A liberdade também passou por aqui

Nos últimos 40 anos, a ficção ficou também marcada pelas séries que testaram os limites da liberdade de expressão. Sexo e a Cidade, L World e Californication, a lista é longa...

Há 40 anos, só podia ser uma utopia. Asneiras repetidas 162 vezes num só episódio, quatro mulheres a falar de sexo sem tabus, um casal gay a adotar uma criança e cenas quentes entre um grupo de amigas homossexuais e bissexuais, nada disto tinha lugar na caixinha mágica. A revolução também passou pelo pequeno ecrã e a verdade é que depois do 25 de Abril a liberdade de expressão, de pensamento, saltou para a ficção.

Controvérsia atrás de controvérsia. Têm sido assim as 17 temporadas de South Park, série de animação que se estreou em 1997 e continua até hoje a testar os limites da liberdade na TV. Religião, sexualidade, racismo, dependência de álcool e drogas são alguns dos temas constantemente escrutinados no formato norte-americano, que até já viu o seu merchandising ser proibido nas escolas.

A linguagem sarcástica e "afiada" da série, que já bateu um recorde de asneiras por episódio, ao reproduzir a palavra "merda" 162 vezes em 22 minutos, levou o Parents Television Council (entidade reguladora para a programação televisiva infantil daquele país) a considerar South Park "um perigo para a sociedade". As consequências não tardaram a chegar e quem "sofreu" foi o merchandising. Várias escolas norte-americanas proibiram os alunos de utilizar T-shirts e outros produtos relativos ao programa de televisão, em que as personagens utilizam termos homossexuais pejorativos e os judeus são altamente estereotipados.

Ainda na animação, quem consegue esquecer a imaturidade de Beavis & Butthead, uma dupla de adolescentes em fase pós-puberdade, na MTV, nos anos 1990? Os jovens, que chegaram à TV norte-americana em 1993 e despediram-se dos espectadores cinco anos depois, transformaram o formato numa série de culto, cujo regresso à caixinha mágica foi fortemente aguardado pelos fãs. O desejo tornou-se realidade em 2011 e os episódios puseram milhões de espectadores agarrados ao ecrã, nos Estados Unidos. Simpson, Futuruma, American Dad e The Clevend Show foram algumas das animações para adultos que esticaram os limites da liberdade de expressão no ecrã.

Também em The Cosby Show, o obstetra Heathcliff e a numerosa família continuaram a combater ideias preconcebidas, mas noutra área. O formato, que retratava o dia-a-dia de uma família negra, conquistou o público em 1984 por quebrar preconceitos, mas recebeu críticas por alegadamente mostrar que os afro-americanos não eram vítimas de discriminação, nos Estados Unidos.

Sexualidade sem tabus na TV

É incontornável: Se há na sexo na TV... há cidade. Protagonizada por um grupo de amigas, Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha, a série do final dos anos 1990 pôs o sexo nas bocas do mundo. Sem preconceitos e hesitações, o grupo de mulheres revolucionou a forma como o feminino era retratado no pequeno ecrã e fez esquecer a palavra "tabu". Atrevida e confiante, a personagem Samantha protagonizou algumas das cenas mais quentes da ficção televisiva, ao longo das seis temporadas e dos dois spin-offs para cinema. E o precedente estava lançado. Desperate Housewives, Cashmere Mafia, Lipstick Jugle e Girls continuaram a explorar o sexo, sob o ponto de vista feminino.

Em 2004, outro grupo de amigas surgia na ficção, com um formato nunca visto. Era L World, série que retratava as mudanças na vida de Jenny Kirshner, uma aspirante a escritora que se muda para Los Angeles com o namorado, vendo-se envolvida num círculo de amigas lésbicas e bissexuais, que a despertam e incentivam a explorar a sua sexualidade. Produzida pela Showtime, a trama, que queria "quebrar estereótipos", manteve-se em antena durante quatro anos, de 2004 a 2008, sendo depois cancelada.

Já no masculino, Hank Moody podia ser sinónimo de sexo, álcool e drogas. A personagem que começou a quebrar corações na aclamada série Californication, em 2007, trouxe para o ecrã a normalidade das "relações abertas". Mas este "quebra-tabus" não agradou a todos. Ainda antes de o formato se estrear na Nova Zelândia, nesse mesmo ano, a associação Family First pedia o seu boicote, tal como a Igreja Católica, no mesmo país, que chegou a apelidar o programa de "diabólico". As cenas explícitas de sexo - entre as quais uma que envolvia violação e abuso e, outra, que mostrava uma freira a ter relações sexuais, em frente da estátua da crucificação de Cristo - levaram a associação a pronunciar-se publicamente sobre Californication e a criticar o órgão regulador. "O Broadcasting Standards Authority e o Censorship Board [entidade reguladora do país] falharam tristemente na proteção da comunidade e das crianças deste tipo de pornografia ofensiva", reiterou na altura o porta-voz. Mas o formato foi emitido e continua a sê-lo até hoje, com a sexta temporada a estrear-se em janeiro passado. Como se defenderia Hank com o seu humor mordaz: "Provavelmente não ficarei na história, mas ficarei com a tua irmã."

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