A antiga hospedeira não dispensa dez cigarros por dia

"Fumei até aos 81 anos. Ia agora parar de fumar?", ri-se a cozinheira, que já sobreviveu a um cancro na bexiga. Lutadora, resiliente, divertida e afetuosa, é como a descrevem os amigos e familiares.

"Odiei Vacondeus, porque nunca tinha ouvido o nome. Durante 35 anos fui Filipa Côrte-Real e para me habituar a ser Vacondeus... Estranhei imenso o nome quando me casei", admite a cozinheira. Mas a verdade é que o novo apelido encaixou na perfeição.

A 12 de maio de 1933, nascia no bairro da Lapa, em Lisboa, no seio de uma família monárquica e católica. Frequentava colégios de freiras em pequena e até há "três anos podia ser vista na paróquia de Campo de Ourique a dar catequese aos mais pequenos", conta a sobrinha Mónica. Mas, apesar da formação rígida, Filipa Vacondeus sublinha ter sido, sempre, "uma menina rabina". "Tive muita liberdade para poder fazer as minhas escolhas, uma ótima formação, que tem dado bons resultados", diz.

Única rapariga numa família de homens, rapidamente se tornou uma maria-rapaz e a fiel companheira do pai, Filipe (proprietário de uma fábrica de ampolas), nas sessões de tiro ao alvo. "Nadava muito bem, andava a cavalo e cavalgavam todos juntos nas praias da Costa de Caparica, tinham lá uma casa ótima. E foi praticamente ela quem ajudou a família quando a empresa do pai faliu", conta o também sobrinho, Filipe, filho do único irmão da mestre da culinária, que jogava "mal" golfe, tocava guitarra, cantava entre amigos e falava espanhol, italiano, francês e inglês.

Ainda na infância, "vivia num mundo de ouro", diz a cozinheira, que cresceu rodeada por membros da família real, presença frequente em sua casa. "Não éramos ricos, mas vivia-se bem e sobretudo éramos uma família muito unida. E talvez tenha sido isso que me fez casar mais tarde, com 35 anos", explica.

Os pretendentes e a aventura na aviação

Um crack financeiro na empresa do pai, quando a ainda Filipa Côrte-Real tinha 21 anos, levou-a a "deitar a mão a qualquer coisa". Rapidamente se tornou hospedeira de bordo na TAP, onde esteve durante um ano, para horror da mãe, Alice, e fúria do pai.

Só muitos anos depois, o bichinho da culinária - com que foi contagiada pela avó - a levaria a abrir um restaurante de luxo em Alfama e a enveredar pelo mundo da TV. Enquanto a oportunidade não aparecia, era técnica de turismo na Junta de Turismo da Costa do Sol, criava a agência Tagus e era secretária de administração de uma empresa espanhola de automóveis.

Dos pretendentes e dos namoricos da época, a cozinheira recorda que "não tinham nada que ver com os de hoje". "Rapazes para o meu pai era o inferno e eu era a única rapariga", conta Filipa Vacondeus. Mas foi graças ao progenitor que conheceu o seu marido, o jornalista José Vacondeus.

"Trabalhei com o pai dela na altura em que fui perseguido pela censura. Tive de interromper a minha atividade jornalística e, por acaso, agarrei um emprego na empresa onde ele era diretor. E foi a partir daí que a conheci", conta o também fundador do Jornal O País, explicando que o amor foi surgindo. "Tive de ir em serviço ao Algarve e o pai dela pediu-me para levar a filha, porque tinha uma coisa a resolver lá em baixo. Fomos a conversar pelo caminho e foi aí que se criou aquele ambiente de expectativa. Depois ia jantar lá a casa, o pai dela gostava muito de mim. Somos casados há 49 anos", revela José Vacondeus.

Casaram-se em 1968 numa cerimónia intimista, tinha Filipa Vacondeus 35 anos. "Ela gosta muito de conversar com as pessoas, ao contrário de mim que não sou grande falador. Escrevo poesia e, às vezes, passo-lhe as mais bonitas para o computador. Acho que já escrevi algumas sobre ela, mas não me lembro. Mesmo quando não são, ela diz "Ah, isso é comigo"", desvenda o jornalista, de 84 anos.

Não tiveram filhos, "não aconteceu". "Na altura, com 35 anos seria já o limite para ter filhos. Nunca foi uma tragédia. Como sou muito católica, acho que se não veio por alguma razão foi. Mas tenho um monte de filhos à minha volta, são os filhos do meu irmão, que morreu muito cedo. São duas raparigas e dois rapazes e deram-me 11 netos", diz.

A "avó Ade" que não larga o Facebook

Após o 25 de Abril, perdeu o restaurante de luxo em Alfama, a sua grande escola de hotelaria, onde cozinhava pratos originais. E foi Maria Elisa quem a levou para a televisão. Num grande jantar, em que compareciam vários políticos, a também jornalista insistia com Filipa Vacondeus para tentar a sua sorte na TV. "E eu dizia: "Nem penses, eu nem na escola entrava nas peças das crianças como gato ou coelho. Só se puder ser igualzinha ao que sou, aí talvez seja capaz." E assim foi, experimentei, entrei e nunca mais saí", conta.

Depois dos programas de culinária na RTP, nos anos 80, chegou a ser caricaturada por Herman José em Tal e Qual, SIC. O humorista, que criou a personagem Filipa Vasconcelos, descreve a cozinheira como "lutadora, resiliente, civilizada e encantadora". Recentemente, aceitou um novo desafio no canal 24Kitchen, ao lado da jovem Filipa Gomes. "Lembro-me de estar à espera de uma "velhinha", até que de repente me aparece ela. E eu pensei: "Naaa, é muita pica para 80 anos. Devo ter visto mal a idade!"", recorda a parceira do programa À Boleia de Filipa, prosseguindo: "Tem a mania de fazer tudo mais ou menos a olho. O que tem muita graça e até é bom. Faz que cada um treine a sua mão. E não é muito de ficar parada. O verbo dela é o "ir"."

Confirmação dada pela amiga Odete Castelão. "Quando ela teve os tumores na bexiga, teve uma reincidência e foi operada. Fez o tratamento e passado dois dias já estava a cozinhar. Agora em À Boleia da Filipa apanhou uma pneumonia, esteve internada e queria logo voltar a gravar. Dizia que não podia deixar toda a gente à sua espera", recorda a amiga de longa data, revelando algumas preferências de Filipa Vacondeus: "Ela gosta de caracóis, de uma sardinhada, do jardim, onde tem roseiras, trepadeiras, mas o seu vício é fumar."

Aos 81 anos, a cozinheira fuma cerca de dez cigarros por dia e reforça: "Fumei até aqui. Ia agora parar de fumar?" O outro "vício" só poderá ser o computador. "Graças a Deus, trabalha com o Facebook e joga os jogos todos do computador", conta o afilhado e sobrinho, Filipe, um dos seus "filhos". "Foi ela que nos ensinou a jogar às cartas, a jogar mahjong e tudo o que era dados e tabuleiros", completa a irmã mais nova de Filipe, Mónica, confirmando o gosto da autodidata da culinária pelas novas tecnologias: "Fala diretamente com os netos através do chat do Facebook. Adaptou-se lindamente aos tempos modernos e dá-nos uma lição de vida."

A Ade, como é tratada pelos sobrinhos e os netos - vem de "abó, avó" - é a matriarca da família e "acha que os netos são para estragar", diz ainda o sobrinho e afilhado Filipe. "É uma pessoa muito afetuosa, apaixonada pelo que faz, adora conversar e dá sem cobrar. E tem uma característica muito gira. Deve ter um tom de voz e uma maneira de falar que cativa os miúdos porque estão sempre à sua volta. E é uma excelente contadora de histórias. Não sei como conseguiu lutar contra o cancro e uma pneumonia aos 80. É um exemplo de vida", remata.

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