"'Depois do Adeus' vai ajudar a expurgar o passado"

A História de Portugal é feita de histórias. E são as histórias dos milhares que regressaram das ex-colónias que a série da RTP1 Depois do Adeus vai contar.

Novembro de 1975. Recém-saído de uma ditadura, o país vive meses tumultuosos. Aproxima-se a passos largos uma tentativa de golpe de Estado. Jacinto Sousa (Rodrigo Saraiva) e Camilo Rocha (António Raminhos) integram um grupo de civis que, colocados junto a uma barricada formada por militares, gritam palavras de ordem. "A reação não passará! A reação não passará!" Os comandos, de metralhadoras na mão, controlam a barricada. Estacionados em Monsanto, no coração de Lisboa, jipes e uma Chaimite.

Viajamos 37 anos no tempo e só nos apercebemos de que estamos em 2012 quando Pedro Lebre, assistente de realização da série da RTP1 Depois do Adeus (produzida pela SP Televisão), manda parar as gravações e as dezenas de figurantes, vestidos com roupas típicas da década de 1970, sacam dos telemóveis do bolso e registam o momento em que fizeram parte, ainda que na ficção, de um dos episódios mais turbulentos do Portugal que hoje conhecemos. António Raminhos e Rodrigo Saraiva trocam graçolas com Joaquim Nicolau que, agarrado a uma metralhadora, escuta atentamente os colegas. Rodrigo Saraiva aproveita para, com o seu telefone, registar o momento para a posteridade. Na sua estreia nas lides da ficção, Raminhos não poupa elogios à produção. "Está a ser feito um trabalho muito sério. Tivemos aulas de História com a mesma responsável pela investigação do Conta-me como Foi", explica. O humorista estabelece um paralelismo curioso entre os valores pelos quais a sua personagem luta e a realidade de 2012. "Quando nos pedem para termos a emoção que, supostamente, as pessoas sentiram naquela altura, a melhor comparação é com o fervor clubístico que há agora no futebol, que é uma coisa que não deveria existir."

Miguel Borges interpreta Manuel Machado, um ex-combatente ferido na guerra do ultramar, em Angola. O ator de 45 anos considera que "existe paralelismo" entre a insatisfação que se vivia no período pós-revolução, em 1975, e os dias que correm. "Esta história é muito importante e tem de ser bem contada. Tenho familiares que vieram de lá nesta situação, com uma mão à frente e outra atrás. Lembro-me de os meus pais receberem os meus tios e de eles não terem sítio para dormir sequer", explica o ator.

Atores recordam Verão Quente de 1975

"Esta série vai ajudar a expurgar este passado. Vai ser a primeira vez que se vai falar destes refugiados, de quem retornou", afirma José Carlos Garcia, protagonista da série. O ator dá vida a Álvaro Mendonça, um homem que se vê obrigado a abandonar Luanda com a família e a recomeçar a partir do nada, em Lisboa. Uma realidade muito cara ao ator que viveu na pele a dureza de abandonar a terra onde nasceu, Moçambique, para viver num país que não conhecia. "Vim de lá em 1976, com oito anos. A independência foi muito difícil. Passava-se fome, via-se gente morrer", conta José Carlos Garcia, que revela que a adaptação a Portugal também não foi fácil. "Fui discriminado na escola pelos professores. Os meus primeiros amigos foram um chinês e um surdo. Éramos os excluídos. Tinha uma professora que mais tarde percebi porque me tratava tão mal. Qualquer asneira que ocorresse na escola, a culpa era minha. Então mandava os alunos todos atrás de mim para me baterem", explica o ator, acrescentando: "Muito mais tarde percebi que essa professora tinha um filho que morreu na guerra do ultramar. E eu era o culpado disso. A série retrata muito este lado de não sermos compreendidos quando chegámos."

Embora não fosse nascido na altura, Rodrigo Saraiva tem presente os acontecimentos do pós-25 de abril, que lhe chegam através de relatos familiares. "Os meus pais têm um passado no jornalismo. Trabalhavam no Portugal Hoje, no A República e foram saneados", explica o ator de 29 anos, que alerta ainda para os resquícios que ficaram desse período. "Este tema é muito mais delicado do que parece. Passados 30 anos, andamos todos aqui a fingir que somos civilizados, mas a xenofobia continua a existir. Esse vínculo ao filho ingrato do país, que o abandona e vai à procura de oportunidades, é uma coisa que ainda está muito presente", conta o ator.

Depois do Adeus, que deverá estrear na RTP1 na rentrée televisiva, em setembro, envolve a participação de mais de 150 figurantes, nas cenas que recriam um dos momentos mais dramáticos da reconquista da democracia portuguesa.

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