagem de Jennifer Aniston, enquanto Nuno Eiró se ri e afirma: "Se tivemos a Phoebe, mandámo-la embora."

Sara Antunes de Oliveira contrapõe. "Quer dizer, a Monica tem muito da Andreia, do espírito organizado e obsessivo", olhando para a pivô da CMTV, que acena com a cabeça. "E eu sou um bocadinho Ross, mais comedido. Eles são mais engraçados como o Chandler e o Joey", diz João Moleira, apontando para Nuno Eiró e João Paulo Rodrigues.

Do outro lado do sofá, Andreia Vale chama Rita Ferro Rodrigues: "Ó Rita, houve uma fase em que por causa das coisas todas que fazíamos juntos, das relações que fomos tendo, eu e tu olhávamos quase de fora e dizíamos "credo, isto parece o Friends"."

E como se chamaria este grupo caso tivesse um formato de televisão? "Se a nossa amizade fosse uma série, podia chamar-se Scandal", atira Andreia Vale, enquanto João Moleira admite: "Depende do teor de conversas, mas sim, tem um bocadinho de escândalo." Rita Ferro Rodrigues sugere: "Ou pode ser Casa do Artista, esse era um bom nome para a nossa série."

"Acham que com redes sociais os Friends viviam juntos?"

A estrada da Pontinha, 28 de junho de 2000, pode não significar nada para alguns, mas para Rita Ferro Rodrigues e João Moleira marca o início de uma longa amizade entre os dois e consequentemente os restantes amigos. Na Casa do Artista, os dois rostos da estação de Carnaxide conheciam-se pela primeira vez. "Foi quando toda a equipa foi convidada para fazer parte da SIC Notícias. Como não havia um espaço físico na SIC, tivemos ali dois ou três meses de formação. A Andreia entrou uns dias mais tarde", recorda o rosto da Edição da Manhã, SIC. Nuno Eiró conhece a apresentadora desde os tempos da faculdade e foi precisamente ela a desejar-lhe boa sorte no dia da sua primeira entrevista na SIC. "O Jota conheço-o há dois anos, foi breve mas intenso", brinca ainda o rosto da TVI, e Andreia Vale responde na mesma moeda: "Jô tem mel." Sara Antunes de Oliveira acrescenta: "Servimos muito de ligação e aproximámo-nos uns dos outros." Nunca mais se largaram. "Eu e o Nuno chegámos a pensar na possibilidade de ir viver para o mesmo condomínio, fomos ver casas e tudo", atira o rosto feminino da informação da SIC.

E, apesar de nunca terem tido a experiência dos famosos amigos norte-americanos, que partilhavam um apartamento em Nova Iorque, garantem que a tecnologia é uma boa aliada para contornar a situação. "Se formos comparar, temos as mesmas vivências, só que num espaço mais virtual, mas vivemos aquilo em conjunto, todos os dias e várias vezes ao dia, cada um na sua casa. Temos um grupo de chat, que não parámos de alimentar até chegarmos aqui", diz João Moleira.

"Vocês acham que se existisse Facebook, Instagram e WhatsApp que os Friends viviam todos juntos? Não era preciso", sustenta Rita Ferro Rodrigues, prosseguindo: "Mas eu acho que as redes sociais aproximam as pessoas, ao contrário do que se diz... Incha, Miguel Sousa Tavares. Acho que conhecemos mais pessoas, combinamos mais coisas." João Paulo interrompe: "Mais pessoas ou mais perfis?" E Eiró aproveita a deixa: "Assim como as rede sociais permitem criar grupos, também há muita gente que deixas de ver porque sabes que estão bem."

Encostando-se no sofá, enquanto o grupo aproveita para petiscar, antes de irem todos jantar juntos, a antiga apresentadora de Companhia das Manhãs recorda os primeiros telemóveis que teve. "Eu tive um Beep, ainda se lembram?", pergunta, referindo-se ao antigo modelo da Motorola. "Uma vez estava no meio do trânsito e recebi uma mensagem a dizer: Será que me estou a apaixonar?" E aquilo não dizia de quem era a menos que assinasses. Eu queria que fosse de uma pessoa, mas só quando cheguei a casa é que pude ligar para a operadora. E era de quem eu queria. Está morto, está feito", atira, enquanto os amigos riem e Nuno Eiró espicaça: "Também há quem faça por essa ordem."

A crise, os jantares caseiros e o apoio incondicional

A casa de Andreia Vale e Sara Antunes de Oliveira são os principais portos de abrigo para os jantares de grupo. É num ambiente resguardado e longe do olhar do público e da imprensa que os amigos se encontram e onde há lugar para "parvoíce e descontração", diz Rita Ferro Rodrigues. Não têm conversas-tabu, admitem, asseguram que falam de tudo, desde o trabalho às preocupações do dia-a-dia até à crise, que continua a sentir-se por todo o país. "Nós temos filhos e a presença do papão é intensa, mas falamos de situações de trabalho e nós [aponta para Nuno Eiró], que estamos à frente de dois canais concorrentes, falamos muito sobre o futuro", reforça ainda estrela da SIC, a quem os amigos denunciam uma "costela da Santa Casa da Misericórdia" por ser quem habitualmente motiva o grupo para causas solidárias. "É claro que nos preocupamos com o que acontece no país. E que a saída limpa seja com papel Renova, que é papel nacional", completa Andreia Vale.

João Moleira admite ainda que não discutem tanto política, mas que se "focam mais nas coisas do dia-a-dia, no que sai do bolso e condiciona a vida de toda a gente. "Alguns de nós sabem as ideologias políticas uns dos outros e até partilhamos da mesma opinião, mas não é assunto de que falemos muito", reconhece o pivô. Nuno Eiró acrescenta: "Nós ouvimos a mesma canção e acho que todos temos amigos fora do meio. Mas são muito mais presentes as pessoas com quem manténs e constróis relações dentro do meio porque são aquelas que tu vais buscar mais rapidamente para o bom e para o mal."

E sempre que se encontram é uma aventura, dizem. João Paulo Rodrigues relembra uma vivida com Nuno Eiró. "Um dia estávamos a fazer um programa e chegámos às 04.00 ao hotel e fomos tentar comer dentro do restaurante, mas não havia nada. Então resolvemos mudar a decoração, os quadros e os centros de mesa de sítio", recorda João Paulo Rodrigues. "Na manhã seguinte fomos os primeiros a chegar ao pequeno-almoço, menos o João. E nós com uma grande cara de pau, "Não sabemos de nada", explica Eiró, enquanto o amigo completa: "E uma das funcionárias pergunta, enquanto eu descia as escadas, "Então de quem é este cachecol?". E eu disse: "É meu"."

Mas um dos grandes momentos de carinho entre os membros deste grupo continua a ser a maratona que Sara Antunes de Oliveira correu no ano passado. "Ela acordou uma manhã e informou-nos a todos que ia correr a maratona daí a seis meses. E nós pensámos: "Está maluca"", conta Eiró. A 6 de outubro de 2013, a jornalista da SIC cumpria a prova, tal como havia dito aos amigos, quando aos 32 quilómetros viu Andreia Vale e João Moleira na Praça dos Restauradores, Lisboa, a apoiá-la. "Ela não estava nada bem e eu salto para o pé dela, de chinelos, e a Andreia capturou esse momento de eu a dizer "Não desistas, tens uma ótima surpresa na meta", que eram os pais dela, tinham vindo do Norte. E a Andreia capturou esse momento e pôs no Facebook", conta o pivô, enquanto Nuno Eiró acrescenta: "Então descobrimos mais tarde que ela ouvia uma salva de palma, através do telemóvel, cada vez que postávamos alguma coisa nas redes sociais. E fomos sempre escrevendo para ela ouvir palmas durante o caminho."

Relembrando o momento, Sara Antunes de Oliveira garante: "As melhores memórias da maratona para mim são eles. Nós tanto somos da parvoíce como da galhofa, mas se eu precisar de alguma coisa sei que posso contar com eles e que isto é recíproco. Mesmo nos momentos em que os ciclos nos possam eventualmente afastar um bocadinho uns dos outros, eu tenho a certeza de que, se pegar no telefone e disser ao Nuno: "Não quero dormir sozinha em casa esta noite, que vou para casa dele e durmo no sofá." Ou uma vez em que estava a passar uma fase difícil e, profundamente infeliz, enviei uma mensagem ao João Moleira a dizer só "Onde estás?", e ele respondeu "A chegar à tua casa". E estava mesmo porque nesse dia tinha decidido que vinha ter comigo, de surpresa."

Uma amizade que tem ciclos, como todas as outras. "Há alturas em que me apetece estar mais com um, menos com outros, é mesmo assim a vida, ninguém tem de ficar chateado", afirma Rita Ferro Rodrigues, enquanto Eiró prossegue o raciocínio. "Acho que a escolha da Rita é engraçada porque não é óbvia e Jota pode estar aqui perdido no meio disto tudo mas ele foi o escolhido", continua o apresentador fazendo rir toda a gente. "A Rita foi das pessoas que me receberam muito bem, daí a minha alegria e a minha lisonja por saber que me tinha escolhido", agradece "Jota".

O ciclo de Friends foi interrompido há dez anos e, neste caso, o grupo divide-se. Enquanto João Paulo pede o regresso, Nuno Eiró acha que foi o tempo certo. E em relação a esta amizade, será que podemos continuar a vê-los sentados neste e noutros sofás por muito tempo? "Sim, certamente. A nossa amizade não é uma série que vai acabar", responde automaticamente João Moleira. João Paulo Rodrigues assegura: "Isto não são seasons", e Eiró intervém: "Embora tenhamos temporadas." "Sim, mas a verdade é que há muitos anos que não nos largamos", reforça o jornalista da SIC.

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