A escola que educou o povo

Os professores estavam dentro da televisão e os alunos aprendiam à distância. A Telescola foi, para quem vivia longe das grandes cidades, a única oportunidade de continuar a estudar. Mas todos podiam espreitar a sala de aula...

Maria de Almeida tinha dez anos e estava prestes a concluir a 4ª classe quando, um dia, ao jantar, disse aos pais que queria continuar a estudar para ser professora, veterinária ou arquiteta. Vasco e Luísa trocaram um olhar e fizeram contas de cabeça. Os escassos recursos financeiros não lhes permitiam pagar um alojamento na cidade mais próxima para a filha estudar no liceu. Mas também não queriam "cortar-lhe as pernas" e procuraram ajuda junto da professora de Maria, que lhes falou do posto da Telescola que funcionava na aldeia vizinha, a três quilómetros, o que não era um problema porque o autocarro da hora do almoço, que regressava ao final da tarde, permitia frequentar as aulas.

Como Maria também Ana, Isabel, João, António e tantos outros pré-adolescente frequentaram o 5º e o 6º anos do Ciclo Preparatório TV, mais conhecido como Telescola, que arrancou em Portugal a 6 de janeiro de 1965. "Se não fosse a Telescola muitas crianças do interior do País tinham ficado pela 4ª classe", realça Manuel Pinheiro, de 67 anos, que foi o último diretor deste sistema de ensino à distância, entre 1985 e 2000, acrescentando que "as aulas em direto na televisão foi uma estrutura que assegurou 30% da população escolar nacional e que nasceu numa certa época de pobreza em Portugal".

As "lições", como prefere dizer, eram emitidas em direto do único estúdio do Centro de Produção do Porto, no Monte da Virgem, entre as 13.30 e as 18.00. Manuel Pinheiro recorda que "tinham a duração de 15 minutos e os professores ou monitores tinham manuais, previamente preparados, tal como os testes de avaliação, por uma equipa de docentes, antes de cada ano escolar".

Terminada a aula na TV, a mesma continuava na rede de postos de Telescola no Continente, nas regiões autónomas da Madeiras e Açores, bem como em São Tomé e Príncipe, na década de 1970. "Em cada posto havia pelo menos duas turmas, uma do 5º e outra do 6º ano, mas em alguns postos o número de turmas era superior, em alguns casos de dez. Os dois professores, em todo o tempo da Telescola tivemos 3800, que estavam nos postos, um de Ciências e outro de Letras, prosseguiam depois com as aulas, já que tinham livros adaptados às emissões e os alunos recebiam, gratuitamente, os manuais no primeiro dia de aulas." Os postos do Ciclo Preparatório TV funcionavam nas escolas primárias e depois do 25 de Abril de 1974, com substancial aumento de alunos, em pavilhões prefabricados. "Quase todos eles montados em recintos pertencentes a escolas primárias ou, em outros casos, em espaços que as juntas de freguesias ou as câmaras municipais consideravam ser os mais apropriados."

Manuel Pinheiro revela que o "pico" do Ciclo Preparatório TV foi nos anos 80 "com 1400 postos da Telescola e uma média de alunos que andaria nos 40 mil". A taxa de sucesso dos alunos do ensino à distância "era muito boa e até superior à do ensino direto", garante, dizendo que a fasquia "atingia os 90%" e que "era uma alavanca para continuar os estudos".

Mas não eram apenas os adolescentes e os jovens que tinham acesso à Telescola. Em casa ou em qualquer lugar, bastava ter uma "caixinha mágica" para assistir às aulas de Matemática, História, Português, Francês e outras. "Muitos adultos seguiam as lições. As donas de casa, os militares da Guarda Fiscal e da Guarda Nacional Republicana, por exemplo, aprendiam pela TV e depois propunham-se a exame", conta.

Vidrada nas aulas de Português

Fátima Araújo, de 38 anos, pivô da RTP, frequentou a Escola Preparatória e Secundária de Santa Maria da Feira, mas passou muitas tardes em frente à televisão a ver a Telescola. "Ficava vidrada na aulas de Português, em particular, mas não achava graça nenhuma às aulas de Matemática", recorda a jornalista, que tinha uma prima e uma vizinha, que essas, sim, frequentavam o Ciclo Preparatório TV.

"Eu via por ser muito curiosa e ficava atenta", revela Fátima Araújo. Porém, as primeiras vezes em que se sentou em frente ao pequeno ecrã para ver as aulas, reconhece que "achava estranho" o ensino à distância por "não ter um professor à minha frente e os colegas ao lado".

Mesmo que quisesse assistir a outros programas na TV, depois de regressar da escola, não podia porque a Telescola preenchia toda a tarde de segunda a sexta-feira. "Não havia mais nada para ver, como também não tinha Barbies ou PlayStation, ficava a assistir ou, então, ia para a rua jogar ao berlinde", diz a pivô da RTP.

Cortar na lição para dar o Benfica

Manuel Pinheiro, enquanto diretor do Ciclo Preparatório TV, teve algumas vezes que encurtar as aulas por causa do futebol. "Quando dava um jogo do Benfica, com prejuízo das aulas, tinha de diminuir algumas lições."

Até 1977 a Telescola era em direto, mas depois passou a ser em diferido, recorda Jorge Barreira, que iniciou a carreira de operador de imagem precisamente no Ciclo Preparatório TV. "As aulas eram gravadas num edifício em Vila Nova de Gaia, alugado pelo Ministério da Educação."

Com a gravação das lições evitavam-se "os percalços", que, por vezes, aconteciam quando os professores estavam a explicar a matéria, assegura Jorge Barreira, revelando que uma emissão da Telescola era feita "por sete a oito profissionais" da RTP. Ressalva, porém, que os realizadores não eram da casa, mas "contratados pelo Ministério da Educação".

O operador de imagem conta, como curiosidade, que todo o material didático "era transportado numa carrinha, conduzida pelo senhor Alípio, que corria o país de norte a sul" para chegar a tempo e horas aos postos do Ciclo Preparatório TV. Jorge Barreira lembra-se ainda de "imensas visitas" internacionais ao Monte da Virgem. "Vinham pessoas de África, da Austrália e do Brasil, entre outros países, para conhecerem o modelo da Telescola".

Manuel Pinheiro não tem qualquer dúvida de que o ensino português à distância "foi um processo exemplar, feito com pés e cabeça. Um modelo perfeito". O último diretor recorda que a taxa de sucesso dos alunos "era muito boa, rondava os 90%", sendo mesmo "superior à do ensino direto".

Os professores, que no terreno eram apoiados por inspetores, tornaram-se caras conhecidas do público. "Como todos os dias apareciam no pequeno ecrã, causavam nos espectadores tanto impacto como têm hoje os pivôs e os jornalistas", diz à Notícias TV.

Final do ciclo depois de 2000

A Telescola passou por uma terceira fase, a partir de 1988 que foi a do Ensino Básico Mediatizado, com a gravação das lições em cassete de vídeo e posteriormente distribuídas pelos postos. "Foi ainda pela minha mão que levámos os primeiros aparelhos de TV a cores e os vídeos às escolas", conta Manuel Pinheiro, referindo que o Ciclo Preparatório TV foi extinto em 2000, ainda que "nos dois ou três anos depois tivessem funcionado algumas escolas."

Vasco Hogan Teves, de 82 anos, antigo jornalista da RTP, escreveu um livro sobre a estação pública, História da TV em Portugal 1955-1979, no qual não esqueceu a Telescola. "Não podia deixar de lado porque foi um projeto governamental, aparentemente ousado, que viria a alcançar apreciável objetivo pedagógico", sustenta à nossa revista.

Teves revela que os primeiros ensaios do que viria a ser o ensino português à distância "tiveram início em 1963, ou seja, dois anos antes do arranque das emissões no Monte da Virgem".

O antigo jornalista da estação pública refere que "foi o inspetor Baptista Martins quem se encarregou de estabelecer todos os serviços da criação da Telescola". Vasco Hogan Teves lembra-se como se tivesse sido na véspera que a primeira aula do Ciclo Preparatório TV foi de Português e a professora chamava-se Virgínia Mota. Quando fez a pesquisa para o livro, ficou a saber que a Telescola arrancou em Portugal com três mil alunos. "Muitos destes terão depois ido para o liceu ou para o ensino técnico", conta.

Maria de Almeida foi um desses casos. Concluído o 5º e o 6º anos da Telescola, prosseguiu os estudos em duas escolas, sendo que a segunda já era na zona de Lisboa. Não é professora ou veterinária, nem tão-pouco arquiteta. A paixão de escrever histórias foi mais forte...

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