Viver e morrer intensamente

Dois jovens com cancro conhecem-se, apaixonam-se e vivem intensamente. Contra a morte. A Culpa é das Estrelas é o mais recente livro do premiado autor norte-americano John Green, criador de uma comunidade com milhões de seguidores nas redes sociais. O livro será lançado amanhã em Portugal.

Demorou quase dez anos a escrever A Culpa é das Estrelas. Porquê?

_Comecei a escrever o livro quando acabei o meu trabalho como estudante capelão num hospital pediátrico. Foi um trabalho difícil e triste, passei muito tempo com crianças que estavam a morrer e com as suas famílias. Nos primeiros anos em que tentei escrever a história, saía-me demasiado sentimental, lamechas. Tudo o que não queria que fosse. Queria que fosse divertido, vibrante e cheio de aventura, como a vida, mas estava tão zangado com o que tinha testemunhado que não conseguia escrever uma história autêntica. Só quando conheci uma adolescente, que era minha leitora, chamada Esther Earl, é que desbloqueei. A Esther lembrou-me como os jovens doentes podem ser empáticos, atenciosos e divertidos e isso foi a chave para ser capaz de escrever o livro. (A Esther morreu em 2010 e por isso não chegou a ler A Culpa é das Estrelas, mas não teria existido sem ela.)

Foi dessa experiência de trabalho no hospital pediátrico que retirou a matéria-prima e a inspiração para escrever o livro?

_Sim, porque os jovens que conheci lá - até os muito doentes - eram miúdos cheios de vida, sentido de humor e ironia. Não eram como os adolescentes sobre os quais lia nos livros sobre cancro, aquelas criaturas de olhos tristes que tinham uma sabedoria muito maior do que o normal para a sua idade. As pessoas que conheci eram humanas, no melhor e no pior sentido da palavra, e mesmo quando estavam a morrer, continuavam muito vivas. Foi isso que quis agarrar.

Em que sentido?

_Queria explorar esta questão: uma vida curta pode ainda assim ser uma vida cheia. Quis muito escrever a partir da perspetiva da Hazel e colar-me a ela para não deixar margem ao leitor de se sentir distante. Se não estivesse a escrever sobre e para adolescentes, se calhar não teria sido tão obsessivo com a necessidade de criação deste sentimento de intimidade.

E porquê o cancro?

_O cancro é a doença que nos assombra e aterroriza. A nossa relação com ele é semelhante à que existia com a tuberculose no século xix. O cancro é uma doença que afeta indiscriminadamente jovens e velhos. Às vezes mata; às vezes não. É imprevisível. É caprichoso. E por ser tão abrangente é o símbolo da aparente absoluta indiferença do universo em relação a nós.

Uma das coisas interessantes no seu livro é a inteligência e o sentido de humor com que aqueles dois miúdos - a Hazel e o Augustus - lidam com a morte (e o amor). Isto tem que ver com a sua própria forma de os encarar?

_Muito mais do que os meus sentimentos em relação à vida e à morte, o determinante foi ter testemunhado como os jovens viviam com doenças terminais. Demasiadas vezes imaginamos quem está a morrer como alguém que existe apenas para nos dar lições sobre como viver uma vida com significado ou qualquer coisa do género. Mas isto desumaniza. E é ridículo, claro. As pessoas doentes são tão humanas e divertidas e zangadas e com mau feitio e amorosas e complicadas e carentes como as saudáveis. O que tentei foi transmitir a complexidade e desafio emocional de quem vive com doenças crónicas. Quis que o livro fosse divertido e sobretudo retirar-lhe qualquer tipo de sentimentalismo. Não há lugar no mundo para os coitadinhos. Como diz a Hazel Grace: «A piedade não é reconfortante.»

A luta de Augustus, mais do que uma luta pela vida, é uma luta contra o esquecimento. Ser lembrado é, neste caso, a única forma de lutar pela vida?

_Penso que muitos de nós querem deixar uma marca da sua passagem pelo mundo, mas isso também pode ter um lado negativo: da forma como Augustus o encara, essas marcas são muitas vezes cicatrizes. O que me interessou foi perceber como dois jovens enfrentam a morte e pensam sobre o significado das suas vidas enquanto cá estão.

Hazel Grace é a «sua» personagem. Como foi pôr-se na pele de uma miúda de 16 anos, com um cancro em estado terminal?

-Senti-me muito ligado à Hazel desde que comecei a escrever a partir da sua perspetiva. A voz dela soou-me muito clara e nunca tive dificuldade em «acompanhá-la». A grande alegria de escrever o livro foi poder viver com a Hazel. Apaixonei-me mesmo por ela e, espero, isso sente-se no livro.

Como é o seu processo criativo?

_Não sou, nem de perto nem de longe, tão organizado e prolífico como gostaria de ser. Tento escrever todos os dias, mas nem sempre sou bem sucedido. Gasto cerca de um ano a escrever um primeiro rascunho, mas depois apago a maior parte quando começo a revisão. Cada um dos meus livros, e este é o sexto, passa por uma série de rascunhos, o que não é muito eficaz, mas rever dá-me imenso prazer. Acho que deve ser por isso que cada livro me leva uns anos a escrever.

Também faz vídeos com o seu irmão Hank no YouTube e tem milhões de seguidores em todo o mundo na comunidade nerdfighter. O que vem a ser isso, afinal?

_Um nerdfighter é alguém que, em vez de ser feito de ossos, órgãos e assim, é na verdade feito de curiosidade. Os nerdfighters estão ligados por uma crença comum de que é importante perceber o mundo e as outras pessoas. Não lutam contra os nerds [termo normalmente usado como depreciativo e que poderia traduzir-se por «totós» ou «bananas»], são antes nerds que lutam pela intelectualidade e a cultura nerd. A comunidade nerdfighter cresceu em torno dos vídeos que eu e o meu irmão Hank fazemos no YouTube, um para o outro há mais de cinco anos e meio. Somos os dois nerds e à medida que aumentava o número de pessoas que viam os nossos vídeos, quisemos usá-los como plataforma para celebrar a «nerdice» e o compromisso intelectual para com o mundo. O nosso desejo é que esta comunidade possa levar as pessoas - especialmente os jovens - a usar as ferramentas da internet não só para mero entretenimento, mas sobretudo para tornar o mundo um lugar melhor, através da reflexão e da filantropia.

É casado e tem um filho pequeno. A paternidade influenciou a sua escrita?

_Penso que não teria podido escrito este livro se não tivesse sido pai. O Henry ensinou-me a verdadeira natureza do amor entre pais e filhos: o amor de pai é verdadeira e completamente incondicional. Enquanto um de nós for vivo, eu serei o pai do Henry e ele será o meu filho. Perceber isso tornou possível para mim imaginar a relação entre a Hazel e os seus pais.

Estava à espera de todo o sucesso e excelentes críticas que A Culpa é das Estrelasrecebeu?

_Não, nunca imaginei que sete meses depois da sua publicação, o livro continuasse na lista do New York Times ou que tantos críticos, aqui nos EUA e no mundo todo, escrevessem tão generosamente sobre ele. Tem sido uma experiência muito gratificante e arrebatadora. Estou muito contente que este livro tenha ido ao encontro de tantos leitores e que a maioria goste. Isso é o mais importante para mim.

Amanhã o seu livro será lançado em Portugal. Como é vê-lo atravessar o oceano?

_Nunca estive em Portugal, mas o meu livro conseguiu viajar até aí. Isso é espantoso. Espero poder segui-lo e visitar o vosso país brevemente. Este livro é muito especial para mim e pensei que seria difícil separar-me dele, mas na verdade sinto-me muito feliz e privilegiado. Esta foi a história à qual dediquei a última década e é gratificante encontrar para ela tantos leitores. Mas quero continuar a escrever. Fico mais feliz quando o faço. Sou um tímido. O meu conceito de um dia perfeito é sentar-me sozinho na minha cave a escrever uma história durante dez a 12 horas por dia. Gosto muito dos outros trabalhos que faço, mas escrever é o que me dá mais prazer.

A culpa é das estrelas

Aos 35 anos, John Green é uma estrela nos EUA. Com o irmão Hank fundou o Vlogbrothers, onde disponibiliza vídeos com milhões de seguidores em todo o mundo e que está na base da bem humorada comunidade nerdfighter. Mas escrever é o seu ofício de eleição e tem vários livros na lista de best-sellers do New York Times. Como este A Culpa é das Estrelas.

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