Dalila Carmo: "Sou um bicho cheio de contradições"

Numa conversa intimista e pela mão da NTV, a atriz falou dos 21 anos de carreira, dos primeiros passos em Lisboa, das conquistas e dos sacrifícios a que a profissão obriga. De natureza nómada, apaixonada e inconformada, eis a mulher e a artista por detrás da doce Rita na novela O Beijo do Escorpião, da TVI.

Estamos à beira-rio. Fez desta entrevista um pretexto para matar saudades do Tejo?

[risos] Sempre que posso mato as saudades. Para mim, o Tejo é um dos grandes encantos desta cidade. É só vir um rasgo de sol que venho à rua. Foi muito difícil para mim levar com uma Lisboa cinzenta, sobretudo porque tive poucos tempos mortos.

Está mergulhada de corpo e alma na novela O Beijo do Escorpião, da TVI.

Sim, tem de ser. Estou com as minhas energias todas focadas na novela. Além das 12 horas que estamos de segunda a sexta-feira a gravar em estúdio, temos sempre trabalho. Tenho estado agarrada a textos, a trabalhar cenas, a ler episódios e a gravar. Portanto, sobra muito pouco tempo para o que quer quer seja.

Como é que tem feito a gestão do tempo quando nesta fase este, como diz, lhe foge?

Na maior parte das semanas, tenho de gravar entre 10 e 20 cenas por dia. Quando chego a casa, estudo. Normalmente, não janto, faço só uma refeição por dia porque quando janto não durmo a seguir, fico muito maldisposta. Tento não deixar muita coisa para estudar à noite, tenho problemas de sono. Se chego a casa muito cansada e tenho de estimular o cérebro para decorar textos, normalmente não durmo e fico com insónias. Sou capaz de ir fazer uma direta e ir gravar, e é muito penoso.

Isso aconteceu durante estas gravações?

Durmo mal, por isso, à medida que vou acumulando stresse, fico numa excitação maior. Chegam as folgas e não durmo. Já estou num ritmo de stresse tal que é difícil parar.

Ser protagonista é sem dúvida muito absorvente?

Gosto de fazer protagonistas, mas em novela é sempre mais doloroso.

Mas...

A novela é um trabalho mais longo, muito intenso e tem outro ritmo. Para mim, o trabalho mais difícil é o de protagonista de novela. Pode haver personagens muito difíceis de fazer em cinema ou teatro mas... Ainda me lembro de o assistente de realização do Florbela [filme que retrata a vida da poetisa Florbela Espanca] estar muito preocupado porque íamos gravar durante dois meses e eu entrava em todas as cenas. Bom, entre ter de filmar quatro cenas por dia ou, antes, 20 a 30 há uma diferença enorme. Uma novela é uma ginástica diária. [acelera o ritmo com que fala] O que é mais difícil para mim é não entrar no "modo fábrica". Embora novela e fábrica seja antítese de criatividade, tento nunca ligar o piloto automático e permitir-me descobrir coisas novas a cada cena. E é isso que desgasta. Sou muito exigente, acabo as cenas e fico a matutar no que podia ter feito melhor.

A experiência e os anos de carreira não a serenam?

Nada! Nada disso! [sobe o tom de voz ] Sou incapaz de passar por cima de uma cena, seja curta ou longa, pouco ou muito importante na história. Eu quero sempre encontrar uma justificação, uma intenção especial por detrás daquela passagem. E isso é uma chatice [risos]! Aliás, até os meus colegas perguntam: "Mas o que é que ela está a fazer?"

É muito exigente consigo própria? Gostava de ser menos?

Não, não gostava. Gostava de dormir melhor. Mas de ser menos exigente e ter menos criatividade? Não. Para mim, o trabalho do ator é o das subjetividades. A minha função é preencher os textos e as situações de vida.

Como foi humanizar e criar a personagem Rita Macieira, uma empresária que é muito apegada à família?

O lado mais difícil foi dar forma ao lado visionário e empreendedor que ela tem. A Rita é muito dinâmica e é uma pessoa que percebe de negócios e tecnologias. Para mim, tudo isso é estranhíssimo [gargalhadas]! Este mundo do business aliado à parte tecnológica é chinês!

Não é atenta às novas tecnologias, fã de gadgets?

Nada! Tive de me informar sobre várias coisas que não sabia. Tive de aprender, por exemplo, o que é um banner [publicidade usada na internet], um template [modelo de documento] ou uma aplicação. Na novela tenho de vender isto como se eu fosse uma entendida. Agora já sei [risos]!

Ainda resiste aos smarthphones?

Até há dois anos tinha um telemóvel muito velhinho, depois troquei-o. Não dava para tirar fotografias nem para fazer nada. Agora tenho um iPhone.

Portanto, quando leu a sinopse da personagem ficou assustada...

Não, nada. As dificuldades vão surgindo à medida que os episódios vão aparecendo. Mas eu só me assusto quando penso que não vou ter tempo para trabalhar uma cena.

Foi fácil a TVI convencê-la a fazer uma nova novela? O Beijo do Escorpião marca o seu regresso à ficção da estação, onde fez novelas desde 1999. A última que fez foi Sedução, em 2010.

Não foi muito fácil, não. Foi sendo falado. Felizmente, tenho uma pessoa que é minha amiga e faz de interlocutor. É muito complicado para mim falar destas coisas e eu, normalmente, tenho sempre tendência para dizer que não.

Porque começou por dizer que não?

Na altura, eu estava a fazer a série da RTP Os Filhos do Rock e uma peça de teatro, e já tinha a minha vida alinhavada para ir viajar durante três meses. Tive de adiar. Sabe, eu preciso de arejar e de ver mundo. Não tinha a cabeça preparada para isto. Antes de uma novela uma pessoa tem de se mentalizar para aquilo que vai.

Tem?

Acaba por ser quase um ano da minha vida em que todos os dias vou de casa para Bucelas e de Bucelas para casa, e fico literalmente um bicho. A pressão que está em cima dos atores de uma novela é tão grande que eu fico muito... Preciso de respirar. Sufoca-me sentir-me oprimida, sufoca-me a pressão. Não gosto de ter pressa constantemente para as coisas. Há pessoas que se sentem mais dinâmicas quando fazem 30 coisas por dia, mas eu gosto de fazer a gestão das prioridades. E em televisão há muita gente em roda de nós, desde o momento em que chegamos a estúdio.

A avaliar pelo que diz, parece-me que fazer televisão para si é algo antinatura. É?

É, sim. O corpo, a criatividade, a cabeça anda na direção contrária. É preciso fazer um esforço para manter a máquina oleada. Não gosto de me sentir apertada.

Desde o início da nossa conversa falou de alguns "fantasmas" que a atormentam quando faz televisão e novelas. O que a levou, então, a abraçar O Beijo do Escorpião?

Ao mesmo tempo, tudo isto também é uma grande escola. Aqui, trabalha-se a sério. Estamos constantemente em alerta, a descobrir novas ferramentas de trabalho, é um trabalho legítimo e válido. Acho que é contra-natura, mas não o subestimo. Comecei a fazer televisão há 16 ou 17 anos e às tantas eu própria ressaco se estou longe disto. Tinha saudades, mas quando chego ao segundo ou terceiro mês de gravações preferia que o trabalho terminasse [sorriso tímido]. Eu chego a estar noutros trabalhos e a achar que não estou a trabalhar por não ter o ritmo que a televisão exige. Isto é uma adrenalina, não pode é ser vivida todos os anos, mas de vez em quando é bom.

O que a atraiu no projeto?

Atraiu-me poder trabalhar com o argumentista António Barreira, com quem nunca tinha trabalhado, seduziu-me o elenco, nomeadamente conhecer a Sara [Matos], que dizia que queria trabalhar comigo. Acho-a supertalentosa.

"Os nossos valores de audiência são muitíssimo bons"

A novela liderou na estreia [em fevereiro] e viu nos meses seguintes o número médio de espectadores subir. Porém, não conseguiu fixar-se no primeiro lugar. Sol de Inverno, da SIC, é a novela mais vista pelos portugueses. É atenta às audiências? Como vê estes resultados?

Sim, é verdade, mas subiu e estabilizou. Fui atenta às audiências no princípio da novela para saber como é que estava a correr, mas depois deixei de querer saber. Mas há coisas que são completamente justificáveis. Se há uma outra novela em antena que já fidelizou espectadores... Se eu estivesse a ver uma outra novela, por que carga de água é que deixava de a ver e ia começar a seguir outra? Acho que os nossos valores de audiência são muitíssimo bons. Há coisas que não têm nada que ver connosco nem com o nosso trabalho. Tem que ver com estratégias de marketing e coisas que não são competências minhas. Tenho de me preocupar com o meu trabalho e, como me dizia há pouco, em estar ali de corpo e alma.

Mas as audiências de uma novela são o pulsar do público...

Acho importante que os três canais não se deixem dormir e que percebam que o público está cansado de ver um certo número de coisas. Há muita coisa que nós temos de melhorar e acho importante que os canais não percam isso de vista. Mas é óbvio que nestas situações toda a gente quer arranjar um bode expiatório! Eu não me sinto o bode expiatório [risos]! Arranjar sempre um culpado é uma coisa tipicamente portuguesa.

Já espreitou a novela Sol de Inverno?

Já, mas não sigo e não vou comentar porque há muita gente de quem eu sou amiga e que está envolvida na novela [risos].

Mais uma razão para estar à vontade para falar [risos]...

Não vou comentar as coisas da concorrência por mais que goste de certas pessoas que lá estão, como é o caso da Gabriela Sobral e da Patrícia Sequeira. Gosto muito delas. Aliás, só me preocupei mais com as audiências para as irritar [risos]! Na realidade, não estou nada preocupada. Mas para as enervar mandei-lhes umas bocas: "Vão levar uma tareia!" Enfim, temos é de ser desportistas, desportivismo acima de tudo [sorriso].

Se é tão acarinhada na SIC, imagino que faltou pouco para a vermos ao lado de Rita Blanco e Maria João Luís em Sol de Inverno?

Eu tinha acabado a série da RTP Sinais de Vida e, na altura, a Patrícia Sequeira estava a coordenar o projeto... Foram 80 episódios em menos de três meses, disse tchau e fui para a Malásia. Não havia hipótese, e disse à Patrícia: "Não quero saber, vou-me embora." Eu estava a morrer quando acabei aquilo. Estava mesmo cansada e para mim entrar numa novela a seguir era mortal.

Portanto, a SIC piscou-lhe o olho?

[gargalhadas enquanto se ajeita na cadeira] Não há aqui... Ouça, nós somos muito transparentes. E a Gabriela Sobral é muito minha amiga e ela conhece-me. Acho que a gente consegue comunicar...

Ela é sua amiga, mas já deu provas de que é felina na hora de roubar estrelas a outros canais.

Sim, ela é felina. Mas ela sabe bem qual é a consequência de me porem contrariada numa coisa. Eles fizeram-me ir ao Vale Tudo e eu senti-me tão mal lá... Aquilo não é a minha cara. E a Gabi [Gabriela Sobral] disse: "Mas porque é que eu te fui ligar?" Também era assim quando a Gabi ainda estava na TVI e me pedia para ir às festas do Algarve... isso sempre foi um sofrimento para mim. Ela sabe que há certas coisas que para mim não dá.

Mas vai querer levá-la para a SIC.

Não... Não existe isso. Eu estou na TVI. Não tenho isso... Não há piscadelas de olho de parte a parte, não há tentar sacar mais. Isso não existe na minha vida. Lá está, eu não sou empresária. Perco imenso, vivo com menos dinheiro do que outros colegas meus, mas sou feliz assim. Tenho um plano de vida bastante equilibrado. Não sou uma pessoa de grandes exageros e extravagâncias, mas para mim a liberdade é algo que prezo. Um ator não é um funcionário público. Há coisas que me prejudicam, mas só consigo ser atriz se for espectadora, se vir outras coisas e conseguir respirar.

Voltemos à TVI, onde cresceu. Como explica que a TVI tenha perdido a hegemonia nesta área?

Não vou responder a isso.

Sente que existe algum tipo de tensão entre autores e atores em conseguir-se resultados de audiência mais sólidos?

Não sei. Não sinto preocupação entre os atores. Na Plural [Entertainment] sente-se preocupação, mas não sei se tem que ver com as audiências. Vive-se a tensão de manter o lugar de trabalho, isso acho que se vê. Com a crise, vamos passando por reformulações de estruturas e isso cria preocupações nas pessoas que trabalham. Quanto à ficção, dou um exemplo: a minha personagem, a Rita, quer que o shopping seja inovador aqui e ali e, na verdade, nós temos de ser inovadores também. Não sei qual é a preocupação dos outros, a minha é essa.

Acha que a TVI tem de inovar nas novelas?

Tem de se inovar sempre e em tudo [faz uma pausa e reflete]. A novela é uma linguagem que facilmente fica gasta, é um produto que é muito mastigado, não é só ao nível dos conteúdos mas também da forma. É importante que as coisas sejam bonitas, que haja um bom trabalho de direção de arte. As coisas têm de ser apelativas e verdadeiras.

Mas não o são?

Não me peça julgamentos. Não me ponha nessa situação. Eu estou só a dizer que temos de inovar. É isso. Temos que inovar. Toda a gente tem de ter essa responsabilidade e a competência daquilo que está a fazer, e querer fazer com o máximo de brio e paixão.

Faz novelas por dinheiro?

Também. Não só mas também.

E televisão?

Depende do projeto. Veja, se eu trabalhasse só por dinheiro tinha aceitado tudo o que me tinham proposto. Eu vou fazendo a gestão, agora consigo viver com isto. Isto que ganho aqui vai ter de me dar para estes meses... Não sou gulosa nem gananciosa, não aceito tudo. Há várias aliciantes. Vou contar-lhe uma história para se contextualizar no universo da minha pessoa...

Estou a ouvi-la...

Cheguei a Lisboa em 1993, não tinha casa nem carro. O primeiro trabalho que me apareceu foi para ser apresentadora do Clube Disney [RTP] durante quatro anos. Eu estava a viver numa pensão no Intendente e podia ter dito que sim, pois era muito bem pago e ia ter um grande contrato. E, diga-se, para uma miúda de 18 anos, que tinha acabado de chegar do Porto, era muito bom. Mas pensei: "Eu vou ter branca de neve escrito na testa durante quatro anos, sem poder fazer mais nada?" Recusei o convite e fui fazer teatro de rua. Está a perceber? O meu critério sempre foi este. Montei um grupo com dois professores do Chapitô e fui fazer animações na rua, e ganhava um quinto do que iria ganhar se fosse apresentadora do Clube Disney! Eu sempre fui assim, e 20 anos depois continuo a pensar da mesma maneira. É só isso.

Foram tempos difíceis?

Foram muito difíceis.

Do que se recorda? Houve muita luta para conseguir ser atriz?

Sim, houve, mas eu tinha a certeza de que queria ser atriz e iria chegar lá. Levei com imensas "portas" e foi complicado. E tive até, inclusivamente, trabalhos que estavam certos e que não chegaram a acontecer comigo mas com outras pessoas. Houve muita coisa que não aconteceu e eu mantive-me sempre coerente. Não quero perder nunca o objetivo que me trouxe para esta profissão.

E qual foi?

Poder criar, fazer coisas bonitas. É a única coisa que me interessa.

Soma êxitos em televisão, teatro e em cinema. Qual é o balanço que faz da sua carreira?

Eu acabei o curso de teatro em 1993 e, por isso, já tenho 21 anos de carreira. O balanço é bom e incompleto porque tudo na vida é incompleto. Se calhar, quando morrer vou sentir que não fiz tudo o que queria e que poderia ter feito mais coisas, mas estou contente com a trajetória. Estou contente porque acima de tudo acho que tenho chão e uma base que é minimamente sólida. E gosto que as pessoas me respeitem e respeitem o meu trabalho.

É a atriz que um dia esperou ser?

Não sei... [faz pausa longa e reflete]. Sempre fui muito inconformada. Nunca cheguei onde queria porque estou sempre a querer mais e porque estou sempre numa eterna insatisfação e eterna inquietação, numa procura.

Qual é a próxima meta?

[silêncio] Estou sempre à espera dos textos e dos projetos ideais. Pode ser no teatro, em cinema ou televisão. Eu gosto de acreditar na magia. O que me trouxe para esta profissão foi essa magia. Por exemplo, uma pessoa que me vai surpreender até morrer é a atriz norte-americana Meryl Streep. Pergunto-me como é que ela aos 63 anos ainda trabalha como se quisesse provar a toda a gente do que é capaz. Nada nela se acomodou.

Esteve desde 2009 até 2013 a viver entre Lisboa e Espanha. Qual é a sua atual relação com o país de nuestros hermanos? Ainda está a apostar nesse mercado?

Enquanto lá estive tentei fazer coisas. Mas no caso de Espanha é muito complicado. A maioria dos países, tirando os EUA, praticam uma política muito chauvinista, em quer primeiro se aposta nas pessoas de casa e só depois nas que chegam de fora. Posso fazer um projeto ou outro pontualmente, isso tudo bem. Não penso estabelecer-me lá fora.

Viveu em Madrid, pois era casada com o empresário Vasco Machado. O fim da relação mudou-a como atriz?

Não. E não vou falar da minha vida pessoal.

Quem é que se esconde atrás da atriz de sorriso enorme?

Ui! [sorriso atrapalhado] Para lhe responder a isso tínhamos de ficar aqui mais não sei quantas horas! Esconde-se um bicho [risos]. Eu sou um bocado bicho.

Define-se como bicho-do-mato?

Olhe, é do mato sem ser do mato! [risos] Depende. É bicho. Sou uma pessoa bastante complexa, eu acho. É muito difícil resumir-me, ou resumirem-me a uma coisa só porque estou cheia de contradições.

Já Fernando Pessoa escrevia sobre a dor de pensar...

Pois. Ele e a Florbela [Espanca] tinham ali muitas coisas. Mas é isso...

Ainda não me contou nada sobre si...

Já, já! [risos] Disse-lhe que sou um bicho cheio de contradições. Ainda não perdi certas frescuras e ainda não perdi certos sonhos. Ou já perdi certos sonhos?! Está a ver como sou contraditória? Estava agora a pensar nesta coisa se ainda sonho ou não. Por acaso, acho que não sonho muito. Aliás, sonho, mas não sou deslumbrada.

Tem 39 anos. Quais são os seus maiores sonhos?

[responde com prontidão] Era que se descobrisse a cura para o fim. Para não haver fim.

Tem medo da morte?

A morte assusta-me imenso. As pessoas ligadas à ciência acham sempre muito bonito, mas a mim não me convencem [risos]! Assusta-me os vários tipos de morte das pessoas.

Como lida com o avançar da idade?

Sempre tive um bocadinho de obsessão com a velocidade do tempo, sempre olhei muito para a frente e para trás. É-me muito difícil estar única e exclusivamente no presente. Representar é uma das coisas que mais me trazem à terra. Sempre que não estou em personagem, estou a patinar no tempo. Sempre me disseram: "Acorda!". Eu estou sempre longe e noutra frequência.

Gostava de ser mais pés na terra?

Sim, gostava. Ou não sei se gostava. Eu sou assim. Mas não me peça para me definir porque eu não me sei definir muito bem. Quando gosto, gosto muito das pessoas. Tenho uma natureza nómada. Não me importava nada de passar a vida a viajar.

Já visitou muitos países...

Sim, conheço 50. Não são muitos quando comparados com os que o mundo tem [risos].

A mala de viagem já está feita? Vai seguir para que destino?

Ainda está a ser alinhavado. Eventualmente, vou andar pela América do Sul. Queria celebrar os meus 40 anos no deserto de sal da Bolívia. Eu adoro aquela paisagem lunar, imagino-me no meio daquele branco infinito no dia dos meus 40 anos. Isto é, se eu não estiver a gravar.

Está a deixar um recado à TVI?

[sorriso rasgado] No dia 24 de agosto quero estar no deserto de sal da Bolívia!

"Não me custa trabalhar como freelancer"

O antigo diretor-geral da TVI José Eduardo Moniz está de volta à empresa como consultor para a área da ficção. Como vê este regresso?

Eu gosto muito dele. Aliás, eu fui para a TVI por causa dele. Não há como não lhe estar eternamente agradecida. Ele é um visionário.

Tal como aconteceu no passado, Moniz volta a ter à sua responsabilidade a supervisão de textos e a escolha de elencos. Acha importante que Eduardo Moniz tenha estas funções?

Acho que é muito bom. Ele é um homem de televisão e de negócios. Eu sou pelas mudanças, não sou uma pessoa nada reacionária. Ele fez imenso pela ficção e por imensa gente. É uma pessoa muito sensível e visionária em relação ao produto.

Participou em novelas como Todo o Tempo do Mundo, Jardins Proibidos, Filha do Mar, entre outras. O que identifica de diferenciador ao nível da produção das novelas da TVI antes e depois da saída de Moniz, a 5 de agosto de 2009?

Existem pessoas na TVI que têm cuidado connosco e se preocupam em que andemos bem. O Moniz era um pai, é diferente. Eu senti-me sempre muito mimada e muito querida. Até hoje, ele é um amigo e acompanha o meu trabalho independentemente do canal onde eu esteja.

Uma das principais bandeiras de Moniz era oferecer contratos de exclusividade aos atores. A TVI deve reinvestir neste modelo de contratação?

Existem lógicas de mercado e que têm que ver com questões económicas. A mim, como atriz, não me custa trabalhar como freelancer. É óbvio que é muito mais inconstante, perigoso e sentimo-nos mais desprotegidos do ponto de vista económico. Por outro lado, artisticamente dá-nos uma liberdade maior. O Moniz fazia-o para, em primeiro lugar, salvaguardar a imagem do canal e, em segundo, acredito, para nos dar uma retaguarda económica. Ele sempre se incomodou com a forma precária como vivíamos. Contabilizadas as despesas, não sei o que é que dá mais lucro a um canal.

Se a TVI, agora com Moniz como responsável pela ficção, lhe oferecer um contrato de exclusividade assina?

As coisas não são lineares. Teriam de ser negociadas outras condições, a possibilidade de poder escolher o projeto em que quero entrar, poder não o aceitar. Eu não sei se um contrato de exclusividade neste momento seria compatível com a vida que quero. Já perdi projetos no cinema e no teatro por não poder conciliar. Conheço atores que morriam para ter um contrato de exclusividade, mas eu não. Por exemplo, pude preparar-me durante um ano para o Florbela e viver tudo aquilo em estado de graça.

Encarnar essa poetisa foi o seu grande amor como atriz?

Foi um amor. Ainda me lembro da cena da neve em que eu estava no chão... Durante as gravações vinham dizer-me: "Sofreste muito!" Não, não sofri nada. Eu estava muito feliz.

AGRADECIMENTOS: Comida/Mercearia Delidelux, em Lisboa

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