A nova Terra Prometida da TV

A competitividade entre as produtoras e os canais de televisão israelitas tem gerado um processo de criatividade constante que, por sua vez, tem conquistado o mercado internacional. Responsáveis pela programação da RTP, SIC e TVI explicam porque se deixaram cativar.

Em março de 2012, durante uma visita aos estúdios da Dreamworks em Los Angeles, nos EUA, o presidente israelita recordou o "sonho americano" como uma das maiores influências mundiais. Nessa altura, Shimon Peres anunciou: "Nós queremos o sonho israelita." Olhando agora para a indústria televisiva do país, este desejo parece estar cada vez mais perto de se tornar real, ou não fosse Israel um dos cinco países que mais formatos de TV exporta. Só este ano em Portugal, e além de Desafio Total, em exibição na RTP1, vão estrear-se Power Couple, na SIC, e Rising Star, na TVI. O que têm, então, os novos programas originais da Terra Prometida para conseguirem cativar programadores - e espectadores - além fronteiras? A resposta assenta em dois princípios: criatividade e financiamento.

"Israel é a nova Holanda em termos de criatividade"

Luís Proença, Diretor de Antena e Gestão de Programação da SIC, salienta à Notícias TV que a criatividade é um dos motores do sucesso no que toca à venda de formatos israelitas de entretenimento. Uma criatividade que vem na sequência da competitividade existente na TV do país.

"O canal mais visto em Israel [o Channel 2] é dividido entre duas empresas - a Keshet e a Reshet. Ou seja, na mesma frequência, a Keshet emite X dias por semana e a Reshet os restantes", começa por explicar à nossa revista. "Por via desta lógica vulcânica em que o seu mercado funciona, os israelitas tem uma criatividade muito assertiva a vigorar. Israel é a nova Holanda em termos de criatividade", frisa Luís Proença, adiantando que a compra de Power Couple, que a estação de Carnaxide comprou no início de abril à israelita Dori Media Group no MIPTV, não tem que ver com este fenómeno: "Foi coincidência ser israelita. A Dori Media apresentou-nos o formato e nós entendemos que, do ponto de vista da programação da SIC, era o que fazia sentido. Ser israelita é pura coincidência".

A criatividade dos "inventores" de formatos é, em parte, estimulada pela lei que obriga a que 50% da programação dos canais abertos seja produzida internamente, ao passo que no cabo e via satélite a obrigatoriedade é de 8%. "O mercado israelita é muito criativo", disse Avi Armoza, CEO da Armoza Formats (criadora de Desafio Total), que só no ano passado fechou 135 negócios internacionais relacionados com 37 dos seus programas. "Há várias razões para a procura de programas israelitas de televisão. Uma delas está relacionada com a nossa vivência e a nossa cultura, que nos permite viver confortavelmente quando arriscamos e temos incertezas", disse Armoza ao site Israel21c. Um testemunho confirmado por Bruno Santos, Diretor de Programas da TVI. "Os israelitas são trabalhadores natos, conseguem viver num deserto rodeados de inimigos por todos os lados, e exercitaram ao longo de muito tempo a sua criatividade. Israel é um país pequeno, é o único lugar do mundo onde se fala hebraico, e mesmo assim conseguiram expandir-se mundialmente no que diz respeito à televisão. Esta é criativa há já muito tempo, mas só agora é que está a explodir", disse o responsável pela programação do canal de Queluz de Baixo, que no domingo estreia Rising Star, programa que poderá tornar-se o formato que mais rapidamente se vendeu pelos quatro cantos do mundo.

Fazer muito com pouco

Uma segunda razão apontada por Avi Armoza para o sucesso tem que ver com o hábito dos criativos de Israel em "fazer muito com pouco". "Ganhámos a experiência e o conhecimento suficiente sobre como produzir espetáculos de baixo custo que têm a aparência de produções de grande orçamento, tornando-os mais acessíveis e atraentes para outros territórios ", referiu o CEO da Armoza Formats.

Uma situação que a organização israelita Rubicon Business Group (RBG) quer alterar, tendo para isso anunciado recentemente a criação do TV Format Fund (TVFF), um fundo financeiro para apoiar e desenvolver formatos televisivos para serem exportados para o resto do mundo. À cabeça, a RBG coloca à disposição 50 milhões de dólares para ajudar produtoras e canais a concentrem-se na criatividade, poupando-os à ginástica mental que envolve a gestão dos orçamentos. "Israel tem um impulso empreendedor e enorme criatividade em todos os campos. Nos últimos anos, esses recursos têm sido expressas em produções originais e exportação de formatos", reconheceu Alon Dolev, um dos fundadores do TVFF. "A indústria de formatos de Israel ainda está na sua infância e eu acredito que, com os orçamentos certos e oa gestão correta, será possível alcançar muitos mais sucessos", avançou.

Hugo Andrade, diretor de Programas da RTP1, também admite que o mercado televisivo israelita é "extremamente atrativo". "Nós trabalhamos com os israelitas há vários anos e reconheço que é um mercado extremamente atrativo, por várias razões. Além da criatividade que têm por excelência, o país é tecnologicamente um dos mais avançados do mundo. Além disso, quando esta crise económica se acentuou em Portugal, houve a necessidade de ir ao encontro de produtoras com conteúdos interessantes, mas mais baratos, e Israel oferece isso", constata Hugo Andrade, salientando ainda o facto de a "indústria em Israel estar pensada com o envolvimento de todas as áreas". "Para dar uma ideia de como eles estão empenhados e envolvidos, a RTP foi convidada para estar presente, em junho, em Jerusalém para um encontro que visa dar a conhecer ao resto do mundo a indústria criativa do país e de desenvolvimento de conteúdos. É um encontro que contará com as presenças do presidente de Israel [Shimon Peres], do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente da câmara de Jerusalém", exemplificou.

Rui Ávila, diretor da Shine Ibéria, que produz para a RTP1 o formato israelita Sabe ou não Sabe, aponta ainda a "emoção" que os israelitas põem nos seus programas. "É um povo muito sofrido, muito emocional. Os israelitas são sobreviventes e acho que transportam essa carga para os seus conteúdos, o que os diferencia em relação a outros produtores. Não se preocupam apenas com o lado técnico e a maneira como os programas são servidos, mas do ponto de vista de conteúdo as emoções são levadas ao rubro", disse à Notícias TV.

É por isso que "nas últimas quatro feiras internacionais os formatos que a Shine Ibéria adquiriu para ficar com os direitos de produção em Portugal são todos israelitas", rematou Rui Ávila, sem querer adiantar mais pormenores.

Há sempre um mas...

Apesar do êxito além-fronteiras, os programas originais de Israel também podem apresentar problemas. E o maior deles todos é o facto de não serem testados. Foi o caso de Sabe ou Não Sabe, que quando chegou à RTP1 só tinha sido transmitido em Espanha, de Desafio Total, que tem em Portugal a sua estreia fora de Israel, de Rising Star, que ao nosso país emite apenas depois do Brasil. "A maioria das produtoras de conteúdos em Israel são também donas de canais televisivos. Portanto, escolhem cirurgicamente um horário e um dia sem grande concorrência para fazer a grande estreia. Depois, anunciam ao mundo como o novo programa fez X de audiência", explicou Rui Ávila.

Também Luís Proença também refere que "o que está a acontecer é que os israelitas estão a oferecer muito, mas pouco testado". "Os programadores estão à procura de respostas para como dar o salto do first screen only para o second screen. É um salto com receios, com cuidados, e o que se pretende é que um impacto da existência de um second screen não prejudique a experiência de um espectador que pertença à geração exclusiva do first screen. A questão aqui é apenas a da sustentabilidade dos formatos", admite o diretor de programas da estação de Carnaxide.

Sobre a estreia de Rising Star, Bruno Santos argumenta que "a TVI ficou muito tempo para ter um talent show em antena". "Fazemo-lo agora porque o programa é uma espécie de coqueluche em todo o mundo. É um caso único, um fenómeno, uma vez que tinha sido emitido apenas em Israel e, de repente, foi vendido para todo o mundo."

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