«Vou dedicar a minha exposição em Versalhes às concierges portugaises»

Estudou design e joalharia, foi relações-públicas de discoteca, karateca e patinadora de supermercado. Depois construiu obras emblemáticas, como o lustre de tampões A Noiva ou os sapatos Marilyn feitos de panelas, com materiais que lembram a sua condição de mulher. Ela que vai ser a primeira a expor em Versalhes.

Com que idade decidiu que ia ser artista?

_Não decidi, aconteceu.

E aconteceu como?

_Foi acontecendo. Fiz o trajeto normal: do liceu fui para a António Arroio, da António Arroio para o Ar.Co.

Mas para ir para a António Arroio já sabia o que queria fazer.

_Sim. Foi naquela idade em que se decide, aos 14, por aí, o que se quer ser. Se para ciências, saúde ou desporto. Decidi ir para artes porque era do que gostava mais ou menos. Segui um percurso normal dentro do que se pode fazer em Portugal: sair do liceu de bairro e ir parar à António Arroio já é um princípio. Depois não entrei em

Belas-Artes, andei um ano no IADE, em Design, e entretanto fui andando no Ar.Co. Cheguei à conclusão de que a minha identidade tinha mais que ver com o Ar.Co, mais livre, com menos barreiras, menos constrangimentos. No fundo, uma escola superior.

Já tinha jeitinho para fazer coisas?

_Não tinha jeitinhos muito especiais. Gostava de fazer desenhos, brincadeiras com as mãos, mas isso é caraterístico dos miúdos.

Há uns que não têm jeito nenhum.

_Eu tinha algum, sim. Gostava de fazer coisas, mas não era «ai, que a menina é um prodígio, vê-se logo!» Há pessoas que têm uma capacidade brutal de mãos. Encontrei algumas com um jeito natural inquestionável e que foram meus colegas nas diferentes escolas. Não era o meu caso, tive de ir à procura do que queria ser.

Qual foi a sua primeira grande obra de arte? Uma daquelas lembranças do Dia do Pai ou da Mãe feitas na escola?

_A minha família tem jeito de mãos. Portanto, penso que foram guardadas algumas coisas...

Qual considerou como a sua primeira obra?

_As pessoas da música têm essa facilidade, é aquele primeiro concerto. Nós... é mais difícil. Na escola fiz peças, algumas das quais assumo como obra.

Tais como?

_Os Artifícios, que eram peças em fibra de vidro. Ou uma peça de joalharia, andei em joalharia, o Overwear . Fiz várias coisas na escola nas quais me revejo. Na altura não as considerava como obras de arte, mas agora olho para elas e têm a atitude, o trabalho, o investimento... o cunho, tudo.

E qual foi a primeira obra que fez e pensou «vai ser um sucesso, é uma coisa inovadora, vai marcar»?

_Nenhuma. Uma das coisas que mais me intriga é exatamente isso. Acreditar na obra não porque está a ser feita para as pessoas, mas porque se sente necessidade de comunicar de uma certa maneira. É sempre um espanto o facto de as pessoas aderirem ou não. É uma surpresa pensar o que fez que esta peça funcionasse e outra não, o que é que fez que tivesse tanta apetência.

Mas quando acaba uma peça não tem logo noção de que ficou gira ou diferente?

_Penso sempre isso [ risos ]! Acho o máximo, adoro, digo «uau, altamente!». Mas não obtemos sempre a mesma reação. Ou, às vezes, até é maior do que se esperava. Não se pode controlar o que as pessoas pensam. Uma coisa é o que se acha, outra é o que na verdade acontece. Vou aprendendo ao longo dos anos e tenho tido surpresas incríveis sobre o que me dizem, porque gostaram disto e não daquilo, opiniões sobre coisas que eu nunca teria pensado. Há um enriquecimento do meu saber sobre o público, sobre o mundo que me rodeia, daquilo que as pessoas percecionam e dizem da minha obra.

Chegou aos 40, é mãe, vai ser a primeira mulher a expor em Versalhes. O que lhe falta fazer?

_Muita coisa! Poder continuar o meu trabalho com a equipa que tenho. E, no fundo, que estas exposições internacionais continuem a abrir portas para outras. Gostava que o meu país tivesse mais capacidade de sustentação do meio artístico, que fosse mais forte.

Já lá vamos. Tem sempre algum objetivo com as obras e exposições ou as coisas vão acontecendo?

Vão acontecendo. Nunca tracei planos para a minha vida, quis que fosse ela a propor-me coisas. E tem-me proposto coisas fantásticas, Versalhes, Veneza, Palazzo Grassi, no verão, coisas que nunca esperaria.

Espera que aconteça?

_Trabalho para ter oportunidades, não espero. Trabalho para fazer que essas oportunidades venham ter comigo. Há tantas, tantos sítios para explorar, tantos países, tantos museus, tantas galerias, tantos projetos paralelos fantásticos que aparecem. O que mais quero é ter visibilidade suficiente para fazer parte desses projetos.

Quando não tem encomendas, cria na mesma?

_A criação não tem uma regra, não é um ato. Não há uma receita. Pode ter vários pontos de partida: uma encomenda, uma exposição, um tema de reflexão, um colecionador. Ou então nada, pura e simplesmente fazem-se peças, a ver o que acontece. Vou fazendo peças no meio de encomendas, no meio de exposições, no meio de várias coisas.

Usa aqueles objetos mais kitsch do dia a dia para inovar. Há exemplos de consumismo e da arte tradicional. Como decidiu misturar esses objetos quotidianos e tradicionais?

Pelo simples facto de que este é o território onde habito, é Portugal, é Lisboa. É aqui que estou, é aqui que tenho a minha base de inspiração. Mas não é só em Portugal, é o que Portugal tem e não tem em comparação com outros sítios. O que é que são mais-valias aqui.

Como surgiu a ideia de usar rendas, naperons , rosetas?

Não foi uma coisa intencional, não me lembrei e zás... Estava a pensar em peças têxteis e comecei a fazer coisas em tricot e crochet. Um dia, precisava de fazer uma coisa e havia uns crochets guardados, então comecei a olhar para o crochet como material e não pela função que ele cumpre na sociedade, que é de proteger e decorar. E por ser um objeto renegado pela sociedade contemporânea.

Kitsch ?

Não forçosamente, kitsch pressupõe não ter utilidade, ser uma coisa de mau gosto, apenas decorativa. O crochet não é kitsch , tinha sentido: proteger os móveis e decorar. E era a única forma de expressão de muitas mulheres que não podiam fazer mais nada. Aos olhos da sociedade, tornou-se um objeto dispensável, foleiro. Mas não o é nem foi. Hoje, não o usamos porque deixou de cumprir a sua função: a sociedade de consumo evoluiu, as mulheres já não querem ficar em casa a fazer crochet, a libertação feminina renega-o , por isso, deixou de ser útil porque somos consumidores de móveis, vai-se ao IKEA e troca-se o mobiliário. Antigamente, um casal comprava a mobília e tinha de a proteger e decorar para a manter dinâmica o resto da vida. E há ainda o lado de negação do passado que é também errado.

Como surgiu a inspiração para três das suas obras mais icónicas, o s apato Marilyn [feito de tachos], o lustre A Noiva [tampões] e Coração Independente [garfos de plástico]? Todos ligados à condição feminina...

_A Noiva e Marilyn falam da mulher contemporânea, da tradição e ligação ao passado, de como a mulher se vê no presente e no futuro, como perspetiva o futuro em relação à experiência que tem da sua família no passado. N' ANoiva há uma relação entre o vestido de noiva e o lustre, que são ambos objetos de poder, símbolos sociais: quanto maior o lustre, mais rica a família, quanto melhor o vestido de noiva, mais rica a família também. E há o discurso em que as mulheres continuam a casar de branco, apesar de já não serem virgens. Um dos símbolos da liberdade sexual da mulher é o tampão, um deles! Daí a escolha do material...

... A grande invenção do século XX, como lhe chamam as mulheres...

_Exatamente. As mulheres ganham uma liberdade sexual neste século que não havia em gerações anteriores. Faz-me confusão que tendo ganho essa liberdade ainda se continue a querer viver de paradigmas anteriores, querer ser pura, virgem...

Por isso é que decidiu casar de amarelo?

_Exatamente, porque as cores são símbolos. E não se pode querer ter símbolos sem os representar. Há uma contradição do presente que é essa relação entre o passado, a tradição e o futuro. Temos de inventar, porque não se pode ser igual ao passado, as tradições já não funcionam.

E como é que escolheu os tampões e pensou que podia criar alguma coisa a partir dali? Não são objetos muito estimulantes...

_Mas são símbolos do que estou a falar. Pensei: qual é o objeto que simboliza hoje a liberdade sexual da mulher, um objeto do quotidiano que todos conhecemos? O tampão.

São peças relacionadas todas com a condição de mulher. Já foi acusada de ser feminista...

_Falo da mulher porque sou mulher e vejo o mundo na perspetiva de mulher, não vejo o mundo na perspetiva de um homem, que não se lembraria de usar crochet ou tricot. Os homens, se a coisa for de ferro e de betão, ninguém diz que eles são machistas, mas também são! Porque veem o mundo como homens. E, portanto, quanto se olha para uma peça de Alberto Carneiro, aquilo é uma obra de homem, nunca poderia ser feita por uma mulher. A minha é obra de uma mulher, sem que isso tenha de ter muitos frufrus à volta.

Há também críticas de que, além de feminista, tem uma visão classista do contemporâneo, falando do passado e das classes mais desprotegidas...

_Gosto de usar objetos do quotidiano porque o artista ocupa um lugar muito específico na sociedade, o poder olhar, refletir, pensar livre de constrangimentos. Essa liberdade de pensamento para funcionar e produzir efeitos tem de ser compreensível. Inspiro-me no dia a dia, em objetos que toda a gente conhece, para trazer proximidade a um público que, tradicionalmente, não é o público de arte contemporânea. Mas isso não quer dizer que seja populista ou comercial. Às vezes as pessoas interpretam como menos sério o facto de usar coisas baratas e fáceis de encontrar. Não tem que ver com isso: o discurso gerado pela obra é ou não é sério. O material de que é feita só gera um discurso. A ideia de que o artista trabalha os materiais é do século xix , o artista deprimido a olhar para um bloco de cimento ou de pedra... era o artista e o material. Hoje, os materiais são todos os que quisermos, já não existe isso do artista e o material, existe o artista e as ideias.

Usa o artesanato português, desde as rendas a esta megatapeçaria que mandou fazer em Portalegre. A ideia é também mostrar Portugal ao mundo, sente-se um bocadinho embaixadora?

_Dou muito valor ao trabalho manual, ao conhecimento das técnicas, porque as uso. No caso de Versalhes, não sendo obrigatório, era quase uma imposição trabalhar com o luxo, as manufaturas do luxo. Normalmente trabalho com objetos do quotidiano, pobres, porque no meu discurso se adequam. Em Versalhes, o meu discurso tinha de ter que ver com uma interação com o espaço. Voltamos à ideia inicial: como é que vou ao passado, a uma época marcante, histórica, que se refletiu na nossa cultura, já que temos uma República de herança francesa? Naquele local houve uma mudança de paradigma na história, quero mostrar como se viveu isso, como foi importante e se refletiu até na cultura portuguesa.

Fez pesquisa?

_De repente comecei a encontrar locais como a Fundação Ricardo Espírito Santo ou as Tapeçarias de Portalegre, influenciadas pela cultura francesa e que tiveram um desenvolvimento particular em Portugal. As artes decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo foram muitas delas aprendidas por artesãos franceses, depois, foram-se desenvolvendo cá de uma maneira muito específica e hoje são técnicas portuguesas. Também as Tapeçarias de Portalegre começaram por restaurar os Gobelins e acabaram por desenvolver uma identidade. E as senhoras de Nisa: há uma tradição no Norte da Europa à volta dos feltros e dos bordados que elas, em Portugal, desenvolveram.

Quantas vezes foi a Paris para definir esta exposição em Versalhes?

_Isso é difícil. Quantas vezes fui a Paris? Não sei, nunca as contei. Algumas, várias! Temos ido e voltado a Versalhes.

Já lá tinha ido como visitante?

Sim. Em pequena, nasci em Paris, e fui depois, já jovem e adolescente, e mais tarde. Mas nunca tinha visto Versalhes desta maneira, só a via como os turistas. Expor em Versalhes é uma coisa completamente diferente, tem de se interagir com o local e criar uma relação, um discurso. O turista é apenas observador.

Como recebeu o convite?

_As coisas têm sempre uma história engraçada. Fui ver a exposição de Murakami a Versalhes e fiz um exercício que os artistas fazem habitualmente: «Se fosse eu, o que faria?» Ia dizendo «aqui punha não sei o quê, ali punha não sei o quê» e, de repente, eu e o Lúcio [do seu atelier ] apercebemo-nos de que era muito fácil a integração da minha obra naquele espaço. Versalhes sempre fez parte, de alguma maneira, da minha criação. Não Versalhes em si, mas a ideia da construção do luxo europeu, certa estética, certo gosto por alguns materiais, como o lustre, os sapatos de salto. O diretor da altura apercebeu-se disso quando me convidou. Eu tinha lá estado dois meses antes a pensar naquela exposição. Não houve surpresa, foi como a junção de uma coisa que tinha sentido como realidade, tinha dito «fazia isto facilmente», «a minha obra pertence aqui». Nunca me passaria pela cabeça ser convidada, é óbvio, mas pensei... Depois continuei a vida. E veio o convite...

Leram-lhe os pensamentos?

_Exatamente! É incrível, eles pensaram a mesma coisa que eu, que a minha obra se integrava bem no espaço de Versalhes.

Chegou a entrar em stress para escolher as peças?

_Não. É pena que não me tenham deixado levar A Noiva , porque foi a primeira peça em que tínhamos pensado desde sempre.

E porque não deixaram?

_Porque foi censurada.

Por serem tampões?

_Custa-me muito que hoje, num discurso que obviamente está ligado à mulher e à sua independência, à liberdade de expressão das mulheres, ainda tenha de se ocultar o tampão, se sinta que há locais onde isso não é correto. Significa que ainda há coisas para fazer, há muito trabalho, pelos vistos o tampão ainda é um objeto vetado na sociedade.

Quanto tempo e quantas pessoas está a envolver esta exposição de Versalhes?

_Isso é muito difícil. Na minha equipa somos trinta. Depois, se contar com os artesãos da Fundação Ricardo Espírito Santo, que tem sido fantástica, que trabalharam alucinantemente para uma peça, mais a Manufatura de Portalegre, onde sei que foram cinco mais a desenhadora, mais a senhora das cores, a diretora, a advogada, as senhoras de Nisa - umas sete ou oito - , os serralheiros que tenho a trabalhar nas peças grandes, sei lá. Devem ser umas cem pessoas.

Como vai surpreender? Já li que vai fazer um helicóptero dourado...

_Sim, de plumas. Vamos ter a Perruque, o ovo feito na Fundação [tipo ovo de Fabergé como móvel e tapado com perucas e postiços de cabelos], a Tapeçaria de Portalegre [enorme e colorida como um vitral feita com milhares de formas], na sala das batalhas, um sítio que nunca fora usado em exposições, uma grande instalação, As Valquírias ... Umas peças de tecido suspensas. Como na mitologia grega, umas deusas guerreiras que sobrevoam o campo de batalha e devolvem a vida aos mais bravos. São três muito especiais: a Royale Valquíria , feita com os tecidos de Versalhes, que arranjei exatamente iguais...

Descobriu onde os faziam, uma loja?!

_A manufatura de Versalhes continua a produzir os mesmos tecidos, para poder continuar a restaurar. Forneceram-me os tecidos e juntei-os aos de Nisa, porque a produção de feltros também era para os castelos, protegia as grandes portas e janelas. A Golden Valquíria , dourada, para a cúpula da sala das batalhas, com a qual faço alusão à folha de ouro, ao esplendor e ao barroco de Versalhes. E a Valquíria de Nisa , que é mais campestre, alentejana, e que, no fundo, faz o paralelo, uma estética mais rural. Há a rural, a royale e uma mais fashion , digamos assim, que é a dourada.

O que acha que vai causar mais impacte?

_Vai ser verdadeiramente surpreendente. Não sei! Estou muito curiosa porque as peças são muito diferentes. Os corações são fantásticos [de talheres de plástico, a imitar brincos de filigrana], vou levar o vermelho e o preto, os sapatos [de panelas]... São peças que em França não são conhecidas.

Vai expor alguma coisa no quarto da Maria Antonieta?

_A peça da Fundação Ricardo Espírito Santo. A Perruque , o título é em homenagem a Marie Antoinette, ao mobiliário e ao design de Versalhes, que se repercutiu muito no gosto português e nas nossas ligações.

Alguma peça representa a nossa grande marca em França, a emigração?

_Claro! Para já, vou dedicar a exposição às concierges portugaises , por causa de uma tansinha lá do gabinete de imprensa de Versalhes. Tínhamos mandado uns textos, mas ela achou que não estavam bem escritos e que deveria acrescentar que os sapatos eram feitos com as panelas típicas portuguesas levadas pelas concierges para França. Eles não têm panelas, coitados! Deviam cozinhar noutra cena qualquer, eram gente de outro planeta. Nós, os tansinhos de Portugal, é que levámos as panelas para França. Afinal, ainda estamos numa fase em que a concierge ainda existe. Não estava nada nessa onda, mas acaba por ter essa componente: como é que uma concierge portuguesa chega a Versalhes!

Chega calçada em panelas de saltos altos...

_Mas chega! Os franceses, a primeira frase que dizem é, «a minha concierge é portuguesa», como «vai lá para donde vieste». Vou ter um gosto especial nesta exposição por causa disso.

Como contrasta e descobre os artesãos, as bordadeiras e essa gente toda que trabalha consigo?

De várias maneiras. Vêm ter comigo porque os conheço, porque ponho no website «à procura não sei de quê», porque os vejo em feiras pelo país. Há muita mão de obra em Portugal qualificada, há gente com capacidades fantásticas. Utilizo esse savoir faire que nós temos. Andamos a discutir empreendedorismo, mas não há país no mundo que tenha mais mão-de-obra de qualidade como nós, há artesãos fantásticos!

Tem tido grandes surpresas, algum caso que a tenha marcado?

_Marcaram vários. As Tapeçarias de Portalegre são uma coisa extraordinária, a Fundação também. Mesmo as senhoras de Nisa. No outro dia estive em Peniche, os bilros são uma coisa extraordinária. Este savoir faire é mal estimado, mal gerido, mal aproveitado pelo país.

Garfos, tampões, panelas... como é que encomenda materiais?

_Faço um desenho no meu caderno. Ando sempre com o caderninho. Tenho uma ideia, desenho. Depois vou aos arquitetos e pergunto «como é que faço isto?», para ver a escala de grandeza. Eles fazem um desenho técnico. Desenhei um sapato com uns tachos, quis o tradicional tacho do arroz, 16 cm de base, e deram-me a dimensão. Eu não sabia. Não é a escala que interessa, o que interessa é a ideia, era o sapato feito de tachos. Quando a peça está desenhada, chega-se à conclusão de que são precisos trezentos e não sei quantos tachos por sapato. Vamos ver onde é que os há. Na Silampos? Então vamos contactar a empresa. E passa para a produção, que tenta saber quanto é que custa um tacho, onde é que há mais baratos. Depois entra o lado financeiro e faz-se um orçamento: para fazer esta peça são precisas não sei quantas pessoas, não sei quantos tachos, custa não sei quanto. Se tivermos o dinheiro, muito bem, fazemos. Se não tivermos, temos de procurar quem o tenha. E encontra-se o cliente ou a exposição, o que for. Encontra-se a exposição, muito bem, dão o dinheiro, faz-se a peça. Passamos finalmente à produção.

Supervisiona a produção toda?

_Supervisiono tudo.

Foi fácil encontrar aqueles garfos de plástico ou mandou fazer?

_Não!... Os primeiros encontrei-os na Makro, depois percebemos que a produção era italiana e então mandámos vir de Itália, da fábrica. Depois, quis fazer o coração preto e não havia à venda em Portugal, não utilizamos garfos pretos. Por acaso fui a Londres, à Tate, estava a comer no bar, e olho, os talheres são pretos. Descobrimos que essa empresa italiana, por encomenda, os faria. A seguir, fiz o vermelho, voltámos a encomendar. Trabalhamos com a indústria normalmente.

E os tampões? Eram OB?

_Sim, fui patrocinada pela Johnson & Johnson, não comprei.

E está a usar a Fábrica Bordalo Pinheiro?

_Sim. Utilizo a obra do Rafael sem a adulterar. Compro as peças como o Rafael as tinha feito.

Acha que tem um papel importante para não deixar morrer certo tipo de empresas tradicionais?

_Pelo menos o de mostrar que, apesar de estas coisas terem longas e fantásticas histórias e de virem de outras realidades e épocas, podem perfeitamente adaptar-se aos dias de hoje desde que os criadores tenham essa capacidade, de ir a estes locais e ajudá-los a manterem-se vivos. Claro que não podem continuar a produzir como há séculos. Têm de se dinamizar e adaptar ao presente. Mas falta ligação entre esta indústria e os criadores do presente, entre os designers e a Fundação Ricardo Espírito Santo, entre os artistas e Portalegre, entre os artistas e a Bordalo. Há poucas pontes criadas para que estes sítios não morram e a criação de hoje podia tirar partido dos artesãos e dos saberes de ontem.

Já usou tantos objetos, há algum em já tenha pensado mas não tenha conseguido utilizar?

_Não, porque não olho para eles assim. Vou à procura deles segundo uma ideia.

Como sente uma pessoa que aos 38 anos vê uma peça sua ser leiloada na Christie"s?

_Mal! Foi uma insegurança muito grande, um processo que não se controla. O colecionador põe a peça à venda, não se pode dizer que sim ou que não e não se sabe o que vai acontecer, se alguém vai gostar, se vão dar dinheiro. É uma sensação horrível. Nós agarrados à televisão a pensar «será que, será que?»... Quando foi vendida, foi um alívio muito grande.

Mas o dinheiro não é para si...

_Não, mas foi um alívio, que houvesse alguém que tivesse dado valor àquela peça. A arte tem uma componente económica forte, que determina quanto vale o quê. O que nos preocupa não é se a peça vai custar cem, duzentos ou trezentos. Na origem da criação está o pensamento, a necessidade de comunicar, não uma necessidade económica. O preço é uma coisa que vem a posteriori, com a qual não me preocupo especialmente. Mas quando se vê uma peça nossa atingir aqueles valores, há uma contradição. Por um lado, nunca me passaria pela cabeça que uma peça minha fosse vendida por aquele preço. Por outro, até achava que valia mais.

Apesar do sucesso, há quem a critique e diga que tudo não passa de uma máquina gigantesca de promoção. O que responde?

_Não percebo. Tive a exposição mais visitada desde sempre em Portugal e não tive nenhuma notícia nos jornais. Ou muito poucas.

No DN foram duas páginas!

_Mas tive pouco! Essa promoção de que fala significaria uma atitude de marketing ferrenha. E não é isso que acontece. Sou uma trabalhadora da sociedade. O que acontece de diferente é que respeito o trabalho dos outros. Normalmente, os artistas não se dão a conhecer e têm pouco contacto com a imprensa, com os meios de comunicação. Eu respeito muito os meios de comunicação. Quando um jornalista me procura e quer tirar uma fotografia, trabalho para que ele possa fazer o seu trabalho o melhor possível, o que não é muito comum na classe. Os meios de comunicação perceberam que estava aberta a comunicar e comunicam comigo com muito gosto.

O facto de ter tido essa exposição mais visitada de sempre, quase duzentas mil pessoas, deu-lhe ainda maior responsabilidade?

_Não, porque fazer uma exposição aberta ao público como aquela já é uma grande responsabilidade em si, tendo duzentos mil visitantes ou cem. Quando se expõe a obra de uma forma pública, a responsabilidade é no princípio não é no fim. Quando se aceita uma exposição dessas, como esta de Versalhes, já se está a aceitar essa responsabilidade. E, ou se tem muita noção dela e muito respeito por essa responsabilidade que nos é dada, ou vai correr muito mal.

Há um papel importante de Joe Berardo na sua carreira?

_Há, num certo sentido. A coleção Berardo é fundamental para o desenvolvimento da cultura portuguesa, é uma das coleções mais importantes e, portanto, fazer parte dela já é, em si, uma mais-valia. Depois, aconteceu que com a direção do comendador no CCB, implementou-se um concurso que ganhei e que foi uma grande ajuda monetária para desenvolver o meu trabalho. A oportunidade que me foi dada de expor a minha obra foi ótima ajuda para a projeção internacional. Logo, só tenho de agradecer.

Fala com ele habitualmente?

_Não muito. Conheço-o, o comendador é uma pessoal realmente fascinante, só tenho de agradecer a sua coragem. Ao longo de tantos anos, tantos séculos de história, nunca houve de um privado a atitude perante a cultura que o comendador teve com esta mesma generosidade pública. Há boas coleções, mas nunca são dadas ao público com a mesma generosidade com que ele o fez.

Como é que está o apoio aos artistas em Portugal?

_Está mal, muito fraco. E se não se faz qualquer coisa rapidamente... O tecido artístico é mais fraco, não no sentido daquilo que projeta mas no sentido da fragilidade social. Nestas épocas de crise é preciso dar mais importância às pescas e à agricultura e não aos artistas. E muitos artistas têm de ir fazer outras coisas, porque não conseguem sobreviver.

Conhece casos desses?

_Conheço vários, de pessoas que vão dar aulas, desistem, fecham os ateliers . Quando se der por ela, já não há meio artístico.

Tem chamado a atenção nos meios próprios para isso, aos quais tem acesso?

_Sim. É fundamental criar, à imagem da nossa época e do nosso tempo, estruturas que autossustentáveis, não voltar ao paradigma de que o Estado é responsável e de tem de apoiar as artes. As artes, se lhes forem dados os meios, podem perfeitamente ser autossuficientes.

Que meios?

_Estruturas, espaços para trabalhar. Aos artistas basta dar-se um mínimo de condições. O artista é um sobrevivente, um pensador, um criador, por isso, tem dinâmica empreendedora. Dando bases, estruturas, ateliers , locais para escolas de dança, para teatro, avança-se. Mas o artista está sempre num local precário, numa situação de transição, nunca tem estabilidade suficiente para desenvolver bem a sua arte e para que se torne rentável. Uma boa escola de dança dará frutos se estiver num bom sítio, com luz, com condições, em que os miúdos possam aprender. Isso depois, mais tarde, traz economia, traz dividendos, porque cria espetáculos, cria públicos, porque cria mais-valias económicas. Não criando essas bases, nunca se poderá desenvolver economicamente as artes.

Está a falar também de formação?

_Sim. Quando se sai da escola, e temos imensas escolas de artes a todos os níveis e de todos os universos, há um vazio total, uma total impossibilidade de integração na sociedade do artista, não há nada para eles continuarem a trabalhar. Se não tiveres essas estruturas, eles não podem continuar. E se essas estruturas não tiverem uma área de formação... No outro dia, ouvia uma história de uma escola de rock que era fantástica, porque não? Mas onde é que se metia a escola de rock ? Todas as cidades, em todas as épocas, criaram polos culturais. Em Belém, quando foi construído o Padrão dos Descobrimentos, criou-se uma série de ateliers . Houve os Coruchéus, uma época mais tarde.

O que é que está a acontecer?

A sociedade de hoje não está a conseguir providenciar equipamento público para que os artistas possam continuar a criar. E não estou a falar dos pintores, mas da escola de rock , bailarinos, teatro, vídeos. Não há nada! Esta época, o presente, ainda não entendeu que é preciso produzir equipamentos para que as pessoas possam continuar a criar. Não é dar financiamentos, não é dar bolsas trinta vezes! É ajudar as pessoas a serem autossustentáveis!

Que apoios recebe ou recebeu?

_Poucos. Por isso falo de uma coisa com conhecimento de causa. Comecei por, com a ajuda da Câmara de Lisboa, um pequeno atelier no bairro da Boavista, foi o primeiro. Mas era num quinto andar sem elevador. Tive o apoio da Fundição de Oeiras, estive cinco anos lá e foi fantástico, porque era uma época em que tinha menos capacidade económica. Ter o espaço foi fundamental para desenvolver as minhas peças, vendê-las e ter dinheiro para depois vir para aqui. E agora tive o apoio da APL, que foi fundamental para ter este espaço onde estou agora, não teria como o pagar e se não fosse assim e sem ele nunca poderia ter desenvolvido a minha arte como o fiz. Dando meios, as pessoas podem desenvolver-se economicamente. sem meios é impossível.

Como é que no início montava as suas grandes estruturas em pequenos espaços?

_Não montava! Tinha de as montar nas exposições. Quando lá chegava, muitas vezes, as coisas não batiam certo. Fiz lá o lustre dos tampões, por exemplo. Depois cheguei a Cascais, ao sítio, e estava grande de mais. É impossível ir para sítios com coisas sem se ter experimentado antes.

Agora já consegue viver financeiramente das suas obras, das peças que vende?

_Sim, sim.

E vive bem ou mal?

_Vivo bem.

Já tem um negócio rentável?

_Sim, tenho uma empresa que dá lucro todos os anos.

Consegue vender todas as peças?

_Não. Isso também não é assim, não existe venda de todas as peças, nunca existiu. Há sempre coisas que são vendidas mais depressa do que esperavas, coisas que não são vendidas e se esperava vender.

Os primeiros materiais que comprou, os espanadores, o seu pai emprestou-lhe dinheiro?

_Sim. Estava na escola e, de repente... Acho que os pais quando têm filhos artistas são muito corajosos e agradeço a todos os que deixam os filhos serem artistas. É preciso coragem e um incentivo por parte das famílias para não castrar essa veia, para não criar aquela imagem «coitadinho, nunca vai conseguir, que desastre, ele é artista, vai viver do quê?». Nunca há uma perspetiva económica sobre as artes e as pessoas acham que as artes não são lucrativas. Não é bem assim. Se forem bem apoiadas e bem estimuladas, podem ser uma área de trabalho exatamente como as outras. Melhor, pior, mas há muita gente que vive do meio artístico. A descrença, muitas vezes familiar, em relação às artes dá cabo de muitos artistas.

Devolveu o dinheiro ao seu pai?

_Devolvi! Quando vendi a peça. E isso foi muito importante. Quando uma pessoa decide gastar dinheiro a fazer uma coisa inesperada, ou acredita no projeto e acha que é verdadeiramente relevante fazer aquele objeto ou não! Tem de acreditar no poder que aquele objeto vai ter e que um dia seja vendido. Foi esse o negócio que fiz com o meu pai.

A quantas pessoas dá emprego permanente?

_Cerca de trinta. Normalmente somos 25, agora temos mais, só para Versalhes. Tenho pessoas de história de arte, arquitetos, engenheiros...

Há algum momento que considere ter sido o grande arranque da sua carreira? Foi o lustre na bienal de Veneza que a projetou internacionalmente?

Como em todas as profissões, há poucas coisas que mudam o rumo das coisas. As profissões são mais ou menos uma coisa escalonada, têm uma lógica. A dos artistas é fazer parte de uma galeria, fazer exposições, andar pelos museus. Há eventos, que sabemos quais são, que podem mudar a nossa dimensão, a forma como se é visto internacionalmente. Um deles é a bienal de Veneza. Quando lá fui dei tudo por tudo para que a minha vida mudasse. Só que cheguei lá e percebi que sabia muito pouco do que era ser artista internacional. Mas tive a perfeita perceção de era um desses momentos que é preciso aproveitar. A vida já me ofereceu algumas dessas oportunidades, nomeadamente agora com Versalhes, ou no verão passado com o Palazzo Grassi.

Já expôs em 14, 15 países... Algum convite mais surpreendente?

_Todos os países têm, em termos culturais, qualquer beleza de que não se está à espera. Há um abrir de horizontes, perspetivar o mundo de outra forma. Nunca pensaria em expor na Coreia do Sul ou na África do Sul.

Qual foi a encomenda mais extraordinária que recebeu?

Foi na semana passada. Os pescadores da Afurada pediram-me para fazer o andor do São Pedro. E está ali, é aquele barco. Vou ter de fazer uma transformação. Nunca pensaria que os pescadores da Afurada soubessem quem sou, mas tiveram a generosidade e a abertura de deixar um artista plástico participar numa procissão e numa crença muito particular, especial. No meio desta exposição de Versalhes, ser convidado foi tão inesperado que me apareceu logo a ideia de fazer uma rede ligada ao andor e que cobre as pessoas que vão à volta. É uma rede dourada, com um lado celestial que envolve aqueles que vão ao lado do santo, os pescadores.

Qual foi a encomenda que mais lhe custou cumprir?

_A mais extraordinária, não em termos de dificuldades mas de esforço humano, foi a A Varina , para a Ponte Luís I. Envolveu 1500 pessoas muito especiais, muitas delas mulheres de uma certa condição social, com vidas difíceis e que, com uma generosidade imensa, trabalharam mais de seis meses para que se pudesse fazer aquele objeto verdadeiramente extraordinário que esteve exposto uma semana na ponte. Nunca mais voltarei a fazer uma coisa daquelas. Foi muito envolvente em termos humanos. Depois, a mais difícil foi a Torre de Belém, em termos concetuais, porque levantou tantos senãos históricos, monumentos, país, identidades, os contra, os a favor. Foi tal de maneira complexo que chegar a fazer a instalação, que era relativamente simples em termos de materiais, levou a minha equipa quase ao esgotamento.

Já teve peças recusadas?

_Já! A Noiva ! Não só agora em Versalhes! Já foi recusada várias vezes. Tem o condão de ficar noiva [ risos ] .

E já se recusou a expor em algum sítio?

_Às vezes, por questões técnicas. De não poderem entrar ou de o local não ser o ideal, já aconteceu.

Já mandou alguma obra para o lixo?

_O primeiro sapato que fiz ficou de tal maneira deteriorado numa exposição que já não havia recuperação possível, tivemos de o destruir. Já estava todo ferrugento, apanhou salitre, foi horrível. Ter de destruir uma peça é uma coisa horrível. Tirando essa, não.

Estudou design , joalharia, foi relações-públicas de uma discoteca, distribuiu brindes a andar de patins num supermercado... Há um bocadinho de cada uma destas coisas na sua arte?

_Com certeza, porque sou essas coisas todas, ou fui. Tudo isso faz parte do processo pessoal de vida. Ganhar dinheiro, sobreviver, trabalhar com os outros, fazer parte do mundo real, parte da sociedade.

Porquê relações-públicas de uma discoteca?

_Era relações-públicas, chefe de segurança, um mix . Na altura a discoteca Lux ia abrir e o dono, o Manuel Reis, achou que tinha as características certas. Lá me adaptei, precisava de ganhar dinheiro, de andar com a minha vida para a frente. Tanto o Lux como os patins no Continente foram uma grande escola de vida. Aprendi muitas coisas em ambos os sítios, são experiências muito marcantes, é o sair da casca e ir ganhar a vida.

Nunca teve medo de acabar a sua vida como caixa de supermercado?

_Não, porque ser artista é a profissão mais difícil do mundo. Depois desta, pode-se fazer qualquer outra. E como não é garantida...

Andar de patins e ser karateca, ainda faz essas coisas?

_Tive um acidente no karate [no joelho] e tenho muita pena de não poder continuar. Pode ser que para o ano consiga voltar. Andar de patins, ando quando posso, aqui atrás. Tenho os patins no armário [ risos ].

O seu avô trabalhava em antiquários, a sua bisavó dava aulas de piano, a sua avó era pintora, o seu pai é repórter fotográfico. É de uma família de artistas?

_De alguma maneira, sim. Mais do que bons com as mãos, eram bons com a cabeça, porque nunca puseram entraves nem criaram uma política de terror em relação às artes. As artes, na minha família, não eram vistas como o papão negro, aquela profissão que é melhor não escolher. Senti isso à volta de muitas outras famílias de colegas meus. Castravam as pessoas. Na minha família ser artista não era especial, era apenas mais um. O meu avô tinha uma frase extraordinária: leva muitas gerações para uma família produzir um artista.

Quem mais da sua família a influenciou?

Todos eles, de maneiras diferentes. A minha mãe andou na Fundação Ricardo Espírito Santo, o que me permitiu voltar lá. A minha tia é doutorada em Literatura e é uma pessoa das letras com um sentido poético fantástico. O meu pai é fotógrafo, aprendi a olhar através da fotografia. No desenho aprendi também a exprimir-me, na joalharia aprendi as técnicas, no karate aprendi a dedicação e a devoção que se aprende na alta competição, a trabalhar em grupo, que não se aprende na escola.

Nasceu em 1971 em França e veio para Portugal já na fase da Revolução. Que memórias guarda da sua infância?

_Não muitas, porque era muito pequenina. Mas guardo uma coisa fundamental que é a língua. Sou totalmente bilingue. E isso é uma vantagem.

Como é que foi a sua infância?

_Normal, a viver num subúrbio de Lisboa, em Linda-a-Velha. Num bairro ótimo, ao lado do Estádio Nacional, onde podia brincar, andar de bicicleta.

Trabalha com o seu marido. A vossa relação profissional e pessoal sai fortalecida?

_Sim, porque os artistas não se encontram a não ser em exposições e mesmo aí... Há uma falta do outro, do espelho, de ter outra pessoa com quem conversar. E essa outra pessoa é o meu marido. Conhecemo-nos na António Arroio. Ele estudou Arquitetura e eu Artes. Apesar de termos ido para áreas diferentes, fomos sempre acompanhando o desenvolvimento de um do outro, o que nos permite comunicar não só a nível artístico como pessoal. Porque isto não é uma profissão, é uma vida. É vida e obra, não se distingue uma da outra.

Diz-se que há inimizades, rivalidade entre artistas. É mesmo assim?

_É, é. É pior. Por causa, lá está, do isolamento. Aquela minha ideia da cidade artística era para acabar com esse estigma. Os artistas estão fechados nos seus ateliers , só se encontram nos momentos de exposição ou de feiras, que são momentos de tensão. Os artistas conhecem-se pouco entre si. Há muita inveja, ódio, é uma coisa superviolenta. Ao longo do tempo vai-se sentindo isto e aquilo.

Já fez alguma obra de arte para a sua filha, algum brinquedo?

_Já fiz algumas coisas... Antes até de ela nascer pensava «vou fazer esta coisa para a Alicinha quando ela crescer». Toda esta obra é para ela, um dia. E fiz uma peça muito engraçada que se chama Valkitty , a partir de uma Hello Kitty. Mas mais do que o brinquedo ou obra de arte, aquilo que posso dar à minha filha é a liberdade de ela poder escolher um dia fazer o que ela quiser. E essa liberdade foi aquela que me foi dada a mim.

PERGUNTAS DE ALGIBEIRA

Uma cena de filme que a tenha marcado?

Tantas! Os All Star na Marie Antoinette.

Uma música para namorar?

Strangers in the Night .

O que é que ainda vê na televisão?

O telejornal e séries da Fox. Gosto daquelas que não demoram muito tempo.

Quanto tempo passa por dia a ler jornais?

Aqui há um hábito, no atelier, à hora de almoço, andam sempre por aí uns jornais que vão passando de mão em mão. Passo os olhos pelos jornais que aparecem aqui à hora de almoço. Não os compro, só ao fim de semana.

De quanto em quanto tempo vai ver o mail ?

Tento ir todos os dias.

A última vez que chorou?

Choro de cansaço, às vezes.

Um país que lhe falte visitar?

Muitos! A China e a Índia são os países que gostava de visitar mais proximamente.

Um sítio para passar a reforma?

Aqui onde estou, exatamente. Se é que existe esse conceito de reforma.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG